A inclusão da família em nossa reliadade

Por Ele

Passaram-se 10 ou 11 anos para que meu pai pudesse entender com mais tranquilidade as questões que pairavam em sua mente quanto a minha homossexualidade. A gente pode pensar: “puxa vida, todo esse tempo?”. Pois é, realmente levou-se uma década para ele entender, em seu ritmo, tudo isso de ter um filho gay.

Como filho, frequentando a família, a casa dos meus pais em almoços e encontros, o fato de ser gay nunca foi algum tipo de ameaça. Como não aparento (e a amiga Ela pode confirmar), meu pai nunca se sentiu desconfortável. Nosso problemas foram outros e que – muito bem – resolvemos todos há dois anos atrás. Assim, posso dizer com satisfação que minhas questões com meu pai (normalmente há questões ou com a mãe ou com o pai) se resolveram em 2011, quando conseguimos entender que eu não era mais o “jovem porra louca” como ele me intitulava e ele não precisava ser “o super pai ideal” como eu queria.

A questão que faltava é que, diante de um namorado ou de um amigo aparentemente gay, ele sempre lembraria que eu – seu filho – também compartilhava das mesmas vontades homossexuais. Pois a bem da verdade é essa: muitos pais, mesmo dos filhos assumidos, tentam esquecer o máximo possível que o filho é gay, enquanto não o aceita, ou não assume a ideia. Natural, assim, meu pai lembrar que eu era gay somente nessas circunstâncias, querendo projetar “um filho gay porém assexuado”.

Uma década se passou desde o dia que sentei na mesa da cozinha e tivemos a famigerada conversa, cara-a-cara, preto no branco e sem a possibilidade de ser diferente. De lá pra cá, como pai e filho não havíamos problemas (a exceção das questões dos ideais comportamentais que tínhamos um pelo outro). Mas seu filho como um ser social gay, que namoraria um homem, a ele era um motivo para desgosto. Tanto era que eu havia assumido a mim mesmo que não teria para quê muda-lo. O importante era poupá-lo e respeitar incondicionalmente seus limites. Trazer um namorado para a realidade familiar, quando na presença dele, era algo que não se realizaria. Assim se fez e consegui tranquilamente criar uma zona de conforto nessa situação. Soube muito bem administrar.

10 anos nesse modelo e, aos poucos, respeitando sua zona de segurança, não havia como – raras vezes – trazer o assunto ou nos pegar em situação que o encontro com meu namorado seria inevitável. Mãe, irmão e futura cunhada, totalmente abertos para essa possibilidade, acabavam criando ocasiões de reunião que colocavam meu pai a questionar se iria ou não. Recusou dezenas e das vezes que recusou não tinha porque me chatear ou forçar o contrário. Meu namorado as vezes se incomodava, as vezes não, já que do lado dele tive uma forte abertura. Está certo que boa parte dessa abertura eu dei um bom “empurrão”, mas isso é somente detalhe.

Eis que nas últimas semanas aconteceu um “click” por parte do meu velho. Na realidade o tal “click”, pela primeira vez, ocorrera no final de 2012, já próximo do Natal. Resolvi fazer um jantar em casa, quando meu irmão e sua futura esposa – que moram no Rio – estavam em São Paulo. Levei o convite a todos, incluindo meu pai. Meio sim, meio não, meio a contra gosto, meu pai veio para a reunião familiar sob meu teto na presença de meu namorado. Ficou evidente o desconforto por parte do meu pai, daquela situação de não saber para onde olhar, o que dizer e como agir. A mim, natural não saber para onde olhar, o que dizer e para onde agir: pela inédita primeira vez ele estava enfrentando seus monstros e fantasias, embora já tivesse conhecido outrora meu namorado sem que eu anunciasse como tal.

Depois desse primeiro “choque”, houve um segundo no começo de 2013, muito mais natural, quando minha futura cunhada convidara a todos para um almoço na casa de seu pai. Uma certa palidez no ar, mas fui firme em respeitar a tal turbidez.

E, de uma maneira totalmente inédita a mim, sem a necessidade de me auto-afirmar, dessas duas primeiras vezes deixei acontecer sem expectativas sobre ninguém. Literalmente fingi que nada estava acontecendo além de um simples encontro de família. Foco nas pessoas e não nas sexualidades.

Assim, nessas últimas semanas, meu pai chegou a pronunciar o nome do meu namorado, numa sugestão de encontro familiar. Confesso que na hora me passou batido ou, talvez, foi tão inesperado e fora das minhas expectativas que eu preferi desconversar! Até chegar o final de semana e reunirmos toda a família no sábado e no domingo. Tudo junto e misturado, um casal gay em meio a um grupo de heterossexuais.

Uma mistura inicial de absoluta estranheza com orgulho. Orgulho por fazer valer uma década de construção da inclusão, do compreendimento e do respeito às diferenças. Plenitude, minha gente. Estranheza por estar totalmente conformado com os limites colocados pelo meu pai e que – de repente – ele mesmo resolveu transformar. E não avisou ninguém! O velho fará 72 anos esse ano e eu preciso tirar o chapéu. Não somente a ele por todas as circunstâncias, contextos e realidades que jogou no lixo para me incluir, mas – humildemente – a mim mesmo que aprendi a respeitá-lo quase que incondicionalmente. Tivemos um tipo de “vitória” fazendo bom uso da paciência.

Somos plenos um ao outro agora.

Por Ela

Fantástico, amigo Ele! Sabendo um pouquinho da sua trajetória, sei o quanto esse momento é importante e simbólico pra você, e fico muito feliz que você tenha quebrado mais essa barreira.

Rumo à aceitação total!

Eu percebo que o preconceito de maneira bem geral está no desconhecido e consequente generalização. Se fulano não sabe nada sobre a cultura mulçumana, por exemplo, pode achar que todos são perigosos explosivos fundamentalistas.

Eu mesma sem ter nenhum contato mais estreito com eles e consumindo apenas o que a mídia me traz, só consigo sentir pena das mulheres passeando com seus filhos e burcas, sempre um passo atrás dos maridos. Nada sei sobre suas crenças, seus valores e, pior: me assusta muito ver burcas passeando pelo meu mundo ocidental!

Nem sequer quero ver algo que de uma forma meio torta me soa como ameaça. Vejam se não é um clássico do preconceito!

Esse almoço com seu pai, caro Ele, representa o início do fim da estranheza. Tenho certeza que seu pai fez um esforço colossal para superar os próprios fantasmas só pra estar mais perto de você. E tiro meu chapéu!

E tenho certeza que vendo que você e o respectivo se portam como quaisquer outras pessoas adultas, exorcisou muitas das assombrações que em algum plano afastavam vocês. Imagino que ele agora esteja desconstruindo a imagem gay que tem na cabeça, dando espaço para outras possibilidades.

O que muito hetero não entende é que sapatões, gays, trans… somos seres humanos mais profundos que uma imagem, com todas as idiossincrasias, questões e sonhos como eles também tem. E é justamente isso o que precisa ser mostrado à eles.

Sem questionar o papel da parada ou da televisão nisso tudo, só mesmo nós assim de pertinho no almoço de domingo podemos mostrar pra quem nos cerca que nem tudo é purpurina 🙂

A aceitação plena não é uma mágica, mas um processo. Uma transformação pessoal, resultado da capacidade de questionar as próprias certezas e se permitir conclusões diferentes do que no passado.

Esse processo não é só nosso, entendo que os heteros tem que passar por isso também para uma aceitação realmente plena.

Olhando a questão gay ao longo do tempo, acredito que a sociedade superará os preconceitos. Alguns mais rápido que outros, mas um dia será tão corriqueiro ver casais gays nas ruas, no trabalho, na televisão, na convivência íntima do lar, que as bobagens que hoje são argumentos de preconceito causarão boas risadas em todos.

Parabéns Ele, por mais esse passo!! Rumo à aceitação total!

Um homofóbico para tratar de direitos humanos

Por Ela

Sabe gente, eu cresci em meio à política em Brasília, discutindo na escola, no almoço em casa, acompanhando eleições e propostas, nomeações e ações, votando em plebiscitos, acompanhando paradas em dias cívicos, cantarolando hinos quase desconhecidos, dando a cara em passeatas, pintando a cara inclusive.

Isso tudo era parte integrante e indissossiável da minha vida e de muitos outros que cresceram à minha volta. Como adolescente nem sempre tive discernimento para abraçar as causas certas, ou para estar munida de toda a informação necessária para formar uma opinião crítica, ou ainda malícia para entender as jogadas políticas, mas de certa forma participava ativamente da formação do processo democrático nas décadas de 80 e 90.

De repente não havia mais espaço na minha vida adulta para nem sequer me preocupar em quem votar. Só não me envergonho mais por saber que este triste descaso é muitíssimo mais comum do que o contrário. Conveniente, a falta de vergonha e decoro dos integrantes do nosso congresso, é a desculpa perfeita.

E foi ficando a sensação que havia algo de nocivo na política, algo de podre no Brasil que nos envergonha profundamente. E o pior, a sensação que a grama seria muito mais verde do outro lado da cerca.

Minha vida seguiu como tantas outras à deriva da política e de seus reflexos práticos. Mas pude conhecer outros países e perceber que o Brasil está longe de ser o fim do mundo, porque os problemas que vivemos aqui acontecem também em todos os outros lugares. Em proporções diferentes, com estampas diferentes, com desencadeamentos diferentes, mas até na bela e engomada Inglaterra acontecem.

Entendi a confusa dinâmica de interesses do congresso assistindo o seriado Roma. Nossa baderna espetacular tão aclamada como nossa vergonha, tem na verdade raízes muito mais profundas na própria formação do povo latino. Acredito muito pouco na virtude nata do ser humano para aceitar que tudo isso é parte de um passado distante nos outros países.

E me envergonhei profundamente com Maquiavel e sua estratégia de conquista e submissão que permeou toda a história de formação dos países europeus e foi depois exportada para os demais continentes, quando li a incrível história de Gengis-Khan.

Apesar do repúdio, sempre a pulguinha atrás da orelha me dizia que deveria prestar mais atenção na política. Um dia pensei em montar ONG para instruir pessoas comuns a votar e fiscalizar. Na verdade eu seria a 1ª pessoa comum a ser instruída, rsrs, mas essa idéia se dissolveu e deu lugar à outras um tanto mais capitalistas.

Toda a corrupção televisionada mais fortemente desde o governo Lula foi me causando desconforto, ver os mesmos rostos condenados assumindo postos proeminentes pouquíssimos anos depois é de desanimar, mas só a nomeação do deputado pastor Marco Feliciano, ignorante e preconceituoso, para presidente da Comissão de Direitos Humanos me tirou da inércia.

Eu tenho um medozinho guardado de que forças ultra-conservadoras arrebatem a juventude e transformem o mundo num bando de robôs fundamentalistas sem senso crítico. Não é um medo infundado, se pensarmos na expansão recente das religiões alienatórias e intolerantes na América Latina, na cega flexibilização de leis de países europeus para que passem a tolerar poligamia e outras condições de submissão da mulher, tudo em nome da democracia.

Essa democracia sem senso crítico, sem preservação de condições básicas de desenvolvimento humano e sem promoção da igualdade social é palco para misturas corrosivas como de religião e política em um país laico como o nosso; ou de drogas e política como na nossa vizinha explosiva, Colombia.

Aí me apavoro quando eu vejo que à frente de um grupo feito para garantir direitos básicos do ser humano está um pastor desses que têm longos diálogos com Jesus, que pregam o esculachamento de outras religões, que proliferam o ódio à homossexuais e a discriminação dos negros, que cobram dinheiro de seus fiéis com constrangimento público e coação, que proliferam falaciosos sofismas para convencer uma plateia iletrada das suas verdades tendenciosas, que representam religiões que enriqueceram rapidamente, que vendem falsos milagres e são donas de emissoras de canais de tv e rádio, partidos políticos e de uma enorme fortuna.

Eu bem sei que a situação com essa comissão é apenas uma gota no meio de uma tempestade, e que há muito o que atacar para ter um país minimamente ético. Mas aí é o seguinte, minha gente, são duas opções:

1. Não fazer nada, porque há problemas maiores; 1. Não fazer nada, porque o país não vai se resolver com a resolução deste pequeno problema; 1. Não fazer nada, proque tenho minha vida pra tocar; 1. Não fazer nada, porque já estou na inércia de não fazer nada;

OU

2. Fazer alguma coisa para dizer que não estou dormindo, para sair da inércia, para criar o hábito, para exercer a democracia e cidadania, para gritar bem alto que ESTE SENHOR NÃO ME REPRESENTA.

Sou mulher, lésbica, solteira, ateia, descendo de negros e ganho menos que meus colegas de profissão no mesmo nível de carreira. Acredito que sou uma legítima minoria, e por isso me esbaldo do direito de dizer ESTE SENHOR NÃO ME REPRESENTA E QUERO ELE LONGE DE CAUSAS RELACIONADAS AO DIREITO HUMANO OU ÀS MINORIAS.

Que a mobilização que estamos vendo dê ou não em resultado imediato, que seja um impulsozinho para que o país se politize novamente. Que amanhã esteja me engajando em outras mobilizações contra corrupção. Que meu facebook fale tanto de política quanto de futilidades.

Eu vou fazer questão de expressar a minha indignação fazendo volume na Paulista, por mais juvenil e ingênuo que possa parecer hoje em dia exercer o direito de protestar.

 

Segundo Ato de repúdio a nomeação do deputado marco feliciano para a comissão de direitos humanos: http://www.facebook.com/#!/events/340454419387589/

 

CDHM – Comissão de Direitos Humanos e Minorias

É uma comissão permanente da Câmara dos Deputados. Suas atribuições são receber, avaliar e investigar denúncias de violações de direitos humanos; discutir e votar propostas legislativas relativas à sua área temática; fiscalizar e acompanhar a execução de programas governamentais do setor; colaborar com entidades não-governamentais; realizar pesquisas e estudos relativos à situação dos direitos humanos no Brasil e no mundo, inclusive para efeito de divulgação pública e fornecimento de subsídios para as demais Comissões da Casa; além de cuidar dos assuntos referentes às minorias étnicas e sociais, especialmente aos índios e às comunidades indígenas, a preservação e proteção das culturas populares e étnicas do País.

O principal objetivo da CDH é contribuir para a afirmação dos direitos humanos. Parte do princípio de que toda a pessoa humana possui direitos básicos e inalienáveis que devem ser protegidos pelos Estados e por toda a comunidade internacional. Tais direitos estão inscritos em textos e diplomas importantes de direitos humanos, que foram construídos através dos tempos, como são, no âmbito da ONU, a Declaração Universal dos Direitos  Humanos (1948) e, no âmbito da OEA, a Declaração Americana de Direitos Humanos (1948). O Brasil é signatário desses e de outros instrumentos internacionais, o que significa que assumiu compromissos com os direitos humanos perante a Humanidade e diante de seu povo.

Sobre a comissão: http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cdhm

Sobre a ONU: http://www.onu.org.br/a-onu-em-acao/a-onu-e-os-direitos-humanos/

 

Marco Feliciano

Deputado Federal, 2011-2015, SP, PSC. Dt. Posse: 01/02/2011

Pastor Presidente, Igreja Assembléia de Deus de Orlândia

Quem é o Deputado Marco Feliciano por ele mesmo: http://www.anonymousbrasil.com/meu-jesus-nao-foi-feito-para-ser-enfeite-em-pescoco-de-homossexual-nem-de-lesbica-diz-pastor-marco-feliciano/ (agressões à Igreja Católica a partir de 3 minutos e 10 segundos. Homofobia declarada depois de 4 minutos e 30 segundos.)

 

Manifestações:

Depoimento Jean Wyllys: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/1241330-jean-wyllys-cinismo-cruel.shtml

Depoimento Contardo Calligaris: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/1245545-o-uso-reto-do-corpo.shtml

Depoimento Juca Chaves: http://www.youtube.com/watch?v=Fi4vbotICF0&feature=youtu.be

Mobilizações populares: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,internautas-organizam-novos-protestos-contra-feliciano,1007302,0.htm

Pedido de cancelamento da eleição: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,partidos-pedem-que-stf-cancele-eleicao-de-pastor-nos-direitos-humanos,1007758,0.htm

 

Por Ele

Achei o depoimento Dela muito completo e, apesar de andar muito ocupado com meus afazeres profissionais e pessoais, pude ler nas páginas amarelas da Veja, umas duas semanas atrás, a entrevista com o Marco Feliciano.

As certezas desse homem, não muito diferentes de Malafaia, são tão estapafúrdias que praticamente os sinto como personagens de um seriado de comédia latina numa festinha de vila com o Tiririca. Assisti-los em algum programa de entrevista ou lê-los em algum canto de um jornal fortalecem essa característica de ser brasileiro, das posturas e caráter líquidos, dessa nossa tendência cultural de relativizar tudo, onde o bem e o mal, o certo e o errado dependem de pontos de vista e a nossa “espinha dorsal” cultural e ética se forma repleta de viés; é o viés dos religiosos, das classes abastadas, da massa popular silenciosa, da classe média que vive em crise por ser média/medíocre, dos negros, dos gays e assim por diante, como uma país qualquer de terceiro mundo, das diferenças e das células sociais completamente isoladas que raramente se misturam.

Ontem, um grupo de amigos gays da classe média-alta (ou que visam transparecer esse nível) ficou criticando os crentes da frente da minha empregada (evangélica), que trabalha na minha família a mais de 25 anos. Vale mais a mim o fato dela ser crente ou da confiança de mais de 25 anos?

Semana passada estive no consulado americano para tirar meu visto. O esquema continua rigoroso, algo lendário e até assustador, embora o brasileiro seja o estrangeiro que mais consome nos EUA e possivelmente a rigidez caia por causa disso.

Durante o percursos das filas para o visto – que aliás estavam muito bem organizadas e agilizadas – conheci uma designer, brasileira, tirando pela primeira vez o visto e aflita (ou ansiosa) pela “aura” que existe entre nós, de se adquirir nossa validação americana. Reparando aquela massa popular, que reunia os oportunistas atrás do subemprego, as dondocas frenéticas por compras, o casal jovem e moderno, um gay como eu, meu namorado na fila seguinte e uma designer autônoma como a moça que acabara de conhecer, tirei do pensamento uma ideia que surgiu em complemento a uma afirmação da menina. Ela, em pequenos surtos de nervosismo lança assim: “Eu no fundo acho que o esquema precisa ser rigoroso assim. As pessoas passam a respeitar e valorizar mais”.

Eu: “Realmente. E o que acho interessante é que nesse exato momento, no meio dessa multidão enfileirada, somos todos iguais. Não será a riqueza de um magnata nessa fila que vai garantir a aprovação de seu visto. Estão todos aqui, iguais, ‘submissos’ a uma necessidade”.

A mim, o que falta para esse nosso país é um senso de unidade. Tiriricas, Felicianos, Malafaias, Silvios (Santos), Hebes, Xuxas, Bundas, Fanfarronices são – cada um pelos seus feitos e representação perante seus seguidores – subprodutos dessa nossa cultura amórfica , latina e plural. O Brasil é um país de blocos, células e núcleos que se refletem no entretenimento, na cultura e, não seria diferente, na política também. Mas raramente essas células se entendem ou trocam fluidos.

No quesito Feliciano, o país me parece equivocado pelo simples fato desse homem não representar em nada meus valores, meu senso e o que entendo de ético. Mas há quem compre e que inclusive o colocou onde está.

Longe de mim querer defender ou articular a favor dessas figuras populares, alegóricas e caricatas. Mas não vejo tanta diferença quando noto aquele jovem burguês ou empresário que faz questão de gastar mais de 100 mil reais em um Mini Cooper para – na realidade – apresentar ao mundo Brasil sua potência de diferenciação de classe. Esse carro, lá fora, não sai mais de 10 mil dólares.

O rico no Brasil paga em automóveis 4 ou 5 vezes mais que um americano ou um japonês pelo simples poder da aparência, da vontade da diferenciação sob esse solo, sob as vistas por onde ele passa. A massa de crentes pedrominante no país – mas fora da minha célula – aprova o Malafaia. Políticos do caldo da latinidade dão o tal cargo para o Feliciano.

Não existe essa unidade porque o brasileiro não quer olhar para o lado. O pobre se enruste no orgulho de ser trabalhador e o rico quer assumir cada vez mais um status que o diferencie. Disso, nascem os Malafaias, os Felicianos, as Bundas e tudo aquilo que a gente entende da latinidade brasileira.

A mim, Feliciano é só consequência de nós mesmos, do que somos, avessos a encarar esse país como uma unidade, com políticas e métodos que nos dêem acessos mais iguais, que tragam recursos de maneira mais comum a grande maioria dos brasileiros.

Recentemente larguei uma cliente. Há um tempo atrás ela já havia manifestado um certo repúdio aos gays. Passou. Mas há um mês atrás, bela, esbelta e classificada (sob seus próprios critérios) fez uma viagem para NY (como faz pelo menos duas vezes ao ano). Ficou estarrecida ao perceber que ao seu lado, no avião, existia uma família de classe C, de trajes mais simples e que levavam travesseiros à bordo. Achou aquilo um absurdo, se sentiu desvalorizada.

Absurdo é saber que tem brasileiro que se sente assim.

Casa nova, cachola limpa

Por Ela

É incrível nosso super cérebro. Como nos colocamos em armadilhas, a tamanha capacidade que temos de sair delas e quão pouco usamos nossas armas. Um psiquiatra uma vez me explicou o fantástico mecanismo do vicio no seu cérebro. No fim, tudo é química, mas olha só que bárbaro:

O viciado em cigarro ou cocaína, depois de muito sufoco consegue parar de usar. Ê, viva! Luta arduamente no começo, onde os alertas estão ativos, e após um tempo consegue ficar tranquilo de novo.

Passam-se anos e bang! Pinta uma maldita situação que ele antes “resolveria” no vicio, e o cérebro se põe prontamente a criar uma situação em que o indivíduo se exponha novamente à tentação.

Por exemplo, o cara que nunca compra revistas sente uma vontade incrível de passar na banca na esquina. Ele não se lembra, ou não traz para a consciência, mas a tal banca é o lugar mais próximo onde se vende cigarro. No caso da cocaína, pode lhe ocorrer ajudar aquela mulher pobrezinha e cheia de filhos, que mora bem na favela onde antes ia buscar a merda. Ops, a droga, rs

Porque conscientemente um viciado se colocaria numa situação de exposição à droga, se não pra reproduzir a sensação do vicio e finalmente sucumbir à ela?

Seu cérebro faz isso por você, obrigada.

As referências que fazemos das coisas nem sempre são óbvias, diretas ou claras, e pode ser um pesadelo destrinchar essa malha. A relação de amor ou busca de amor que se estabeleceu com seus pais pode ser uma chave pra muita coisa, mas é preciso se conhecer profundamente pra entender porque algumas situações te pegam tão forte.

Porque sempre caímos na mesma armadilha com nossos amores, porque ficamos presas a situações ruins que não parecem tão difíceis de resolver. Enfim… Com isso chegamos à casa.

O que diria Freud a respeito de uma mudança física? Um corte novo de cabelo, um corte no pulso, uma mudança voluntária de casa são todas manifestações em maior ou menor grau da nossa vontade de mudança na vida. Mas você às vezes cozinha isso por muito tempo até tomar coragem pra agir. Lá vem o cérebro de novo brincando com nossa consciência…

Me dei conta que era feita disso a minha recente mudança de casa conversando com uma amiga sobre a metáfora da casa para a psicologia: a casa representa você, e a forma como as coisas vão lá dentro é como estão organizadas nossas emoções. Mais ou menos, acho que é essa a idéia…

Eu que nunca morei mais que 2 anos no mesmo lugar antes, fiquei mais de 7 nessa casa e emendei dois relacionamentos longos neste cenário. Coisa também inédita até então. Estive tão presa ao último deles depois do fim, que por meses eu não podia ficar sozinha em casa sem ficar extremamente triste. No início sabia do que se tratava a tristeza, mas me acostumei à ela e depois de um tempo e parei de perceber que ali tinha mais lembranças do que eu podia suportar.

Um belo dia, sem nenhuma razão aparente ou pressão externa decidi me mudar. Eu não me dei conta, mas já estava disposta a colocar definitivamente pra traz todos os resquícios que dessa relação. De um dia pro outro provoquei a pressão que precisava pra isso acontecer e sai pelo mundo procurando endereço. Tudo fez o mais perfeito sentido lógico, devo dizer. Mas nada disso foi realmente necessário do ponto de vista prático.

E a busca em si também foi algo surreal, porque eu queria querer uma certa forma de viver, e isso tinha que funcionar com a casa nova. Mas eu nem sei bem o que eu procurava, foi realmente estranho. Não teve nenhuma lógica nos lugares que eu olhei, nem nos que eu rejeitei. Desisti de lugares excelentes, acreditei em opções impossíveis, me comprometi e depois desisti (coisa que não gosto de fazer) e, por fim, encontrei minha casa como uma combinação improvável. Ainda dias depois me pergunto se esse lugar tem ou não a ver comigo.

Minha leitura dessa coisa toda foi que eu precisava me desprender urgentemente de uma carga de histórias difíceis, porque os fantasmas ainda me assombravam silenciosamente. Por isso a pressa. Uma vez na casa nova e passado o deslumbre dos primeiros dias, a vida vai começando a se assentar. Como uma massa disforme vou me ajustando ao novo espaço, tomando sua forma. Fazendo turismo nas redondezas vou me desprendendo da minha pequena rotina anterior e descobrindo realmente a vida que há após o amor. Y sí, la hay!

E no fim era isso: meu cérebro trabalhando sorrateiramente pra me arremessar no futuro; e a casa improvável que ele escolheu combinando perfeitamente com que quero fazer da minha vida. Até o desconforto que ela traz combina com o medo que tenho dessa tal vida não ser bem o que vai me trazer alegria.

Como o barco segue daqui pra frente, eu não sei. Tenho dito demais que “tenho medo”, então vou ficar quietinha assistindo o futuro acontecer. Que seja iniciada uma nova etapa, um brinde ao futuro!

Por Ele

Há mim foi também sete anos sob o mesmo telhado e no oitavo, quando poderia continuar, resolvi dar uma virada, provocar uma mudança e me permitir ter um novo abrigo. Tudo novo, com a minha cara, com meu jeito, com os excessos ou minimalismos que meu “novo ego” transbordasse.

A nova casa, minha, é representativa e ao mesmo tempo simbólica. De 2010 para cá muita coisa mudou no meu jeito de pensar. A crise dos 30 veio com 33 e depois disso adulteci. Me despedi de um adolescente cheio de curiosidades e fantasias, cheio de dúvidas sobre a vida gay e passei a estabelecer meus conceitos. Outrora, os valores e os conceitos transitavam pelas referências que o mundo afora me apresentava: queria um pouco de tudo, um pouco de cada lugar, queria um namorado, queria a vida solteira, queria o sexo, a putaria e queria ser o “dono da balada”: “uma Absolut, copo baixo e dois gelos, por favor”.

O Absolut no copo baixo com dois gelos ainda é presente em algumas poucas circunstâncias e quem na maioria das vezes prepara agora sou eu mesmo. Mas algumas pessoas, alguns prazeres e alguns hábitos ficaram para trás. A bem da verdade é que uma parte de mim deixou de fazer sentido para a entrada de um novo eu que exerce função faz dois anos. Tudo novo.

As pessoas que ficaram para trás ainda existem. Porém o olhar que tenho por elas é definitivamente renovado. Referências a mim, que as vezes soavam como idolatria não me apetecem mais. O centro agora está mais em mim, fluxo até lógico quando em 2009 – época que me despedia de antigos modelos e últimas experiências carnais – me tinha como fora do eixo.

A casa nova veio para emanar meu eu novo e está assim há dois anos.

Nesse fluxo, as relações com minha equipe de trabalho também sofreu uma revisão. Não seria diferente com o modelo de namoro que tinha antes e que tenho agora. É realmente impressionante como meu “ego” se calou, como a minha necessidade de auto-afirmação não atinge nem influencia tanto o meio e passa a conversar diretamente comigo mesmo.

Adutelcer puxou no pacote minha equipe. Nos últimos dois anos saiu quem não aguentoua nova onda, entrou dois e os que ficaram viraram sócios, numa toada de lançar mais responsabilidade em todo mundo. O namoro que poderia ter acabado pelas minhas necessidades frenéticas de começar uma nova bagunça, assume novas circunstâncias, fragilidades, exposições e intimidades, revendo o valor de batalhar juntos por algo maior.

Realmente não sei se tudo isso é certo ou bom, mesmo porque não estou discutindo aqui ética ou moral. Sei apenas que isso é necessário, é de dentro pra fora e tem muito de movimento.

Num dos posts no Blog Minha Vida Gay, um heterossexual leitor reforçou em seus comentários algumas vezes que eu passo uma mensagem do “vencer”. Talvez seja isso porque a mim, vencer, só faz sentido se tiver conexão com transformar ou mudar.

A casa, o coração, a alma e a cabeça renovaram. Parece hoje que cada novo problema tem mais rapidamente uma resposta. Ou melhor, cada problema não é mais encarado com aflição, desespero ou necessidade de uma solução imediata para expelir o desconforto. Acho que aceito mais o desconforto, entendo sua representatividade e sua transitoriedade sem sofrer, sem reprimir ou sem querer tapar com a peneira.