Plano de vida. Quem pensa nisso hoje em dia?

Por Ele

CARPE DIEM e talvez essa seja a máxima nos dias de hoje. Mas depois que se amadurece é melhor ainda. Explico por que:

Tenho um tipo de culto pelas Gerações Millenials e Plurals. Talvez pelo fato de lidar com profissionais jovens, de 18, 19 ou 22 anos e ser constantemente bombardeado pelas suas dinâmicas e percepções de mundo. Meu sócio tem 28 e eu, com 36, levo a frente da minha microempresa desde meus 23 anos. A vida de autonomia começou muito cedo para mim e lido com bastante gente que está relativamente há pouco tempo nessa Terra (18 anos é um espirro). Incrível é perceber que essas novas gerações, principalmente os tais de Plurals, que nasceram a partir de 1995, carregam uma vontade muito forte de “virar gente grande” logo, ter a autonomia financeira e voz para conduzir seu próprios feitos. Gosto muito de tudo isso muito provavelmente por me ajudar a manter acesa o mesmo tipo de fagulha que me ilumina desde meus 23 anos. E que bom, QUE BOM MESMO, que existem jovens de 18 anos muito mais antenados do que eu, quando tinha a mesma idade.

A minha realidade homossexual e as questões que envolvem minha sexualidade não é assunto faz um bom tempo. Tampouco ter que viver o nano universo gay de São Paulo para me auto afirmar uma vez por semana sobre as vontades das minhas gayzices, de ver e ser visto. Graças ao bom Deus e uma necessidade pessoal de mudar dessa rota, me fiz focar em questões menos existenciais, egóicas ou auto afirmativas. Passei disso e a luz brilha em outros aspectos. Posso definitivamente tocar meu “plano de vida”, palavrinha estranha, digna de folhetos de planos de previdência, mas que – na prática – diz respeito a usar seus esforços e o fruto desses esforços para assuntos mais estruturais.

Assuntos estruturais são básicos mas nem todos se dão conta: sabe-se o tempo que se leva para comprar um carro? Como tenho que fazer para comprar uma casa? E se der aquela vontade súbita de viajar para o exterior e precisar de um dinheiro na hora para realizar sem insegurança? Quero mudar totalmente meu guarda-roupa e não quero sofrer para fazer o 360 graus no armário. Isso, a mim, são assuntos de autonomia. Paitrocínio é cruel depois de uma idade e não cabe de maneira nenhuma no contexto desse post de hoje.

Apesar de ser alguns anos, não faz muito tempo que o assunto era a minha homossexualidade e todo o micro universo que rodeava esse tema. Precisava comparecer na balada, morria de medo de abismos sociais, precisava contabilizar amigos, ir a restaurantes no Jardins e na Vila Madalena e o “problema” disso tudo era que a minha vida era tão norteada sob a minha sexualidade que não sobrava tempo para me dar conta que o “viver o hoje” sai caro e só nos garante um prazer imediato, como uma droga. Alto lá que não estou negando que curtir a vida não seja humanamente necessário! Curto, mas diferente: “quero ir para NY e gastar 10 mil reais em compras”. Planejarei e farei. “Depois, ainda esse ano, vou até o casamento do meu irmão em Floripa, vou enforcar dois dias de trabalho (que como dono de empresa posso permutar essas regalias), conhecer a ilha, suas praias e esmerilhar em bons restaurantes”. Farei. “Show do Elton John na ala VIP”, fiz. Entrar no cheque especial também não vale.

Acontece que isso, e mais um pouco e até quando eu tiver tesão por trabalhar (provavelmente enquanto minha cabeça e meu físico permitirem) – ANTES QUE PAREÇA ESNOBE – é resultado de suor, labuta e foco. Decidi com 23 anos ser condutor da minha própria vida. Com 23 anos, além de meu primeiro sócio ter se deligado, casei e sai de casa com meu pai contrariado, severamente contrariado. Claro que teve um preço, fiquei defasado financeiramente durante alguns anos, e sei que até hoje muitos amigos não botavam fé pela simples estatística. Alguns assumiram, ou não. Mas a gente percebe que empreender depende bem pouco das estatísticas do mundo. Existe uma tríade poderosa no jogo: resiliência, obstinação e foco. Não dá para desaminar nem quando o pai duvida. E ele duvidou, entramos em guerra e erguemos a bandeira branca não faz dois anos.

Não tem jeito, queridos leitores, e nessa equação eu acredito: se você foca no trabalho, tem a ambição para conquistar novos “territórios” e não se deixa abater por influências alheias (mesmo daqueles que desdenhem de você por ser assim tão “caxias”) a própria natureza te faz acumular experiência, riqueza, respeito e tranquilidade. Quem não respeita, acaba se afastando porque, acima de tudo, a gente aprende a filtrar.

Graças a muito suor, tombos, recuos, brigas e muito esforço, não preciso pestanejar para saber o gasto da conta do restaurante. E mais, estou aprendendo em investir em fundos de baixo risco, médio e alto para o tal plano de vida. Nem por isso tenho que deixar de falar bobagens do universo de jovens de 18 anos, de respeitá-los um tanto pelo senso crítico que carregam, de tomar um porre (só que agora com exclusivas bebidas de boas marcas) e de curtir a “nite”.

O CARPE DIEM é para todas as idades. Mas depois de uma idade, ter uma infra por trás é definitiva para ser, inclusive, CARPE DIEM! No mais, paitrocínio sucks.

 

Por Ela

Concordando em gênero, número e grau, caro Ele!

Mas no meu caso, mãetrocínio sucks! Eu usufrui intencionalmente e sem culpa dele até a minha formatura, a partir daí tenho sido responsável por meus buzzes e fails sozinha. E essa sensação de liberdade foi o meu maior orgulho na entrada da vida realmente adulta.

Dizem que são duas as cenouras que fazem os coelhinnhos aqui andarem mais: o prêmio e o castigo. Como a partir da formatura sou inteiramente responsável por ambos, não delego a ninguém meu hoje nem meu amanhã. Além disso, tenho uma forte convicção que nada florece sem ser plantado. Ou seja, nada acontece sem investimento de esforço.

Essa não parece ser a verdade para a geração que vejo chegar ao mercado de trabalho. Esses meninos e meninas vêem com uma sede invejável de sucesso, mas infelizmente com uma visão também muito imediatista e super valorizando sucessos meteóricos. É bem possível que essa massa daqui há 10 anos forme um rebanho de ressentidos e frustrados, porque na vida real apenas 5% das pessoas chegam ao topo de alguma coisa. E, ainda que não leve toda uma vida em todos os casos, sem excessão nenhuma é preciso muitíssimo esforço e dedicação. Palavras que parecem não trazer mensagens positivas para ouvidos jovens.

Com o diploma embaixo do braço, entrei de cabeça nessa paulicéia maravilhosa, abracei minha carreira oferecendo a ela muitíssimas e preciosas horas da minha juventude. Aprendi a trabalhar e dei passos consideráveis na carreira. Diferente do meu amigo Ele, sou funcionária de carreira dessas que passa 13 anos no mesmo lugar. Sem entrar no mérito dos positivos ou negativos, gosto do que eu conquistei.

Mas sem ilusões, eu não fui dessas que planejam e conduzem ativamente a carreira, não. Deixei até o barco correr meio solto em alguns aspectos. Agora parece que o sucesso que acho que tive foi em parte devido à sorte, rs. Na carreira, acho que mesmo deixando o barco correr, nunca deixei de trabalhar com afinco e aceitar os desafios que apareceram. Essa postura e dedicação são os responsáveis pelo meu sucesso, não a sorte pura e simplesmente.

Inicialmente fiquei até deslumbrada com a minha liberdade. Viajei pra caramba, baladei, me meti em cursos e grupos das mais diversas coisas por pura curiosidade. De algumas dessas aventuras trago amigos queridos, de outras apenas fotos e lembranças. E de tudo isso a sensação impagável de ser dona da minha vida.

De uns tempos pra cá, começei a querer ser dona do meu futuro também. Tenho me preocupado em construir matéria ao meu redor: adquirir coisas além das vivências. E pra mim, pensar no futuro significa se preparar pra ele.

Eu quero me aposentar um dia pra jogar damas na praça! Mas não quero ser refém de uma situação econômica desconfortável. Chego à seguinte realidade: preparar-se pra isso leva looongos anos. Mais ainda, é preciso equilíbrio pra definir prioridades e se dividir entre o agora e o depois.

Não tem milagre e não vem de graça!

 

Advertisements

Futebol alegria do povo

Por Ela e Ele

Ela: Vai dormir ao embalo dos rojões. Madrugada passa sonolenta entre os gritos na rua. Pela manhã, ruidosos comentários apaixonados em todos os meios de comunicação. A cada semana uma cor diferente no mesmo absurdo da alienação.

Ele: Preguiça enorme do alvoroço que o futebol causa nas ruas, nas pessoas. Mas confesso que assisti a final da Libertadores esse ano num desejo profundo do Corinthians perder. Meu time brasileiro: Anti-Conrinthiano, exemplo em largas quantidades da alienação.

Ela: Hoje me espantei de novo com a cultura promovida pelo consumismo da máquina do futebol. Já fazia um bom tempo, desde a faculdade, que não via com tristeza o circo na contemporaneidade.

Ele: Morar perto do estádio do Morumbi tem dessas coisas: pelo menos uma vez por mês as luzes clareiam o céu e aqueles ruídos e fogos invadem meu território. Bom mesmo foi ouvir a plateia em coro em “Hey Jude” no show do Paul McCartney.

Ela: Minha família sempre esteve às voltas com a prática dos esportes, mas não tenho notícias de exaltação por um clube de futebol. Nas copas do mundo, tudo era sim magia. Mas os campeonatos passavam despercebidos. Talvez por isso só na faculdade de engenharia que fiz, pude ver com espanto o envolvimento das pessoas por seus times.

Ele: Copa do Mundo. Isso sim vale a pena. Provavelmente porque, para mim, existe um sentido de patriotismo. Da minha nação verde amarela conseguindo se equiparar com o globo em alguma coisa. Alguma coisa, como esse verde amarelo. Como a Bossa Nova.

Ela: Nunca pude compreender bem o porquê de tanta dedicação. Os homens enlouquecidos discutindo infindavelmente sobre lances, momentos, prêmios, nomes, datas. Era incrível o volume de informação que conseguiam absorver sobre futebol, e o pouco que conseguiam guardar sobre coisas que realmente importam como seus sentimentos, suas famílias, namoradas, faculdade, etc.

Ele: Homens enlouquecem por futebol porque, se não for no sexo, é o único momento que podem expressar de maneira despreconceituosa suas emoções. Ainda bem que aprendi a não ser esse tipo de homem!

Ela: Que estranha conexão tinham aquelas seres com times às vezes de outras cidades? Vocês jogaram no clube? Faziam parte da comunidade? Frequentavam ao menos as festas do clube?

Ele: Durante uma partida, a sociedade ou melhor, os homens, permitem-se abraçar, se beijar e chorar juntos. Permitem-se se exaltar, “perder o controle” e deixam aflorar as emoções potencializadas.

Ela: O que diabos os unia tão fortemente a um time qualquer? Raras vezes aparecia alguma conexão razoável, na maior parte das vezes a máquina do consumo era quem determinava a afeição. O garoto escolhia seu time definitivo entre os seus 7 ou 8 anos. Não se pode dizer que a família não interferia, mas a escolha definitiva parecia muito mais pautada pelos resultados dos campeonatos vigentes, e não raro alterava a escolha prévia do pai.

A partir daí, o garoto era da cabeça aos pés da cor do seu “time do coração”, armazenando informações, colecionando memórias, camisetas, brindes. Vai crescendo e se declarando amante e dependente dessa “paixão”. “Paixão nacional”…

Ele: Desde muito jovem os meninos, gays ou heterossexuais, aprendem essa coisa de que, quando o assunto é futebol, é permitido que o homem transborde as coisas do coração. Graças aos céus não tive um pai bitolado no tema. Fui até que bem livre para poder descobrir onde despejar minhas “coceirinhas”. Mas no geral, o menino aprende a canalizar suas vibrações lá, no futebol. E depois, no sexo.

Ela: “Paixão nacional”… Ora bolas, o que é mesmo uma paixão nacional alimentada pela mídia mais poderosa do país desde sempre se não um amor falso, fabricado? É sim muito divertido reunir os amigos para assistir um jogo, mas o que motiva as pessoas à violência ou a esfuziantes comemorações dignas de campeonato mundial ao longo de toda a madrugada num dia de semana?

Ele: Até acredito no amor verdadeiro. Na realidade, diria paixão, daquela coisa que explode e que pode livremente na hora do futebol.

Ela: Eu devo ter perdido o capítulo da nossa história em que nos transformamos em um país de ricos empreendedores que não precisam se dar ao luxo de acordar cedo para trabalhar.

E vem cá, alguém ainda acha que alguma partida profissional se define num campo de futebol? Honestamente, meu povo, com tanta grana envolvida, o abismo entre os clubes, os figurões, etc.

E o que define o tamanho de um clube? O volume de telespectadores e consumidores das suas cores é um bom começo para esta estimativa. Algum palpite do porque Corinthians e Flamengo passam incessantemente em São Paulo e no Rio respectivamente na hora do almoço em vários jornais disponíveis?

Todos os santos dias. Os mesmos assuntos banais e irrelevantes, tais como o tamanho da barriga do Ronaldo, parecem hipnotizar os torcedores que assistem com a atenção de notícia nova, embevecidos de curiosidade.

Imperadores Romanos assistiriam essa cena com deleite de quem deixou um legado fortíssimo que perdura e se fortalece ao longo dos séculos: Circus.

Desculpem-me os fanáticos, mas me parece tola alguma dedicação a uma máquina fabricada e mantida para a descarada acumulação de riqueza.

Ele: O Sócrates mesmo disse no “De Frente com Gabi” que esse nosso futebol de hoje se perdeu dentro da máquina. A ideia da arena, assim como o MMA, sempre existiu. A diferença hoje é que existem patrocinadores investindo milhões de dólares e influenciando diretamente os pés, as pernas e as cabeças dos jogadores. Interesses econômicos, sem dúvidas, mestre Yoda!

Ela: Além disso, o que pauta a emoção com algo tão impessoal como o jogo de outros. Imagino que Freud deva ser mais eficaz em explicar isso. Como é possível os mesmos seres se emocionarem tão facilmente numa partida de futebol, e serem incapazes de entrar em contato com seus sentimentos em tantas outras ocasiões?

Ele: Porque macho que é macho não sai por aí compartilhando sentimentalidades. Macho que é macho sente na cama e na hora do futebol, solamente.

Ela: É impressionante ver esses caras se rasgando, sofrendo, chorando, se abraçando, rindo juntos, declarando seu amor a uma paixão fabricada. E na vida, fechados como ostras com medinho de seus próprios sentimentos no relacionamento com suas mulheres e famílias. Comentando duríssimos no trabalho sobre como é difícil se relacionar com suas mulheres que querem conversar sobre as coisas. Dai-me forças!

Até aqui, os homens. Mas se notarmos bem, cada vez mais as mulheres têm se colocado nesse lugar de torcedoras fanáticas. Vestem suas camisas coloridas, vão aos bares, às ruas, bradam seu amor, levantam a voz, conhecem os títulos, os lances e são capazes de emocionadas discussões sobre seus times de preferência.

Ele: Acho essa situação até positiva. Assim, indiretamente, o homem de hoje percebe que pode chorar na cozinha cortando cebola. Explico: minha teoria continua e diz que o homem é ligado em sexo não somente pelas questões da natureza primal, mas porque a sociedade que conhecemos, desde os tempos mais remotos da machadinha, colocam os homens como indivíduos que não podem perder tempo com sentimentalidades e devem ter foco no sexo para perpetuar a existência da comunidade. Homo Sapiens homens nasceram fisicamente mais fortes e, força, naquelas épocas áureas do desolamento, estava diretamente ligada com a existência das pequenas comunidades. Pequenos grupos que percebiam que funcionavam melhor em comunidades para a sobrevida de cada um. Homo Sapiens mulheres precisavam parir filhos para garantir mais lastro ao próprio grupo. Comunidade maior = mais chances de sobreviver. Comunidade maior = mais chances de evitar a dor da morte, a dor da perda. Morte = um bicho terrível, doloroso, inexplicável e assustador até hoje para a maioria.

Só que ser humano que foi e é o homem, precisa ter válvulas de escape para o dia atribulado, para liberar as tensões. Desde os tempos remotos descobriu-se que no sexo funciona essa válvula e descobriu-se também que duelando machadinhas – como no futebol – ajuda.

Esse modelinho primitivo, do homem que é naturalmente mais forte, brigar pela comunidade e fazer filho, e da mulher, de parir filhos e alimentar os futuros guerreiros, são bases primordiais até hoje. Deslocamos um pouco o peso da força física para a força moral, mas me soa ainda um tanto semelhante.

O fato das mulheres invadirem os territórios sagrados do homem-sapiens impulsiona a uma releitura desses valores primais, conscientemente ou sem consciência nenhuma. Assim, homem cansado desse modelo pode chorar cortando cebola! (Estou erguendo o braço nesse momento).

Ela: Então o futebol fanático não é mais coisa de menino. Somos finalmente uma nação inteira embriagada pelo futebol? Gays, lésbicas e héteros, almoçamos e dormimos times fabricados e falsas conquistas?

Ele: Panis et circenses ontem, hoje e amanhã. Messias e rebanhos. Dominantes e dominados. Eis o nível evolutivo do planeta Terra. Aí é questão de fé: numa próxima encarnação quero jogar outro tipo de partida!