O tipicamente feminino

Por Ela

Nosso imenso repertório de pré-conceitos é formado ao longo das nossas vivências e pela maneira como as internalizamos na nossa vida. Em cada fase do nosso amadurecimento nos predispomos de forma diferente com o que a vida nos apresenta.

Num exemplo bem simples, uma criança de 2 anos pode interpretar um fato simples como a saída dos pais para o trabalho como um abandono atroz. Anos mais tarde, poderia até desejar que eles saiam logo para poder explorar em paz seu quintal.

É assim tão única a formação de nosso caráter, que não se pode dizer que dois irmãos criados juntos compartilhem os mesmos valores.

Mas mesmo com todas essas possibilidades de pessoas que podemos ser dada à nossa experiência pessoal, há algo mais arraigado nos nossos costumes que também permeia nossas formas de expressão e até os nossos sentimentos. Me refiro às questões morais, valores sociais, o bem comum.

Anos de convívio social criaram relações complexas entre as pessoas e os grupos sociais, permeadas por valores nem sempre claramente expostos, mas certamente bem inteligíveis a todos.

No meio disso tudo estão os “comportamentos tipicamente femininos e masculinos”. Por muito tempo e até hoje se tenta reforçar certa ordem vigente associando esses “tipicamente isso ou aquilo” à fisiologia, à capacidade física, intelectual, à genética, entre outros. Como se se criasse uma razão superior para que nada fosse desafiado.

Controversamente o mundo cria os desafios e nos propõe outras respostas. Como a guerra que tornou o homem rico, um reforço óbvio à manutenção do poder masculino vigente, também impulsionou as mulheres ao mercado de trabalho. Este fato simples criou condições para tantas outras mudanças, que poderíamos ficar horas debatendo suas consequências.

A questão é que numa velocidade ou outra, desde que vivemos em sociedade estamos nos adaptando algo novo, nos redescobrindo e reinventando normas. Entretanto no meio disso tudo algo parece sobreviver sobremaneira aos tempos, e esse é o tal do “coisa de mulher” / “coisa de homem”.

Os termos e a intensidade variam, mas sabemos que trazemos esses valores de um jeito ou de outro, mesmo nós homossexuais que temos por princípio questionar a ordem vigente para que caibamos nela.

Sabemos disso quando discretamente nos surpreendemos com um homem dono de casa, ou uma mulher pilotando um avião.

Intrinsecamente, mesmo não querendo, trazemos o conceito do tipicamente feminino/masculino dentro de nós. E acredito que não nos deixamos influenciar menos por isso pelo fato de sermos lésbicas ou gays.

É claro que prestamos atenção nisso até para podermos protestar por outros lugares, mas se chegamos mais perto das pessoas, vamos ver que em nossas relações mais íntimas ainda tentamos reproduzir o tal “tipicamente”.

Na dicotomia do sexo, as pessoas ainda procuram exercer os tais papeis do homem e da mulher. É assim no sexo, na provisão do lar, e em tantas outros momentos. As relações lésbicas, por exemplo, não se pautam tanto numa sociedade formada por pessoas que contribuem com igualdade, mas sim em uma reprodução do padrão feminino/masculino tal como vivido pela geração dos nossos pais.

Menos com os tomates! É claro que o equilíbrio também é dinâmico e por vezes uma característica, uma afinidade vai determinar um comportamento mais masculino ou feminino numa determinada situação. Nem por isso pode-se dizer que se estabelece uma situação do “tipicamente”.

Mas o fato é que essa divisão cartesiana de gêneros aparece muito claramente em casais de lésbicas. Há sempre uma delas querendo dominar ou prover, e a outra querendo ser amparada enquanto cuida dos afazeres. Basta colocá-las em posições trocadas para perceber o desconforto e a tensão.

E o que é isso senão uma tentativa de reprodução do mecanismo já conhecido de papai e mamãe, onde se sabe claramente o que esperar do outro.

Gostaria de dizer que o “tipicamente” talvez nem exista tanto mais, já que vivemos hoje numa transição de gêneros, onde cada um procura seu novo lugar à medida que os valores vão se reconfigurando e as coisas se reordenando.

A autonomia da mulher, o individualismo, as novas famílias, tudo isso e muito mais questiona e remexe tudo até que não saibamos mais com tanta clareza o que hoje é “tipicamente masculino ou feminino”.

Mas nós como humanidade devemos ter mesmo muita preguiça dessa reinvenção toda, porque estamos sempre tentando ocupar o lugar pré-definido, e não criando nosso próprio espaço. Renegociar tudo isso novamente a cada relação é exaustivo obviamente.

Avessas às mudanças como todo o resto, acho que nós lésbicas ficamos aqui tentando chacoalhar o mundo ainda querendo vivendo como nossos pais.

 

Por Ele

Sou tipicamente feminino porque gosto de discutir a relação.

Sou tipicamente masculino porque trabalho 14h por dia como os homens work-a-holics.

Sou tipicamente feminino pois deixo fluir a minha intuição.

Sou tipicamente masculino porque passo tranquilamente por um heterossexual.

Sou tipicamente feminino por acreditar que homens canalizam muita coisa no sexo.

Sou tipicamente masculino por gostar de carros e não me interessar por novela.

Sou tipicamente feminino pois minha necessidade de carinho e atenção é assumida.

Sou tipicamente masculino porque ando com uma preguiça danada em cultuar meu corpo.

Sou tipicamente feminino porque me afeiçoo por astros, cartas de tarô e Chico Buarque.

Sou tipicamente masculino porque gosto de videogame até hoje.

Sou tipicamente feminino, ultimamente, em quatro paredes.

Sou tipicamente masculino porque as questões das mulheres sobre os homens me cansam.

Sou tipicamente feminino quando canso do meu eu masculino.

Sou predominantemente masculino e descobri que adoro meu eu feminino!

 

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Família ê de gay, família á de lésbica…

Por Ela:

Sexta-feira dia 15 se iniciou um novo ciclo na vida vida.

Passava a manhã toda preguiçosa enrolada na minha namorada quando o telefone tocou e a notícia mais bizarra saiu do outro lado da linha: alguém que sequer existia, morrera. Como se não bastasse esse tranco, exatos 11 meses separaram o fato da notícia.

Bizarríssimo, ainda me pergunto se isso tudo poderia ser mais estranho.

Precisava explodir, pensar, pensar, pensar… Fiz minha pereguinação no trânsito dividindo a história com amigas queridas que conhecem tão bem esse meu passado, lavando a bronca na chuva, chorando cântaros, procurando briga entre ladrões, os mendigos, tentando encontrar razão e saída. Uma semana depois, já com certo controle das emoções fui atrás da minha infância querida, procurar razões pra erguer a cabeça e seguir.

Como nas vésperas de Natal, quando podia pensar com clareza e refletir minha vida na época do deslumbramento, minhas energias se renovaram incrivelmente. Era como estar no porto seguro de novo. Não pude falar tudo. Também não pude chorar. Mas me sentir à volta de pessoas que me querem bem “no matter what”, era tudo o que eu precisava. Passar por lugares que me remetiam às lembranças das minhas férias de infância, notícias da professora do jardim, o olhar carinhoso, o abraço afetuoso.

A família tem esse poder na gente. Te destrói, e te recompõe. Pessoas diferentes, que fique bem claro.

A tal notícia encerrou um ciclo de longa espera na minha vida. Por mais brutal que tenha sido pra mim, foi fundamental pra colocar um grande ponto final numa débil esperança de resignação e reconciliação. Ao mesmo tempo que a forma com que veio e o tempo que demorou pra chegar, lacraram de vez qualquer possibilidade de transferência desse sentimento para outras pessoas.

Eu vou podendo respirar mais leve e me recarregando aos poucos. Até posso refletir com mais clareza sobre as consequências de todos os traumas que essa pessoa que se foi me infringiu, e trazendo isso pra Ela de hoje, vou querendo descobrir as raízes do comportamento das minhas relações.

Se tem sempre uma coisa boa em tudo, abrir uma porta pra outras possibilidades é fenomenal, mesmo que seja duro. Estou nessa página esses dias. Tentando interferir mais no meu destino tomando conhecimento de atitudes que eu tomo intuitivamente e em referêncas malucas que minha mente infantil incrustou lá no fundo da minha consciência.

Desde esse episódio eu tenho tentado escrever, mas minha cabeça vitrola quebrada não saia dessa faixa. De repente escrever é muito libertador mesmo.

Nessa história não tem nada de sapatão, gay, lésbicas. O que me separou desse lado da minha família não foi minha orientação sexual. Mas achei que cabia muito bem refletir tudo isso aqui, porque quando mais navego por este universo noto histórias mal resolvidas, obscuras, difíceis com os pais e a família.

O clichê mais clichê de todos os clichês, a família é a base de tudo, fica martelando na minha cabeça. Numa nota só, como as torturas. O poder que essas pessoas tem de nos influenciarem, moldarem nosso caráter e nossas atitudes às vezes é muito maior que gostamos de admitir.

Para o bem e para o mal, famílias são feitas de todas as cores do arco-íris mesmo sem vermos isso o tempo todo. Me reconcilio com a minha, já não sem tempo e com muito esforço pra genuinamente aceitar a herança que ela me impõe.

Essa família que trago pra perto de novo me recebe de braços abertos a despeito da minha gayzisse. Engraçado, porque era dela que eu tinha mais medo. Por milhares de motivos, os julguei e fugi deles na descoberta da minha sexualidade. E veja só que ironia. São justamente os que se mostram mais acolhedores num dos momentos mais difíceis da minha vida.

É isso, pessoas. Minha vida caixinha de pandora fazendo cair meus paradigmas uma vez mais.

Por Ele:

Depois de dois anos e meio de namoro, ou quase isso, tenho feito um balanço novo. Quando tive a primeira família de um namorado existia uma vontade muito grande de ser aceito, de fazer parte, de integrar e de ser querido. Existia uma vontade de ter cunhados, cunhadas, sogro, sogra e todas as variantes que vinham no pacote. Outrora, precisava me provar que um homem seria capaz de criar um relacionamento por outro homem. Depois, que um casal gay poderia ser incluso naturalmente numa família, casado.

A minha própria família é pequena. Tios, primos estão cada um num canto do Brasil e os que estão por perto se vêem pouco. Família, para mim, é mãe, pai e irmão, nas qualidades e defeitos que esse modelo traz e que por muitas vezes critiquei por ser tão resumido a nós, longe de um convívio mais amplo que é bastante comum em outras famílias e que me soavam tão encantadoras como referência.

Família pequena é a minha, mãe bastante presente, pai num reencontro comigo e vice-versa e irmão virando gente grande a distância. O balanço novo tem me apresentado virtudes nesse modelo. Não existem fofocas, não existem rivalidades entre primos e tão pouco o espírito de hiprocisia, das panelas que falam mal uma das outras e quando estão juntas são sorridentes.

Família pequena para sobreviver junta precisa de muita lealdade e transparência. Seja para as convergências que são rapidamente absorvidas, seja para as divergências que se escancaram em discussões, debates, exercício de senso crítico mas que no final, doa a quem doer, precisa chegar num acordo. Pelo menos, esse modelo aberto de “lavagem de roupa suja” foi algo que batalhei para ter com meus pais superando os medos, facilmente conquistado com a minha mãe pela sintonia despida e autêntica para comigo, ou trabalhoso como foi com meu pai cuja personalidade e falta de resoluções pessoais o fazem ou faziam bastante inseguro quando o assunto tange ou tangia a humanidade de si e perante sua esposa e filhos.

Em outras palavras, minha mãe é essencialmente humana e precisou se desumanizar pontualmente para chegar numa maturidade resolvida e conquistada. Meu pai seguiu pelos trilhos da desumanidade se acovardando diante muitos desejos e sinais que a vida lhe apresentava, assumiu a vida toda um personagem de quem trazia o sustento e definia as regras do jogo (nem ele mesmo compreendendo a fundo porque seguia essas regras herdadas) para hoje trabalhar um resgate de sua humanidade, modestamente tendo-me como uma espécie de guia de segurança para poder afrouxar o nó e perceber que dá para ser feliz, homem e em paz consigo mesmo sem precisar assumir todos os dias uma linha dura, do eterno pai que tinha que impor valores, muitos deles sem saber exatamente o por quê.

Todo esse novo padrão foi um processo batalhado. Os meios não foram os mais prazerosos, tiveram decepções, frustrações, jogos psicológicos e emocionais, ameaças de expulsões e terapia para sairmos dos vícios de relacionamento, aprendermos, chegarmos amadurecidos e mais conscientes do que representamos hoje uns aos outros, sem máscaras ou perfis sociais do tipo “papel de pai”, “papel de mãe”, “papel de filho” ou “papel de família”. Conquistamos nossas independências sem perder a ternura.

Meu irmão nessa história toda preferiu se ausentar e quando nos reencontramos tende a fazer o mesmo jogo que joga há 30 e poucos anos com eles. Não é o tipo que aceita conselhos quando não pede por conselhos. Tem lá seus excessos e loucuras herdados. Mas quem não tem? Espero, com muitas forças, que ele não repita os modelos de papai, mas também não posso fazer muita coisa além de torcer.

Nessa história, de rever valores perante meus pais, minha posição como integrante e suas posições como pais, neguei o modelo, mexi aqui e ali, provoquei e gerei conflitos. Fui a ovelha negra da Rita Lee para o horror de muitos pais! =P

Fui buscar nas famílias de meus namorados outras referências, das famílias grandes e próximas, das famílias médias e dos “sem família” para olhar de novo para a minha e perceber hoje que é nela que me encontro ou reencontro quando preciso. Na minha família que me encontro como filho dos meus pais e eles me aceitam como o filho adulto, com meus próprios valores sem precisar me poupar de nada, sem ressentimentos ou feridas que não cicatrizaram.

Os meios não foram fáceis, mas foram fundamentais para chegarmos onde chegamos sem ter receio de cutucar em feridas abertas. Aprendi na minha família que preservar feridas abertas dá mais chances de encolhermos a alma.