“S” de sapatão

Por Ela

Onde a abrina se distancia da imone, os ésses dão o tom

Ésses, ésse, ésses, plural
Nota? Sol
Dois sóis
Plural, múltiplo

E será que você me lê?
Te leio eu e me vejo em ti
Te leio eu e te vejo em mim

Ésses…

Ésse! Que, do avesso, segue sendo ésse ainda sendo 2

Ésse com ésse de coração
de saudadess, começo e fim

…de Simone e Sabrina se olhando de perto

SempreS

Por Ele

Conheci a amiga Sabrina por um amigo em comum. Naquela época, talvez há 10 anos atrás, as coisas da minha sexualidade não estavam tão claras como hoje e o S de Sapatão de Sabrina ainda não ecoava aos meus ouvidos como uma unanimidade.

Naquele tempo, nosso querido amigo transitava entre Eu e Ela muito provavelmente eleitos como os amigos de maior intimidade. Embora não soubesse que ela era S e talvez nem Sabrina entendesse direito o que se passava por dentro, por fora simpatizava pela rápida troca de intelectualidade e nada mais.

Três ou quatro anos depois, S de Sabrina já se definia. Nos encontrávamos em minha antiga casa e entrávamos numa onda-nerd-intelecto-deliciosa sobre a existência da aura da arte. Coisa refinada. Meu ex-marido, diante tantas pessoas e possibilidades de ciúmes, por algum motivo não tinha o mesmo sentimento pelo meu amigo que, naquele dia trazia Ela ao aconchego do meu lar para despejarmos intelectualidades.

Mais um tempo passou e Sabrina se fazia Ela plenamente. Carteados, viagem ao interior, teatro com final numa cantina do Bexiga e passava a reconher Ela, decidida e absoluta!

Tivemos três encontros marcantes e, no quarto, SabrinEla já era minha amiga. Não precisávamos mais da ponte de nosso querido-amigo-em-comum para nossos encontros e nossas trocas intelecto-contagiosas! Ponte que costuma existir em épocas juvenis, no momento que se tem ciúmes e crises quando amigos de amigos passam a ser amigos sem algum tipo de consentimento.

Daí a coisa grudou em 2012 de ver a virada de ano juntos, um tipo de grude não pegajoso mas intelecto-galático, e de orgasmos mentais de assuntos e afinidades sobre a vida, o ser, o estar e a sala de jantar. Duas comadres, sim! 😛

Recentemente, pero no mucho, tive apenas um contato com a imone com S, S forte, firme e existente! No mais sei que Sabrina e Simone vivem por aí as coisas que de A a Z vivem vez ou outra. Coisa de pessoas quando se gostam, se entendem e desentendem, se grudam, se soltam, se ateiam e se sapecam vivem com o surgimento do S de paixão! Prova de que apaixonite-aguda ou confusite-gostosa vem para quem tem 15 ou 40!

Espero que as duas estejam sassaricando em meio a sabrinelas e simonices porque a vida é assim: se olhando de longe e de perto!

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A sapatão optou pela carreira. O gay, pela autonomia

Por Ela

Ela se acabou de trabalhar em horas extras muito mal pagas. Desenvolveu habilidades. Enfrentou desafios. Engoliu sapos. Aceitou feedbacks com os quais não concordava. Mais sapos. Trabalhou em condições difíceis. A cada novo projeto um novo cliente, um novo time, um novo chefe. Personalidades e estilos diferentes, uma variedade imensa de peças pra lidar. Ela se “acamaleou”, adaptando-se aqui e ali, e se moldando à Empresa.

Espelho, espelho meu, ninguém é mais acomodada do que eu!

Deixei meu barco correr bem solto, e só agora depois de 13 anos na estrada, penso e me planejo para o futuro. Só posso achar que sou incrivelmente acomodada, porque fiz isso mesmo sendo minha carreira notoriamente exaustiva. Vivo numa constante roda-viva, sob pressão, prazos absurdos, cobranças de todos os lados, inúmeras variáveis novas, desinformação, despreparo, riscos… E mesmo com tudo isso, minha carreira teve que tomar conta dela mesma.

Nunca, nunca, nunca na zona de conforto. Aliás, aprendi que não se cresce na zona de conforto. É preciso ter desafios, desossá-los, comê-los com farinha, andar sobre as águas, dar 3 voltinhas flutuando no ar. Só aí, e se ninguém der 4 voltinhas, você tem os merecidos louros da glória sem “poréns” ou descontos. Meus chefes mais doces costumam chamar isso de “a cenoura da frente”. Aquele prêmio ilusório que faz com que os coelhinhos corram até a exaustão.

Talvez por não acreditar tanto nas pequenas “cenouras da frente”, tive a paciência e o estômago para seguir em frente. Eu nunca fui “top performer” de absolutamente nada. Acho imbecil o conceito americano de no 1. Na escola, preguiçosa, só estudava pra 2ª prova. Tenho paúra de planejar meu dia. Enfim, eu tinha tudo pra ter tido uma longa carreira de 2 meses e acabar apertando grampeador em alguma copiadora.

Mas, contraditoriamente, não comprar as “empresísses” me segurou na empresa numa matemática muito simplória: menos expectativas, menos desilusões. Como os louros não me fascinavam tanto, os tombos não me agrediam tanto também. Ia passando pelos perrengues e me fortalecendo com o que aprendia enquanto colegas mais competentes se exauriam pela angústia. Paciência, seu nome é carreira.

Como só sei produzir sob pressão, precisava mesmo desse ambiente pra me desenvolver. Sempre perguntei para o espelho de manhã do balanço entre os sapos e os louros. Os sapos sempre se explicaram como um mal necessário. Os louros, traduzia e traduzo até hoje em desenvolvimento profissional. Enquanto estiver me desenvolvendo, está valendo a pena.

E onde está a minha sexualidade nisso tudo? Pois é, não está. Ela não tem nada a ver com a minha carreira, nadinha mesmo. E fica bem disfarçada nas camisas bonitas e sapatos de bico fino. Foi propositadamente que eu alienei o “ser lésbica” na esfera da carreira. Sentia que prejudicaria meu desenvolvimento profissional, e não estava disposta a levantar essa bandeira. De novo, acho que por pura preguiça, rs…

É claro que há gays, lésbicas, sapatões, viadinhos perambulando pelos corredores de qualquer companhia grande. E nós nos reconhecemos mais cedo ou mais tarde!

A questão aqui é como a carreira e a homossexualidade se interceptam. Eu optei por não conciliar e manter as duas completamente apartadas uma da outra. E continuo acreditando na minha escolha. Claro, válida pra minha vida, minha carreira, minha empresa.

A carreira que escolhi me impõe certas discrições, como me adaptar aos diferentes ambientes dos clientes que visito. Ser meio camaleoa, sem pigmentação sapatão me facilita essa habilidade.

 

Por Ele

Depois de um punhado de chefias no começo da carreira, adolescente ainda na ESPM, descobri que o emprego que me trouxe mais felicidade foi o último: pelo salário, por poder atender as demandas das minhas especialidades de design, por lidar com autonomia com os parceiros de tecnologia, atender clientes como “gente grande” e ter boa liberdade para participar da produção do começo, meio e fim sem me resumir a uma baia sufocante, fazedor de desenhos legais.

Antes disso, tive a experiência de frilar um tempo em parceria com um dos designers gráficos mais conhecidos do país. O cara foi gente fina, tinha toda uma vibe de surfista, seguidor de David Carson, e de por crédito no que eu fazia, como um mentor.

Tudo começou com um estágio não remunerado no estúdio de vídeo da ESPM. Seis meses depois tive um primeiro contato com uma agência de comunicação de ex-alunos da faculdade, indicado pelo meu professor de planejamento. Seis meses depois estava dentro da empresa do Amilcare Dallevo Junior e do Marcelo de Carvalho que na época estavam tornado-se donos da Rede TV!. Oito meses depois, no começo da Internet, fui convidado por um professor de criação para fazer parte da equipe de sua empresa que estava começando a se aventurar no universo da web que, na época, era uma fronteira ainda muito desconhecida.

Foi lá que lidei com egos absurdos que colegas de trabalho, da competição idiota de uma empresa com um punhado de funcionários, do xavecar o chefe e de realidades mediocres de algumas personalidades formadas na atmosfera das grandes agências de propaganda: pura ode ao ego. Odiei, traumatizei, perdi uns quilos e fiquei mais seis meses.

Lá conheci o Cássio Leitão, o desginer fodão que foi mentor e me ajudou a reestabelecer a auto-estima, que narro no começo desse texto. Há males que vem para bem.

Frilei feliz atendendo nomes grandes em parceira com o Cássio. Pagavam bem e assim pude montar minha infra completa com um Mac G3 que na época custou 12 mil reais e foi a vista.

Para retornar a uma empresa como funcionário a coisa que mais precisava era de autonomia. Boa ou excelente reputação na faculdade fez de novo o meu professor de planejamento, então diretor de graduação de comunicação me indicar para uma nova empresa, aquele que me deu total autonomia, até negociar que não fosse registrado porque achava um absurdo o tanto que entregávamos para o governo. Queria tudo no meu bolso.

Nasci geração X, mas hoje vejo que tenho uma alma Y quando o assunto é trabalho.

Tão Y que foi a autonomia e a sensação de estar no mesmo nível que todos nessa última empresa que me segurou um pouco mais de um ano. Não estava nem aí para o futuro e queria viver reconhecimentos no hoje.

Pulei de lá para cá sulgando tudo ou pelo menos o de melhor que as empresas me ofereciam. Fazia meu trabalhinho de design, mas me chamava a atenção a maneira que cada chefe lidava com suas empresas, funcionários e equipe. Gostava te entender processos, de participar de reuniões e atender clientes.

Pulei de cá pra lá e estou hoje na mesma empresa há 12 anos. A minha. Com 23 anos e com a mesma energia, fé ou ingenuidade comecei meu próprio negócio achando que fosse conquistar o mundo, enriquecer em meses e me superar todos os dias. Com os mesmos 23 também tirei para fora a minha sexualidade e foi num turbilhão: em meses, amigos, sócio, funcionários saberiam da minha sexualidade assim: “então, sou gay. Vamos continuar nossos afazeres?”.

Fui gay, doesse a quem doesse. Sou gay e das expectativas de uma empresa própria com meus virgens 23 anos, não conquistei o mundo, não enriqueci em meses mas aprendi definitivamente a me superar todos os dias. Ter empresa própria é lidar com necessidades previstas e imprevistas e não ter chefe ou mentor para assegurar e dizer como fazer. Era eu, meu sócio e Deus (rs).

A fé foi tamanha que estou aqui. O professor de planejamento, que virou diretor ban ban ban da ESPM virou também cliente. O primeiro chefe da agência de comunicação virou parceiro com a maior agência de São José dos Campos. O sócio original não está mais presente, mas os dois funcionários que mais resistiram as batalhas estão no contrato social. Em 12 anos descobri que mais importante que ser uma empresa numerosa é que na razão de números que saem para pagar as contas e números que entram de novos projetos o saldo precisa ser o mais gordo possível. Grosseiramente, quando o assunto é finanças, é assim que funciona.

Quando o assunto são negócios, o lastro deve ser de pessoas, parceiros e uma consciência absoluta de que o que vendemos é segurança e nada mais.

Segurança que venho adquirindo por ser gay, dono de micro empresa há 12 anos, gestor de equipe, líder de pequeno negócio que vende grandes ideias todos os dias quando entro na “casa” dos clientes. Acredito tanto no que faço que convenço, ou pelo menos acredito!

No meu caso, ser gay e ser homem está tudo misturado. Mas confesso que já é assim há tanto tempo que nem lembro que ser gay em relações de trabalho pode ser questão.

 

Família ê de gay, família á de lésbica…

Por Ela:

Sexta-feira dia 15 se iniciou um novo ciclo na vida vida.

Passava a manhã toda preguiçosa enrolada na minha namorada quando o telefone tocou e a notícia mais bizarra saiu do outro lado da linha: alguém que sequer existia, morrera. Como se não bastasse esse tranco, exatos 11 meses separaram o fato da notícia.

Bizarríssimo, ainda me pergunto se isso tudo poderia ser mais estranho.

Precisava explodir, pensar, pensar, pensar… Fiz minha pereguinação no trânsito dividindo a história com amigas queridas que conhecem tão bem esse meu passado, lavando a bronca na chuva, chorando cântaros, procurando briga entre ladrões, os mendigos, tentando encontrar razão e saída. Uma semana depois, já com certo controle das emoções fui atrás da minha infância querida, procurar razões pra erguer a cabeça e seguir.

Como nas vésperas de Natal, quando podia pensar com clareza e refletir minha vida na época do deslumbramento, minhas energias se renovaram incrivelmente. Era como estar no porto seguro de novo. Não pude falar tudo. Também não pude chorar. Mas me sentir à volta de pessoas que me querem bem “no matter what”, era tudo o que eu precisava. Passar por lugares que me remetiam às lembranças das minhas férias de infância, notícias da professora do jardim, o olhar carinhoso, o abraço afetuoso.

A família tem esse poder na gente. Te destrói, e te recompõe. Pessoas diferentes, que fique bem claro.

A tal notícia encerrou um ciclo de longa espera na minha vida. Por mais brutal que tenha sido pra mim, foi fundamental pra colocar um grande ponto final numa débil esperança de resignação e reconciliação. Ao mesmo tempo que a forma com que veio e o tempo que demorou pra chegar, lacraram de vez qualquer possibilidade de transferência desse sentimento para outras pessoas.

Eu vou podendo respirar mais leve e me recarregando aos poucos. Até posso refletir com mais clareza sobre as consequências de todos os traumas que essa pessoa que se foi me infringiu, e trazendo isso pra Ela de hoje, vou querendo descobrir as raízes do comportamento das minhas relações.

Se tem sempre uma coisa boa em tudo, abrir uma porta pra outras possibilidades é fenomenal, mesmo que seja duro. Estou nessa página esses dias. Tentando interferir mais no meu destino tomando conhecimento de atitudes que eu tomo intuitivamente e em referêncas malucas que minha mente infantil incrustou lá no fundo da minha consciência.

Desde esse episódio eu tenho tentado escrever, mas minha cabeça vitrola quebrada não saia dessa faixa. De repente escrever é muito libertador mesmo.

Nessa história não tem nada de sapatão, gay, lésbicas. O que me separou desse lado da minha família não foi minha orientação sexual. Mas achei que cabia muito bem refletir tudo isso aqui, porque quando mais navego por este universo noto histórias mal resolvidas, obscuras, difíceis com os pais e a família.

O clichê mais clichê de todos os clichês, a família é a base de tudo, fica martelando na minha cabeça. Numa nota só, como as torturas. O poder que essas pessoas tem de nos influenciarem, moldarem nosso caráter e nossas atitudes às vezes é muito maior que gostamos de admitir.

Para o bem e para o mal, famílias são feitas de todas as cores do arco-íris mesmo sem vermos isso o tempo todo. Me reconcilio com a minha, já não sem tempo e com muito esforço pra genuinamente aceitar a herança que ela me impõe.

Essa família que trago pra perto de novo me recebe de braços abertos a despeito da minha gayzisse. Engraçado, porque era dela que eu tinha mais medo. Por milhares de motivos, os julguei e fugi deles na descoberta da minha sexualidade. E veja só que ironia. São justamente os que se mostram mais acolhedores num dos momentos mais difíceis da minha vida.

É isso, pessoas. Minha vida caixinha de pandora fazendo cair meus paradigmas uma vez mais.

Por Ele:

Depois de dois anos e meio de namoro, ou quase isso, tenho feito um balanço novo. Quando tive a primeira família de um namorado existia uma vontade muito grande de ser aceito, de fazer parte, de integrar e de ser querido. Existia uma vontade de ter cunhados, cunhadas, sogro, sogra e todas as variantes que vinham no pacote. Outrora, precisava me provar que um homem seria capaz de criar um relacionamento por outro homem. Depois, que um casal gay poderia ser incluso naturalmente numa família, casado.

A minha própria família é pequena. Tios, primos estão cada um num canto do Brasil e os que estão por perto se vêem pouco. Família, para mim, é mãe, pai e irmão, nas qualidades e defeitos que esse modelo traz e que por muitas vezes critiquei por ser tão resumido a nós, longe de um convívio mais amplo que é bastante comum em outras famílias e que me soavam tão encantadoras como referência.

Família pequena é a minha, mãe bastante presente, pai num reencontro comigo e vice-versa e irmão virando gente grande a distância. O balanço novo tem me apresentado virtudes nesse modelo. Não existem fofocas, não existem rivalidades entre primos e tão pouco o espírito de hiprocisia, das panelas que falam mal uma das outras e quando estão juntas são sorridentes.

Família pequena para sobreviver junta precisa de muita lealdade e transparência. Seja para as convergências que são rapidamente absorvidas, seja para as divergências que se escancaram em discussões, debates, exercício de senso crítico mas que no final, doa a quem doer, precisa chegar num acordo. Pelo menos, esse modelo aberto de “lavagem de roupa suja” foi algo que batalhei para ter com meus pais superando os medos, facilmente conquistado com a minha mãe pela sintonia despida e autêntica para comigo, ou trabalhoso como foi com meu pai cuja personalidade e falta de resoluções pessoais o fazem ou faziam bastante inseguro quando o assunto tange ou tangia a humanidade de si e perante sua esposa e filhos.

Em outras palavras, minha mãe é essencialmente humana e precisou se desumanizar pontualmente para chegar numa maturidade resolvida e conquistada. Meu pai seguiu pelos trilhos da desumanidade se acovardando diante muitos desejos e sinais que a vida lhe apresentava, assumiu a vida toda um personagem de quem trazia o sustento e definia as regras do jogo (nem ele mesmo compreendendo a fundo porque seguia essas regras herdadas) para hoje trabalhar um resgate de sua humanidade, modestamente tendo-me como uma espécie de guia de segurança para poder afrouxar o nó e perceber que dá para ser feliz, homem e em paz consigo mesmo sem precisar assumir todos os dias uma linha dura, do eterno pai que tinha que impor valores, muitos deles sem saber exatamente o por quê.

Todo esse novo padrão foi um processo batalhado. Os meios não foram os mais prazerosos, tiveram decepções, frustrações, jogos psicológicos e emocionais, ameaças de expulsões e terapia para sairmos dos vícios de relacionamento, aprendermos, chegarmos amadurecidos e mais conscientes do que representamos hoje uns aos outros, sem máscaras ou perfis sociais do tipo “papel de pai”, “papel de mãe”, “papel de filho” ou “papel de família”. Conquistamos nossas independências sem perder a ternura.

Meu irmão nessa história toda preferiu se ausentar e quando nos reencontramos tende a fazer o mesmo jogo que joga há 30 e poucos anos com eles. Não é o tipo que aceita conselhos quando não pede por conselhos. Tem lá seus excessos e loucuras herdados. Mas quem não tem? Espero, com muitas forças, que ele não repita os modelos de papai, mas também não posso fazer muita coisa além de torcer.

Nessa história, de rever valores perante meus pais, minha posição como integrante e suas posições como pais, neguei o modelo, mexi aqui e ali, provoquei e gerei conflitos. Fui a ovelha negra da Rita Lee para o horror de muitos pais! =P

Fui buscar nas famílias de meus namorados outras referências, das famílias grandes e próximas, das famílias médias e dos “sem família” para olhar de novo para a minha e perceber hoje que é nela que me encontro ou reencontro quando preciso. Na minha família que me encontro como filho dos meus pais e eles me aceitam como o filho adulto, com meus próprios valores sem precisar me poupar de nada, sem ressentimentos ou feridas que não cicatrizaram.

Os meios não foram fáceis, mas foram fundamentais para chegarmos onde chegamos sem ter receio de cutucar em feridas abertas. Aprendi na minha família que preservar feridas abertas dá mais chances de encolhermos a alma.

 

 

O simpatizante da vida de uma lésbica ou de um gay

Por Ela

Todo mundo que vive no armário em alguma área da vida já se arrepiou de medo ao cruzar por acaso com algum colega do trabalho numa festa ou ambiente gay. “Bom, se ele/ela esta nesse lugar é porque não tem problema com gays, portanto não terá problemas com o fato d’eu ser sapatão.” É sempre isso que te dizem, e você até faz uma força terrível pra acreditar, mas a verdade é que o medo de ser revelada antes de estar preparada pra fazer isso é amedrontador.

E aquela pulguinha atrás da orelha não a deixa em paz o resto do tempo. Eu bem que tento parecer natural, quem sabe essa santa pessoa vai achar que eu, assim como ela, estou ali por estar acompanhando um amigo gay. Ai você lembra que esta usando aquela sua regata branca com o raiban pendurado, combinando perfeitamente com seu corte de cabelo, te denunciando sem deixar duvida que se trata de uma genuína sapatão. Pra completar, as pessoas te tratam com intimidade e está bem claro que você não está ali só de passagem. Aí então os olhares que aquela pessoa te lançam parecem caçoar do seu segredo. Ela vem toda sorridente na sua direção e você só quer um buraco pra desaparecer. Talvez ela tenha dito apenas “Oi, tudo bem?”, mas você já não ouve mais nada tamanha a sua tensão. A pessoa desaparece, você fica com uma bebida a mais e com a certeza de que a história não acaba por aí.

Mas afinal de contas esse medo tem algum fundamento? Viver escondida sempre gera uma tensãozinha, e é bem possível mesmo que o medo constante de sermos desmascaradas acabe nos exagerando muita coisa. Mas a questão é que tem sempre uma razão pra esse medo: preservar nossas vidas profissionais ou familiares, fugir da violência, evitar confronto, ou mesmo não encarar nossos problemas mais íntimos de aceitação.

Qualquer que seja a razão, se estamos no armário, é porque ainda não estamos prontas pra sair e ninguém tem o direito de precipitar isso. E o simpatizante que cruza com você na cena gay, será que ele/ela vai ter a sensibilidade e o compromisso com essas suas questões pessoais? Se essa pessoa não é um amigo seu, o que a impediria de comentar sobre a descoberta do fim de semana? Na verdade nada a impede, e talvez até algo a motive a fazer isso. Esse cara pode ser aquela maldita pessoa descoladinha que não entende porque você precisa se esconder, e acha tudo isso uma bobagem. Ou pior ainda, achar que a fofoca é inofensiva. Muitas vezes não se contém de euforia pra contar pra alguém que o sujeito sério do jurídico é na verdade uma bichona.

É claro há exceções a essa regra, mas a verdade é que heteros não tem compromisso com as limitações de uma vida vivida em parte num armário. Nem heteros, nem desconhecidos, nem desafetos, ninguém além da única pessoa que te colocou nessa situação: você mesmo. E o importante nessa historia toda é se resolver pra poder administrar melhor situações como estas. Quem sabe você não se surpreende descobrindo “colegas” disfarçados de hétero ou, melhor ainda, descobre que estava fazendo uma tempestade num copo d’água. Saiba que não tem sensação de maior leveza do que tirar esse peso das costas.

Por Ele

Lembro com bastante saudade dos primeiros anos do “came out” com 23 ou 24 anos e ainda existia o Allegro Bar, local que costumava bater cartão com meu primeiro namorado e levava meus amigos heterossexuais, meninos e meninas, para entender ou compartilhar um pouco mais da minha realidade que fazia alguns meses que tinha acabado de relevar.

Foi no final de uma balada “HT” no Enfarta Madalena, quando eu e o grupo de amigos do colegial estávamos literalmente na sarjeta, esperando o manobrista trazer nossos carros, que encosto no ombro de uma amiga, semi-bêbado e digo: “então, preciso te contar uma coisa”.

E a minha amiga meio mal humorada com a demora para chegar os carros responde monossilábica: “que foi?”

Eu: “então… sou gay”.

Ela: “Ah, tá”.

Desse diálogo objetivo e esclarecedor (rs) fomos comer algo em algum Fran’s Café e todos já estavam cientes da nova verdade que virou assunto por horas. Com muita coragem, ou entusiasmo ou até mesmo uma falta de noção acreditava que todos meus amigos passariam a ser simpatizantes inatos. E parece que deu certo.

De alguma forma ou muitas formas, os simpatizantes, principalmente quando em formato de amigos de adolescência, são bastante importantes para estabelecermos um contato mais seguro com a nossa realidade homossexual. Não fosse esse “despertar” com bastante simpatia e naturalidade, talvez a evolução de minha vida teria sido diferente.

A minha amiga da sarjeta não foi a primeira a saber. Antes dela, teve a “primeira pessoa de todas” que foi outra amiga, também do grupo do colegial.

Acho até natural o gay homem assumir primeiramente para amigas. Na sociedade brasileira e machista, que a priori o homem repudia coisas do “universo cor-de-rosa” pensava que meus amigos homens pudessem ter algum repúdio. Assim, preparei uma “cama mais confortável” com as amigas.

Por sorte, os amigos do grupo também lidaram com bastante tranquilidade. Obviamente vieram piadinhas. Aliás, em todos os encontros acontecia pelo menos uma piada entre os homens! Mas nada que não pudesse “descontar” em nossas noites no Allegro ou até mesmo na Ultra Lounge original na Rua da Consolação (que hoje é um mercado), quando alguma bichinha encarava algum dos amigos (rs).

A única frustração, quando comecei a me deparar com esse universo de simpatizantes próximos foi que o amigo da turma “mais gay”, com trejeitos e até gritinhos vez em quando, revelava-se como um verdadeiro heterossexual! Achava que poderia ter um companheiro de baladas! (rs)

Foi aí, nessa toada, que fui descobrindo também, além da importância dos simpatizantes, que homem afeminado nem sempre quer dizer que é gay. Não só a mim revelava-se essa verdade, mas a todos os demais amigos que não desconfiavam de mim, mas desconfiavam totalmente do amigo. Para que eles percebessem também que alguns másculos são gays. (rs)