A inclusão da família em nossa reliadade

Por Ele

Passaram-se 10 ou 11 anos para que meu pai pudesse entender com mais tranquilidade as questões que pairavam em sua mente quanto a minha homossexualidade. A gente pode pensar: “puxa vida, todo esse tempo?”. Pois é, realmente levou-se uma década para ele entender, em seu ritmo, tudo isso de ter um filho gay.

Como filho, frequentando a família, a casa dos meus pais em almoços e encontros, o fato de ser gay nunca foi algum tipo de ameaça. Como não aparento (e a amiga Ela pode confirmar), meu pai nunca se sentiu desconfortável. Nosso problemas foram outros e que – muito bem – resolvemos todos há dois anos atrás. Assim, posso dizer com satisfação que minhas questões com meu pai (normalmente há questões ou com a mãe ou com o pai) se resolveram em 2011, quando conseguimos entender que eu não era mais o “jovem porra louca” como ele me intitulava e ele não precisava ser “o super pai ideal” como eu queria.

A questão que faltava é que, diante de um namorado ou de um amigo aparentemente gay, ele sempre lembraria que eu – seu filho – também compartilhava das mesmas vontades homossexuais. Pois a bem da verdade é essa: muitos pais, mesmo dos filhos assumidos, tentam esquecer o máximo possível que o filho é gay, enquanto não o aceita, ou não assume a ideia. Natural, assim, meu pai lembrar que eu era gay somente nessas circunstâncias, querendo projetar “um filho gay porém assexuado”.

Uma década se passou desde o dia que sentei na mesa da cozinha e tivemos a famigerada conversa, cara-a-cara, preto no branco e sem a possibilidade de ser diferente. De lá pra cá, como pai e filho não havíamos problemas (a exceção das questões dos ideais comportamentais que tínhamos um pelo outro). Mas seu filho como um ser social gay, que namoraria um homem, a ele era um motivo para desgosto. Tanto era que eu havia assumido a mim mesmo que não teria para quê muda-lo. O importante era poupá-lo e respeitar incondicionalmente seus limites. Trazer um namorado para a realidade familiar, quando na presença dele, era algo que não se realizaria. Assim se fez e consegui tranquilamente criar uma zona de conforto nessa situação. Soube muito bem administrar.

10 anos nesse modelo e, aos poucos, respeitando sua zona de segurança, não havia como – raras vezes – trazer o assunto ou nos pegar em situação que o encontro com meu namorado seria inevitável. Mãe, irmão e futura cunhada, totalmente abertos para essa possibilidade, acabavam criando ocasiões de reunião que colocavam meu pai a questionar se iria ou não. Recusou dezenas e das vezes que recusou não tinha porque me chatear ou forçar o contrário. Meu namorado as vezes se incomodava, as vezes não, já que do lado dele tive uma forte abertura. Está certo que boa parte dessa abertura eu dei um bom “empurrão”, mas isso é somente detalhe.

Eis que nas últimas semanas aconteceu um “click” por parte do meu velho. Na realidade o tal “click”, pela primeira vez, ocorrera no final de 2012, já próximo do Natal. Resolvi fazer um jantar em casa, quando meu irmão e sua futura esposa – que moram no Rio – estavam em São Paulo. Levei o convite a todos, incluindo meu pai. Meio sim, meio não, meio a contra gosto, meu pai veio para a reunião familiar sob meu teto na presença de meu namorado. Ficou evidente o desconforto por parte do meu pai, daquela situação de não saber para onde olhar, o que dizer e como agir. A mim, natural não saber para onde olhar, o que dizer e para onde agir: pela inédita primeira vez ele estava enfrentando seus monstros e fantasias, embora já tivesse conhecido outrora meu namorado sem que eu anunciasse como tal.

Depois desse primeiro “choque”, houve um segundo no começo de 2013, muito mais natural, quando minha futura cunhada convidara a todos para um almoço na casa de seu pai. Uma certa palidez no ar, mas fui firme em respeitar a tal turbidez.

E, de uma maneira totalmente inédita a mim, sem a necessidade de me auto-afirmar, dessas duas primeiras vezes deixei acontecer sem expectativas sobre ninguém. Literalmente fingi que nada estava acontecendo além de um simples encontro de família. Foco nas pessoas e não nas sexualidades.

Assim, nessas últimas semanas, meu pai chegou a pronunciar o nome do meu namorado, numa sugestão de encontro familiar. Confesso que na hora me passou batido ou, talvez, foi tão inesperado e fora das minhas expectativas que eu preferi desconversar! Até chegar o final de semana e reunirmos toda a família no sábado e no domingo. Tudo junto e misturado, um casal gay em meio a um grupo de heterossexuais.

Uma mistura inicial de absoluta estranheza com orgulho. Orgulho por fazer valer uma década de construção da inclusão, do compreendimento e do respeito às diferenças. Plenitude, minha gente. Estranheza por estar totalmente conformado com os limites colocados pelo meu pai e que – de repente – ele mesmo resolveu transformar. E não avisou ninguém! O velho fará 72 anos esse ano e eu preciso tirar o chapéu. Não somente a ele por todas as circunstâncias, contextos e realidades que jogou no lixo para me incluir, mas – humildemente – a mim mesmo que aprendi a respeitá-lo quase que incondicionalmente. Tivemos um tipo de “vitória” fazendo bom uso da paciência.

Somos plenos um ao outro agora.

Por Ela

Fantástico, amigo Ele! Sabendo um pouquinho da sua trajetória, sei o quanto esse momento é importante e simbólico pra você, e fico muito feliz que você tenha quebrado mais essa barreira.

Rumo à aceitação total!

Eu percebo que o preconceito de maneira bem geral está no desconhecido e consequente generalização. Se fulano não sabe nada sobre a cultura mulçumana, por exemplo, pode achar que todos são perigosos explosivos fundamentalistas.

Eu mesma sem ter nenhum contato mais estreito com eles e consumindo apenas o que a mídia me traz, só consigo sentir pena das mulheres passeando com seus filhos e burcas, sempre um passo atrás dos maridos. Nada sei sobre suas crenças, seus valores e, pior: me assusta muito ver burcas passeando pelo meu mundo ocidental!

Nem sequer quero ver algo que de uma forma meio torta me soa como ameaça. Vejam se não é um clássico do preconceito!

Esse almoço com seu pai, caro Ele, representa o início do fim da estranheza. Tenho certeza que seu pai fez um esforço colossal para superar os próprios fantasmas só pra estar mais perto de você. E tiro meu chapéu!

E tenho certeza que vendo que você e o respectivo se portam como quaisquer outras pessoas adultas, exorcisou muitas das assombrações que em algum plano afastavam vocês. Imagino que ele agora esteja desconstruindo a imagem gay que tem na cabeça, dando espaço para outras possibilidades.

O que muito hetero não entende é que sapatões, gays, trans… somos seres humanos mais profundos que uma imagem, com todas as idiossincrasias, questões e sonhos como eles também tem. E é justamente isso o que precisa ser mostrado à eles.

Sem questionar o papel da parada ou da televisão nisso tudo, só mesmo nós assim de pertinho no almoço de domingo podemos mostrar pra quem nos cerca que nem tudo é purpurina 🙂

A aceitação plena não é uma mágica, mas um processo. Uma transformação pessoal, resultado da capacidade de questionar as próprias certezas e se permitir conclusões diferentes do que no passado.

Esse processo não é só nosso, entendo que os heteros tem que passar por isso também para uma aceitação realmente plena.

Olhando a questão gay ao longo do tempo, acredito que a sociedade superará os preconceitos. Alguns mais rápido que outros, mas um dia será tão corriqueiro ver casais gays nas ruas, no trabalho, na televisão, na convivência íntima do lar, que as bobagens que hoje são argumentos de preconceito causarão boas risadas em todos.

Parabéns Ele, por mais esse passo!! Rumo à aceitação total!

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Plano de vida. Quem pensa nisso hoje em dia?

Por Ele

CARPE DIEM e talvez essa seja a máxima nos dias de hoje. Mas depois que se amadurece é melhor ainda. Explico por que:

Tenho um tipo de culto pelas Gerações Millenials e Plurals. Talvez pelo fato de lidar com profissionais jovens, de 18, 19 ou 22 anos e ser constantemente bombardeado pelas suas dinâmicas e percepções de mundo. Meu sócio tem 28 e eu, com 36, levo a frente da minha microempresa desde meus 23 anos. A vida de autonomia começou muito cedo para mim e lido com bastante gente que está relativamente há pouco tempo nessa Terra (18 anos é um espirro). Incrível é perceber que essas novas gerações, principalmente os tais de Plurals, que nasceram a partir de 1995, carregam uma vontade muito forte de “virar gente grande” logo, ter a autonomia financeira e voz para conduzir seu próprios feitos. Gosto muito de tudo isso muito provavelmente por me ajudar a manter acesa o mesmo tipo de fagulha que me ilumina desde meus 23 anos. E que bom, QUE BOM MESMO, que existem jovens de 18 anos muito mais antenados do que eu, quando tinha a mesma idade.

A minha realidade homossexual e as questões que envolvem minha sexualidade não é assunto faz um bom tempo. Tampouco ter que viver o nano universo gay de São Paulo para me auto afirmar uma vez por semana sobre as vontades das minhas gayzices, de ver e ser visto. Graças ao bom Deus e uma necessidade pessoal de mudar dessa rota, me fiz focar em questões menos existenciais, egóicas ou auto afirmativas. Passei disso e a luz brilha em outros aspectos. Posso definitivamente tocar meu “plano de vida”, palavrinha estranha, digna de folhetos de planos de previdência, mas que – na prática – diz respeito a usar seus esforços e o fruto desses esforços para assuntos mais estruturais.

Assuntos estruturais são básicos mas nem todos se dão conta: sabe-se o tempo que se leva para comprar um carro? Como tenho que fazer para comprar uma casa? E se der aquela vontade súbita de viajar para o exterior e precisar de um dinheiro na hora para realizar sem insegurança? Quero mudar totalmente meu guarda-roupa e não quero sofrer para fazer o 360 graus no armário. Isso, a mim, são assuntos de autonomia. Paitrocínio é cruel depois de uma idade e não cabe de maneira nenhuma no contexto desse post de hoje.

Apesar de ser alguns anos, não faz muito tempo que o assunto era a minha homossexualidade e todo o micro universo que rodeava esse tema. Precisava comparecer na balada, morria de medo de abismos sociais, precisava contabilizar amigos, ir a restaurantes no Jardins e na Vila Madalena e o “problema” disso tudo era que a minha vida era tão norteada sob a minha sexualidade que não sobrava tempo para me dar conta que o “viver o hoje” sai caro e só nos garante um prazer imediato, como uma droga. Alto lá que não estou negando que curtir a vida não seja humanamente necessário! Curto, mas diferente: “quero ir para NY e gastar 10 mil reais em compras”. Planejarei e farei. “Depois, ainda esse ano, vou até o casamento do meu irmão em Floripa, vou enforcar dois dias de trabalho (que como dono de empresa posso permutar essas regalias), conhecer a ilha, suas praias e esmerilhar em bons restaurantes”. Farei. “Show do Elton John na ala VIP”, fiz. Entrar no cheque especial também não vale.

Acontece que isso, e mais um pouco e até quando eu tiver tesão por trabalhar (provavelmente enquanto minha cabeça e meu físico permitirem) – ANTES QUE PAREÇA ESNOBE – é resultado de suor, labuta e foco. Decidi com 23 anos ser condutor da minha própria vida. Com 23 anos, além de meu primeiro sócio ter se deligado, casei e sai de casa com meu pai contrariado, severamente contrariado. Claro que teve um preço, fiquei defasado financeiramente durante alguns anos, e sei que até hoje muitos amigos não botavam fé pela simples estatística. Alguns assumiram, ou não. Mas a gente percebe que empreender depende bem pouco das estatísticas do mundo. Existe uma tríade poderosa no jogo: resiliência, obstinação e foco. Não dá para desaminar nem quando o pai duvida. E ele duvidou, entramos em guerra e erguemos a bandeira branca não faz dois anos.

Não tem jeito, queridos leitores, e nessa equação eu acredito: se você foca no trabalho, tem a ambição para conquistar novos “territórios” e não se deixa abater por influências alheias (mesmo daqueles que desdenhem de você por ser assim tão “caxias”) a própria natureza te faz acumular experiência, riqueza, respeito e tranquilidade. Quem não respeita, acaba se afastando porque, acima de tudo, a gente aprende a filtrar.

Graças a muito suor, tombos, recuos, brigas e muito esforço, não preciso pestanejar para saber o gasto da conta do restaurante. E mais, estou aprendendo em investir em fundos de baixo risco, médio e alto para o tal plano de vida. Nem por isso tenho que deixar de falar bobagens do universo de jovens de 18 anos, de respeitá-los um tanto pelo senso crítico que carregam, de tomar um porre (só que agora com exclusivas bebidas de boas marcas) e de curtir a “nite”.

O CARPE DIEM é para todas as idades. Mas depois de uma idade, ter uma infra por trás é definitiva para ser, inclusive, CARPE DIEM! No mais, paitrocínio sucks.

 

Por Ela

Concordando em gênero, número e grau, caro Ele!

Mas no meu caso, mãetrocínio sucks! Eu usufrui intencionalmente e sem culpa dele até a minha formatura, a partir daí tenho sido responsável por meus buzzes e fails sozinha. E essa sensação de liberdade foi o meu maior orgulho na entrada da vida realmente adulta.

Dizem que são duas as cenouras que fazem os coelhinnhos aqui andarem mais: o prêmio e o castigo. Como a partir da formatura sou inteiramente responsável por ambos, não delego a ninguém meu hoje nem meu amanhã. Além disso, tenho uma forte convicção que nada florece sem ser plantado. Ou seja, nada acontece sem investimento de esforço.

Essa não parece ser a verdade para a geração que vejo chegar ao mercado de trabalho. Esses meninos e meninas vêem com uma sede invejável de sucesso, mas infelizmente com uma visão também muito imediatista e super valorizando sucessos meteóricos. É bem possível que essa massa daqui há 10 anos forme um rebanho de ressentidos e frustrados, porque na vida real apenas 5% das pessoas chegam ao topo de alguma coisa. E, ainda que não leve toda uma vida em todos os casos, sem excessão nenhuma é preciso muitíssimo esforço e dedicação. Palavras que parecem não trazer mensagens positivas para ouvidos jovens.

Com o diploma embaixo do braço, entrei de cabeça nessa paulicéia maravilhosa, abracei minha carreira oferecendo a ela muitíssimas e preciosas horas da minha juventude. Aprendi a trabalhar e dei passos consideráveis na carreira. Diferente do meu amigo Ele, sou funcionária de carreira dessas que passa 13 anos no mesmo lugar. Sem entrar no mérito dos positivos ou negativos, gosto do que eu conquistei.

Mas sem ilusões, eu não fui dessas que planejam e conduzem ativamente a carreira, não. Deixei até o barco correr meio solto em alguns aspectos. Agora parece que o sucesso que acho que tive foi em parte devido à sorte, rs. Na carreira, acho que mesmo deixando o barco correr, nunca deixei de trabalhar com afinco e aceitar os desafios que apareceram. Essa postura e dedicação são os responsáveis pelo meu sucesso, não a sorte pura e simplesmente.

Inicialmente fiquei até deslumbrada com a minha liberdade. Viajei pra caramba, baladei, me meti em cursos e grupos das mais diversas coisas por pura curiosidade. De algumas dessas aventuras trago amigos queridos, de outras apenas fotos e lembranças. E de tudo isso a sensação impagável de ser dona da minha vida.

De uns tempos pra cá, começei a querer ser dona do meu futuro também. Tenho me preocupado em construir matéria ao meu redor: adquirir coisas além das vivências. E pra mim, pensar no futuro significa se preparar pra ele.

Eu quero me aposentar um dia pra jogar damas na praça! Mas não quero ser refém de uma situação econômica desconfortável. Chego à seguinte realidade: preparar-se pra isso leva looongos anos. Mais ainda, é preciso equilíbrio pra definir prioridades e se dividir entre o agora e o depois.

Não tem milagre e não vem de graça!

 

Gays e lésbicas – Quem tem medo da solidão?

Por Ele

Já brinquei com Ela e disse: “no futuro vou abrir uma ‘Casa de Repouso LGBT’. Teremos centenas de idosos gays, classe média e alta, para um convívio mútuo buscando desviar da solidão!

Até meus 23 anos me sentia muito sozinho. Embora estar só e solidão tenham diferenças sutis, enquanto não assumia minha homossexualidade, a parcialidade que apresentava para meus amigos, pais e a mim mesmo, me reservava noites solitárias, atrás de meus CD’s ou filmes prediletos. Eram horas a fio numa compulsão de devorar música e cinema.

Fui notar que todo esse padrão de comportamento me dava medo – pela solidão existente – depois que terminei meu primeiro namoro gay. Voltar para aquele estado de “estar só” era aterrorizante.

Fui aprendendo a encontrar mais pessoas, a frequentar novos lugares e me propiciar uma dinâmica de vida longe dessa solidão. Casei, descasei e namorei de novo. Até bem pouco tempo atrás uma boa cota de estar com alguém era para não estar sozinho. Só que depois dos 30 anos, a mim, essa cota mudou.

Hoje, present day, já entendi bastante o que é estar só com ou sem namorado. É aquela coisa que muitos dizem por aí: “você pode se sentir só mesmo estando com alguém”. E pode mesmo! Assim como pode estar sozinho e conviver bem com a solidão.

Pra mim, a solidão é algo relacionado à alma e algo para se preparar com o passar dos anos. Não dá para achar que hormônios e cirurgias plásticas podem segurar a nossa juventude para o resto da vida. É preciso plantar e cultivar o espírito de jovialidade dentro da gente desde cedo e, creio eu, não temer o envelhecimento.

Quando tinha 20 e poucos anos achava que ter 30 era muito velho. Hoje com 35 anos imagino que com 40 será diferente e, assim, sucessivamente. Quando somos jovens projetamos a maior idade como algo “ruim”, da falta da vitalidade e das limitações. Mas será que essas projeções funcionam ou dizem respeito a uma verdade?

Vejo meu pai e minha mãe com seus 71 e 65 anos encaram essa fase com naturalidade. Está certo que ambos se bastam um ao outro. Mas será que não teremos com quem nos bastar como gays e lésbicas? De alguma maneira precisamos resolver qualquer problema de solidão. A necessidade faz a ocasião e Eu e Ela não seremos os únicos gay e lésbica respectivamente, velhos, encardidos e mal amados!

Por isso acho que esse medo de ser velho, em parte, é coisa de projeção. Projetamos enquanto jovens uma velhice solitária, como a velha viúva vizinha que não sai mais de casa e costuma deixar a casa repleta de lembranças. Ou o vovô vizinho adoentado que usa muleta e não tem mais ninguém.

De fato, todos temos medo da solidão em alguma medida. E esse medo nos acompanha mesmo antes da velhice. Conciliar maior idade, solidão e homossexualidade faz parte de nossa realidade que a gente nunca quer lembrar (ou não).

 

Por Ela

É amiguinho, solidão é um fantasma do futuro. Do meu pelo menos.

Eu, como você, também vivi momentos de solidão desde menina. Eu tinha uma sensação muito nítida de que tinha que ser resposável por mim, e desenvolvi uma auto-suficiencia e um senso de auto-proteção grandes, me protegendo e isolando dos outros.

A insegurança que eu sentia com a minha sexualidade só serviu pra potencializar ainda mais essa característica minha. Na adoslescencia me escondi num personagem criado pra não mostrar pros outros a minha timidez e inexperiencia. Então fazia de conta que os assuntos mais picantes eram muito naturais, e adotei uma postura bastante sarcástica.

Bom, escapei de fazer a boba, mas acabei me fechando em mim mesma. As pessoas tem uma dificuldade grande em se abrir e dividir coisas com uma pessoa sarcástica, rs…

Eu me acostumei tanto a esta solidão, que mesmo estando sempre cercada de amigos, me sentia inteiramente responsável pela minha felicidade, e não dividia nada íntimo ou pessoal com ninguém. Literalmente uma ilha cercada de gente por todos os lados.

Na escola estava no grupo das meninas e circulava por todos os outros grupos sem problemas. Conversava com todo mundo, influenciava alguns. Na rua era a líder da gangue, estava em todas.

Na faculdade todos me conheciam, era vista como despojada e desprendida. Tomei liderança em várias coisas, parecia uma pessoa muito segura. E gostava muito dessa imagem que eu projetava.

Em São Paulo, continuei conhecendo gente por um tempo. Depois meu gelo foi derretendo, eu acho. O personagem foi cansando, e comecei a curtir ficar só. E não se engane, porque nunca passei essa solidão entre as paredes do meu cafofo.

Saia pra fazer as minhas coisinhas, pra curtir a cidade, as festas, cinema, jantares. Me sentia tão à vontade comigo mesma, que pouco importava se havia outras pessoas ou não nos meus programas. Eu decidia o roteiro e quem quisesse que acompanhasse.

Imaginem a minha vontade de mergulhar num relacionamento nesta época e discutir concessões! Impensável. Eu tava curtindo minha solidão em grande estilo, e isso me bastava.

Até que um belo dia a princesa, que nem sabia que tinha perdido o sapatinho, tropeçou. Tem algumas coisas que marcam a nossa vida a ponto de ser um divisor de águas, meu primeiro envolvimento amoroso foi assim.

Como uma brincadeira, uma aventura pra contar pros netos, tudo começou leviano. Aí abri os olhos e lá estava eu, uma pessoa mudada e perdida. Um grande clichê mesmo. Esse relacionamento, sem nem isso ser de verdade, foi uma mudança de rumo na minha vida.

Com ele troquei sonhos de explorar o mundo lá fora, por explorar o meu mundinho aqui dentro, e também abri as portas pra outras pessoas entrarem de verdade na minha intimidade. E olha, ninguém morreu. Hoje estou aqui falando esse monte de coisas a pessoas que nem sei que rosto tem. Mas veja que falo muito sem dizer tanto 😉

Acho que sempre serei fechada e poucos vão chegar muito mais fundo. Mas me permitir envolver e deixar alguns ficarem mais íntimos  meio que me mostrou uma forma muito bacana de viver. E tudo que é bacana se quer perpetuar, não é assim.

Preservar um tempo a sós consigo mesmo é muito saudável. Mas a possibilidade de estar só o tempo todo me arrepia. Compartilho com Ele que quando encaramos de maneira natural, as coisas doem bem menos ou quase nada. Mas haja mind-set pra desenvolver essa relação com uma possível solidão, viu!

É bem capaz de aceitar a sua proposta do lar de velhas bixas e sapatões usadas só pra ter gente por perto 🙂

 

Bate papo entre uma lésbica e um gay – Dias que passam lentos

Por Ela

Por vezes a tensão ocupa os espaços vazios entre as meninas. Às vezes é difícil dizer como ou porque a coisa começa a ser tensa, as coisas se misturaram tanto que fica difícil dizer onde termina um bico e onde começa o outro. Esses momentos batem, desaparecem, re-surgem como uma fênix das cinzas, se diluem num sorriso de abraço apertado, numa troca de confidências. O relacionamento vai ficando mais gostoso quanto mais intimidade se alcança, os ponteiros vão se acertando e os problemas vão tomando uma dimensão mais real.

Mas de um jeito ou de outro todo relacionamento é por vezes tenso, todo relacionamento meu é por vezes tenso, ou comigo tudo é por vezes tenso. Ando com a impressão de que não sou uma pessoa fácil, rs. Eu requeiro manutenção da braba!

Vou encerrar por aqui a sessão terapia, concluindo que todo mundo tem as suas dificuldades com relacionamentos e encontrar duas pessoas 100% compatíveis é um lindo sonho.

A realidade é que manter um relacionamento saudável e equilibrado exige um bocado das vidas em questão, além de uma boa dose de compreensão e paciência.

Tenho certeza hoje que a verdade de novela que o amor é tudo que se precisa numa relação é uma boa balela. Na vera, esse trem de estar junto te exige muito mais. Claro começa com um bem-querer muito grande, que aos poucos ou de enxurrada se transforma em um lindo campo florido chamado amor, mas depois disso, caríssimos, é trabalho pesado.

E não estou falando só da interação com a outra pessoa, mas também do equilíbrio entre as demandas pessoais e do namoro. Isso pode ser uma formidável fonte de problemas e de frustrações.

A mim sei que falta um tanto pra balancear direito as demandas do namoro com as minhas demandas pessoais.

Quero meu tempo, mas eu mesma não respeito isso. Como é tão bom estar junto, troco as minhas coisas e o meu tempo por essa companhia. Aos poucos abandono minhas ditas prioridades e isso silenciosamente me custa.

A namorada faz o mesmo, e sem perceber jogamos no namoro um peso por essas coisas pessoais, o que nos custa alguns mal entendidos.

Em raros momentos onde me permito olhar as coisas com imparcialidade, me dou conta claramente do confuso que é conciliar sonhos e rotinas que as duas mulheres crescidas tem.

Duas mulheres crescidas com vidas independentes tem mais problemas é claro do que quando uma vive a vida da outra, ou quando, em simbiose, ambas vivem uma vida hermeticamente fechada do resto do mundo.

Eu não vou desistir da relação de equilíbrio entre duas crescidas. Afinal as outras formas são fantasias de alegria e facilmente escondem ainda mais frustrações e problemas. Além do mais, garotas e garotos, as crescidas são infinitamente mais interessantes.

Meu barato vai ser treinar pra quem sabe um dia saber cuidar bem do meu amor sem me deixar de lado. E no meu sonho, ela fará o mesmo. Puro equilíbrio e sabedoria no mundo fantástico d’Ela.

Por Ele

O que admiro NElas, no geral, e nesse caso na representatividade d’Ela, é como os valores de persistência, paciência e perseverança se aplicam bem quando o assunto é relacionamento.

O homem gay, preconceituosamente, resume essas questões de perseverança para a relação como D.R. Mas discutir a relação as vezes faz parte, não é verdade? Discutir a relação é ajustar ponteiros, não ser omisso à própria relação e – inclusive – é sinal de que o relacionamento tem uma importância.

Acontece que o gay vende uma imagem do “desapegado”, do livre e daquele que não precisa de um companheiro. Lança muito da necessidade de companhia nas amizades gays e, inclusive, vira e mexe mistura amizade franca com paixão enrustida. Mas porque é isso: homem gay precisa seguir nessa linha livre e desapegada e, por outro lado, acaba ficando e até transando com amigos quando bate “aquela carência”.

Para mim, são questões de conceitos. Amizade é um pilar, paquera é outro e namorado é um terceiro. Isso é questão de conduta, e até de respeito ao outro e respeito a si.

Gays são bons, no geral, para depositar valores de persistência e perseverança no trabalho mas pecam bastante quando a ideia é o companheirismo.

De certa maneira, invejo Ela pela predisposição e abertura para viver relacionamentos. Sejam as discussões de relação ou as flores, sejam os altos e baixos, isso é se relacionar.

 

 

Casa nova, cachola limpa

Por Ela

É incrível nosso super cérebro. Como nos colocamos em armadilhas, a tamanha capacidade que temos de sair delas e quão pouco usamos nossas armas. Um psiquiatra uma vez me explicou o fantástico mecanismo do vicio no seu cérebro. No fim, tudo é química, mas olha só que bárbaro:

O viciado em cigarro ou cocaína, depois de muito sufoco consegue parar de usar. Ê, viva! Luta arduamente no começo, onde os alertas estão ativos, e após um tempo consegue ficar tranquilo de novo.

Passam-se anos e bang! Pinta uma maldita situação que ele antes “resolveria” no vicio, e o cérebro se põe prontamente a criar uma situação em que o indivíduo se exponha novamente à tentação.

Por exemplo, o cara que nunca compra revistas sente uma vontade incrível de passar na banca na esquina. Ele não se lembra, ou não traz para a consciência, mas a tal banca é o lugar mais próximo onde se vende cigarro. No caso da cocaína, pode lhe ocorrer ajudar aquela mulher pobrezinha e cheia de filhos, que mora bem na favela onde antes ia buscar a merda. Ops, a droga, rs

Porque conscientemente um viciado se colocaria numa situação de exposição à droga, se não pra reproduzir a sensação do vicio e finalmente sucumbir à ela?

Seu cérebro faz isso por você, obrigada.

As referências que fazemos das coisas nem sempre são óbvias, diretas ou claras, e pode ser um pesadelo destrinchar essa malha. A relação de amor ou busca de amor que se estabeleceu com seus pais pode ser uma chave pra muita coisa, mas é preciso se conhecer profundamente pra entender porque algumas situações te pegam tão forte.

Porque sempre caímos na mesma armadilha com nossos amores, porque ficamos presas a situações ruins que não parecem tão difíceis de resolver. Enfim… Com isso chegamos à casa.

O que diria Freud a respeito de uma mudança física? Um corte novo de cabelo, um corte no pulso, uma mudança voluntária de casa são todas manifestações em maior ou menor grau da nossa vontade de mudança na vida. Mas você às vezes cozinha isso por muito tempo até tomar coragem pra agir. Lá vem o cérebro de novo brincando com nossa consciência…

Me dei conta que era feita disso a minha recente mudança de casa conversando com uma amiga sobre a metáfora da casa para a psicologia: a casa representa você, e a forma como as coisas vão lá dentro é como estão organizadas nossas emoções. Mais ou menos, acho que é essa a idéia…

Eu que nunca morei mais que 2 anos no mesmo lugar antes, fiquei mais de 7 nessa casa e emendei dois relacionamentos longos neste cenário. Coisa também inédita até então. Estive tão presa ao último deles depois do fim, que por meses eu não podia ficar sozinha em casa sem ficar extremamente triste. No início sabia do que se tratava a tristeza, mas me acostumei à ela e depois de um tempo e parei de perceber que ali tinha mais lembranças do que eu podia suportar.

Um belo dia, sem nenhuma razão aparente ou pressão externa decidi me mudar. Eu não me dei conta, mas já estava disposta a colocar definitivamente pra traz todos os resquícios que dessa relação. De um dia pro outro provoquei a pressão que precisava pra isso acontecer e sai pelo mundo procurando endereço. Tudo fez o mais perfeito sentido lógico, devo dizer. Mas nada disso foi realmente necessário do ponto de vista prático.

E a busca em si também foi algo surreal, porque eu queria querer uma certa forma de viver, e isso tinha que funcionar com a casa nova. Mas eu nem sei bem o que eu procurava, foi realmente estranho. Não teve nenhuma lógica nos lugares que eu olhei, nem nos que eu rejeitei. Desisti de lugares excelentes, acreditei em opções impossíveis, me comprometi e depois desisti (coisa que não gosto de fazer) e, por fim, encontrei minha casa como uma combinação improvável. Ainda dias depois me pergunto se esse lugar tem ou não a ver comigo.

Minha leitura dessa coisa toda foi que eu precisava me desprender urgentemente de uma carga de histórias difíceis, porque os fantasmas ainda me assombravam silenciosamente. Por isso a pressa. Uma vez na casa nova e passado o deslumbre dos primeiros dias, a vida vai começando a se assentar. Como uma massa disforme vou me ajustando ao novo espaço, tomando sua forma. Fazendo turismo nas redondezas vou me desprendendo da minha pequena rotina anterior e descobrindo realmente a vida que há após o amor. Y sí, la hay!

E no fim era isso: meu cérebro trabalhando sorrateiramente pra me arremessar no futuro; e a casa improvável que ele escolheu combinando perfeitamente com que quero fazer da minha vida. Até o desconforto que ela traz combina com o medo que tenho dessa tal vida não ser bem o que vai me trazer alegria.

Como o barco segue daqui pra frente, eu não sei. Tenho dito demais que “tenho medo”, então vou ficar quietinha assistindo o futuro acontecer. Que seja iniciada uma nova etapa, um brinde ao futuro!

Por Ele

Há mim foi também sete anos sob o mesmo telhado e no oitavo, quando poderia continuar, resolvi dar uma virada, provocar uma mudança e me permitir ter um novo abrigo. Tudo novo, com a minha cara, com meu jeito, com os excessos ou minimalismos que meu “novo ego” transbordasse.

A nova casa, minha, é representativa e ao mesmo tempo simbólica. De 2010 para cá muita coisa mudou no meu jeito de pensar. A crise dos 30 veio com 33 e depois disso adulteci. Me despedi de um adolescente cheio de curiosidades e fantasias, cheio de dúvidas sobre a vida gay e passei a estabelecer meus conceitos. Outrora, os valores e os conceitos transitavam pelas referências que o mundo afora me apresentava: queria um pouco de tudo, um pouco de cada lugar, queria um namorado, queria a vida solteira, queria o sexo, a putaria e queria ser o “dono da balada”: “uma Absolut, copo baixo e dois gelos, por favor”.

O Absolut no copo baixo com dois gelos ainda é presente em algumas poucas circunstâncias e quem na maioria das vezes prepara agora sou eu mesmo. Mas algumas pessoas, alguns prazeres e alguns hábitos ficaram para trás. A bem da verdade é que uma parte de mim deixou de fazer sentido para a entrada de um novo eu que exerce função faz dois anos. Tudo novo.

As pessoas que ficaram para trás ainda existem. Porém o olhar que tenho por elas é definitivamente renovado. Referências a mim, que as vezes soavam como idolatria não me apetecem mais. O centro agora está mais em mim, fluxo até lógico quando em 2009 – época que me despedia de antigos modelos e últimas experiências carnais – me tinha como fora do eixo.

A casa nova veio para emanar meu eu novo e está assim há dois anos.

Nesse fluxo, as relações com minha equipe de trabalho também sofreu uma revisão. Não seria diferente com o modelo de namoro que tinha antes e que tenho agora. É realmente impressionante como meu “ego” se calou, como a minha necessidade de auto-afirmação não atinge nem influencia tanto o meio e passa a conversar diretamente comigo mesmo.

Adutelcer puxou no pacote minha equipe. Nos últimos dois anos saiu quem não aguentoua nova onda, entrou dois e os que ficaram viraram sócios, numa toada de lançar mais responsabilidade em todo mundo. O namoro que poderia ter acabado pelas minhas necessidades frenéticas de começar uma nova bagunça, assume novas circunstâncias, fragilidades, exposições e intimidades, revendo o valor de batalhar juntos por algo maior.

Realmente não sei se tudo isso é certo ou bom, mesmo porque não estou discutindo aqui ética ou moral. Sei apenas que isso é necessário, é de dentro pra fora e tem muito de movimento.

Num dos posts no Blog Minha Vida Gay, um heterossexual leitor reforçou em seus comentários algumas vezes que eu passo uma mensagem do “vencer”. Talvez seja isso porque a mim, vencer, só faz sentido se tiver conexão com transformar ou mudar.

A casa, o coração, a alma e a cabeça renovaram. Parece hoje que cada novo problema tem mais rapidamente uma resposta. Ou melhor, cada problema não é mais encarado com aflição, desespero ou necessidade de uma solução imediata para expelir o desconforto. Acho que aceito mais o desconforto, entendo sua representatividade e sua transitoriedade sem sofrer, sem reprimir ou sem querer tapar com a peneira.