A inclusão da família em nossa reliadade

Por Ele

Passaram-se 10 ou 11 anos para que meu pai pudesse entender com mais tranquilidade as questões que pairavam em sua mente quanto a minha homossexualidade. A gente pode pensar: “puxa vida, todo esse tempo?”. Pois é, realmente levou-se uma década para ele entender, em seu ritmo, tudo isso de ter um filho gay.

Como filho, frequentando a família, a casa dos meus pais em almoços e encontros, o fato de ser gay nunca foi algum tipo de ameaça. Como não aparento (e a amiga Ela pode confirmar), meu pai nunca se sentiu desconfortável. Nosso problemas foram outros e que – muito bem – resolvemos todos há dois anos atrás. Assim, posso dizer com satisfação que minhas questões com meu pai (normalmente há questões ou com a mãe ou com o pai) se resolveram em 2011, quando conseguimos entender que eu não era mais o “jovem porra louca” como ele me intitulava e ele não precisava ser “o super pai ideal” como eu queria.

A questão que faltava é que, diante de um namorado ou de um amigo aparentemente gay, ele sempre lembraria que eu – seu filho – também compartilhava das mesmas vontades homossexuais. Pois a bem da verdade é essa: muitos pais, mesmo dos filhos assumidos, tentam esquecer o máximo possível que o filho é gay, enquanto não o aceita, ou não assume a ideia. Natural, assim, meu pai lembrar que eu era gay somente nessas circunstâncias, querendo projetar “um filho gay porém assexuado”.

Uma década se passou desde o dia que sentei na mesa da cozinha e tivemos a famigerada conversa, cara-a-cara, preto no branco e sem a possibilidade de ser diferente. De lá pra cá, como pai e filho não havíamos problemas (a exceção das questões dos ideais comportamentais que tínhamos um pelo outro). Mas seu filho como um ser social gay, que namoraria um homem, a ele era um motivo para desgosto. Tanto era que eu havia assumido a mim mesmo que não teria para quê muda-lo. O importante era poupá-lo e respeitar incondicionalmente seus limites. Trazer um namorado para a realidade familiar, quando na presença dele, era algo que não se realizaria. Assim se fez e consegui tranquilamente criar uma zona de conforto nessa situação. Soube muito bem administrar.

10 anos nesse modelo e, aos poucos, respeitando sua zona de segurança, não havia como – raras vezes – trazer o assunto ou nos pegar em situação que o encontro com meu namorado seria inevitável. Mãe, irmão e futura cunhada, totalmente abertos para essa possibilidade, acabavam criando ocasiões de reunião que colocavam meu pai a questionar se iria ou não. Recusou dezenas e das vezes que recusou não tinha porque me chatear ou forçar o contrário. Meu namorado as vezes se incomodava, as vezes não, já que do lado dele tive uma forte abertura. Está certo que boa parte dessa abertura eu dei um bom “empurrão”, mas isso é somente detalhe.

Eis que nas últimas semanas aconteceu um “click” por parte do meu velho. Na realidade o tal “click”, pela primeira vez, ocorrera no final de 2012, já próximo do Natal. Resolvi fazer um jantar em casa, quando meu irmão e sua futura esposa – que moram no Rio – estavam em São Paulo. Levei o convite a todos, incluindo meu pai. Meio sim, meio não, meio a contra gosto, meu pai veio para a reunião familiar sob meu teto na presença de meu namorado. Ficou evidente o desconforto por parte do meu pai, daquela situação de não saber para onde olhar, o que dizer e como agir. A mim, natural não saber para onde olhar, o que dizer e para onde agir: pela inédita primeira vez ele estava enfrentando seus monstros e fantasias, embora já tivesse conhecido outrora meu namorado sem que eu anunciasse como tal.

Depois desse primeiro “choque”, houve um segundo no começo de 2013, muito mais natural, quando minha futura cunhada convidara a todos para um almoço na casa de seu pai. Uma certa palidez no ar, mas fui firme em respeitar a tal turbidez.

E, de uma maneira totalmente inédita a mim, sem a necessidade de me auto-afirmar, dessas duas primeiras vezes deixei acontecer sem expectativas sobre ninguém. Literalmente fingi que nada estava acontecendo além de um simples encontro de família. Foco nas pessoas e não nas sexualidades.

Assim, nessas últimas semanas, meu pai chegou a pronunciar o nome do meu namorado, numa sugestão de encontro familiar. Confesso que na hora me passou batido ou, talvez, foi tão inesperado e fora das minhas expectativas que eu preferi desconversar! Até chegar o final de semana e reunirmos toda a família no sábado e no domingo. Tudo junto e misturado, um casal gay em meio a um grupo de heterossexuais.

Uma mistura inicial de absoluta estranheza com orgulho. Orgulho por fazer valer uma década de construção da inclusão, do compreendimento e do respeito às diferenças. Plenitude, minha gente. Estranheza por estar totalmente conformado com os limites colocados pelo meu pai e que – de repente – ele mesmo resolveu transformar. E não avisou ninguém! O velho fará 72 anos esse ano e eu preciso tirar o chapéu. Não somente a ele por todas as circunstâncias, contextos e realidades que jogou no lixo para me incluir, mas – humildemente – a mim mesmo que aprendi a respeitá-lo quase que incondicionalmente. Tivemos um tipo de “vitória” fazendo bom uso da paciência.

Somos plenos um ao outro agora.

Por Ela

Fantástico, amigo Ele! Sabendo um pouquinho da sua trajetória, sei o quanto esse momento é importante e simbólico pra você, e fico muito feliz que você tenha quebrado mais essa barreira.

Rumo à aceitação total!

Eu percebo que o preconceito de maneira bem geral está no desconhecido e consequente generalização. Se fulano não sabe nada sobre a cultura mulçumana, por exemplo, pode achar que todos são perigosos explosivos fundamentalistas.

Eu mesma sem ter nenhum contato mais estreito com eles e consumindo apenas o que a mídia me traz, só consigo sentir pena das mulheres passeando com seus filhos e burcas, sempre um passo atrás dos maridos. Nada sei sobre suas crenças, seus valores e, pior: me assusta muito ver burcas passeando pelo meu mundo ocidental!

Nem sequer quero ver algo que de uma forma meio torta me soa como ameaça. Vejam se não é um clássico do preconceito!

Esse almoço com seu pai, caro Ele, representa o início do fim da estranheza. Tenho certeza que seu pai fez um esforço colossal para superar os próprios fantasmas só pra estar mais perto de você. E tiro meu chapéu!

E tenho certeza que vendo que você e o respectivo se portam como quaisquer outras pessoas adultas, exorcisou muitas das assombrações que em algum plano afastavam vocês. Imagino que ele agora esteja desconstruindo a imagem gay que tem na cabeça, dando espaço para outras possibilidades.

O que muito hetero não entende é que sapatões, gays, trans… somos seres humanos mais profundos que uma imagem, com todas as idiossincrasias, questões e sonhos como eles também tem. E é justamente isso o que precisa ser mostrado à eles.

Sem questionar o papel da parada ou da televisão nisso tudo, só mesmo nós assim de pertinho no almoço de domingo podemos mostrar pra quem nos cerca que nem tudo é purpurina 🙂

A aceitação plena não é uma mágica, mas um processo. Uma transformação pessoal, resultado da capacidade de questionar as próprias certezas e se permitir conclusões diferentes do que no passado.

Esse processo não é só nosso, entendo que os heteros tem que passar por isso também para uma aceitação realmente plena.

Olhando a questão gay ao longo do tempo, acredito que a sociedade superará os preconceitos. Alguns mais rápido que outros, mas um dia será tão corriqueiro ver casais gays nas ruas, no trabalho, na televisão, na convivência íntima do lar, que as bobagens que hoje são argumentos de preconceito causarão boas risadas em todos.

Parabéns Ele, por mais esse passo!! Rumo à aceitação total!

Plano de vida. Quem pensa nisso hoje em dia?

Por Ele

CARPE DIEM e talvez essa seja a máxima nos dias de hoje. Mas depois que se amadurece é melhor ainda. Explico por que:

Tenho um tipo de culto pelas Gerações Millenials e Plurals. Talvez pelo fato de lidar com profissionais jovens, de 18, 19 ou 22 anos e ser constantemente bombardeado pelas suas dinâmicas e percepções de mundo. Meu sócio tem 28 e eu, com 36, levo a frente da minha microempresa desde meus 23 anos. A vida de autonomia começou muito cedo para mim e lido com bastante gente que está relativamente há pouco tempo nessa Terra (18 anos é um espirro). Incrível é perceber que essas novas gerações, principalmente os tais de Plurals, que nasceram a partir de 1995, carregam uma vontade muito forte de “virar gente grande” logo, ter a autonomia financeira e voz para conduzir seu próprios feitos. Gosto muito de tudo isso muito provavelmente por me ajudar a manter acesa o mesmo tipo de fagulha que me ilumina desde meus 23 anos. E que bom, QUE BOM MESMO, que existem jovens de 18 anos muito mais antenados do que eu, quando tinha a mesma idade.

A minha realidade homossexual e as questões que envolvem minha sexualidade não é assunto faz um bom tempo. Tampouco ter que viver o nano universo gay de São Paulo para me auto afirmar uma vez por semana sobre as vontades das minhas gayzices, de ver e ser visto. Graças ao bom Deus e uma necessidade pessoal de mudar dessa rota, me fiz focar em questões menos existenciais, egóicas ou auto afirmativas. Passei disso e a luz brilha em outros aspectos. Posso definitivamente tocar meu “plano de vida”, palavrinha estranha, digna de folhetos de planos de previdência, mas que – na prática – diz respeito a usar seus esforços e o fruto desses esforços para assuntos mais estruturais.

Assuntos estruturais são básicos mas nem todos se dão conta: sabe-se o tempo que se leva para comprar um carro? Como tenho que fazer para comprar uma casa? E se der aquela vontade súbita de viajar para o exterior e precisar de um dinheiro na hora para realizar sem insegurança? Quero mudar totalmente meu guarda-roupa e não quero sofrer para fazer o 360 graus no armário. Isso, a mim, são assuntos de autonomia. Paitrocínio é cruel depois de uma idade e não cabe de maneira nenhuma no contexto desse post de hoje.

Apesar de ser alguns anos, não faz muito tempo que o assunto era a minha homossexualidade e todo o micro universo que rodeava esse tema. Precisava comparecer na balada, morria de medo de abismos sociais, precisava contabilizar amigos, ir a restaurantes no Jardins e na Vila Madalena e o “problema” disso tudo era que a minha vida era tão norteada sob a minha sexualidade que não sobrava tempo para me dar conta que o “viver o hoje” sai caro e só nos garante um prazer imediato, como uma droga. Alto lá que não estou negando que curtir a vida não seja humanamente necessário! Curto, mas diferente: “quero ir para NY e gastar 10 mil reais em compras”. Planejarei e farei. “Depois, ainda esse ano, vou até o casamento do meu irmão em Floripa, vou enforcar dois dias de trabalho (que como dono de empresa posso permutar essas regalias), conhecer a ilha, suas praias e esmerilhar em bons restaurantes”. Farei. “Show do Elton John na ala VIP”, fiz. Entrar no cheque especial também não vale.

Acontece que isso, e mais um pouco e até quando eu tiver tesão por trabalhar (provavelmente enquanto minha cabeça e meu físico permitirem) – ANTES QUE PAREÇA ESNOBE – é resultado de suor, labuta e foco. Decidi com 23 anos ser condutor da minha própria vida. Com 23 anos, além de meu primeiro sócio ter se deligado, casei e sai de casa com meu pai contrariado, severamente contrariado. Claro que teve um preço, fiquei defasado financeiramente durante alguns anos, e sei que até hoje muitos amigos não botavam fé pela simples estatística. Alguns assumiram, ou não. Mas a gente percebe que empreender depende bem pouco das estatísticas do mundo. Existe uma tríade poderosa no jogo: resiliência, obstinação e foco. Não dá para desaminar nem quando o pai duvida. E ele duvidou, entramos em guerra e erguemos a bandeira branca não faz dois anos.

Não tem jeito, queridos leitores, e nessa equação eu acredito: se você foca no trabalho, tem a ambição para conquistar novos “territórios” e não se deixa abater por influências alheias (mesmo daqueles que desdenhem de você por ser assim tão “caxias”) a própria natureza te faz acumular experiência, riqueza, respeito e tranquilidade. Quem não respeita, acaba se afastando porque, acima de tudo, a gente aprende a filtrar.

Graças a muito suor, tombos, recuos, brigas e muito esforço, não preciso pestanejar para saber o gasto da conta do restaurante. E mais, estou aprendendo em investir em fundos de baixo risco, médio e alto para o tal plano de vida. Nem por isso tenho que deixar de falar bobagens do universo de jovens de 18 anos, de respeitá-los um tanto pelo senso crítico que carregam, de tomar um porre (só que agora com exclusivas bebidas de boas marcas) e de curtir a “nite”.

O CARPE DIEM é para todas as idades. Mas depois de uma idade, ter uma infra por trás é definitiva para ser, inclusive, CARPE DIEM! No mais, paitrocínio sucks.

 

Por Ela

Concordando em gênero, número e grau, caro Ele!

Mas no meu caso, mãetrocínio sucks! Eu usufrui intencionalmente e sem culpa dele até a minha formatura, a partir daí tenho sido responsável por meus buzzes e fails sozinha. E essa sensação de liberdade foi o meu maior orgulho na entrada da vida realmente adulta.

Dizem que são duas as cenouras que fazem os coelhinnhos aqui andarem mais: o prêmio e o castigo. Como a partir da formatura sou inteiramente responsável por ambos, não delego a ninguém meu hoje nem meu amanhã. Além disso, tenho uma forte convicção que nada florece sem ser plantado. Ou seja, nada acontece sem investimento de esforço.

Essa não parece ser a verdade para a geração que vejo chegar ao mercado de trabalho. Esses meninos e meninas vêem com uma sede invejável de sucesso, mas infelizmente com uma visão também muito imediatista e super valorizando sucessos meteóricos. É bem possível que essa massa daqui há 10 anos forme um rebanho de ressentidos e frustrados, porque na vida real apenas 5% das pessoas chegam ao topo de alguma coisa. E, ainda que não leve toda uma vida em todos os casos, sem excessão nenhuma é preciso muitíssimo esforço e dedicação. Palavras que parecem não trazer mensagens positivas para ouvidos jovens.

Com o diploma embaixo do braço, entrei de cabeça nessa paulicéia maravilhosa, abracei minha carreira oferecendo a ela muitíssimas e preciosas horas da minha juventude. Aprendi a trabalhar e dei passos consideráveis na carreira. Diferente do meu amigo Ele, sou funcionária de carreira dessas que passa 13 anos no mesmo lugar. Sem entrar no mérito dos positivos ou negativos, gosto do que eu conquistei.

Mas sem ilusões, eu não fui dessas que planejam e conduzem ativamente a carreira, não. Deixei até o barco correr meio solto em alguns aspectos. Agora parece que o sucesso que acho que tive foi em parte devido à sorte, rs. Na carreira, acho que mesmo deixando o barco correr, nunca deixei de trabalhar com afinco e aceitar os desafios que apareceram. Essa postura e dedicação são os responsáveis pelo meu sucesso, não a sorte pura e simplesmente.

Inicialmente fiquei até deslumbrada com a minha liberdade. Viajei pra caramba, baladei, me meti em cursos e grupos das mais diversas coisas por pura curiosidade. De algumas dessas aventuras trago amigos queridos, de outras apenas fotos e lembranças. E de tudo isso a sensação impagável de ser dona da minha vida.

De uns tempos pra cá, começei a querer ser dona do meu futuro também. Tenho me preocupado em construir matéria ao meu redor: adquirir coisas além das vivências. E pra mim, pensar no futuro significa se preparar pra ele.

Eu quero me aposentar um dia pra jogar damas na praça! Mas não quero ser refém de uma situação econômica desconfortável. Chego à seguinte realidade: preparar-se pra isso leva looongos anos. Mais ainda, é preciso equilíbrio pra definir prioridades e se dividir entre o agora e o depois.

Não tem milagre e não vem de graça!

 

Gays e lésbicas – As formas das manifestações sociais

Por Ele

A Parada LGBT todos os anos ganha os holofotes aqui em São Paulo, numa busca incansável de bater o recorde mundial para ser a número um em quantidade de pessoas. Esse ano deu até bafafá: organizadores contabilizaram 4 milhões de pessoas e a Datafolha não mais de 300 mil. A briga do cabelão se fez, nessa nossa vontade extrema de quantificar pessoas e exalar ao mundo que São Paulo – todos os anos – concentra o maior número de lésbicas, gays, trans e simpatizantes por meio dessa grande e popular manifestação.

Recentemente no meu Blog Minha Vida Gay apresentei um “olhar utópico” pontuando diversas frentes para a busca de nossa tão sonhada emancipação. Me embasei contestando o texto do colunista JR Guzzo que foi publicada na revista Veja da semana passada e uma das ideias que descrevi no post foi sugerir jeito diferente para a Parada LGBT de São Paulo: todos de calça jeans e camiseta, sem a euforia das caixas de som, sem a bagunça, a sujeira e a promiscuidade. Uma caminhada que trocasse a a alegria e a dispersão pela sobriedade e atenção.

Nesse contexto, um dos leitores mandou um e-mail apresentando como o movimento em Cingapura funciona. Trata-se do “Pinkdot – Supporting the freedom to love”, ou Pinkdot – Apoiando a liberdade para amar. O conceito já começa diferente: está no amor e não na sexualidade em si.

Eis o vídeo:

Com a exceção da cor rosa da identidade da manifestação que, do ponto de vista da cultura ocidental, é cheia de referências femininas, delicadas (ou gays), a forma da manifestação que acontece anualmente em Cingapura é um outro (e novo) tipo de referência que não estamos acostumados por aqui.

Embora muitos dos ativistas brasileiros ou porta-vozes do movimento entendam que o formato de nossa parada traga uma repercussão perante a sociedade, me questiono o quanto desse modelo de “carnaval” é de resultados efetivos. Efetivos, no sentido de conscientização social, receptividade e inclusão dos valores da homossexualidade no contexto familiar. A mim, o que me parece importante é uma receptividade e atenção do núcleo familiar, fundamentalmente.

Para quem estuda assuntos relacionados a estética e a ética da estética, sabe muito bem que a forma de se manifestar muitas vezes define o sucesso da absorção da mensagem. Meu pai, por exemplo, que mantém alguns limites para conviver com a minha realidade homossexual, todos os anos acha engraçado o movimento da parada na região da Paulista e do centro.

Veja bem, “achar engraçado”, no meu ponto de vista, não é reação que eu sinceramente gostaria num processo de esclarecimento e inclusão que a Parada LBGT tivera em sua origem! Graça ou humor talvez sejam reações de uma boa parte das pessoas, no momento que a parada é uma forte ferramenta e que deveria trazer outros tipos de reação, como a reflexão e a conscientização.

O vídeo de Pinknot fala por si:

– Focam no amor e não no sexo;

– Estabelecem um diálogo audível e compreensível entre gays e heterossexuais;

– É uma manifestação muito mais de paz, atenção e convergência do que fervo e multidão;

– Todos vestidos iguais, me parecem muito mais convergentes;

– Na situação as pessoas conversam e apresentam pontos de vista, ao contrário do que ouvimos por aqui de barulho, embriaguez e graça;

– Não existe exibicionismo propriamente.

Poderíamos falar que essas coisas de ideologia por meio de manifestações organizadas e de efeitos sociais acontecem apenas nos países de primeiro mundo. Mas veja bem que Cingapura está longe de ser um país rico e de primeiro mundo!

Temos uma mania cultural de querer contabilizar quantidade. Como micro empresário que trabalha com a visibilidade dos meus clientes na web, quantas não foram as vezes que tive que sentar e explicar repetidamente que mais vale 10 potenciais clientes interessados entrando em contato do que 1000 visitando o site apenas quantificando o número de visitas?

Mas essa é a cabeça do brasileiro no geral. Não importa muito quem vá, quem compareça e quem se manifeste na Parada LGBT. Importa mais a quantidade sem necessariamente um efeito de repercussão social, de transformação, de resultados. Vale a quantidade para “competir” com as outras paradas do mundo e continuar com um discurso que nem precisava mais tanto: “vejam, somos muitos”.

Ok, somos muitos e acho que muita gente já sabe disso. Mas como fazer, por exemplo, para a homossexualidade ser ensinada nas escolas, no processo de formação de crianças e adolescentes? Não teríamos que começar a dar esses passos? Como fazer para os pais entenderem mais da diversidade e aceitarem com mais naturalidade as possibilidades de orientação de seus filhos?

Será que os líderes dessas manifestações saberiam dizer?

Por Ela

Eu confesso que o tema me divide. Concordo com todos os pontos negativos  ressaltados por Ele, e até acredito que poderíamos influenciar mais com menos gente transmitindo a mensagem correta. Mas não acho possível dissociar um evento público do contexto sóciocultural.

Vamos pra Cingapura? É preciso propor uma viagem mesmo, porque estamos falando de uma vida tão diferente da nossa que até parece uma ficção científica.

Imagina um lugar onde homossexualidade ainda é crime, que sexo oral é punido com multa de 5 mil dólares, e o sexo anal com prisão. Onde as pessoas de tão fechadas, não se tocam.

É bonito imaginar que os gays de lá são mais politizados e conscientes que os gays daqui. Mas meu lado incrédulo acredita apenas que eles são muito mais reprimidos que nós.

Agora vamos lembrar quem somos. O país do carnaval. E não à toa eu começo por isso. É preciso lembrar que já nos idos e contidos anos 30 de Noel Rosa, os homens e mulheres de bem já se permitiam celebrar a vida sem razão e se entregar à alegria. É desse povo leve e ligeiramente irresponsavel, de risada fácil, que saem os gays.

Nossa galera faz parte disso também. E é muito natural que no país dos homens héteros vestidos de mulheres horrendas em Fevereiro, os gays se joguem extravagantemente também.

E pára, não me permito estampar um carimbo de puta ou de alienada nem por um fato por nem outro.

É verdade que o carnaval não vai conscientizar ninguém. Mas tudo o que acontece lá é expressão desse país, dessa cultura e, também nossa.

MAS ! ! !

É APENAS uma parte de quem / do que nós somos. É meio limitado pensar que é somos feitos só disso.

Talvez seja mais comum com as mulheres, mas vou me arriscar com um exemplo. Alguém aí já ficou puto ao ouvir uma insinuação gringa maliciosa que generaliza o Brazil das mulatas?

Bom, eu já me indignei muitas vezes. E é a mesma indignação que me revolta na visão míope de quem prefere enxergar o homossexual como um estereotipo engraçado, e não como um pessoa inteira.

O preconceito está nos olhos de quem vê, caríssimo.

Por isso eu proponho viver sim o carnaval num dia e no outro quem sabe bater panelas num movimento politizado e consciente pelos nossos tão esquecidos direitos.

Permita-se! Borá? Eu topo!

Gays e lésbicas – Quem tem medo da solidão?

Por Ele

Já brinquei com Ela e disse: “no futuro vou abrir uma ‘Casa de Repouso LGBT’. Teremos centenas de idosos gays, classe média e alta, para um convívio mútuo buscando desviar da solidão!

Até meus 23 anos me sentia muito sozinho. Embora estar só e solidão tenham diferenças sutis, enquanto não assumia minha homossexualidade, a parcialidade que apresentava para meus amigos, pais e a mim mesmo, me reservava noites solitárias, atrás de meus CD’s ou filmes prediletos. Eram horas a fio numa compulsão de devorar música e cinema.

Fui notar que todo esse padrão de comportamento me dava medo – pela solidão existente – depois que terminei meu primeiro namoro gay. Voltar para aquele estado de “estar só” era aterrorizante.

Fui aprendendo a encontrar mais pessoas, a frequentar novos lugares e me propiciar uma dinâmica de vida longe dessa solidão. Casei, descasei e namorei de novo. Até bem pouco tempo atrás uma boa cota de estar com alguém era para não estar sozinho. Só que depois dos 30 anos, a mim, essa cota mudou.

Hoje, present day, já entendi bastante o que é estar só com ou sem namorado. É aquela coisa que muitos dizem por aí: “você pode se sentir só mesmo estando com alguém”. E pode mesmo! Assim como pode estar sozinho e conviver bem com a solidão.

Pra mim, a solidão é algo relacionado à alma e algo para se preparar com o passar dos anos. Não dá para achar que hormônios e cirurgias plásticas podem segurar a nossa juventude para o resto da vida. É preciso plantar e cultivar o espírito de jovialidade dentro da gente desde cedo e, creio eu, não temer o envelhecimento.

Quando tinha 20 e poucos anos achava que ter 30 era muito velho. Hoje com 35 anos imagino que com 40 será diferente e, assim, sucessivamente. Quando somos jovens projetamos a maior idade como algo “ruim”, da falta da vitalidade e das limitações. Mas será que essas projeções funcionam ou dizem respeito a uma verdade?

Vejo meu pai e minha mãe com seus 71 e 65 anos encaram essa fase com naturalidade. Está certo que ambos se bastam um ao outro. Mas será que não teremos com quem nos bastar como gays e lésbicas? De alguma maneira precisamos resolver qualquer problema de solidão. A necessidade faz a ocasião e Eu e Ela não seremos os únicos gay e lésbica respectivamente, velhos, encardidos e mal amados!

Por isso acho que esse medo de ser velho, em parte, é coisa de projeção. Projetamos enquanto jovens uma velhice solitária, como a velha viúva vizinha que não sai mais de casa e costuma deixar a casa repleta de lembranças. Ou o vovô vizinho adoentado que usa muleta e não tem mais ninguém.

De fato, todos temos medo da solidão em alguma medida. E esse medo nos acompanha mesmo antes da velhice. Conciliar maior idade, solidão e homossexualidade faz parte de nossa realidade que a gente nunca quer lembrar (ou não).

 

Por Ela

É amiguinho, solidão é um fantasma do futuro. Do meu pelo menos.

Eu, como você, também vivi momentos de solidão desde menina. Eu tinha uma sensação muito nítida de que tinha que ser resposável por mim, e desenvolvi uma auto-suficiencia e um senso de auto-proteção grandes, me protegendo e isolando dos outros.

A insegurança que eu sentia com a minha sexualidade só serviu pra potencializar ainda mais essa característica minha. Na adoslescencia me escondi num personagem criado pra não mostrar pros outros a minha timidez e inexperiencia. Então fazia de conta que os assuntos mais picantes eram muito naturais, e adotei uma postura bastante sarcástica.

Bom, escapei de fazer a boba, mas acabei me fechando em mim mesma. As pessoas tem uma dificuldade grande em se abrir e dividir coisas com uma pessoa sarcástica, rs…

Eu me acostumei tanto a esta solidão, que mesmo estando sempre cercada de amigos, me sentia inteiramente responsável pela minha felicidade, e não dividia nada íntimo ou pessoal com ninguém. Literalmente uma ilha cercada de gente por todos os lados.

Na escola estava no grupo das meninas e circulava por todos os outros grupos sem problemas. Conversava com todo mundo, influenciava alguns. Na rua era a líder da gangue, estava em todas.

Na faculdade todos me conheciam, era vista como despojada e desprendida. Tomei liderança em várias coisas, parecia uma pessoa muito segura. E gostava muito dessa imagem que eu projetava.

Em São Paulo, continuei conhecendo gente por um tempo. Depois meu gelo foi derretendo, eu acho. O personagem foi cansando, e comecei a curtir ficar só. E não se engane, porque nunca passei essa solidão entre as paredes do meu cafofo.

Saia pra fazer as minhas coisinhas, pra curtir a cidade, as festas, cinema, jantares. Me sentia tão à vontade comigo mesma, que pouco importava se havia outras pessoas ou não nos meus programas. Eu decidia o roteiro e quem quisesse que acompanhasse.

Imaginem a minha vontade de mergulhar num relacionamento nesta época e discutir concessões! Impensável. Eu tava curtindo minha solidão em grande estilo, e isso me bastava.

Até que um belo dia a princesa, que nem sabia que tinha perdido o sapatinho, tropeçou. Tem algumas coisas que marcam a nossa vida a ponto de ser um divisor de águas, meu primeiro envolvimento amoroso foi assim.

Como uma brincadeira, uma aventura pra contar pros netos, tudo começou leviano. Aí abri os olhos e lá estava eu, uma pessoa mudada e perdida. Um grande clichê mesmo. Esse relacionamento, sem nem isso ser de verdade, foi uma mudança de rumo na minha vida.

Com ele troquei sonhos de explorar o mundo lá fora, por explorar o meu mundinho aqui dentro, e também abri as portas pra outras pessoas entrarem de verdade na minha intimidade. E olha, ninguém morreu. Hoje estou aqui falando esse monte de coisas a pessoas que nem sei que rosto tem. Mas veja que falo muito sem dizer tanto 😉

Acho que sempre serei fechada e poucos vão chegar muito mais fundo. Mas me permitir envolver e deixar alguns ficarem mais íntimos  meio que me mostrou uma forma muito bacana de viver. E tudo que é bacana se quer perpetuar, não é assim.

Preservar um tempo a sós consigo mesmo é muito saudável. Mas a possibilidade de estar só o tempo todo me arrepia. Compartilho com Ele que quando encaramos de maneira natural, as coisas doem bem menos ou quase nada. Mas haja mind-set pra desenvolver essa relação com uma possível solidão, viu!

É bem capaz de aceitar a sua proposta do lar de velhas bixas e sapatões usadas só pra ter gente por perto 🙂

 

Bate papo entre uma lésbica e um gay – Dias que passam lentos

Por Ela

Por vezes a tensão ocupa os espaços vazios entre as meninas. Às vezes é difícil dizer como ou porque a coisa começa a ser tensa, as coisas se misturaram tanto que fica difícil dizer onde termina um bico e onde começa o outro. Esses momentos batem, desaparecem, re-surgem como uma fênix das cinzas, se diluem num sorriso de abraço apertado, numa troca de confidências. O relacionamento vai ficando mais gostoso quanto mais intimidade se alcança, os ponteiros vão se acertando e os problemas vão tomando uma dimensão mais real.

Mas de um jeito ou de outro todo relacionamento é por vezes tenso, todo relacionamento meu é por vezes tenso, ou comigo tudo é por vezes tenso. Ando com a impressão de que não sou uma pessoa fácil, rs. Eu requeiro manutenção da braba!

Vou encerrar por aqui a sessão terapia, concluindo que todo mundo tem as suas dificuldades com relacionamentos e encontrar duas pessoas 100% compatíveis é um lindo sonho.

A realidade é que manter um relacionamento saudável e equilibrado exige um bocado das vidas em questão, além de uma boa dose de compreensão e paciência.

Tenho certeza hoje que a verdade de novela que o amor é tudo que se precisa numa relação é uma boa balela. Na vera, esse trem de estar junto te exige muito mais. Claro começa com um bem-querer muito grande, que aos poucos ou de enxurrada se transforma em um lindo campo florido chamado amor, mas depois disso, caríssimos, é trabalho pesado.

E não estou falando só da interação com a outra pessoa, mas também do equilíbrio entre as demandas pessoais e do namoro. Isso pode ser uma formidável fonte de problemas e de frustrações.

A mim sei que falta um tanto pra balancear direito as demandas do namoro com as minhas demandas pessoais.

Quero meu tempo, mas eu mesma não respeito isso. Como é tão bom estar junto, troco as minhas coisas e o meu tempo por essa companhia. Aos poucos abandono minhas ditas prioridades e isso silenciosamente me custa.

A namorada faz o mesmo, e sem perceber jogamos no namoro um peso por essas coisas pessoais, o que nos custa alguns mal entendidos.

Em raros momentos onde me permito olhar as coisas com imparcialidade, me dou conta claramente do confuso que é conciliar sonhos e rotinas que as duas mulheres crescidas tem.

Duas mulheres crescidas com vidas independentes tem mais problemas é claro do que quando uma vive a vida da outra, ou quando, em simbiose, ambas vivem uma vida hermeticamente fechada do resto do mundo.

Eu não vou desistir da relação de equilíbrio entre duas crescidas. Afinal as outras formas são fantasias de alegria e facilmente escondem ainda mais frustrações e problemas. Além do mais, garotas e garotos, as crescidas são infinitamente mais interessantes.

Meu barato vai ser treinar pra quem sabe um dia saber cuidar bem do meu amor sem me deixar de lado. E no meu sonho, ela fará o mesmo. Puro equilíbrio e sabedoria no mundo fantástico d’Ela.

Por Ele

O que admiro NElas, no geral, e nesse caso na representatividade d’Ela, é como os valores de persistência, paciência e perseverança se aplicam bem quando o assunto é relacionamento.

O homem gay, preconceituosamente, resume essas questões de perseverança para a relação como D.R. Mas discutir a relação as vezes faz parte, não é verdade? Discutir a relação é ajustar ponteiros, não ser omisso à própria relação e – inclusive – é sinal de que o relacionamento tem uma importância.

Acontece que o gay vende uma imagem do “desapegado”, do livre e daquele que não precisa de um companheiro. Lança muito da necessidade de companhia nas amizades gays e, inclusive, vira e mexe mistura amizade franca com paixão enrustida. Mas porque é isso: homem gay precisa seguir nessa linha livre e desapegada e, por outro lado, acaba ficando e até transando com amigos quando bate “aquela carência”.

Para mim, são questões de conceitos. Amizade é um pilar, paquera é outro e namorado é um terceiro. Isso é questão de conduta, e até de respeito ao outro e respeito a si.

Gays são bons, no geral, para depositar valores de persistência e perseverança no trabalho mas pecam bastante quando a ideia é o companheirismo.

De certa maneira, invejo Ela pela predisposição e abertura para viver relacionamentos. Sejam as discussões de relação ou as flores, sejam os altos e baixos, isso é se relacionar.

 

 

Casa nova, cachola limpa

Por Ela

É incrível nosso super cérebro. Como nos colocamos em armadilhas, a tamanha capacidade que temos de sair delas e quão pouco usamos nossas armas. Um psiquiatra uma vez me explicou o fantástico mecanismo do vicio no seu cérebro. No fim, tudo é química, mas olha só que bárbaro:

O viciado em cigarro ou cocaína, depois de muito sufoco consegue parar de usar. Ê, viva! Luta arduamente no começo, onde os alertas estão ativos, e após um tempo consegue ficar tranquilo de novo.

Passam-se anos e bang! Pinta uma maldita situação que ele antes “resolveria” no vicio, e o cérebro se põe prontamente a criar uma situação em que o indivíduo se exponha novamente à tentação.

Por exemplo, o cara que nunca compra revistas sente uma vontade incrível de passar na banca na esquina. Ele não se lembra, ou não traz para a consciência, mas a tal banca é o lugar mais próximo onde se vende cigarro. No caso da cocaína, pode lhe ocorrer ajudar aquela mulher pobrezinha e cheia de filhos, que mora bem na favela onde antes ia buscar a merda. Ops, a droga, rs

Porque conscientemente um viciado se colocaria numa situação de exposição à droga, se não pra reproduzir a sensação do vicio e finalmente sucumbir à ela?

Seu cérebro faz isso por você, obrigada.

As referências que fazemos das coisas nem sempre são óbvias, diretas ou claras, e pode ser um pesadelo destrinchar essa malha. A relação de amor ou busca de amor que se estabeleceu com seus pais pode ser uma chave pra muita coisa, mas é preciso se conhecer profundamente pra entender porque algumas situações te pegam tão forte.

Porque sempre caímos na mesma armadilha com nossos amores, porque ficamos presas a situações ruins que não parecem tão difíceis de resolver. Enfim… Com isso chegamos à casa.

O que diria Freud a respeito de uma mudança física? Um corte novo de cabelo, um corte no pulso, uma mudança voluntária de casa são todas manifestações em maior ou menor grau da nossa vontade de mudança na vida. Mas você às vezes cozinha isso por muito tempo até tomar coragem pra agir. Lá vem o cérebro de novo brincando com nossa consciência…

Me dei conta que era feita disso a minha recente mudança de casa conversando com uma amiga sobre a metáfora da casa para a psicologia: a casa representa você, e a forma como as coisas vão lá dentro é como estão organizadas nossas emoções. Mais ou menos, acho que é essa a idéia…

Eu que nunca morei mais que 2 anos no mesmo lugar antes, fiquei mais de 7 nessa casa e emendei dois relacionamentos longos neste cenário. Coisa também inédita até então. Estive tão presa ao último deles depois do fim, que por meses eu não podia ficar sozinha em casa sem ficar extremamente triste. No início sabia do que se tratava a tristeza, mas me acostumei à ela e depois de um tempo e parei de perceber que ali tinha mais lembranças do que eu podia suportar.

Um belo dia, sem nenhuma razão aparente ou pressão externa decidi me mudar. Eu não me dei conta, mas já estava disposta a colocar definitivamente pra traz todos os resquícios que dessa relação. De um dia pro outro provoquei a pressão que precisava pra isso acontecer e sai pelo mundo procurando endereço. Tudo fez o mais perfeito sentido lógico, devo dizer. Mas nada disso foi realmente necessário do ponto de vista prático.

E a busca em si também foi algo surreal, porque eu queria querer uma certa forma de viver, e isso tinha que funcionar com a casa nova. Mas eu nem sei bem o que eu procurava, foi realmente estranho. Não teve nenhuma lógica nos lugares que eu olhei, nem nos que eu rejeitei. Desisti de lugares excelentes, acreditei em opções impossíveis, me comprometi e depois desisti (coisa que não gosto de fazer) e, por fim, encontrei minha casa como uma combinação improvável. Ainda dias depois me pergunto se esse lugar tem ou não a ver comigo.

Minha leitura dessa coisa toda foi que eu precisava me desprender urgentemente de uma carga de histórias difíceis, porque os fantasmas ainda me assombravam silenciosamente. Por isso a pressa. Uma vez na casa nova e passado o deslumbre dos primeiros dias, a vida vai começando a se assentar. Como uma massa disforme vou me ajustando ao novo espaço, tomando sua forma. Fazendo turismo nas redondezas vou me desprendendo da minha pequena rotina anterior e descobrindo realmente a vida que há após o amor. Y sí, la hay!

E no fim era isso: meu cérebro trabalhando sorrateiramente pra me arremessar no futuro; e a casa improvável que ele escolheu combinando perfeitamente com que quero fazer da minha vida. Até o desconforto que ela traz combina com o medo que tenho dessa tal vida não ser bem o que vai me trazer alegria.

Como o barco segue daqui pra frente, eu não sei. Tenho dito demais que “tenho medo”, então vou ficar quietinha assistindo o futuro acontecer. Que seja iniciada uma nova etapa, um brinde ao futuro!

Por Ele

Há mim foi também sete anos sob o mesmo telhado e no oitavo, quando poderia continuar, resolvi dar uma virada, provocar uma mudança e me permitir ter um novo abrigo. Tudo novo, com a minha cara, com meu jeito, com os excessos ou minimalismos que meu “novo ego” transbordasse.

A nova casa, minha, é representativa e ao mesmo tempo simbólica. De 2010 para cá muita coisa mudou no meu jeito de pensar. A crise dos 30 veio com 33 e depois disso adulteci. Me despedi de um adolescente cheio de curiosidades e fantasias, cheio de dúvidas sobre a vida gay e passei a estabelecer meus conceitos. Outrora, os valores e os conceitos transitavam pelas referências que o mundo afora me apresentava: queria um pouco de tudo, um pouco de cada lugar, queria um namorado, queria a vida solteira, queria o sexo, a putaria e queria ser o “dono da balada”: “uma Absolut, copo baixo e dois gelos, por favor”.

O Absolut no copo baixo com dois gelos ainda é presente em algumas poucas circunstâncias e quem na maioria das vezes prepara agora sou eu mesmo. Mas algumas pessoas, alguns prazeres e alguns hábitos ficaram para trás. A bem da verdade é que uma parte de mim deixou de fazer sentido para a entrada de um novo eu que exerce função faz dois anos. Tudo novo.

As pessoas que ficaram para trás ainda existem. Porém o olhar que tenho por elas é definitivamente renovado. Referências a mim, que as vezes soavam como idolatria não me apetecem mais. O centro agora está mais em mim, fluxo até lógico quando em 2009 – época que me despedia de antigos modelos e últimas experiências carnais – me tinha como fora do eixo.

A casa nova veio para emanar meu eu novo e está assim há dois anos.

Nesse fluxo, as relações com minha equipe de trabalho também sofreu uma revisão. Não seria diferente com o modelo de namoro que tinha antes e que tenho agora. É realmente impressionante como meu “ego” se calou, como a minha necessidade de auto-afirmação não atinge nem influencia tanto o meio e passa a conversar diretamente comigo mesmo.

Adutelcer puxou no pacote minha equipe. Nos últimos dois anos saiu quem não aguentoua nova onda, entrou dois e os que ficaram viraram sócios, numa toada de lançar mais responsabilidade em todo mundo. O namoro que poderia ter acabado pelas minhas necessidades frenéticas de começar uma nova bagunça, assume novas circunstâncias, fragilidades, exposições e intimidades, revendo o valor de batalhar juntos por algo maior.

Realmente não sei se tudo isso é certo ou bom, mesmo porque não estou discutindo aqui ética ou moral. Sei apenas que isso é necessário, é de dentro pra fora e tem muito de movimento.

Num dos posts no Blog Minha Vida Gay, um heterossexual leitor reforçou em seus comentários algumas vezes que eu passo uma mensagem do “vencer”. Talvez seja isso porque a mim, vencer, só faz sentido se tiver conexão com transformar ou mudar.

A casa, o coração, a alma e a cabeça renovaram. Parece hoje que cada novo problema tem mais rapidamente uma resposta. Ou melhor, cada problema não é mais encarado com aflição, desespero ou necessidade de uma solução imediata para expelir o desconforto. Acho que aceito mais o desconforto, entendo sua representatividade e sua transitoriedade sem sofrer, sem reprimir ou sem querer tapar com a peneira.

 

O tipicamente feminino

Por Ela

Nosso imenso repertório de pré-conceitos é formado ao longo das nossas vivências e pela maneira como as internalizamos na nossa vida. Em cada fase do nosso amadurecimento nos predispomos de forma diferente com o que a vida nos apresenta.

Num exemplo bem simples, uma criança de 2 anos pode interpretar um fato simples como a saída dos pais para o trabalho como um abandono atroz. Anos mais tarde, poderia até desejar que eles saiam logo para poder explorar em paz seu quintal.

É assim tão única a formação de nosso caráter, que não se pode dizer que dois irmãos criados juntos compartilhem os mesmos valores.

Mas mesmo com todas essas possibilidades de pessoas que podemos ser dada à nossa experiência pessoal, há algo mais arraigado nos nossos costumes que também permeia nossas formas de expressão e até os nossos sentimentos. Me refiro às questões morais, valores sociais, o bem comum.

Anos de convívio social criaram relações complexas entre as pessoas e os grupos sociais, permeadas por valores nem sempre claramente expostos, mas certamente bem inteligíveis a todos.

No meio disso tudo estão os “comportamentos tipicamente femininos e masculinos”. Por muito tempo e até hoje se tenta reforçar certa ordem vigente associando esses “tipicamente isso ou aquilo” à fisiologia, à capacidade física, intelectual, à genética, entre outros. Como se se criasse uma razão superior para que nada fosse desafiado.

Controversamente o mundo cria os desafios e nos propõe outras respostas. Como a guerra que tornou o homem rico, um reforço óbvio à manutenção do poder masculino vigente, também impulsionou as mulheres ao mercado de trabalho. Este fato simples criou condições para tantas outras mudanças, que poderíamos ficar horas debatendo suas consequências.

A questão é que numa velocidade ou outra, desde que vivemos em sociedade estamos nos adaptando algo novo, nos redescobrindo e reinventando normas. Entretanto no meio disso tudo algo parece sobreviver sobremaneira aos tempos, e esse é o tal do “coisa de mulher” / “coisa de homem”.

Os termos e a intensidade variam, mas sabemos que trazemos esses valores de um jeito ou de outro, mesmo nós homossexuais que temos por princípio questionar a ordem vigente para que caibamos nela.

Sabemos disso quando discretamente nos surpreendemos com um homem dono de casa, ou uma mulher pilotando um avião.

Intrinsecamente, mesmo não querendo, trazemos o conceito do tipicamente feminino/masculino dentro de nós. E acredito que não nos deixamos influenciar menos por isso pelo fato de sermos lésbicas ou gays.

É claro que prestamos atenção nisso até para podermos protestar por outros lugares, mas se chegamos mais perto das pessoas, vamos ver que em nossas relações mais íntimas ainda tentamos reproduzir o tal “tipicamente”.

Na dicotomia do sexo, as pessoas ainda procuram exercer os tais papeis do homem e da mulher. É assim no sexo, na provisão do lar, e em tantas outros momentos. As relações lésbicas, por exemplo, não se pautam tanto numa sociedade formada por pessoas que contribuem com igualdade, mas sim em uma reprodução do padrão feminino/masculino tal como vivido pela geração dos nossos pais.

Menos com os tomates! É claro que o equilíbrio também é dinâmico e por vezes uma característica, uma afinidade vai determinar um comportamento mais masculino ou feminino numa determinada situação. Nem por isso pode-se dizer que se estabelece uma situação do “tipicamente”.

Mas o fato é que essa divisão cartesiana de gêneros aparece muito claramente em casais de lésbicas. Há sempre uma delas querendo dominar ou prover, e a outra querendo ser amparada enquanto cuida dos afazeres. Basta colocá-las em posições trocadas para perceber o desconforto e a tensão.

E o que é isso senão uma tentativa de reprodução do mecanismo já conhecido de papai e mamãe, onde se sabe claramente o que esperar do outro.

Gostaria de dizer que o “tipicamente” talvez nem exista tanto mais, já que vivemos hoje numa transição de gêneros, onde cada um procura seu novo lugar à medida que os valores vão se reconfigurando e as coisas se reordenando.

A autonomia da mulher, o individualismo, as novas famílias, tudo isso e muito mais questiona e remexe tudo até que não saibamos mais com tanta clareza o que hoje é “tipicamente masculino ou feminino”.

Mas nós como humanidade devemos ter mesmo muita preguiça dessa reinvenção toda, porque estamos sempre tentando ocupar o lugar pré-definido, e não criando nosso próprio espaço. Renegociar tudo isso novamente a cada relação é exaustivo obviamente.

Avessas às mudanças como todo o resto, acho que nós lésbicas ficamos aqui tentando chacoalhar o mundo ainda querendo vivendo como nossos pais.

 

Por Ele

Sou tipicamente feminino porque gosto de discutir a relação.

Sou tipicamente masculino porque trabalho 14h por dia como os homens work-a-holics.

Sou tipicamente feminino pois deixo fluir a minha intuição.

Sou tipicamente masculino porque passo tranquilamente por um heterossexual.

Sou tipicamente feminino por acreditar que homens canalizam muita coisa no sexo.

Sou tipicamente masculino por gostar de carros e não me interessar por novela.

Sou tipicamente feminino pois minha necessidade de carinho e atenção é assumida.

Sou tipicamente masculino porque ando com uma preguiça danada em cultuar meu corpo.

Sou tipicamente feminino porque me afeiçoo por astros, cartas de tarô e Chico Buarque.

Sou tipicamente masculino porque gosto de videogame até hoje.

Sou tipicamente feminino, ultimamente, em quatro paredes.

Sou tipicamente masculino porque as questões das mulheres sobre os homens me cansam.

Sou tipicamente feminino quando canso do meu eu masculino.

Sou predominantemente masculino e descobri que adoro meu eu feminino!

 

A sapatão optou pela carreira. O gay, pela autonomia

Por Ela

Ela se acabou de trabalhar em horas extras muito mal pagas. Desenvolveu habilidades. Enfrentou desafios. Engoliu sapos. Aceitou feedbacks com os quais não concordava. Mais sapos. Trabalhou em condições difíceis. A cada novo projeto um novo cliente, um novo time, um novo chefe. Personalidades e estilos diferentes, uma variedade imensa de peças pra lidar. Ela se “acamaleou”, adaptando-se aqui e ali, e se moldando à Empresa.

Espelho, espelho meu, ninguém é mais acomodada do que eu!

Deixei meu barco correr bem solto, e só agora depois de 13 anos na estrada, penso e me planejo para o futuro. Só posso achar que sou incrivelmente acomodada, porque fiz isso mesmo sendo minha carreira notoriamente exaustiva. Vivo numa constante roda-viva, sob pressão, prazos absurdos, cobranças de todos os lados, inúmeras variáveis novas, desinformação, despreparo, riscos… E mesmo com tudo isso, minha carreira teve que tomar conta dela mesma.

Nunca, nunca, nunca na zona de conforto. Aliás, aprendi que não se cresce na zona de conforto. É preciso ter desafios, desossá-los, comê-los com farinha, andar sobre as águas, dar 3 voltinhas flutuando no ar. Só aí, e se ninguém der 4 voltinhas, você tem os merecidos louros da glória sem “poréns” ou descontos. Meus chefes mais doces costumam chamar isso de “a cenoura da frente”. Aquele prêmio ilusório que faz com que os coelhinhos corram até a exaustão.

Talvez por não acreditar tanto nas pequenas “cenouras da frente”, tive a paciência e o estômago para seguir em frente. Eu nunca fui “top performer” de absolutamente nada. Acho imbecil o conceito americano de no 1. Na escola, preguiçosa, só estudava pra 2ª prova. Tenho paúra de planejar meu dia. Enfim, eu tinha tudo pra ter tido uma longa carreira de 2 meses e acabar apertando grampeador em alguma copiadora.

Mas, contraditoriamente, não comprar as “empresísses” me segurou na empresa numa matemática muito simplória: menos expectativas, menos desilusões. Como os louros não me fascinavam tanto, os tombos não me agrediam tanto também. Ia passando pelos perrengues e me fortalecendo com o que aprendia enquanto colegas mais competentes se exauriam pela angústia. Paciência, seu nome é carreira.

Como só sei produzir sob pressão, precisava mesmo desse ambiente pra me desenvolver. Sempre perguntei para o espelho de manhã do balanço entre os sapos e os louros. Os sapos sempre se explicaram como um mal necessário. Os louros, traduzia e traduzo até hoje em desenvolvimento profissional. Enquanto estiver me desenvolvendo, está valendo a pena.

E onde está a minha sexualidade nisso tudo? Pois é, não está. Ela não tem nada a ver com a minha carreira, nadinha mesmo. E fica bem disfarçada nas camisas bonitas e sapatos de bico fino. Foi propositadamente que eu alienei o “ser lésbica” na esfera da carreira. Sentia que prejudicaria meu desenvolvimento profissional, e não estava disposta a levantar essa bandeira. De novo, acho que por pura preguiça, rs…

É claro que há gays, lésbicas, sapatões, viadinhos perambulando pelos corredores de qualquer companhia grande. E nós nos reconhecemos mais cedo ou mais tarde!

A questão aqui é como a carreira e a homossexualidade se interceptam. Eu optei por não conciliar e manter as duas completamente apartadas uma da outra. E continuo acreditando na minha escolha. Claro, válida pra minha vida, minha carreira, minha empresa.

A carreira que escolhi me impõe certas discrições, como me adaptar aos diferentes ambientes dos clientes que visito. Ser meio camaleoa, sem pigmentação sapatão me facilita essa habilidade.

 

Por Ele

Depois de um punhado de chefias no começo da carreira, adolescente ainda na ESPM, descobri que o emprego que me trouxe mais felicidade foi o último: pelo salário, por poder atender as demandas das minhas especialidades de design, por lidar com autonomia com os parceiros de tecnologia, atender clientes como “gente grande” e ter boa liberdade para participar da produção do começo, meio e fim sem me resumir a uma baia sufocante, fazedor de desenhos legais.

Antes disso, tive a experiência de frilar um tempo em parceria com um dos designers gráficos mais conhecidos do país. O cara foi gente fina, tinha toda uma vibe de surfista, seguidor de David Carson, e de por crédito no que eu fazia, como um mentor.

Tudo começou com um estágio não remunerado no estúdio de vídeo da ESPM. Seis meses depois tive um primeiro contato com uma agência de comunicação de ex-alunos da faculdade, indicado pelo meu professor de planejamento. Seis meses depois estava dentro da empresa do Amilcare Dallevo Junior e do Marcelo de Carvalho que na época estavam tornado-se donos da Rede TV!. Oito meses depois, no começo da Internet, fui convidado por um professor de criação para fazer parte da equipe de sua empresa que estava começando a se aventurar no universo da web que, na época, era uma fronteira ainda muito desconhecida.

Foi lá que lidei com egos absurdos que colegas de trabalho, da competição idiota de uma empresa com um punhado de funcionários, do xavecar o chefe e de realidades mediocres de algumas personalidades formadas na atmosfera das grandes agências de propaganda: pura ode ao ego. Odiei, traumatizei, perdi uns quilos e fiquei mais seis meses.

Lá conheci o Cássio Leitão, o desginer fodão que foi mentor e me ajudou a reestabelecer a auto-estima, que narro no começo desse texto. Há males que vem para bem.

Frilei feliz atendendo nomes grandes em parceira com o Cássio. Pagavam bem e assim pude montar minha infra completa com um Mac G3 que na época custou 12 mil reais e foi a vista.

Para retornar a uma empresa como funcionário a coisa que mais precisava era de autonomia. Boa ou excelente reputação na faculdade fez de novo o meu professor de planejamento, então diretor de graduação de comunicação me indicar para uma nova empresa, aquele que me deu total autonomia, até negociar que não fosse registrado porque achava um absurdo o tanto que entregávamos para o governo. Queria tudo no meu bolso.

Nasci geração X, mas hoje vejo que tenho uma alma Y quando o assunto é trabalho.

Tão Y que foi a autonomia e a sensação de estar no mesmo nível que todos nessa última empresa que me segurou um pouco mais de um ano. Não estava nem aí para o futuro e queria viver reconhecimentos no hoje.

Pulei de lá para cá sulgando tudo ou pelo menos o de melhor que as empresas me ofereciam. Fazia meu trabalhinho de design, mas me chamava a atenção a maneira que cada chefe lidava com suas empresas, funcionários e equipe. Gostava te entender processos, de participar de reuniões e atender clientes.

Pulei de cá pra lá e estou hoje na mesma empresa há 12 anos. A minha. Com 23 anos e com a mesma energia, fé ou ingenuidade comecei meu próprio negócio achando que fosse conquistar o mundo, enriquecer em meses e me superar todos os dias. Com os mesmos 23 também tirei para fora a minha sexualidade e foi num turbilhão: em meses, amigos, sócio, funcionários saberiam da minha sexualidade assim: “então, sou gay. Vamos continuar nossos afazeres?”.

Fui gay, doesse a quem doesse. Sou gay e das expectativas de uma empresa própria com meus virgens 23 anos, não conquistei o mundo, não enriqueci em meses mas aprendi definitivamente a me superar todos os dias. Ter empresa própria é lidar com necessidades previstas e imprevistas e não ter chefe ou mentor para assegurar e dizer como fazer. Era eu, meu sócio e Deus (rs).

A fé foi tamanha que estou aqui. O professor de planejamento, que virou diretor ban ban ban da ESPM virou também cliente. O primeiro chefe da agência de comunicação virou parceiro com a maior agência de São José dos Campos. O sócio original não está mais presente, mas os dois funcionários que mais resistiram as batalhas estão no contrato social. Em 12 anos descobri que mais importante que ser uma empresa numerosa é que na razão de números que saem para pagar as contas e números que entram de novos projetos o saldo precisa ser o mais gordo possível. Grosseiramente, quando o assunto é finanças, é assim que funciona.

Quando o assunto são negócios, o lastro deve ser de pessoas, parceiros e uma consciência absoluta de que o que vendemos é segurança e nada mais.

Segurança que venho adquirindo por ser gay, dono de micro empresa há 12 anos, gestor de equipe, líder de pequeno negócio que vende grandes ideias todos os dias quando entro na “casa” dos clientes. Acredito tanto no que faço que convenço, ou pelo menos acredito!

No meu caso, ser gay e ser homem está tudo misturado. Mas confesso que já é assim há tanto tempo que nem lembro que ser gay em relações de trabalho pode ser questão.

 

Família ê de gay, família á de lésbica…

Por Ela:

Sexta-feira dia 15 se iniciou um novo ciclo na vida vida.

Passava a manhã toda preguiçosa enrolada na minha namorada quando o telefone tocou e a notícia mais bizarra saiu do outro lado da linha: alguém que sequer existia, morrera. Como se não bastasse esse tranco, exatos 11 meses separaram o fato da notícia.

Bizarríssimo, ainda me pergunto se isso tudo poderia ser mais estranho.

Precisava explodir, pensar, pensar, pensar… Fiz minha pereguinação no trânsito dividindo a história com amigas queridas que conhecem tão bem esse meu passado, lavando a bronca na chuva, chorando cântaros, procurando briga entre ladrões, os mendigos, tentando encontrar razão e saída. Uma semana depois, já com certo controle das emoções fui atrás da minha infância querida, procurar razões pra erguer a cabeça e seguir.

Como nas vésperas de Natal, quando podia pensar com clareza e refletir minha vida na época do deslumbramento, minhas energias se renovaram incrivelmente. Era como estar no porto seguro de novo. Não pude falar tudo. Também não pude chorar. Mas me sentir à volta de pessoas que me querem bem “no matter what”, era tudo o que eu precisava. Passar por lugares que me remetiam às lembranças das minhas férias de infância, notícias da professora do jardim, o olhar carinhoso, o abraço afetuoso.

A família tem esse poder na gente. Te destrói, e te recompõe. Pessoas diferentes, que fique bem claro.

A tal notícia encerrou um ciclo de longa espera na minha vida. Por mais brutal que tenha sido pra mim, foi fundamental pra colocar um grande ponto final numa débil esperança de resignação e reconciliação. Ao mesmo tempo que a forma com que veio e o tempo que demorou pra chegar, lacraram de vez qualquer possibilidade de transferência desse sentimento para outras pessoas.

Eu vou podendo respirar mais leve e me recarregando aos poucos. Até posso refletir com mais clareza sobre as consequências de todos os traumas que essa pessoa que se foi me infringiu, e trazendo isso pra Ela de hoje, vou querendo descobrir as raízes do comportamento das minhas relações.

Se tem sempre uma coisa boa em tudo, abrir uma porta pra outras possibilidades é fenomenal, mesmo que seja duro. Estou nessa página esses dias. Tentando interferir mais no meu destino tomando conhecimento de atitudes que eu tomo intuitivamente e em referêncas malucas que minha mente infantil incrustou lá no fundo da minha consciência.

Desde esse episódio eu tenho tentado escrever, mas minha cabeça vitrola quebrada não saia dessa faixa. De repente escrever é muito libertador mesmo.

Nessa história não tem nada de sapatão, gay, lésbicas. O que me separou desse lado da minha família não foi minha orientação sexual. Mas achei que cabia muito bem refletir tudo isso aqui, porque quando mais navego por este universo noto histórias mal resolvidas, obscuras, difíceis com os pais e a família.

O clichê mais clichê de todos os clichês, a família é a base de tudo, fica martelando na minha cabeça. Numa nota só, como as torturas. O poder que essas pessoas tem de nos influenciarem, moldarem nosso caráter e nossas atitudes às vezes é muito maior que gostamos de admitir.

Para o bem e para o mal, famílias são feitas de todas as cores do arco-íris mesmo sem vermos isso o tempo todo. Me reconcilio com a minha, já não sem tempo e com muito esforço pra genuinamente aceitar a herança que ela me impõe.

Essa família que trago pra perto de novo me recebe de braços abertos a despeito da minha gayzisse. Engraçado, porque era dela que eu tinha mais medo. Por milhares de motivos, os julguei e fugi deles na descoberta da minha sexualidade. E veja só que ironia. São justamente os que se mostram mais acolhedores num dos momentos mais difíceis da minha vida.

É isso, pessoas. Minha vida caixinha de pandora fazendo cair meus paradigmas uma vez mais.

Por Ele:

Depois de dois anos e meio de namoro, ou quase isso, tenho feito um balanço novo. Quando tive a primeira família de um namorado existia uma vontade muito grande de ser aceito, de fazer parte, de integrar e de ser querido. Existia uma vontade de ter cunhados, cunhadas, sogro, sogra e todas as variantes que vinham no pacote. Outrora, precisava me provar que um homem seria capaz de criar um relacionamento por outro homem. Depois, que um casal gay poderia ser incluso naturalmente numa família, casado.

A minha própria família é pequena. Tios, primos estão cada um num canto do Brasil e os que estão por perto se vêem pouco. Família, para mim, é mãe, pai e irmão, nas qualidades e defeitos que esse modelo traz e que por muitas vezes critiquei por ser tão resumido a nós, longe de um convívio mais amplo que é bastante comum em outras famílias e que me soavam tão encantadoras como referência.

Família pequena é a minha, mãe bastante presente, pai num reencontro comigo e vice-versa e irmão virando gente grande a distância. O balanço novo tem me apresentado virtudes nesse modelo. Não existem fofocas, não existem rivalidades entre primos e tão pouco o espírito de hiprocisia, das panelas que falam mal uma das outras e quando estão juntas são sorridentes.

Família pequena para sobreviver junta precisa de muita lealdade e transparência. Seja para as convergências que são rapidamente absorvidas, seja para as divergências que se escancaram em discussões, debates, exercício de senso crítico mas que no final, doa a quem doer, precisa chegar num acordo. Pelo menos, esse modelo aberto de “lavagem de roupa suja” foi algo que batalhei para ter com meus pais superando os medos, facilmente conquistado com a minha mãe pela sintonia despida e autêntica para comigo, ou trabalhoso como foi com meu pai cuja personalidade e falta de resoluções pessoais o fazem ou faziam bastante inseguro quando o assunto tange ou tangia a humanidade de si e perante sua esposa e filhos.

Em outras palavras, minha mãe é essencialmente humana e precisou se desumanizar pontualmente para chegar numa maturidade resolvida e conquistada. Meu pai seguiu pelos trilhos da desumanidade se acovardando diante muitos desejos e sinais que a vida lhe apresentava, assumiu a vida toda um personagem de quem trazia o sustento e definia as regras do jogo (nem ele mesmo compreendendo a fundo porque seguia essas regras herdadas) para hoje trabalhar um resgate de sua humanidade, modestamente tendo-me como uma espécie de guia de segurança para poder afrouxar o nó e perceber que dá para ser feliz, homem e em paz consigo mesmo sem precisar assumir todos os dias uma linha dura, do eterno pai que tinha que impor valores, muitos deles sem saber exatamente o por quê.

Todo esse novo padrão foi um processo batalhado. Os meios não foram os mais prazerosos, tiveram decepções, frustrações, jogos psicológicos e emocionais, ameaças de expulsões e terapia para sairmos dos vícios de relacionamento, aprendermos, chegarmos amadurecidos e mais conscientes do que representamos hoje uns aos outros, sem máscaras ou perfis sociais do tipo “papel de pai”, “papel de mãe”, “papel de filho” ou “papel de família”. Conquistamos nossas independências sem perder a ternura.

Meu irmão nessa história toda preferiu se ausentar e quando nos reencontramos tende a fazer o mesmo jogo que joga há 30 e poucos anos com eles. Não é o tipo que aceita conselhos quando não pede por conselhos. Tem lá seus excessos e loucuras herdados. Mas quem não tem? Espero, com muitas forças, que ele não repita os modelos de papai, mas também não posso fazer muita coisa além de torcer.

Nessa história, de rever valores perante meus pais, minha posição como integrante e suas posições como pais, neguei o modelo, mexi aqui e ali, provoquei e gerei conflitos. Fui a ovelha negra da Rita Lee para o horror de muitos pais! =P

Fui buscar nas famílias de meus namorados outras referências, das famílias grandes e próximas, das famílias médias e dos “sem família” para olhar de novo para a minha e perceber hoje que é nela que me encontro ou reencontro quando preciso. Na minha família que me encontro como filho dos meus pais e eles me aceitam como o filho adulto, com meus próprios valores sem precisar me poupar de nada, sem ressentimentos ou feridas que não cicatrizaram.

Os meios não foram fáceis, mas foram fundamentais para chegarmos onde chegamos sem ter receio de cutucar em feridas abertas. Aprendi na minha família que preservar feridas abertas dá mais chances de encolhermos a alma.

 

 

A cena gay, a vida lésbica de São Paulo

Por Ela:

Not too long ago, not too far away…

Jovem princesa Ela chega a São Paulo levitando em sonhos que finalmente começam a se concretizar e muitas fantasias sobre o futuro. Ela está pronta para desabrochar uma vida rica culturalmente e efervescente, beijar muitas sapas e, dentre as mais glamurosas, encontrar sua cara metade.

Na euforia dos primeiros anos, a vida segue num ritmo alucinante: festas, viagens, trabalho, amores, ressacas, experiências, perdas e descobertas… Ela percebe rapidamente o óbvio: A cidade não pára nunca, assim como sua vida cada vez mais intensa e interessante. Ainda envolta numa atmosfera de deslumbramento, Ela se deleita com uma vida social incrível, cheia de cultura e as concretas oportunidades no trabalho.

É somente no natal que Ela está calma, num mesmo lugar por mais que algumas horas, e não está atrasada para nada. Tudo está calmo e o tempo parece passar mais devagar. E assim, ao final de cada ano, Ela vai entendendo e refletindo sobre o que lhe resta de cada ano vivido.

Aos poucos, o entusiasmo vai dando lugar a reflexões. E assim vou começando a tomar consciência da repetição vazia de certos hábitos. São Paulo é realmente uma cidade incrível pelas inúmeras formas possíveis que a vida pode tomar aqui. Uma das qualidades que mais me cativa. Mas é também um lugar perigoso para se perder no caminho e despertar sem objetivos.

Hoje vejo também a São Paulo menos glamurosa, hiper segmentada, dispersa e superficial. Talvez seja só o tempo em que vivemos, talvez aqui as coisas tomem proporções maiores e cheguem mais nos extremos. Talvez meu campo de visão seja limitado. Mas enfim o que percebo daqui é que há inúmeras pequenas micro-cidades ou, como gosto de chamar, guetos. Estes, produzindo seres que se igualam no estilo de se vestir, nos trejeitos, no linguajar, e por fim em pensamentos pré-fabricados e carregados de preconceitos.

Às exceções, minhas desculpas! Mas visualizo muitos grupos de gays e lésbicas quando penso nisso. A cidade borbulhanado e esses guetos fechados em si mesmos.

Acredito que muitas pessoas sejam atraídas para este modelo pela necessidade da paquera, de se relacionar com outros gays e lésbicas e de trocar experiências. E, como num círculo vicioso, acabam repetindo esta rotina semana após semana. E naturalmente se privando de outras experiências para viver exclusivamente nesse universo de festas e bares gays.

É bom estar “cazamiga”, falar abertamente, dividir e palpitar de amores e frustrações, paquerar, ser paquerada e, demonstrar afeto sem olhares repressores ou curiosos. Tudo isso, é claro, é muito bom e bem mais fácil em lugares gays. E em São Paulo o que não falta são lugares gays. Mas por isso mesmo muita gente acaba não se dispondo a sair do gueto, falar de outros assuntos e ver outras coisas.

Me parece inevitável que, à medida que o tempo passe, os outros conteúdos sumam e o único tema nos guetos vire a própria vida nos guetos. As desventuras amorosas, as conquistas, as músicas, as pessoas. E logo as intrigas e fofocas.
Independente do assunto que une as pessoas, os grupos muito fechados acabam desenvolvendo certa distancia/crítica/repulsa do diferente.

E me parece a maior das contradições que minorias desenvolvam preconceitos contra outras minorias ao mesmo tempo em que reclamam de sua própria condição de minoria. Confuso, não?

Fico espantada que numa cidade que abriga tantas vidas, que proporciona às pessoas tantas experiências, acabe também favorecendo a proliferação dos guetos. Ao mesmo tempo em que dá tanto espaço para o diferente, São Paulo o isola numa caixa de iguais. Diferentes do resto, iguais entre si.

Quero ter amigos diferentes uns dos outros, que sejam até incompatíveis no convívio, que questionem uns os valores dos outros e os meus. Porque é triste ver a vida sempre do mesmo jeito, sem entender outros pontos de vista, sem desconstruir as convicções de vez em quando. E só a diferença traz essa riqueza.

A vida segue com o olhinho pra fora da caixa…

Por Ele:

Dos meus 23 anos, idade que me assumi até meus 33 os guetos gays em São Paulo eram cenários certos para minha solteirice. Acontece que para a maioria das pessoas, as fases de descobertas, de auto-afirmação, o encontro da auto-estima e uma consciência maior de si mesmo acontecem, no geral, da adolescência até a vida adulta. Vida adulta que pode ser estabelecida a partir dos 28, mas com 60 também.

Apesar de muitos namoros e um casamento nesse caminho de uma década, tinha uma necessidade, diga-se necessidade como um desejo mesmo de ver e ser visto, de cobiçar e ser cobiçado. Tinha uma curiosidade absoluta de frequentar os lugares gls, conhecer ou pelo menos ver pessoas e, talvez por uma simpatia, costumava a ter a simpatia recíproca dos garçons e atendentes dos locais que costumava frequentar. Fato específico mas que ficou marcado. Talvez um fetiche? Talvez.

Numa ordem cronológica, se a minha memória não falhar, consigo pontuar aqui do primeiro lugar que conheci até o “present day”, ou melhor até os meus 33/34 anos quando resolvi desligar a chave do viver a vida gay:

Com 23 anos, o Allegro Bar, a SoGo em início de casa e o Ultralounge original que ficava na Rua da Consolação eram os pontos certos. Lembro até do Marcos, nome do garçom do Allegro que sempre me atendia muito bem. (Olha o fetiche aí de novo!)

Conheci duas ou três vezes a clássica e ancestral Túnel, mas que não me chamava muito a atenção.

Depois veio a Bubu, numa época que o mezanino era 1/5 do que é hoje e tocava anos 80. Baladas “sujas” no centro também, vez ou outra.

De lá pra cá, The Week, D-Edge, Sonique, Bar da Dida, Director’s Gourmet, A Lôca, Clube Glória.

Sauna 269, garotos de programa do Trianon, maconha, cocaína e ácido, sim, vez ou outra.

Tudo junto, tudo misturado, tudo intenso, num exercício de reconhecimento de mim mesmo, lado A e lado B.

E repete o disco! Está riscado? Não tem problema que tem gente nova na piXta!

Parece assim que só vivi do desapego nesses anos e é só impressão mesmo. Desses 10 anos, até meus 33, sete foram em relacionamentos. Dois foram nessa curtição. Intensidade pura de chafurdar na purpurina!

Dos 33 anos para cá peguei o disco riscado e empilhei na estante. Mas ele está lá ou aqui no QGSE para rever as faixas da contracapa de vez em quando sem precisar tocar, para lembrar com saudade. O som que tenho ouvido agora é um pouco mais compassado, fluido, com notas e arranjos mais elaborados. É o que tem me preenchido.

A palavra foco nunca fez tanto sentido. Foco em mim e não no mundo porque desse mundo GLS, que inclusive me ajudou a chegar até aqui e me ajudou a ser o que é, posso guardar bons amigos, e blogs, e discos, e nada mais (rs).

Tenho a impressão que me tornei adulto e feliz. Quando a gente é jovem a gente tem medo de ficar adulto e acabado. Tem medo de ficar calcificado em valores e princípios. Quando fui um jovem gay, ser gay era o início, o fim e o meio. Hoje, ser gay é só uma parte que as vezes até esqueço!

Reconheço de novo família, pais, amigos gays e heterossexuais, cachorro frequentando a casa – minha casa – viagens, responsabilidades, meu namorado querido e um profissional work-a-holic, eu, apaixonado pelo que faz, incluindo o blog QGSE!

Reconheço a mim mesmo sem precisar do reconhecimento dos que estão fora de mim.

Faz tempo, dois anos, que não respiro profundamente os ares gays do quadrilátero-rosa-da-Paulista. A grande maioria dos meus amigos continuam por lá e eu estou aqui. Para eles, a desculpa de não comparecer pode ser o namoro. Mas é mentira.

A verdade é que estou apaixonado por mim. Não no sentido do Narciso que se olha no espelho e se adora, mesmo porque o Narciso precisa mostrar para o mundo que é belo. E Narcisos já somos tantos! Não quero mais competir no momento.

Apaixonado porque me reconheço. O disco ficou velho e quem se revela novo sou eu, de novo.

Claro que posso me pegar ouvindo algumas das faixas antigas, por que não? Mas não precisa ser agora.