A inclusão da família em nossa reliadade

Por Ele

Passaram-se 10 ou 11 anos para que meu pai pudesse entender com mais tranquilidade as questões que pairavam em sua mente quanto a minha homossexualidade. A gente pode pensar: “puxa vida, todo esse tempo?”. Pois é, realmente levou-se uma década para ele entender, em seu ritmo, tudo isso de ter um filho gay.

Como filho, frequentando a família, a casa dos meus pais em almoços e encontros, o fato de ser gay nunca foi algum tipo de ameaça. Como não aparento (e a amiga Ela pode confirmar), meu pai nunca se sentiu desconfortável. Nosso problemas foram outros e que – muito bem – resolvemos todos há dois anos atrás. Assim, posso dizer com satisfação que minhas questões com meu pai (normalmente há questões ou com a mãe ou com o pai) se resolveram em 2011, quando conseguimos entender que eu não era mais o “jovem porra louca” como ele me intitulava e ele não precisava ser “o super pai ideal” como eu queria.

A questão que faltava é que, diante de um namorado ou de um amigo aparentemente gay, ele sempre lembraria que eu – seu filho – também compartilhava das mesmas vontades homossexuais. Pois a bem da verdade é essa: muitos pais, mesmo dos filhos assumidos, tentam esquecer o máximo possível que o filho é gay, enquanto não o aceita, ou não assume a ideia. Natural, assim, meu pai lembrar que eu era gay somente nessas circunstâncias, querendo projetar “um filho gay porém assexuado”.

Uma década se passou desde o dia que sentei na mesa da cozinha e tivemos a famigerada conversa, cara-a-cara, preto no branco e sem a possibilidade de ser diferente. De lá pra cá, como pai e filho não havíamos problemas (a exceção das questões dos ideais comportamentais que tínhamos um pelo outro). Mas seu filho como um ser social gay, que namoraria um homem, a ele era um motivo para desgosto. Tanto era que eu havia assumido a mim mesmo que não teria para quê muda-lo. O importante era poupá-lo e respeitar incondicionalmente seus limites. Trazer um namorado para a realidade familiar, quando na presença dele, era algo que não se realizaria. Assim se fez e consegui tranquilamente criar uma zona de conforto nessa situação. Soube muito bem administrar.

10 anos nesse modelo e, aos poucos, respeitando sua zona de segurança, não havia como – raras vezes – trazer o assunto ou nos pegar em situação que o encontro com meu namorado seria inevitável. Mãe, irmão e futura cunhada, totalmente abertos para essa possibilidade, acabavam criando ocasiões de reunião que colocavam meu pai a questionar se iria ou não. Recusou dezenas e das vezes que recusou não tinha porque me chatear ou forçar o contrário. Meu namorado as vezes se incomodava, as vezes não, já que do lado dele tive uma forte abertura. Está certo que boa parte dessa abertura eu dei um bom “empurrão”, mas isso é somente detalhe.

Eis que nas últimas semanas aconteceu um “click” por parte do meu velho. Na realidade o tal “click”, pela primeira vez, ocorrera no final de 2012, já próximo do Natal. Resolvi fazer um jantar em casa, quando meu irmão e sua futura esposa – que moram no Rio – estavam em São Paulo. Levei o convite a todos, incluindo meu pai. Meio sim, meio não, meio a contra gosto, meu pai veio para a reunião familiar sob meu teto na presença de meu namorado. Ficou evidente o desconforto por parte do meu pai, daquela situação de não saber para onde olhar, o que dizer e como agir. A mim, natural não saber para onde olhar, o que dizer e para onde agir: pela inédita primeira vez ele estava enfrentando seus monstros e fantasias, embora já tivesse conhecido outrora meu namorado sem que eu anunciasse como tal.

Depois desse primeiro “choque”, houve um segundo no começo de 2013, muito mais natural, quando minha futura cunhada convidara a todos para um almoço na casa de seu pai. Uma certa palidez no ar, mas fui firme em respeitar a tal turbidez.

E, de uma maneira totalmente inédita a mim, sem a necessidade de me auto-afirmar, dessas duas primeiras vezes deixei acontecer sem expectativas sobre ninguém. Literalmente fingi que nada estava acontecendo além de um simples encontro de família. Foco nas pessoas e não nas sexualidades.

Assim, nessas últimas semanas, meu pai chegou a pronunciar o nome do meu namorado, numa sugestão de encontro familiar. Confesso que na hora me passou batido ou, talvez, foi tão inesperado e fora das minhas expectativas que eu preferi desconversar! Até chegar o final de semana e reunirmos toda a família no sábado e no domingo. Tudo junto e misturado, um casal gay em meio a um grupo de heterossexuais.

Uma mistura inicial de absoluta estranheza com orgulho. Orgulho por fazer valer uma década de construção da inclusão, do compreendimento e do respeito às diferenças. Plenitude, minha gente. Estranheza por estar totalmente conformado com os limites colocados pelo meu pai e que – de repente – ele mesmo resolveu transformar. E não avisou ninguém! O velho fará 72 anos esse ano e eu preciso tirar o chapéu. Não somente a ele por todas as circunstâncias, contextos e realidades que jogou no lixo para me incluir, mas – humildemente – a mim mesmo que aprendi a respeitá-lo quase que incondicionalmente. Tivemos um tipo de “vitória” fazendo bom uso da paciência.

Somos plenos um ao outro agora.

Por Ela

Fantástico, amigo Ele! Sabendo um pouquinho da sua trajetória, sei o quanto esse momento é importante e simbólico pra você, e fico muito feliz que você tenha quebrado mais essa barreira.

Rumo à aceitação total!

Eu percebo que o preconceito de maneira bem geral está no desconhecido e consequente generalização. Se fulano não sabe nada sobre a cultura mulçumana, por exemplo, pode achar que todos são perigosos explosivos fundamentalistas.

Eu mesma sem ter nenhum contato mais estreito com eles e consumindo apenas o que a mídia me traz, só consigo sentir pena das mulheres passeando com seus filhos e burcas, sempre um passo atrás dos maridos. Nada sei sobre suas crenças, seus valores e, pior: me assusta muito ver burcas passeando pelo meu mundo ocidental!

Nem sequer quero ver algo que de uma forma meio torta me soa como ameaça. Vejam se não é um clássico do preconceito!

Esse almoço com seu pai, caro Ele, representa o início do fim da estranheza. Tenho certeza que seu pai fez um esforço colossal para superar os próprios fantasmas só pra estar mais perto de você. E tiro meu chapéu!

E tenho certeza que vendo que você e o respectivo se portam como quaisquer outras pessoas adultas, exorcisou muitas das assombrações que em algum plano afastavam vocês. Imagino que ele agora esteja desconstruindo a imagem gay que tem na cabeça, dando espaço para outras possibilidades.

O que muito hetero não entende é que sapatões, gays, trans… somos seres humanos mais profundos que uma imagem, com todas as idiossincrasias, questões e sonhos como eles também tem. E é justamente isso o que precisa ser mostrado à eles.

Sem questionar o papel da parada ou da televisão nisso tudo, só mesmo nós assim de pertinho no almoço de domingo podemos mostrar pra quem nos cerca que nem tudo é purpurina 🙂

A aceitação plena não é uma mágica, mas um processo. Uma transformação pessoal, resultado da capacidade de questionar as próprias certezas e se permitir conclusões diferentes do que no passado.

Esse processo não é só nosso, entendo que os heteros tem que passar por isso também para uma aceitação realmente plena.

Olhando a questão gay ao longo do tempo, acredito que a sociedade superará os preconceitos. Alguns mais rápido que outros, mas um dia será tão corriqueiro ver casais gays nas ruas, no trabalho, na televisão, na convivência íntima do lar, que as bobagens que hoje são argumentos de preconceito causarão boas risadas em todos.

Parabéns Ele, por mais esse passo!! Rumo à aceitação total!

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Futebol alegria do povo

Por Ela e Ele

Ela: Vai dormir ao embalo dos rojões. Madrugada passa sonolenta entre os gritos na rua. Pela manhã, ruidosos comentários apaixonados em todos os meios de comunicação. A cada semana uma cor diferente no mesmo absurdo da alienação.

Ele: Preguiça enorme do alvoroço que o futebol causa nas ruas, nas pessoas. Mas confesso que assisti a final da Libertadores esse ano num desejo profundo do Corinthians perder. Meu time brasileiro: Anti-Conrinthiano, exemplo em largas quantidades da alienação.

Ela: Hoje me espantei de novo com a cultura promovida pelo consumismo da máquina do futebol. Já fazia um bom tempo, desde a faculdade, que não via com tristeza o circo na contemporaneidade.

Ele: Morar perto do estádio do Morumbi tem dessas coisas: pelo menos uma vez por mês as luzes clareiam o céu e aqueles ruídos e fogos invadem meu território. Bom mesmo foi ouvir a plateia em coro em “Hey Jude” no show do Paul McCartney.

Ela: Minha família sempre esteve às voltas com a prática dos esportes, mas não tenho notícias de exaltação por um clube de futebol. Nas copas do mundo, tudo era sim magia. Mas os campeonatos passavam despercebidos. Talvez por isso só na faculdade de engenharia que fiz, pude ver com espanto o envolvimento das pessoas por seus times.

Ele: Copa do Mundo. Isso sim vale a pena. Provavelmente porque, para mim, existe um sentido de patriotismo. Da minha nação verde amarela conseguindo se equiparar com o globo em alguma coisa. Alguma coisa, como esse verde amarelo. Como a Bossa Nova.

Ela: Nunca pude compreender bem o porquê de tanta dedicação. Os homens enlouquecidos discutindo infindavelmente sobre lances, momentos, prêmios, nomes, datas. Era incrível o volume de informação que conseguiam absorver sobre futebol, e o pouco que conseguiam guardar sobre coisas que realmente importam como seus sentimentos, suas famílias, namoradas, faculdade, etc.

Ele: Homens enlouquecem por futebol porque, se não for no sexo, é o único momento que podem expressar de maneira despreconceituosa suas emoções. Ainda bem que aprendi a não ser esse tipo de homem!

Ela: Que estranha conexão tinham aquelas seres com times às vezes de outras cidades? Vocês jogaram no clube? Faziam parte da comunidade? Frequentavam ao menos as festas do clube?

Ele: Durante uma partida, a sociedade ou melhor, os homens, permitem-se abraçar, se beijar e chorar juntos. Permitem-se se exaltar, “perder o controle” e deixam aflorar as emoções potencializadas.

Ela: O que diabos os unia tão fortemente a um time qualquer? Raras vezes aparecia alguma conexão razoável, na maior parte das vezes a máquina do consumo era quem determinava a afeição. O garoto escolhia seu time definitivo entre os seus 7 ou 8 anos. Não se pode dizer que a família não interferia, mas a escolha definitiva parecia muito mais pautada pelos resultados dos campeonatos vigentes, e não raro alterava a escolha prévia do pai.

A partir daí, o garoto era da cabeça aos pés da cor do seu “time do coração”, armazenando informações, colecionando memórias, camisetas, brindes. Vai crescendo e se declarando amante e dependente dessa “paixão”. “Paixão nacional”…

Ele: Desde muito jovem os meninos, gays ou heterossexuais, aprendem essa coisa de que, quando o assunto é futebol, é permitido que o homem transborde as coisas do coração. Graças aos céus não tive um pai bitolado no tema. Fui até que bem livre para poder descobrir onde despejar minhas “coceirinhas”. Mas no geral, o menino aprende a canalizar suas vibrações lá, no futebol. E depois, no sexo.

Ela: “Paixão nacional”… Ora bolas, o que é mesmo uma paixão nacional alimentada pela mídia mais poderosa do país desde sempre se não um amor falso, fabricado? É sim muito divertido reunir os amigos para assistir um jogo, mas o que motiva as pessoas à violência ou a esfuziantes comemorações dignas de campeonato mundial ao longo de toda a madrugada num dia de semana?

Ele: Até acredito no amor verdadeiro. Na realidade, diria paixão, daquela coisa que explode e que pode livremente na hora do futebol.

Ela: Eu devo ter perdido o capítulo da nossa história em que nos transformamos em um país de ricos empreendedores que não precisam se dar ao luxo de acordar cedo para trabalhar.

E vem cá, alguém ainda acha que alguma partida profissional se define num campo de futebol? Honestamente, meu povo, com tanta grana envolvida, o abismo entre os clubes, os figurões, etc.

E o que define o tamanho de um clube? O volume de telespectadores e consumidores das suas cores é um bom começo para esta estimativa. Algum palpite do porque Corinthians e Flamengo passam incessantemente em São Paulo e no Rio respectivamente na hora do almoço em vários jornais disponíveis?

Todos os santos dias. Os mesmos assuntos banais e irrelevantes, tais como o tamanho da barriga do Ronaldo, parecem hipnotizar os torcedores que assistem com a atenção de notícia nova, embevecidos de curiosidade.

Imperadores Romanos assistiriam essa cena com deleite de quem deixou um legado fortíssimo que perdura e se fortalece ao longo dos séculos: Circus.

Desculpem-me os fanáticos, mas me parece tola alguma dedicação a uma máquina fabricada e mantida para a descarada acumulação de riqueza.

Ele: O Sócrates mesmo disse no “De Frente com Gabi” que esse nosso futebol de hoje se perdeu dentro da máquina. A ideia da arena, assim como o MMA, sempre existiu. A diferença hoje é que existem patrocinadores investindo milhões de dólares e influenciando diretamente os pés, as pernas e as cabeças dos jogadores. Interesses econômicos, sem dúvidas, mestre Yoda!

Ela: Além disso, o que pauta a emoção com algo tão impessoal como o jogo de outros. Imagino que Freud deva ser mais eficaz em explicar isso. Como é possível os mesmos seres se emocionarem tão facilmente numa partida de futebol, e serem incapazes de entrar em contato com seus sentimentos em tantas outras ocasiões?

Ele: Porque macho que é macho não sai por aí compartilhando sentimentalidades. Macho que é macho sente na cama e na hora do futebol, solamente.

Ela: É impressionante ver esses caras se rasgando, sofrendo, chorando, se abraçando, rindo juntos, declarando seu amor a uma paixão fabricada. E na vida, fechados como ostras com medinho de seus próprios sentimentos no relacionamento com suas mulheres e famílias. Comentando duríssimos no trabalho sobre como é difícil se relacionar com suas mulheres que querem conversar sobre as coisas. Dai-me forças!

Até aqui, os homens. Mas se notarmos bem, cada vez mais as mulheres têm se colocado nesse lugar de torcedoras fanáticas. Vestem suas camisas coloridas, vão aos bares, às ruas, bradam seu amor, levantam a voz, conhecem os títulos, os lances e são capazes de emocionadas discussões sobre seus times de preferência.

Ele: Acho essa situação até positiva. Assim, indiretamente, o homem de hoje percebe que pode chorar na cozinha cortando cebola. Explico: minha teoria continua e diz que o homem é ligado em sexo não somente pelas questões da natureza primal, mas porque a sociedade que conhecemos, desde os tempos mais remotos da machadinha, colocam os homens como indivíduos que não podem perder tempo com sentimentalidades e devem ter foco no sexo para perpetuar a existência da comunidade. Homo Sapiens homens nasceram fisicamente mais fortes e, força, naquelas épocas áureas do desolamento, estava diretamente ligada com a existência das pequenas comunidades. Pequenos grupos que percebiam que funcionavam melhor em comunidades para a sobrevida de cada um. Homo Sapiens mulheres precisavam parir filhos para garantir mais lastro ao próprio grupo. Comunidade maior = mais chances de sobreviver. Comunidade maior = mais chances de evitar a dor da morte, a dor da perda. Morte = um bicho terrível, doloroso, inexplicável e assustador até hoje para a maioria.

Só que ser humano que foi e é o homem, precisa ter válvulas de escape para o dia atribulado, para liberar as tensões. Desde os tempos remotos descobriu-se que no sexo funciona essa válvula e descobriu-se também que duelando machadinhas – como no futebol – ajuda.

Esse modelinho primitivo, do homem que é naturalmente mais forte, brigar pela comunidade e fazer filho, e da mulher, de parir filhos e alimentar os futuros guerreiros, são bases primordiais até hoje. Deslocamos um pouco o peso da força física para a força moral, mas me soa ainda um tanto semelhante.

O fato das mulheres invadirem os territórios sagrados do homem-sapiens impulsiona a uma releitura desses valores primais, conscientemente ou sem consciência nenhuma. Assim, homem cansado desse modelo pode chorar cortando cebola! (Estou erguendo o braço nesse momento).

Ela: Então o futebol fanático não é mais coisa de menino. Somos finalmente uma nação inteira embriagada pelo futebol? Gays, lésbicas e héteros, almoçamos e dormimos times fabricados e falsas conquistas?

Ele: Panis et circenses ontem, hoje e amanhã. Messias e rebanhos. Dominantes e dominados. Eis o nível evolutivo do planeta Terra. Aí é questão de fé: numa próxima encarnação quero jogar outro tipo de partida!

 

O tipicamente feminino

Por Ela

Nosso imenso repertório de pré-conceitos é formado ao longo das nossas vivências e pela maneira como as internalizamos na nossa vida. Em cada fase do nosso amadurecimento nos predispomos de forma diferente com o que a vida nos apresenta.

Num exemplo bem simples, uma criança de 2 anos pode interpretar um fato simples como a saída dos pais para o trabalho como um abandono atroz. Anos mais tarde, poderia até desejar que eles saiam logo para poder explorar em paz seu quintal.

É assim tão única a formação de nosso caráter, que não se pode dizer que dois irmãos criados juntos compartilhem os mesmos valores.

Mas mesmo com todas essas possibilidades de pessoas que podemos ser dada à nossa experiência pessoal, há algo mais arraigado nos nossos costumes que também permeia nossas formas de expressão e até os nossos sentimentos. Me refiro às questões morais, valores sociais, o bem comum.

Anos de convívio social criaram relações complexas entre as pessoas e os grupos sociais, permeadas por valores nem sempre claramente expostos, mas certamente bem inteligíveis a todos.

No meio disso tudo estão os “comportamentos tipicamente femininos e masculinos”. Por muito tempo e até hoje se tenta reforçar certa ordem vigente associando esses “tipicamente isso ou aquilo” à fisiologia, à capacidade física, intelectual, à genética, entre outros. Como se se criasse uma razão superior para que nada fosse desafiado.

Controversamente o mundo cria os desafios e nos propõe outras respostas. Como a guerra que tornou o homem rico, um reforço óbvio à manutenção do poder masculino vigente, também impulsionou as mulheres ao mercado de trabalho. Este fato simples criou condições para tantas outras mudanças, que poderíamos ficar horas debatendo suas consequências.

A questão é que numa velocidade ou outra, desde que vivemos em sociedade estamos nos adaptando algo novo, nos redescobrindo e reinventando normas. Entretanto no meio disso tudo algo parece sobreviver sobremaneira aos tempos, e esse é o tal do “coisa de mulher” / “coisa de homem”.

Os termos e a intensidade variam, mas sabemos que trazemos esses valores de um jeito ou de outro, mesmo nós homossexuais que temos por princípio questionar a ordem vigente para que caibamos nela.

Sabemos disso quando discretamente nos surpreendemos com um homem dono de casa, ou uma mulher pilotando um avião.

Intrinsecamente, mesmo não querendo, trazemos o conceito do tipicamente feminino/masculino dentro de nós. E acredito que não nos deixamos influenciar menos por isso pelo fato de sermos lésbicas ou gays.

É claro que prestamos atenção nisso até para podermos protestar por outros lugares, mas se chegamos mais perto das pessoas, vamos ver que em nossas relações mais íntimas ainda tentamos reproduzir o tal “tipicamente”.

Na dicotomia do sexo, as pessoas ainda procuram exercer os tais papeis do homem e da mulher. É assim no sexo, na provisão do lar, e em tantas outros momentos. As relações lésbicas, por exemplo, não se pautam tanto numa sociedade formada por pessoas que contribuem com igualdade, mas sim em uma reprodução do padrão feminino/masculino tal como vivido pela geração dos nossos pais.

Menos com os tomates! É claro que o equilíbrio também é dinâmico e por vezes uma característica, uma afinidade vai determinar um comportamento mais masculino ou feminino numa determinada situação. Nem por isso pode-se dizer que se estabelece uma situação do “tipicamente”.

Mas o fato é que essa divisão cartesiana de gêneros aparece muito claramente em casais de lésbicas. Há sempre uma delas querendo dominar ou prover, e a outra querendo ser amparada enquanto cuida dos afazeres. Basta colocá-las em posições trocadas para perceber o desconforto e a tensão.

E o que é isso senão uma tentativa de reprodução do mecanismo já conhecido de papai e mamãe, onde se sabe claramente o que esperar do outro.

Gostaria de dizer que o “tipicamente” talvez nem exista tanto mais, já que vivemos hoje numa transição de gêneros, onde cada um procura seu novo lugar à medida que os valores vão se reconfigurando e as coisas se reordenando.

A autonomia da mulher, o individualismo, as novas famílias, tudo isso e muito mais questiona e remexe tudo até que não saibamos mais com tanta clareza o que hoje é “tipicamente masculino ou feminino”.

Mas nós como humanidade devemos ter mesmo muita preguiça dessa reinvenção toda, porque estamos sempre tentando ocupar o lugar pré-definido, e não criando nosso próprio espaço. Renegociar tudo isso novamente a cada relação é exaustivo obviamente.

Avessas às mudanças como todo o resto, acho que nós lésbicas ficamos aqui tentando chacoalhar o mundo ainda querendo vivendo como nossos pais.

 

Por Ele

Sou tipicamente feminino porque gosto de discutir a relação.

Sou tipicamente masculino porque trabalho 14h por dia como os homens work-a-holics.

Sou tipicamente feminino pois deixo fluir a minha intuição.

Sou tipicamente masculino porque passo tranquilamente por um heterossexual.

Sou tipicamente feminino por acreditar que homens canalizam muita coisa no sexo.

Sou tipicamente masculino por gostar de carros e não me interessar por novela.

Sou tipicamente feminino pois minha necessidade de carinho e atenção é assumida.

Sou tipicamente masculino porque ando com uma preguiça danada em cultuar meu corpo.

Sou tipicamente feminino porque me afeiçoo por astros, cartas de tarô e Chico Buarque.

Sou tipicamente masculino porque gosto de videogame até hoje.

Sou tipicamente feminino, ultimamente, em quatro paredes.

Sou tipicamente masculino porque as questões das mulheres sobre os homens me cansam.

Sou tipicamente feminino quando canso do meu eu masculino.

Sou predominantemente masculino e descobri que adoro meu eu feminino!

 

Trans-Homem, Trans-Mulher, violência e outros bichos

Por Ela

Já parou pra pensar com a cabeça de uma pessoa que se entende habitante de um corpo equivocado?

Sufocar sentimentos, desejos e sonhos pra tentar seguir os malucos padrões sociais e quando o forjado parceiro tira a roupa, sentir uma inveja paralizante do seu corpo de homem?

Parece talvez como uma lente de aumento extremamente forte na questão homosexual gay e sapatão. Um desconforto coma própria condição, um não aceitar-se como os outros esperam que você se porte ou se vista. Mas tudo isso extremamente maior, porque o desconforto nem precisa ser do outro, ele está em você, no espelho, na voz, na manifestação do hormônios.

Eu não “sei” na prática o é tudo isso, também não tenho contato próximo com essa realidade. E de repente por isso mesmo tenho uma curiosidade enorme de entender melhor essas pessoas, e vez por outra encontro algumas dessas historias que vou tentando montar no meu quebra-cabeças.

Uma das mais intrigantes pra mim foi uma reportagem bastante longa que a BBC fez com um rapaz que virou moça, que mais tarde viraria rapaz de novo. Este homem de uma tradicional família árabe, casado, pai de 2 meninos, se descobre envolvido por amigo. Na época já aos 20 e poucos anos. Se assume gay, já dá pra imaginar os problemas que enfrenta só aí.

Passados alguns anos de sua vida gay, sentindo-se ainda incompleto, errado, infeliz, faz a operação de trans gênero. É agora uma mulher árabe, enorme, desajeitada e solteira. Sim, seu companheiro a abandona após a cirurgia.

Vive mais alguns anos como mulher e, chega ao mesmo tempo à conclusão de que se equivocou ao fazer 1a cirurgia, e também se dá conta de que a vida como mulher é muito mais difícil.

Confesso que ri muito nessa hora. Queria que todo homem e mulher pudesse assistir a essa parte do depoimento pra entender onde estão os problemas que ninguém percebe, as dificuldades que, inseridas na vida cotidiana, passam desapercebidas.

Mas voltando ao nosso tema, eu fiquei intrigadíssima com a vida desta pessoa. Com a perturbação da sua cabeça, com a coragem das decisões que tomou, com todo o resto que imagino porque não coube na reportagem.

Alias, a própria vida depois da reportagem, pois ela estava com tudo agendado para novamente ser ele.

Essa história muito louca fica cozinhando na minha cabeça enquanto eu fico tentando entender. Enquanto isso aparecem trans-homens que engravidam, trans-homens que se vêem gays, trans-mulheres exageradamente femininas. E, cada um com a sua história, tem uma dor profunda em comum e muita coisa pra dizer.

João W. Nery é uma dessas pessoas que tem muito a dizer. Trans-homem de 61 anos, divididos matematicamente como mulher e homem. Além de tudo, um pensador, um psicólogo, um escritor. Um homem culto.

Esse cara lançou uma questão genial que queria muito propor aqui: o heterosexual precisa do “fora do padrão” para que ele mesmo seja considerado “o padrão”. Assim, o gay, a lésbica, o transexual, etc, etc, etc, são necessarios à condição de normalidade do heterossexual.

Se o “errado” precisa ser corrigido ou, paradoxalmente, eliminado, a violência contra os gays e trans não só se justifica como é também aplaudida por uma sociedade doente.

Vão dizer que estou exagerando. Mas aplaudir pode ser simplesmente fazer silêncio. Ouvir ou assistir impassivo à uma violência qualquer é como ser conivente com o crime. Basta fazer uma busca rápida para perceber que há um volume enorme de violências em nome da tal heterosexualidade “normal” por aí.

Então me parece que mais do que justificar a tal normalidade, somos também como um saco de pancadas animado, um video-game vivo. Porque muito se vê a respeito da violência contra os gays, trans, heteros que parecem gays, mas não muito respeito das punições. Tal como nos vídeo-games.

Recomendo: http://www.youtube.com/watch?v=tTqa5BgmEog&feature=youtube_gdata_player

Por Ele

Normalidade ou identidade. Prefiro dizer naturalidade. O vídeo que a querida Ela fez a crítica acima, dos 30 anos como trans-homem (ex mulher que virou homem) de João W. Nery mostra que os conceitos sociais de gênero (masculino e feminino) e sexo (homem e mulher) são formados pelas bases da heterossexualidade. Valores seculares que estão mudando a medida que nos desprendemos de modos tradicionais, morais e religiosos que não mais se aplicam à vida contemporânea, do hoje. Diga-se “vida contemporânea” aquela que possibilita a difusão da informação, de um reconhecimento plural da humanidade e que retoma ou enxerga pela primeira vez o ser humano acima de classificações antiquadas que a própria sociedade formou.

Os seres humanos pela necessidade de sobrevivência aprendeu em tempos remotos que o convívio social, em grupos, o tornariam mais hábeis e aumentariam as chances da sobreviência contra os inimigos naturais e outros grupos rivais que disputavam pela sobrevivência ou valores de poder. Só que com essa aglutinação, para criarem regras e condutas entre os próprios indivíduos, foram definidos valores, conceitos, políticas, hábitos, modos e cultura para que a própria sociedade se concebesse e se preservasse no próprio estado de sociedade. Nesse processo, na questão de sexualidade, a heterossexualidade que parecia garantir uma segurança em um mundo de muitos rivais numa luta constante pela sobrevivência, possibilitaria a perpetuação da própria sociedade. Nada mais natural e óbvio num cenário de desespero para sobreviver.

Esse modelos tiveram poucas variações e definitivamente se perpetuou por gerações e milênios. O que acontece é que nessa sociedade contemporânea o sentido visceral de sobrevivência está cada vez mais distante. Pois bem, se é assim, o que de fato as outras sexualidades que não a heterossexualidade podem causar à sociedade, mesmo que ela ainda preserve a necessidade de sobreviência e poder? Com a clareza e informação que temos hoje, vindas da ciência, da sociologia e das próprias relações diárias de um indivíduo perante a própria sociedade, sexualidade diferente da heterossexualidade reprodutória não quer mais dizer enfraquecimento ou, muito pelo contrário, a compreensão e a inclusão da diversidade numa sociedade contemporânea representa mais força. Principalmente nessa sociedade globalizada com tanta gente!

Abstraindo: essa coisa da preservação da espécie, ou da própria sociedade, me cheira forte o cheiro de grupos construídos por traumas de perdas, de entes, filhos e amigos que morriam inicialmente nos processos naturais, nas bocas de predadores e depois nas mãos de rivais até bem recentemente. Em outras palavras, o trauma ou o medo da desgraça era forte e movia a própria sociedade a se formar. Hoje não precisamos nos pautar mais nesses medos para nos entender em sociedade.

Utopia? Talvez, mas uma maneira bem resumida de alguns por quês das coisas serem o que ainda são hoje.

Pouco se pára para pensar do por quê de seguirmos modelos, métodos e regras e essa inércia acontece diariamente em nosso universo íntimo, nas famílias e no cotidiano. Por que afinal de contas uma mulher precisa casar de vestido branco na igreja, perante um padre idolatrando o altar sendo que muitas delas nem são mais efetivamente católicas? [Valorização do clássico]. Por que temos que louvar por um Jesus iluminadamente branco, de olhos claros, aloirado digno de um top model das passarelas do SPFW, cuja imagem idolatrada se formou pelo Renascimento? [Alienação pelo poder do belo]. Por que temos que acreditar no Papai Noel de roupas vermelhas, que nos visita todos os finais de ano, que em sua origem vestia-se de azul e foi a Coca-Cola que o tingiu de vermelho para associá-lo a marca? [Consentimento da manipulação].

Eis alguns hábitos culturais, dentre muitos outros que raramente paramos para pensar, que herdamos a milênios dessa sociedade que precisava se fortalecer. E nesse fluxo, de Jesus top model, noivas não católicas mas dentro de vestidos brancos e papai noel azul, levanto a questão: por que tão e somente a heterossexualidade? Para nos manter numa condição de procriação e perpetuação da espécie em situações constantes de ameaças? Para nos proteger do medo da perda, da desgraça e da diluição da força da coletividade?

Gente, esses valores se foram a milênios! Mas teimosos, tapados ou conformados com a sociedade da inércia seguimos. Ser gay, trans e bi exige um espírito crítico talvez maior do que aqueles que cumprem o menu social. Nos cobramos mais (ou é isso que se espera) para compreender os por quês de estarmos fora das “regras” e entender para onde devemos ir se é nosso interesse fazer parte das regras.

Muito do que estabelecemos a séculos atrás ainda são alicerces para hoje. Mas será que precisa? Creio que não. Podemos até devanear, afirmando que a sociedade atual é tão predatória como foi no passado. Mas não é bem assim. Não precisamos caçar com machadinha e defender o quadrado na base da porrada porque o vizinho pode roubar a plantação de cenoura! Pelo menos não deve ser assim nos países ou microcosmos mais evoluídos. Fora disso é estagnação, que também é uma condição humana.

Me parece que vivemos num universo muito mais apto a oferecer do que tomar posse, mas a tendência é querer enxergar o lado vazio do copo. Antigamente, as pessoas se apossavam dos terrenos para construir feudos. Apossavam na base do facão. Matavam “bruxas” porque desenvolviam remédios fitoterápicos e homeopáticos.

No tempo do meu pai, compravam terrenos como investimento e um tipo de garantia de status ou garantia para a velhice. No meu tempo e um pouco mais recentemente, o jovem anda pensando diferente. O jovem tem serviços a sua disposição de pousadas, hotéis e resorts. Os jovens coletivizam aluguéis de apartamentos e quiçá, muito em breve no Brasil, comprem juntos formando famílias de amigos e não famílias heterossexualizadas no modelo “propaganda de margarina”.

O mundo está mudando ou pelo menos busco viver essa parcela da mudança que não são poucos e não são somente gays, lésbicas e trans. Gosto da parcela desapegada que se enobrece em contraponto ao modelo de riqueza que definha. Obviamente o mundo é vasto e tem espaço para todos os jeitos. Eis o olhar: todos os jeitos que não quer dizer anarquia nem jogar todos os séculos de formação de sociedade fora.

Nesse fluxo de abstração, reflexões e pensamentos, primeiro vêm o “olhar mais natural” aos/às gays e depois aos trans. Não porque gays, como eu, são mais privilegiados. Mas porque numa escala de choque social, estético, ético, que inclusive inclui a transformação das próprias genitálias, o trans precisa martelar mais nessa sociedade da inércia (que odeia sair do tradicional) para a conquista de inclusão. Mudar os movimentos para o que aparentemente já funciona a milênios sempre vai dar mais trabalho. O que funciona há tanto tempo acomoda e exige muita clareza e disposição para mexer. É o mesmo que a lógica do novo ser mais capaz de mudar que o velho. Mas posso dizer que se existe necessidade todos mudam.

Continuo otimista acreditando que o antigo seremos nós, gays e trans. Em outras palavras, um dia seremos os contrários as novas ondas evolutivas porque deu tanto trabalho para ser assim. É tão seguro estar assim, por que temos que mexer? Achar que nos resumimos ao que somos, sem aceitar o que vier de novo, é o passo para aceitar a nossa própria condição de inércia.

A sapatão optou pela carreira. O gay, pela autonomia

Por Ela

Ela se acabou de trabalhar em horas extras muito mal pagas. Desenvolveu habilidades. Enfrentou desafios. Engoliu sapos. Aceitou feedbacks com os quais não concordava. Mais sapos. Trabalhou em condições difíceis. A cada novo projeto um novo cliente, um novo time, um novo chefe. Personalidades e estilos diferentes, uma variedade imensa de peças pra lidar. Ela se “acamaleou”, adaptando-se aqui e ali, e se moldando à Empresa.

Espelho, espelho meu, ninguém é mais acomodada do que eu!

Deixei meu barco correr bem solto, e só agora depois de 13 anos na estrada, penso e me planejo para o futuro. Só posso achar que sou incrivelmente acomodada, porque fiz isso mesmo sendo minha carreira notoriamente exaustiva. Vivo numa constante roda-viva, sob pressão, prazos absurdos, cobranças de todos os lados, inúmeras variáveis novas, desinformação, despreparo, riscos… E mesmo com tudo isso, minha carreira teve que tomar conta dela mesma.

Nunca, nunca, nunca na zona de conforto. Aliás, aprendi que não se cresce na zona de conforto. É preciso ter desafios, desossá-los, comê-los com farinha, andar sobre as águas, dar 3 voltinhas flutuando no ar. Só aí, e se ninguém der 4 voltinhas, você tem os merecidos louros da glória sem “poréns” ou descontos. Meus chefes mais doces costumam chamar isso de “a cenoura da frente”. Aquele prêmio ilusório que faz com que os coelhinhos corram até a exaustão.

Talvez por não acreditar tanto nas pequenas “cenouras da frente”, tive a paciência e o estômago para seguir em frente. Eu nunca fui “top performer” de absolutamente nada. Acho imbecil o conceito americano de no 1. Na escola, preguiçosa, só estudava pra 2ª prova. Tenho paúra de planejar meu dia. Enfim, eu tinha tudo pra ter tido uma longa carreira de 2 meses e acabar apertando grampeador em alguma copiadora.

Mas, contraditoriamente, não comprar as “empresísses” me segurou na empresa numa matemática muito simplória: menos expectativas, menos desilusões. Como os louros não me fascinavam tanto, os tombos não me agrediam tanto também. Ia passando pelos perrengues e me fortalecendo com o que aprendia enquanto colegas mais competentes se exauriam pela angústia. Paciência, seu nome é carreira.

Como só sei produzir sob pressão, precisava mesmo desse ambiente pra me desenvolver. Sempre perguntei para o espelho de manhã do balanço entre os sapos e os louros. Os sapos sempre se explicaram como um mal necessário. Os louros, traduzia e traduzo até hoje em desenvolvimento profissional. Enquanto estiver me desenvolvendo, está valendo a pena.

E onde está a minha sexualidade nisso tudo? Pois é, não está. Ela não tem nada a ver com a minha carreira, nadinha mesmo. E fica bem disfarçada nas camisas bonitas e sapatos de bico fino. Foi propositadamente que eu alienei o “ser lésbica” na esfera da carreira. Sentia que prejudicaria meu desenvolvimento profissional, e não estava disposta a levantar essa bandeira. De novo, acho que por pura preguiça, rs…

É claro que há gays, lésbicas, sapatões, viadinhos perambulando pelos corredores de qualquer companhia grande. E nós nos reconhecemos mais cedo ou mais tarde!

A questão aqui é como a carreira e a homossexualidade se interceptam. Eu optei por não conciliar e manter as duas completamente apartadas uma da outra. E continuo acreditando na minha escolha. Claro, válida pra minha vida, minha carreira, minha empresa.

A carreira que escolhi me impõe certas discrições, como me adaptar aos diferentes ambientes dos clientes que visito. Ser meio camaleoa, sem pigmentação sapatão me facilita essa habilidade.

 

Por Ele

Depois de um punhado de chefias no começo da carreira, adolescente ainda na ESPM, descobri que o emprego que me trouxe mais felicidade foi o último: pelo salário, por poder atender as demandas das minhas especialidades de design, por lidar com autonomia com os parceiros de tecnologia, atender clientes como “gente grande” e ter boa liberdade para participar da produção do começo, meio e fim sem me resumir a uma baia sufocante, fazedor de desenhos legais.

Antes disso, tive a experiência de frilar um tempo em parceria com um dos designers gráficos mais conhecidos do país. O cara foi gente fina, tinha toda uma vibe de surfista, seguidor de David Carson, e de por crédito no que eu fazia, como um mentor.

Tudo começou com um estágio não remunerado no estúdio de vídeo da ESPM. Seis meses depois tive um primeiro contato com uma agência de comunicação de ex-alunos da faculdade, indicado pelo meu professor de planejamento. Seis meses depois estava dentro da empresa do Amilcare Dallevo Junior e do Marcelo de Carvalho que na época estavam tornado-se donos da Rede TV!. Oito meses depois, no começo da Internet, fui convidado por um professor de criação para fazer parte da equipe de sua empresa que estava começando a se aventurar no universo da web que, na época, era uma fronteira ainda muito desconhecida.

Foi lá que lidei com egos absurdos que colegas de trabalho, da competição idiota de uma empresa com um punhado de funcionários, do xavecar o chefe e de realidades mediocres de algumas personalidades formadas na atmosfera das grandes agências de propaganda: pura ode ao ego. Odiei, traumatizei, perdi uns quilos e fiquei mais seis meses.

Lá conheci o Cássio Leitão, o desginer fodão que foi mentor e me ajudou a reestabelecer a auto-estima, que narro no começo desse texto. Há males que vem para bem.

Frilei feliz atendendo nomes grandes em parceira com o Cássio. Pagavam bem e assim pude montar minha infra completa com um Mac G3 que na época custou 12 mil reais e foi a vista.

Para retornar a uma empresa como funcionário a coisa que mais precisava era de autonomia. Boa ou excelente reputação na faculdade fez de novo o meu professor de planejamento, então diretor de graduação de comunicação me indicar para uma nova empresa, aquele que me deu total autonomia, até negociar que não fosse registrado porque achava um absurdo o tanto que entregávamos para o governo. Queria tudo no meu bolso.

Nasci geração X, mas hoje vejo que tenho uma alma Y quando o assunto é trabalho.

Tão Y que foi a autonomia e a sensação de estar no mesmo nível que todos nessa última empresa que me segurou um pouco mais de um ano. Não estava nem aí para o futuro e queria viver reconhecimentos no hoje.

Pulei de lá para cá sulgando tudo ou pelo menos o de melhor que as empresas me ofereciam. Fazia meu trabalhinho de design, mas me chamava a atenção a maneira que cada chefe lidava com suas empresas, funcionários e equipe. Gostava te entender processos, de participar de reuniões e atender clientes.

Pulei de cá pra lá e estou hoje na mesma empresa há 12 anos. A minha. Com 23 anos e com a mesma energia, fé ou ingenuidade comecei meu próprio negócio achando que fosse conquistar o mundo, enriquecer em meses e me superar todos os dias. Com os mesmos 23 também tirei para fora a minha sexualidade e foi num turbilhão: em meses, amigos, sócio, funcionários saberiam da minha sexualidade assim: “então, sou gay. Vamos continuar nossos afazeres?”.

Fui gay, doesse a quem doesse. Sou gay e das expectativas de uma empresa própria com meus virgens 23 anos, não conquistei o mundo, não enriqueci em meses mas aprendi definitivamente a me superar todos os dias. Ter empresa própria é lidar com necessidades previstas e imprevistas e não ter chefe ou mentor para assegurar e dizer como fazer. Era eu, meu sócio e Deus (rs).

A fé foi tamanha que estou aqui. O professor de planejamento, que virou diretor ban ban ban da ESPM virou também cliente. O primeiro chefe da agência de comunicação virou parceiro com a maior agência de São José dos Campos. O sócio original não está mais presente, mas os dois funcionários que mais resistiram as batalhas estão no contrato social. Em 12 anos descobri que mais importante que ser uma empresa numerosa é que na razão de números que saem para pagar as contas e números que entram de novos projetos o saldo precisa ser o mais gordo possível. Grosseiramente, quando o assunto é finanças, é assim que funciona.

Quando o assunto são negócios, o lastro deve ser de pessoas, parceiros e uma consciência absoluta de que o que vendemos é segurança e nada mais.

Segurança que venho adquirindo por ser gay, dono de micro empresa há 12 anos, gestor de equipe, líder de pequeno negócio que vende grandes ideias todos os dias quando entro na “casa” dos clientes. Acredito tanto no que faço que convenço, ou pelo menos acredito!

No meu caso, ser gay e ser homem está tudo misturado. Mas confesso que já é assim há tanto tempo que nem lembro que ser gay em relações de trabalho pode ser questão.

 

Família ê de gay, família á de lésbica…

Por Ela:

Sexta-feira dia 15 se iniciou um novo ciclo na vida vida.

Passava a manhã toda preguiçosa enrolada na minha namorada quando o telefone tocou e a notícia mais bizarra saiu do outro lado da linha: alguém que sequer existia, morrera. Como se não bastasse esse tranco, exatos 11 meses separaram o fato da notícia.

Bizarríssimo, ainda me pergunto se isso tudo poderia ser mais estranho.

Precisava explodir, pensar, pensar, pensar… Fiz minha pereguinação no trânsito dividindo a história com amigas queridas que conhecem tão bem esse meu passado, lavando a bronca na chuva, chorando cântaros, procurando briga entre ladrões, os mendigos, tentando encontrar razão e saída. Uma semana depois, já com certo controle das emoções fui atrás da minha infância querida, procurar razões pra erguer a cabeça e seguir.

Como nas vésperas de Natal, quando podia pensar com clareza e refletir minha vida na época do deslumbramento, minhas energias se renovaram incrivelmente. Era como estar no porto seguro de novo. Não pude falar tudo. Também não pude chorar. Mas me sentir à volta de pessoas que me querem bem “no matter what”, era tudo o que eu precisava. Passar por lugares que me remetiam às lembranças das minhas férias de infância, notícias da professora do jardim, o olhar carinhoso, o abraço afetuoso.

A família tem esse poder na gente. Te destrói, e te recompõe. Pessoas diferentes, que fique bem claro.

A tal notícia encerrou um ciclo de longa espera na minha vida. Por mais brutal que tenha sido pra mim, foi fundamental pra colocar um grande ponto final numa débil esperança de resignação e reconciliação. Ao mesmo tempo que a forma com que veio e o tempo que demorou pra chegar, lacraram de vez qualquer possibilidade de transferência desse sentimento para outras pessoas.

Eu vou podendo respirar mais leve e me recarregando aos poucos. Até posso refletir com mais clareza sobre as consequências de todos os traumas que essa pessoa que se foi me infringiu, e trazendo isso pra Ela de hoje, vou querendo descobrir as raízes do comportamento das minhas relações.

Se tem sempre uma coisa boa em tudo, abrir uma porta pra outras possibilidades é fenomenal, mesmo que seja duro. Estou nessa página esses dias. Tentando interferir mais no meu destino tomando conhecimento de atitudes que eu tomo intuitivamente e em referêncas malucas que minha mente infantil incrustou lá no fundo da minha consciência.

Desde esse episódio eu tenho tentado escrever, mas minha cabeça vitrola quebrada não saia dessa faixa. De repente escrever é muito libertador mesmo.

Nessa história não tem nada de sapatão, gay, lésbicas. O que me separou desse lado da minha família não foi minha orientação sexual. Mas achei que cabia muito bem refletir tudo isso aqui, porque quando mais navego por este universo noto histórias mal resolvidas, obscuras, difíceis com os pais e a família.

O clichê mais clichê de todos os clichês, a família é a base de tudo, fica martelando na minha cabeça. Numa nota só, como as torturas. O poder que essas pessoas tem de nos influenciarem, moldarem nosso caráter e nossas atitudes às vezes é muito maior que gostamos de admitir.

Para o bem e para o mal, famílias são feitas de todas as cores do arco-íris mesmo sem vermos isso o tempo todo. Me reconcilio com a minha, já não sem tempo e com muito esforço pra genuinamente aceitar a herança que ela me impõe.

Essa família que trago pra perto de novo me recebe de braços abertos a despeito da minha gayzisse. Engraçado, porque era dela que eu tinha mais medo. Por milhares de motivos, os julguei e fugi deles na descoberta da minha sexualidade. E veja só que ironia. São justamente os que se mostram mais acolhedores num dos momentos mais difíceis da minha vida.

É isso, pessoas. Minha vida caixinha de pandora fazendo cair meus paradigmas uma vez mais.

Por Ele:

Depois de dois anos e meio de namoro, ou quase isso, tenho feito um balanço novo. Quando tive a primeira família de um namorado existia uma vontade muito grande de ser aceito, de fazer parte, de integrar e de ser querido. Existia uma vontade de ter cunhados, cunhadas, sogro, sogra e todas as variantes que vinham no pacote. Outrora, precisava me provar que um homem seria capaz de criar um relacionamento por outro homem. Depois, que um casal gay poderia ser incluso naturalmente numa família, casado.

A minha própria família é pequena. Tios, primos estão cada um num canto do Brasil e os que estão por perto se vêem pouco. Família, para mim, é mãe, pai e irmão, nas qualidades e defeitos que esse modelo traz e que por muitas vezes critiquei por ser tão resumido a nós, longe de um convívio mais amplo que é bastante comum em outras famílias e que me soavam tão encantadoras como referência.

Família pequena é a minha, mãe bastante presente, pai num reencontro comigo e vice-versa e irmão virando gente grande a distância. O balanço novo tem me apresentado virtudes nesse modelo. Não existem fofocas, não existem rivalidades entre primos e tão pouco o espírito de hiprocisia, das panelas que falam mal uma das outras e quando estão juntas são sorridentes.

Família pequena para sobreviver junta precisa de muita lealdade e transparência. Seja para as convergências que são rapidamente absorvidas, seja para as divergências que se escancaram em discussões, debates, exercício de senso crítico mas que no final, doa a quem doer, precisa chegar num acordo. Pelo menos, esse modelo aberto de “lavagem de roupa suja” foi algo que batalhei para ter com meus pais superando os medos, facilmente conquistado com a minha mãe pela sintonia despida e autêntica para comigo, ou trabalhoso como foi com meu pai cuja personalidade e falta de resoluções pessoais o fazem ou faziam bastante inseguro quando o assunto tange ou tangia a humanidade de si e perante sua esposa e filhos.

Em outras palavras, minha mãe é essencialmente humana e precisou se desumanizar pontualmente para chegar numa maturidade resolvida e conquistada. Meu pai seguiu pelos trilhos da desumanidade se acovardando diante muitos desejos e sinais que a vida lhe apresentava, assumiu a vida toda um personagem de quem trazia o sustento e definia as regras do jogo (nem ele mesmo compreendendo a fundo porque seguia essas regras herdadas) para hoje trabalhar um resgate de sua humanidade, modestamente tendo-me como uma espécie de guia de segurança para poder afrouxar o nó e perceber que dá para ser feliz, homem e em paz consigo mesmo sem precisar assumir todos os dias uma linha dura, do eterno pai que tinha que impor valores, muitos deles sem saber exatamente o por quê.

Todo esse novo padrão foi um processo batalhado. Os meios não foram os mais prazerosos, tiveram decepções, frustrações, jogos psicológicos e emocionais, ameaças de expulsões e terapia para sairmos dos vícios de relacionamento, aprendermos, chegarmos amadurecidos e mais conscientes do que representamos hoje uns aos outros, sem máscaras ou perfis sociais do tipo “papel de pai”, “papel de mãe”, “papel de filho” ou “papel de família”. Conquistamos nossas independências sem perder a ternura.

Meu irmão nessa história toda preferiu se ausentar e quando nos reencontramos tende a fazer o mesmo jogo que joga há 30 e poucos anos com eles. Não é o tipo que aceita conselhos quando não pede por conselhos. Tem lá seus excessos e loucuras herdados. Mas quem não tem? Espero, com muitas forças, que ele não repita os modelos de papai, mas também não posso fazer muita coisa além de torcer.

Nessa história, de rever valores perante meus pais, minha posição como integrante e suas posições como pais, neguei o modelo, mexi aqui e ali, provoquei e gerei conflitos. Fui a ovelha negra da Rita Lee para o horror de muitos pais! =P

Fui buscar nas famílias de meus namorados outras referências, das famílias grandes e próximas, das famílias médias e dos “sem família” para olhar de novo para a minha e perceber hoje que é nela que me encontro ou reencontro quando preciso. Na minha família que me encontro como filho dos meus pais e eles me aceitam como o filho adulto, com meus próprios valores sem precisar me poupar de nada, sem ressentimentos ou feridas que não cicatrizaram.

Os meios não foram fáceis, mas foram fundamentais para chegarmos onde chegamos sem ter receio de cutucar em feridas abertas. Aprendi na minha família que preservar feridas abertas dá mais chances de encolhermos a alma.

 

 

Gays e lésbicas também envelhecem

Por Ele

Que todo mundo já sabe é que velhice, a chegada da maturidade no geral, é algo que as pessoas costumam evitar. Cirurgias plásticas, técnicas mirabolantes, exercícios físicos, dietas fantásticas e, principalmente, não pensar a respeito são as soluções mais imediatas da sociedade moderna!

Mas e no universo gay ou lésbico? Como será que funciona?

Não dá para generalizar, mas acredito que muitos gays e lésbicas (ou principalmente os gays) temem a velhice muito mais. Isso se dá por um grupo de motivos que correspondem ao modelo de vida que muitos homossexuais adotam. O apelo estético, a imagem jovial e sempre animada, o apelo sexual e o desejo de frequentar determinadas festas e baladas acabam sendo características opostas à chegada da maturidade.

Como perder toda a intensidade que nos abastece praticamente todos os dias sendo velhos? Nos resta, possivelmente, correr atrás para que no mínimo tenhamos boas condições financeiras para dar alguma possibilidade de sustentar esse espírito. Ninguém será belo para sempre. No máximo esticado.

Porque de fato esse perfil gay tão comum nos guetos GLS nos desumanizam. No momento que a velhice é um processo natural e humano, querer estender uma fase da vida, da juventude pós-dolescente, é uma característica bastante comum ao homem gay e acaba por subjulgar processos naturais que dão o tom humano a própria vida. Em outras palavras, gay tende a querer ser meio imortal, belo e sexualmente ativo para sempre!

O fato é que a gente pode até se enganar, e se existem duas coisas que não temos como controlar é o tempo e a própria morte. Não penso e nem quero ser um representante da comunidade gay que não aceite o fluxo natural das coisas. Muito menos ser um gay “periguete” que é o velho no mais bom estilo moderninho Mick Jagger, que se acha jovem mas tem cara de Iggy Pop.

Penso e até desejo respeitar as fases naturais da vida. Hoje tenho 35 anos, me sinto prioritariamente um homem adulto e já começo a achar feio colegas da mesma idade numa vibração teenager. Começa a me cheirar falta de maturidade, desrepeito a si mesmo e uma falta de noção comportamental. Me bate uma preguiça, posso até estar sendo crítico demais, mas creio que o blog aqui tenha essa intenção: despertar um senso crítico para pensar em coisas que não costumamos refletir muito.

Sinto prazer das novas experiências. Chegar nos 35 e viver como alguém de 24 é não querer sair do lugar basicamente. Podemos preservar uma coisa “jovenzinha”, mas dizer que ganhamos novas experiências na frequência adolescente é bobagem. As experiências no máximo vão se repetir entre caras, bocas e corpos diferentes.

Nunca tive tanto prazer no trabalho, na condição de dono de empresa, em profissionalizar minha equipe e trazê-los para a sociedade, em atender clientes dos mais diferentes perfis e segmentos, de cultivar um namoro que vai atingir a marca de dois anos e meio, de curtir família, primos e amigos e até, quiçá, esquecer que sou gay. Cuidar da casa, planejar viagens com o namorado e construir uma vida para benefícios mais consistentes como casa própria, poder trocar de carro, comprar bens sem sofrer em contraposição à excitação de flertes e paqueras, baladas e bebidas me soam mais amadurecidos, ou “coisa de velho”. Que seja porque “ser velho” não me incomoda.

Nunca a palavra “foco” esteve tão presente em minha vida, e veio junto com a realidade de que ter 35 anos é diferente!

Ultimamente tenho sido mais homem (geral) do que gay (particular).

Por Ela

Envelhecer é um saco, é o que tenho a dizer. Começam a despontar sorrateiros os problemas fisiológicos, diminui gradativamente a capacidade de realizar as mesmas tarefas, as marcas do tempo se instalam como posseiras no rosto e no corpo. A questao física do envelhecer não é pra principiantes!

Se essa questão é mais intensa ou diferente para os gays ou as lésbicas, sinceramente acho que não. Vivemos uma época de grande foco no indivíduo, uma personificação e individualização de tudo, que nos afeta a todos sem discriminação de sexo, raça, opção sexual, etc. Deixamos de ver a família como a razão de uma existência, para ver o indivíduo em si mesmo como a razão de sua própria existência. Nesse contexto, estar bem, bonita e feliz tem uma enorme influência na sociedade de maneira geral.

Vamos pensar que já há mais de 5 anos no Brasil se realizam mais cirurgias plásticas estéticas do que nos Estados Unidos proporcionalmente. O que quer dizer isso num pais onde a diferença social é tão gigante? E vejam que nessas estatísticas não se encontram apenas as madames da Oscar Freire. Estão também a sua manicure e a faxineira da vizinha, além dos maridos delas. As academias estão lotadas de senhoras e senhores, há tanto divórcio quanto celebração de boda. Nos trens e metrôs as pessoas não se olham, porque estão ocupadas demais com suas distrações virtuais em seus celulares.

A bola da vez nessa era é o indivíduo, e isso vai determinar como nos envelheceremos, como serão nossas relações no futuro. O fato de sermos gays ou lésbicas nesse contexto no máximo talvez de um tom mais dramático a questão estética no caso dos meninos, ou dos vínculos pífios de amizade no caso das meninas.

Talvez nessa explicação perca algumas amigas, rs. Eu vejo no geral as amizades entre as lésbicas um pouco etéreas. É como se elas estivessem num equilíbrio dinâmico, apoiadas em pontos móveis. Simplificando muito essa história, vejo as meninas se jogarem de cabeça e cegamente em intensos relacionamentos, sempre em busca do eterno amor verdadeiro. Sem entrar no mérito de se viver intensamente os amores, é como se as amigas pudessem se-lo somente quando o relacionamento permite. Essa dinâmica nao é nada fácil de administrar, e com freqüência perde a amizade.

Isso a meu ver é ressaltado demais pela individualidade, pela ampla possibilidade de outras conexões sociais, etc, e cria uma verdadeira caixa de pandora de relações. Novelo difícil de desenrolar a longo prazo. No limite, terminaríamos sozinhas e ressentidas.

Felizmente em contraposição a todas as chatices de enrugar, a maturidade é, sem dúvida, aquela parte que nos motiva a seguir em frente. E daqui a 10 anos, tomara que ela mesma me surpreenda com lésbicas maduras mantendo relações saudáveis de amor e amizade concomitantemente.

Em resumo, arranjar um jeito de conviver bem com tudo isso é a tarefa mais nobre que nos resta. Embora das mais desafiadoras. Eu aos 36 me sinto entrando numa existência diferente, onde as coisas tem outro peso que antes e a vida uma áura diferente.

No meu caso não inaugurei essa nova fase aos 30. A famosa crise dos 30 aconteceu mais tarde, aos 35. Talvez por estar vivendo um amor plenamente feliz nessa época, os 30 me passaram imperceptíveis. Eu ainda sentia plenamente o vigor dos vinte anos e aquela sensação mágica que só na juventude se desfruta de ter a vida toda pela frente e o mundo à disposição. Apenas para constar, vivia uma vida de simbiose, quase nenhum amigo intimo, como manda o bom manual da lésbica embevecida de um amor sufocante.

Quando aos 34 meu mundo caiu, aos poucos me foi aflorando a ser madura, e acho que a primeira coisa de que tomei consciência foi que as escolhas que faço hoje definem meu amanhã. Isso é o obvio, não é? Mas a verdade é que os jovens tem um senso de consequência embaçado pela síndrome do super-homem / mulher maravilha, de que tudo podem. Nós “velhos” continuamos podendo muita coisa, na verdade. Mas a maturidade vai trazendo a certeza de que nem tudo o que podemos nos beneficia. Surge uma pessoa que começa a pensar antes de agir e de priorizar conscientemente as escolhas, agora com um panorama menos imediatista e com foco em objetivos claros e de longo prazo.

Em seguida se transformou a percepção do tempo. Lembro tanto nos meus 20 anos da minha sensação de ter a vida interinha a minha disposição para fazer e refazer escolhas a meu bel prazer, mudar, arriscar, recomeçar sempre com a mesma facilidade e leveza. Mas minhas escolhas deixaram marcas, legados. E novas escolhas a partir de agora, podem significar interromper uma trilha, abrir mão ou arriscar conquistas. A leveza se foi, no seu lugar a experiência e a ponderação de quem tem conquistas a preservar, e não mais uma página em branco para escrever.

Resumo isso tudo muito pragmaticamente: vejo com cada vez mais clareza que eu não tenho muito tempo a perder. Ainda tenho uma porção de coisas para realizar nessa vida, e os prazeres baratos não me iludem e inebriam como antes. Também as relações simbióticas que tanto me atraíram no passado, não exercem mais tanta sedução em mim e agora me parecem até bem perigosas.

Mas quanto ao que esperar da minha velhice enquanto mulher, enquanto lésbica é ainda uma incógnita. Imagino o mundo mais receptivo aos gays, como de fato tem se mostrado nos últimos anos. Imagino menos e mais amigos. Isso é assim: menos pessoas no meu circulo, mas mais intimas. Nem gays, nem héteros, sem etiqueta, mas diversamente ricas. Sempre gostei da mistura, e ela não pode faltar na minha fantasia de almoço de domingo com os amigos. Tenho esses almoços de domingo como meu desafio pessoal. Reunir amigos que são amor, família, que tem caras, gostos, cores e vidas próprios. Que coexistem e acrescentam uns nas vidas dos outros.

E eu… bom, eu vou ser aquela “veinha” irreverente, espero não muito endurecida pelas certezas. Simplificações e brincadeiras a parte, de fato há muito o resolver quanto a envelhecer. Há muito também o que aceitar, preparar, construir. Eu não me vejo uma velha lésbica, porque não me vejo só lésbica agora. Minha vida não esta nada resolvida, ainda há muito o que descobrir, testar, apanhar, crescer.

Aliás acho que nem quero prever muita coisa pra deixar a vida me surpreender. Quero ser capaz de me reinventar. Essa é a velha que quero ser.