Casa nova, cachola limpa

Por Ela

É incrível nosso super cérebro. Como nos colocamos em armadilhas, a tamanha capacidade que temos de sair delas e quão pouco usamos nossas armas. Um psiquiatra uma vez me explicou o fantástico mecanismo do vicio no seu cérebro. No fim, tudo é química, mas olha só que bárbaro:

O viciado em cigarro ou cocaína, depois de muito sufoco consegue parar de usar. Ê, viva! Luta arduamente no começo, onde os alertas estão ativos, e após um tempo consegue ficar tranquilo de novo.

Passam-se anos e bang! Pinta uma maldita situação que ele antes “resolveria” no vicio, e o cérebro se põe prontamente a criar uma situação em que o indivíduo se exponha novamente à tentação.

Por exemplo, o cara que nunca compra revistas sente uma vontade incrível de passar na banca na esquina. Ele não se lembra, ou não traz para a consciência, mas a tal banca é o lugar mais próximo onde se vende cigarro. No caso da cocaína, pode lhe ocorrer ajudar aquela mulher pobrezinha e cheia de filhos, que mora bem na favela onde antes ia buscar a merda. Ops, a droga, rs

Porque conscientemente um viciado se colocaria numa situação de exposição à droga, se não pra reproduzir a sensação do vicio e finalmente sucumbir à ela?

Seu cérebro faz isso por você, obrigada.

As referências que fazemos das coisas nem sempre são óbvias, diretas ou claras, e pode ser um pesadelo destrinchar essa malha. A relação de amor ou busca de amor que se estabeleceu com seus pais pode ser uma chave pra muita coisa, mas é preciso se conhecer profundamente pra entender porque algumas situações te pegam tão forte.

Porque sempre caímos na mesma armadilha com nossos amores, porque ficamos presas a situações ruins que não parecem tão difíceis de resolver. Enfim… Com isso chegamos à casa.

O que diria Freud a respeito de uma mudança física? Um corte novo de cabelo, um corte no pulso, uma mudança voluntária de casa são todas manifestações em maior ou menor grau da nossa vontade de mudança na vida. Mas você às vezes cozinha isso por muito tempo até tomar coragem pra agir. Lá vem o cérebro de novo brincando com nossa consciência…

Me dei conta que era feita disso a minha recente mudança de casa conversando com uma amiga sobre a metáfora da casa para a psicologia: a casa representa você, e a forma como as coisas vão lá dentro é como estão organizadas nossas emoções. Mais ou menos, acho que é essa a idéia…

Eu que nunca morei mais que 2 anos no mesmo lugar antes, fiquei mais de 7 nessa casa e emendei dois relacionamentos longos neste cenário. Coisa também inédita até então. Estive tão presa ao último deles depois do fim, que por meses eu não podia ficar sozinha em casa sem ficar extremamente triste. No início sabia do que se tratava a tristeza, mas me acostumei à ela e depois de um tempo e parei de perceber que ali tinha mais lembranças do que eu podia suportar.

Um belo dia, sem nenhuma razão aparente ou pressão externa decidi me mudar. Eu não me dei conta, mas já estava disposta a colocar definitivamente pra traz todos os resquícios que dessa relação. De um dia pro outro provoquei a pressão que precisava pra isso acontecer e sai pelo mundo procurando endereço. Tudo fez o mais perfeito sentido lógico, devo dizer. Mas nada disso foi realmente necessário do ponto de vista prático.

E a busca em si também foi algo surreal, porque eu queria querer uma certa forma de viver, e isso tinha que funcionar com a casa nova. Mas eu nem sei bem o que eu procurava, foi realmente estranho. Não teve nenhuma lógica nos lugares que eu olhei, nem nos que eu rejeitei. Desisti de lugares excelentes, acreditei em opções impossíveis, me comprometi e depois desisti (coisa que não gosto de fazer) e, por fim, encontrei minha casa como uma combinação improvável. Ainda dias depois me pergunto se esse lugar tem ou não a ver comigo.

Minha leitura dessa coisa toda foi que eu precisava me desprender urgentemente de uma carga de histórias difíceis, porque os fantasmas ainda me assombravam silenciosamente. Por isso a pressa. Uma vez na casa nova e passado o deslumbre dos primeiros dias, a vida vai começando a se assentar. Como uma massa disforme vou me ajustando ao novo espaço, tomando sua forma. Fazendo turismo nas redondezas vou me desprendendo da minha pequena rotina anterior e descobrindo realmente a vida que há após o amor. Y sí, la hay!

E no fim era isso: meu cérebro trabalhando sorrateiramente pra me arremessar no futuro; e a casa improvável que ele escolheu combinando perfeitamente com que quero fazer da minha vida. Até o desconforto que ela traz combina com o medo que tenho dessa tal vida não ser bem o que vai me trazer alegria.

Como o barco segue daqui pra frente, eu não sei. Tenho dito demais que “tenho medo”, então vou ficar quietinha assistindo o futuro acontecer. Que seja iniciada uma nova etapa, um brinde ao futuro!

Por Ele

Há mim foi também sete anos sob o mesmo telhado e no oitavo, quando poderia continuar, resolvi dar uma virada, provocar uma mudança e me permitir ter um novo abrigo. Tudo novo, com a minha cara, com meu jeito, com os excessos ou minimalismos que meu “novo ego” transbordasse.

A nova casa, minha, é representativa e ao mesmo tempo simbólica. De 2010 para cá muita coisa mudou no meu jeito de pensar. A crise dos 30 veio com 33 e depois disso adulteci. Me despedi de um adolescente cheio de curiosidades e fantasias, cheio de dúvidas sobre a vida gay e passei a estabelecer meus conceitos. Outrora, os valores e os conceitos transitavam pelas referências que o mundo afora me apresentava: queria um pouco de tudo, um pouco de cada lugar, queria um namorado, queria a vida solteira, queria o sexo, a putaria e queria ser o “dono da balada”: “uma Absolut, copo baixo e dois gelos, por favor”.

O Absolut no copo baixo com dois gelos ainda é presente em algumas poucas circunstâncias e quem na maioria das vezes prepara agora sou eu mesmo. Mas algumas pessoas, alguns prazeres e alguns hábitos ficaram para trás. A bem da verdade é que uma parte de mim deixou de fazer sentido para a entrada de um novo eu que exerce função faz dois anos. Tudo novo.

As pessoas que ficaram para trás ainda existem. Porém o olhar que tenho por elas é definitivamente renovado. Referências a mim, que as vezes soavam como idolatria não me apetecem mais. O centro agora está mais em mim, fluxo até lógico quando em 2009 – época que me despedia de antigos modelos e últimas experiências carnais – me tinha como fora do eixo.

A casa nova veio para emanar meu eu novo e está assim há dois anos.

Nesse fluxo, as relações com minha equipe de trabalho também sofreu uma revisão. Não seria diferente com o modelo de namoro que tinha antes e que tenho agora. É realmente impressionante como meu “ego” se calou, como a minha necessidade de auto-afirmação não atinge nem influencia tanto o meio e passa a conversar diretamente comigo mesmo.

Adutelcer puxou no pacote minha equipe. Nos últimos dois anos saiu quem não aguentoua nova onda, entrou dois e os que ficaram viraram sócios, numa toada de lançar mais responsabilidade em todo mundo. O namoro que poderia ter acabado pelas minhas necessidades frenéticas de começar uma nova bagunça, assume novas circunstâncias, fragilidades, exposições e intimidades, revendo o valor de batalhar juntos por algo maior.

Realmente não sei se tudo isso é certo ou bom, mesmo porque não estou discutindo aqui ética ou moral. Sei apenas que isso é necessário, é de dentro pra fora e tem muito de movimento.

Num dos posts no Blog Minha Vida Gay, um heterossexual leitor reforçou em seus comentários algumas vezes que eu passo uma mensagem do “vencer”. Talvez seja isso porque a mim, vencer, só faz sentido se tiver conexão com transformar ou mudar.

A casa, o coração, a alma e a cabeça renovaram. Parece hoje que cada novo problema tem mais rapidamente uma resposta. Ou melhor, cada problema não é mais encarado com aflição, desespero ou necessidade de uma solução imediata para expelir o desconforto. Acho que aceito mais o desconforto, entendo sua representatividade e sua transitoriedade sem sofrer, sem reprimir ou sem querer tapar com a peneira.

 

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