A inclusão da família em nossa reliadade

Por Ele

Passaram-se 10 ou 11 anos para que meu pai pudesse entender com mais tranquilidade as questões que pairavam em sua mente quanto a minha homossexualidade. A gente pode pensar: “puxa vida, todo esse tempo?”. Pois é, realmente levou-se uma década para ele entender, em seu ritmo, tudo isso de ter um filho gay.

Como filho, frequentando a família, a casa dos meus pais em almoços e encontros, o fato de ser gay nunca foi algum tipo de ameaça. Como não aparento (e a amiga Ela pode confirmar), meu pai nunca se sentiu desconfortável. Nosso problemas foram outros e que – muito bem – resolvemos todos há dois anos atrás. Assim, posso dizer com satisfação que minhas questões com meu pai (normalmente há questões ou com a mãe ou com o pai) se resolveram em 2011, quando conseguimos entender que eu não era mais o “jovem porra louca” como ele me intitulava e ele não precisava ser “o super pai ideal” como eu queria.

A questão que faltava é que, diante de um namorado ou de um amigo aparentemente gay, ele sempre lembraria que eu – seu filho – também compartilhava das mesmas vontades homossexuais. Pois a bem da verdade é essa: muitos pais, mesmo dos filhos assumidos, tentam esquecer o máximo possível que o filho é gay, enquanto não o aceita, ou não assume a ideia. Natural, assim, meu pai lembrar que eu era gay somente nessas circunstâncias, querendo projetar “um filho gay porém assexuado”.

Uma década se passou desde o dia que sentei na mesa da cozinha e tivemos a famigerada conversa, cara-a-cara, preto no branco e sem a possibilidade de ser diferente. De lá pra cá, como pai e filho não havíamos problemas (a exceção das questões dos ideais comportamentais que tínhamos um pelo outro). Mas seu filho como um ser social gay, que namoraria um homem, a ele era um motivo para desgosto. Tanto era que eu havia assumido a mim mesmo que não teria para quê muda-lo. O importante era poupá-lo e respeitar incondicionalmente seus limites. Trazer um namorado para a realidade familiar, quando na presença dele, era algo que não se realizaria. Assim se fez e consegui tranquilamente criar uma zona de conforto nessa situação. Soube muito bem administrar.

10 anos nesse modelo e, aos poucos, respeitando sua zona de segurança, não havia como – raras vezes – trazer o assunto ou nos pegar em situação que o encontro com meu namorado seria inevitável. Mãe, irmão e futura cunhada, totalmente abertos para essa possibilidade, acabavam criando ocasiões de reunião que colocavam meu pai a questionar se iria ou não. Recusou dezenas e das vezes que recusou não tinha porque me chatear ou forçar o contrário. Meu namorado as vezes se incomodava, as vezes não, já que do lado dele tive uma forte abertura. Está certo que boa parte dessa abertura eu dei um bom “empurrão”, mas isso é somente detalhe.

Eis que nas últimas semanas aconteceu um “click” por parte do meu velho. Na realidade o tal “click”, pela primeira vez, ocorrera no final de 2012, já próximo do Natal. Resolvi fazer um jantar em casa, quando meu irmão e sua futura esposa – que moram no Rio – estavam em São Paulo. Levei o convite a todos, incluindo meu pai. Meio sim, meio não, meio a contra gosto, meu pai veio para a reunião familiar sob meu teto na presença de meu namorado. Ficou evidente o desconforto por parte do meu pai, daquela situação de não saber para onde olhar, o que dizer e como agir. A mim, natural não saber para onde olhar, o que dizer e para onde agir: pela inédita primeira vez ele estava enfrentando seus monstros e fantasias, embora já tivesse conhecido outrora meu namorado sem que eu anunciasse como tal.

Depois desse primeiro “choque”, houve um segundo no começo de 2013, muito mais natural, quando minha futura cunhada convidara a todos para um almoço na casa de seu pai. Uma certa palidez no ar, mas fui firme em respeitar a tal turbidez.

E, de uma maneira totalmente inédita a mim, sem a necessidade de me auto-afirmar, dessas duas primeiras vezes deixei acontecer sem expectativas sobre ninguém. Literalmente fingi que nada estava acontecendo além de um simples encontro de família. Foco nas pessoas e não nas sexualidades.

Assim, nessas últimas semanas, meu pai chegou a pronunciar o nome do meu namorado, numa sugestão de encontro familiar. Confesso que na hora me passou batido ou, talvez, foi tão inesperado e fora das minhas expectativas que eu preferi desconversar! Até chegar o final de semana e reunirmos toda a família no sábado e no domingo. Tudo junto e misturado, um casal gay em meio a um grupo de heterossexuais.

Uma mistura inicial de absoluta estranheza com orgulho. Orgulho por fazer valer uma década de construção da inclusão, do compreendimento e do respeito às diferenças. Plenitude, minha gente. Estranheza por estar totalmente conformado com os limites colocados pelo meu pai e que – de repente – ele mesmo resolveu transformar. E não avisou ninguém! O velho fará 72 anos esse ano e eu preciso tirar o chapéu. Não somente a ele por todas as circunstâncias, contextos e realidades que jogou no lixo para me incluir, mas – humildemente – a mim mesmo que aprendi a respeitá-lo quase que incondicionalmente. Tivemos um tipo de “vitória” fazendo bom uso da paciência.

Somos plenos um ao outro agora.

Por Ela

Fantástico, amigo Ele! Sabendo um pouquinho da sua trajetória, sei o quanto esse momento é importante e simbólico pra você, e fico muito feliz que você tenha quebrado mais essa barreira.

Rumo à aceitação total!

Eu percebo que o preconceito de maneira bem geral está no desconhecido e consequente generalização. Se fulano não sabe nada sobre a cultura mulçumana, por exemplo, pode achar que todos são perigosos explosivos fundamentalistas.

Eu mesma sem ter nenhum contato mais estreito com eles e consumindo apenas o que a mídia me traz, só consigo sentir pena das mulheres passeando com seus filhos e burcas, sempre um passo atrás dos maridos. Nada sei sobre suas crenças, seus valores e, pior: me assusta muito ver burcas passeando pelo meu mundo ocidental!

Nem sequer quero ver algo que de uma forma meio torta me soa como ameaça. Vejam se não é um clássico do preconceito!

Esse almoço com seu pai, caro Ele, representa o início do fim da estranheza. Tenho certeza que seu pai fez um esforço colossal para superar os próprios fantasmas só pra estar mais perto de você. E tiro meu chapéu!

E tenho certeza que vendo que você e o respectivo se portam como quaisquer outras pessoas adultas, exorcisou muitas das assombrações que em algum plano afastavam vocês. Imagino que ele agora esteja desconstruindo a imagem gay que tem na cabeça, dando espaço para outras possibilidades.

O que muito hetero não entende é que sapatões, gays, trans… somos seres humanos mais profundos que uma imagem, com todas as idiossincrasias, questões e sonhos como eles também tem. E é justamente isso o que precisa ser mostrado à eles.

Sem questionar o papel da parada ou da televisão nisso tudo, só mesmo nós assim de pertinho no almoço de domingo podemos mostrar pra quem nos cerca que nem tudo é purpurina 🙂

A aceitação plena não é uma mágica, mas um processo. Uma transformação pessoal, resultado da capacidade de questionar as próprias certezas e se permitir conclusões diferentes do que no passado.

Esse processo não é só nosso, entendo que os heteros tem que passar por isso também para uma aceitação realmente plena.

Olhando a questão gay ao longo do tempo, acredito que a sociedade superará os preconceitos. Alguns mais rápido que outros, mas um dia será tão corriqueiro ver casais gays nas ruas, no trabalho, na televisão, na convivência íntima do lar, que as bobagens que hoje são argumentos de preconceito causarão boas risadas em todos.

Parabéns Ele, por mais esse passo!! Rumo à aceitação total!

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A cena gay, a vida lésbica de São Paulo

Por Ela:

Not too long ago, not too far away…

Jovem princesa Ela chega a São Paulo levitando em sonhos que finalmente começam a se concretizar e muitas fantasias sobre o futuro. Ela está pronta para desabrochar uma vida rica culturalmente e efervescente, beijar muitas sapas e, dentre as mais glamurosas, encontrar sua cara metade.

Na euforia dos primeiros anos, a vida segue num ritmo alucinante: festas, viagens, trabalho, amores, ressacas, experiências, perdas e descobertas… Ela percebe rapidamente o óbvio: A cidade não pára nunca, assim como sua vida cada vez mais intensa e interessante. Ainda envolta numa atmosfera de deslumbramento, Ela se deleita com uma vida social incrível, cheia de cultura e as concretas oportunidades no trabalho.

É somente no natal que Ela está calma, num mesmo lugar por mais que algumas horas, e não está atrasada para nada. Tudo está calmo e o tempo parece passar mais devagar. E assim, ao final de cada ano, Ela vai entendendo e refletindo sobre o que lhe resta de cada ano vivido.

Aos poucos, o entusiasmo vai dando lugar a reflexões. E assim vou começando a tomar consciência da repetição vazia de certos hábitos. São Paulo é realmente uma cidade incrível pelas inúmeras formas possíveis que a vida pode tomar aqui. Uma das qualidades que mais me cativa. Mas é também um lugar perigoso para se perder no caminho e despertar sem objetivos.

Hoje vejo também a São Paulo menos glamurosa, hiper segmentada, dispersa e superficial. Talvez seja só o tempo em que vivemos, talvez aqui as coisas tomem proporções maiores e cheguem mais nos extremos. Talvez meu campo de visão seja limitado. Mas enfim o que percebo daqui é que há inúmeras pequenas micro-cidades ou, como gosto de chamar, guetos. Estes, produzindo seres que se igualam no estilo de se vestir, nos trejeitos, no linguajar, e por fim em pensamentos pré-fabricados e carregados de preconceitos.

Às exceções, minhas desculpas! Mas visualizo muitos grupos de gays e lésbicas quando penso nisso. A cidade borbulhanado e esses guetos fechados em si mesmos.

Acredito que muitas pessoas sejam atraídas para este modelo pela necessidade da paquera, de se relacionar com outros gays e lésbicas e de trocar experiências. E, como num círculo vicioso, acabam repetindo esta rotina semana após semana. E naturalmente se privando de outras experiências para viver exclusivamente nesse universo de festas e bares gays.

É bom estar “cazamiga”, falar abertamente, dividir e palpitar de amores e frustrações, paquerar, ser paquerada e, demonstrar afeto sem olhares repressores ou curiosos. Tudo isso, é claro, é muito bom e bem mais fácil em lugares gays. E em São Paulo o que não falta são lugares gays. Mas por isso mesmo muita gente acaba não se dispondo a sair do gueto, falar de outros assuntos e ver outras coisas.

Me parece inevitável que, à medida que o tempo passe, os outros conteúdos sumam e o único tema nos guetos vire a própria vida nos guetos. As desventuras amorosas, as conquistas, as músicas, as pessoas. E logo as intrigas e fofocas.
Independente do assunto que une as pessoas, os grupos muito fechados acabam desenvolvendo certa distancia/crítica/repulsa do diferente.

E me parece a maior das contradições que minorias desenvolvam preconceitos contra outras minorias ao mesmo tempo em que reclamam de sua própria condição de minoria. Confuso, não?

Fico espantada que numa cidade que abriga tantas vidas, que proporciona às pessoas tantas experiências, acabe também favorecendo a proliferação dos guetos. Ao mesmo tempo em que dá tanto espaço para o diferente, São Paulo o isola numa caixa de iguais. Diferentes do resto, iguais entre si.

Quero ter amigos diferentes uns dos outros, que sejam até incompatíveis no convívio, que questionem uns os valores dos outros e os meus. Porque é triste ver a vida sempre do mesmo jeito, sem entender outros pontos de vista, sem desconstruir as convicções de vez em quando. E só a diferença traz essa riqueza.

A vida segue com o olhinho pra fora da caixa…

Por Ele:

Dos meus 23 anos, idade que me assumi até meus 33 os guetos gays em São Paulo eram cenários certos para minha solteirice. Acontece que para a maioria das pessoas, as fases de descobertas, de auto-afirmação, o encontro da auto-estima e uma consciência maior de si mesmo acontecem, no geral, da adolescência até a vida adulta. Vida adulta que pode ser estabelecida a partir dos 28, mas com 60 também.

Apesar de muitos namoros e um casamento nesse caminho de uma década, tinha uma necessidade, diga-se necessidade como um desejo mesmo de ver e ser visto, de cobiçar e ser cobiçado. Tinha uma curiosidade absoluta de frequentar os lugares gls, conhecer ou pelo menos ver pessoas e, talvez por uma simpatia, costumava a ter a simpatia recíproca dos garçons e atendentes dos locais que costumava frequentar. Fato específico mas que ficou marcado. Talvez um fetiche? Talvez.

Numa ordem cronológica, se a minha memória não falhar, consigo pontuar aqui do primeiro lugar que conheci até o “present day”, ou melhor até os meus 33/34 anos quando resolvi desligar a chave do viver a vida gay:

Com 23 anos, o Allegro Bar, a SoGo em início de casa e o Ultralounge original que ficava na Rua da Consolação eram os pontos certos. Lembro até do Marcos, nome do garçom do Allegro que sempre me atendia muito bem. (Olha o fetiche aí de novo!)

Conheci duas ou três vezes a clássica e ancestral Túnel, mas que não me chamava muito a atenção.

Depois veio a Bubu, numa época que o mezanino era 1/5 do que é hoje e tocava anos 80. Baladas “sujas” no centro também, vez ou outra.

De lá pra cá, The Week, D-Edge, Sonique, Bar da Dida, Director’s Gourmet, A Lôca, Clube Glória.

Sauna 269, garotos de programa do Trianon, maconha, cocaína e ácido, sim, vez ou outra.

Tudo junto, tudo misturado, tudo intenso, num exercício de reconhecimento de mim mesmo, lado A e lado B.

E repete o disco! Está riscado? Não tem problema que tem gente nova na piXta!

Parece assim que só vivi do desapego nesses anos e é só impressão mesmo. Desses 10 anos, até meus 33, sete foram em relacionamentos. Dois foram nessa curtição. Intensidade pura de chafurdar na purpurina!

Dos 33 anos para cá peguei o disco riscado e empilhei na estante. Mas ele está lá ou aqui no QGSE para rever as faixas da contracapa de vez em quando sem precisar tocar, para lembrar com saudade. O som que tenho ouvido agora é um pouco mais compassado, fluido, com notas e arranjos mais elaborados. É o que tem me preenchido.

A palavra foco nunca fez tanto sentido. Foco em mim e não no mundo porque desse mundo GLS, que inclusive me ajudou a chegar até aqui e me ajudou a ser o que é, posso guardar bons amigos, e blogs, e discos, e nada mais (rs).

Tenho a impressão que me tornei adulto e feliz. Quando a gente é jovem a gente tem medo de ficar adulto e acabado. Tem medo de ficar calcificado em valores e princípios. Quando fui um jovem gay, ser gay era o início, o fim e o meio. Hoje, ser gay é só uma parte que as vezes até esqueço!

Reconheço de novo família, pais, amigos gays e heterossexuais, cachorro frequentando a casa – minha casa – viagens, responsabilidades, meu namorado querido e um profissional work-a-holic, eu, apaixonado pelo que faz, incluindo o blog QGSE!

Reconheço a mim mesmo sem precisar do reconhecimento dos que estão fora de mim.

Faz tempo, dois anos, que não respiro profundamente os ares gays do quadrilátero-rosa-da-Paulista. A grande maioria dos meus amigos continuam por lá e eu estou aqui. Para eles, a desculpa de não comparecer pode ser o namoro. Mas é mentira.

A verdade é que estou apaixonado por mim. Não no sentido do Narciso que se olha no espelho e se adora, mesmo porque o Narciso precisa mostrar para o mundo que é belo. E Narcisos já somos tantos! Não quero mais competir no momento.

Apaixonado porque me reconheço. O disco ficou velho e quem se revela novo sou eu, de novo.

Claro que posso me pegar ouvindo algumas das faixas antigas, por que não? Mas não precisa ser agora.