Gays e lésbicas – Quem tem medo da solidão?

Por Ele

Já brinquei com Ela e disse: “no futuro vou abrir uma ‘Casa de Repouso LGBT’. Teremos centenas de idosos gays, classe média e alta, para um convívio mútuo buscando desviar da solidão!

Até meus 23 anos me sentia muito sozinho. Embora estar só e solidão tenham diferenças sutis, enquanto não assumia minha homossexualidade, a parcialidade que apresentava para meus amigos, pais e a mim mesmo, me reservava noites solitárias, atrás de meus CD’s ou filmes prediletos. Eram horas a fio numa compulsão de devorar música e cinema.

Fui notar que todo esse padrão de comportamento me dava medo – pela solidão existente – depois que terminei meu primeiro namoro gay. Voltar para aquele estado de “estar só” era aterrorizante.

Fui aprendendo a encontrar mais pessoas, a frequentar novos lugares e me propiciar uma dinâmica de vida longe dessa solidão. Casei, descasei e namorei de novo. Até bem pouco tempo atrás uma boa cota de estar com alguém era para não estar sozinho. Só que depois dos 30 anos, a mim, essa cota mudou.

Hoje, present day, já entendi bastante o que é estar só com ou sem namorado. É aquela coisa que muitos dizem por aí: “você pode se sentir só mesmo estando com alguém”. E pode mesmo! Assim como pode estar sozinho e conviver bem com a solidão.

Pra mim, a solidão é algo relacionado à alma e algo para se preparar com o passar dos anos. Não dá para achar que hormônios e cirurgias plásticas podem segurar a nossa juventude para o resto da vida. É preciso plantar e cultivar o espírito de jovialidade dentro da gente desde cedo e, creio eu, não temer o envelhecimento.

Quando tinha 20 e poucos anos achava que ter 30 era muito velho. Hoje com 35 anos imagino que com 40 será diferente e, assim, sucessivamente. Quando somos jovens projetamos a maior idade como algo “ruim”, da falta da vitalidade e das limitações. Mas será que essas projeções funcionam ou dizem respeito a uma verdade?

Vejo meu pai e minha mãe com seus 71 e 65 anos encaram essa fase com naturalidade. Está certo que ambos se bastam um ao outro. Mas será que não teremos com quem nos bastar como gays e lésbicas? De alguma maneira precisamos resolver qualquer problema de solidão. A necessidade faz a ocasião e Eu e Ela não seremos os únicos gay e lésbica respectivamente, velhos, encardidos e mal amados!

Por isso acho que esse medo de ser velho, em parte, é coisa de projeção. Projetamos enquanto jovens uma velhice solitária, como a velha viúva vizinha que não sai mais de casa e costuma deixar a casa repleta de lembranças. Ou o vovô vizinho adoentado que usa muleta e não tem mais ninguém.

De fato, todos temos medo da solidão em alguma medida. E esse medo nos acompanha mesmo antes da velhice. Conciliar maior idade, solidão e homossexualidade faz parte de nossa realidade que a gente nunca quer lembrar (ou não).

 

Por Ela

É amiguinho, solidão é um fantasma do futuro. Do meu pelo menos.

Eu, como você, também vivi momentos de solidão desde menina. Eu tinha uma sensação muito nítida de que tinha que ser resposável por mim, e desenvolvi uma auto-suficiencia e um senso de auto-proteção grandes, me protegendo e isolando dos outros.

A insegurança que eu sentia com a minha sexualidade só serviu pra potencializar ainda mais essa característica minha. Na adoslescencia me escondi num personagem criado pra não mostrar pros outros a minha timidez e inexperiencia. Então fazia de conta que os assuntos mais picantes eram muito naturais, e adotei uma postura bastante sarcástica.

Bom, escapei de fazer a boba, mas acabei me fechando em mim mesma. As pessoas tem uma dificuldade grande em se abrir e dividir coisas com uma pessoa sarcástica, rs…

Eu me acostumei tanto a esta solidão, que mesmo estando sempre cercada de amigos, me sentia inteiramente responsável pela minha felicidade, e não dividia nada íntimo ou pessoal com ninguém. Literalmente uma ilha cercada de gente por todos os lados.

Na escola estava no grupo das meninas e circulava por todos os outros grupos sem problemas. Conversava com todo mundo, influenciava alguns. Na rua era a líder da gangue, estava em todas.

Na faculdade todos me conheciam, era vista como despojada e desprendida. Tomei liderança em várias coisas, parecia uma pessoa muito segura. E gostava muito dessa imagem que eu projetava.

Em São Paulo, continuei conhecendo gente por um tempo. Depois meu gelo foi derretendo, eu acho. O personagem foi cansando, e comecei a curtir ficar só. E não se engane, porque nunca passei essa solidão entre as paredes do meu cafofo.

Saia pra fazer as minhas coisinhas, pra curtir a cidade, as festas, cinema, jantares. Me sentia tão à vontade comigo mesma, que pouco importava se havia outras pessoas ou não nos meus programas. Eu decidia o roteiro e quem quisesse que acompanhasse.

Imaginem a minha vontade de mergulhar num relacionamento nesta época e discutir concessões! Impensável. Eu tava curtindo minha solidão em grande estilo, e isso me bastava.

Até que um belo dia a princesa, que nem sabia que tinha perdido o sapatinho, tropeçou. Tem algumas coisas que marcam a nossa vida a ponto de ser um divisor de águas, meu primeiro envolvimento amoroso foi assim.

Como uma brincadeira, uma aventura pra contar pros netos, tudo começou leviano. Aí abri os olhos e lá estava eu, uma pessoa mudada e perdida. Um grande clichê mesmo. Esse relacionamento, sem nem isso ser de verdade, foi uma mudança de rumo na minha vida.

Com ele troquei sonhos de explorar o mundo lá fora, por explorar o meu mundinho aqui dentro, e também abri as portas pra outras pessoas entrarem de verdade na minha intimidade. E olha, ninguém morreu. Hoje estou aqui falando esse monte de coisas a pessoas que nem sei que rosto tem. Mas veja que falo muito sem dizer tanto 😉

Acho que sempre serei fechada e poucos vão chegar muito mais fundo. Mas me permitir envolver e deixar alguns ficarem mais íntimos  meio que me mostrou uma forma muito bacana de viver. E tudo que é bacana se quer perpetuar, não é assim.

Preservar um tempo a sós consigo mesmo é muito saudável. Mas a possibilidade de estar só o tempo todo me arrepia. Compartilho com Ele que quando encaramos de maneira natural, as coisas doem bem menos ou quase nada. Mas haja mind-set pra desenvolver essa relação com uma possível solidão, viu!

É bem capaz de aceitar a sua proposta do lar de velhas bixas e sapatões usadas só pra ter gente por perto 🙂

 

Advertisements

A sapatão optou pela carreira. O gay, pela autonomia

Por Ela

Ela se acabou de trabalhar em horas extras muito mal pagas. Desenvolveu habilidades. Enfrentou desafios. Engoliu sapos. Aceitou feedbacks com os quais não concordava. Mais sapos. Trabalhou em condições difíceis. A cada novo projeto um novo cliente, um novo time, um novo chefe. Personalidades e estilos diferentes, uma variedade imensa de peças pra lidar. Ela se “acamaleou”, adaptando-se aqui e ali, e se moldando à Empresa.

Espelho, espelho meu, ninguém é mais acomodada do que eu!

Deixei meu barco correr bem solto, e só agora depois de 13 anos na estrada, penso e me planejo para o futuro. Só posso achar que sou incrivelmente acomodada, porque fiz isso mesmo sendo minha carreira notoriamente exaustiva. Vivo numa constante roda-viva, sob pressão, prazos absurdos, cobranças de todos os lados, inúmeras variáveis novas, desinformação, despreparo, riscos… E mesmo com tudo isso, minha carreira teve que tomar conta dela mesma.

Nunca, nunca, nunca na zona de conforto. Aliás, aprendi que não se cresce na zona de conforto. É preciso ter desafios, desossá-los, comê-los com farinha, andar sobre as águas, dar 3 voltinhas flutuando no ar. Só aí, e se ninguém der 4 voltinhas, você tem os merecidos louros da glória sem “poréns” ou descontos. Meus chefes mais doces costumam chamar isso de “a cenoura da frente”. Aquele prêmio ilusório que faz com que os coelhinhos corram até a exaustão.

Talvez por não acreditar tanto nas pequenas “cenouras da frente”, tive a paciência e o estômago para seguir em frente. Eu nunca fui “top performer” de absolutamente nada. Acho imbecil o conceito americano de no 1. Na escola, preguiçosa, só estudava pra 2ª prova. Tenho paúra de planejar meu dia. Enfim, eu tinha tudo pra ter tido uma longa carreira de 2 meses e acabar apertando grampeador em alguma copiadora.

Mas, contraditoriamente, não comprar as “empresísses” me segurou na empresa numa matemática muito simplória: menos expectativas, menos desilusões. Como os louros não me fascinavam tanto, os tombos não me agrediam tanto também. Ia passando pelos perrengues e me fortalecendo com o que aprendia enquanto colegas mais competentes se exauriam pela angústia. Paciência, seu nome é carreira.

Como só sei produzir sob pressão, precisava mesmo desse ambiente pra me desenvolver. Sempre perguntei para o espelho de manhã do balanço entre os sapos e os louros. Os sapos sempre se explicaram como um mal necessário. Os louros, traduzia e traduzo até hoje em desenvolvimento profissional. Enquanto estiver me desenvolvendo, está valendo a pena.

E onde está a minha sexualidade nisso tudo? Pois é, não está. Ela não tem nada a ver com a minha carreira, nadinha mesmo. E fica bem disfarçada nas camisas bonitas e sapatos de bico fino. Foi propositadamente que eu alienei o “ser lésbica” na esfera da carreira. Sentia que prejudicaria meu desenvolvimento profissional, e não estava disposta a levantar essa bandeira. De novo, acho que por pura preguiça, rs…

É claro que há gays, lésbicas, sapatões, viadinhos perambulando pelos corredores de qualquer companhia grande. E nós nos reconhecemos mais cedo ou mais tarde!

A questão aqui é como a carreira e a homossexualidade se interceptam. Eu optei por não conciliar e manter as duas completamente apartadas uma da outra. E continuo acreditando na minha escolha. Claro, válida pra minha vida, minha carreira, minha empresa.

A carreira que escolhi me impõe certas discrições, como me adaptar aos diferentes ambientes dos clientes que visito. Ser meio camaleoa, sem pigmentação sapatão me facilita essa habilidade.

 

Por Ele

Depois de um punhado de chefias no começo da carreira, adolescente ainda na ESPM, descobri que o emprego que me trouxe mais felicidade foi o último: pelo salário, por poder atender as demandas das minhas especialidades de design, por lidar com autonomia com os parceiros de tecnologia, atender clientes como “gente grande” e ter boa liberdade para participar da produção do começo, meio e fim sem me resumir a uma baia sufocante, fazedor de desenhos legais.

Antes disso, tive a experiência de frilar um tempo em parceria com um dos designers gráficos mais conhecidos do país. O cara foi gente fina, tinha toda uma vibe de surfista, seguidor de David Carson, e de por crédito no que eu fazia, como um mentor.

Tudo começou com um estágio não remunerado no estúdio de vídeo da ESPM. Seis meses depois tive um primeiro contato com uma agência de comunicação de ex-alunos da faculdade, indicado pelo meu professor de planejamento. Seis meses depois estava dentro da empresa do Amilcare Dallevo Junior e do Marcelo de Carvalho que na época estavam tornado-se donos da Rede TV!. Oito meses depois, no começo da Internet, fui convidado por um professor de criação para fazer parte da equipe de sua empresa que estava começando a se aventurar no universo da web que, na época, era uma fronteira ainda muito desconhecida.

Foi lá que lidei com egos absurdos que colegas de trabalho, da competição idiota de uma empresa com um punhado de funcionários, do xavecar o chefe e de realidades mediocres de algumas personalidades formadas na atmosfera das grandes agências de propaganda: pura ode ao ego. Odiei, traumatizei, perdi uns quilos e fiquei mais seis meses.

Lá conheci o Cássio Leitão, o desginer fodão que foi mentor e me ajudou a reestabelecer a auto-estima, que narro no começo desse texto. Há males que vem para bem.

Frilei feliz atendendo nomes grandes em parceira com o Cássio. Pagavam bem e assim pude montar minha infra completa com um Mac G3 que na época custou 12 mil reais e foi a vista.

Para retornar a uma empresa como funcionário a coisa que mais precisava era de autonomia. Boa ou excelente reputação na faculdade fez de novo o meu professor de planejamento, então diretor de graduação de comunicação me indicar para uma nova empresa, aquele que me deu total autonomia, até negociar que não fosse registrado porque achava um absurdo o tanto que entregávamos para o governo. Queria tudo no meu bolso.

Nasci geração X, mas hoje vejo que tenho uma alma Y quando o assunto é trabalho.

Tão Y que foi a autonomia e a sensação de estar no mesmo nível que todos nessa última empresa que me segurou um pouco mais de um ano. Não estava nem aí para o futuro e queria viver reconhecimentos no hoje.

Pulei de lá para cá sulgando tudo ou pelo menos o de melhor que as empresas me ofereciam. Fazia meu trabalhinho de design, mas me chamava a atenção a maneira que cada chefe lidava com suas empresas, funcionários e equipe. Gostava te entender processos, de participar de reuniões e atender clientes.

Pulei de cá pra lá e estou hoje na mesma empresa há 12 anos. A minha. Com 23 anos e com a mesma energia, fé ou ingenuidade comecei meu próprio negócio achando que fosse conquistar o mundo, enriquecer em meses e me superar todos os dias. Com os mesmos 23 também tirei para fora a minha sexualidade e foi num turbilhão: em meses, amigos, sócio, funcionários saberiam da minha sexualidade assim: “então, sou gay. Vamos continuar nossos afazeres?”.

Fui gay, doesse a quem doesse. Sou gay e das expectativas de uma empresa própria com meus virgens 23 anos, não conquistei o mundo, não enriqueci em meses mas aprendi definitivamente a me superar todos os dias. Ter empresa própria é lidar com necessidades previstas e imprevistas e não ter chefe ou mentor para assegurar e dizer como fazer. Era eu, meu sócio e Deus (rs).

A fé foi tamanha que estou aqui. O professor de planejamento, que virou diretor ban ban ban da ESPM virou também cliente. O primeiro chefe da agência de comunicação virou parceiro com a maior agência de São José dos Campos. O sócio original não está mais presente, mas os dois funcionários que mais resistiram as batalhas estão no contrato social. Em 12 anos descobri que mais importante que ser uma empresa numerosa é que na razão de números que saem para pagar as contas e números que entram de novos projetos o saldo precisa ser o mais gordo possível. Grosseiramente, quando o assunto é finanças, é assim que funciona.

Quando o assunto são negócios, o lastro deve ser de pessoas, parceiros e uma consciência absoluta de que o que vendemos é segurança e nada mais.

Segurança que venho adquirindo por ser gay, dono de micro empresa há 12 anos, gestor de equipe, líder de pequeno negócio que vende grandes ideias todos os dias quando entro na “casa” dos clientes. Acredito tanto no que faço que convenço, ou pelo menos acredito!

No meu caso, ser gay e ser homem está tudo misturado. Mas confesso que já é assim há tanto tempo que nem lembro que ser gay em relações de trabalho pode ser questão.