Gays e lésbicas – As formas das manifestações sociais

Por Ele

A Parada LGBT todos os anos ganha os holofotes aqui em São Paulo, numa busca incansável de bater o recorde mundial para ser a número um em quantidade de pessoas. Esse ano deu até bafafá: organizadores contabilizaram 4 milhões de pessoas e a Datafolha não mais de 300 mil. A briga do cabelão se fez, nessa nossa vontade extrema de quantificar pessoas e exalar ao mundo que São Paulo – todos os anos – concentra o maior número de lésbicas, gays, trans e simpatizantes por meio dessa grande e popular manifestação.

Recentemente no meu Blog Minha Vida Gay apresentei um “olhar utópico” pontuando diversas frentes para a busca de nossa tão sonhada emancipação. Me embasei contestando o texto do colunista JR Guzzo que foi publicada na revista Veja da semana passada e uma das ideias que descrevi no post foi sugerir jeito diferente para a Parada LGBT de São Paulo: todos de calça jeans e camiseta, sem a euforia das caixas de som, sem a bagunça, a sujeira e a promiscuidade. Uma caminhada que trocasse a a alegria e a dispersão pela sobriedade e atenção.

Nesse contexto, um dos leitores mandou um e-mail apresentando como o movimento em Cingapura funciona. Trata-se do “Pinkdot – Supporting the freedom to love”, ou Pinkdot – Apoiando a liberdade para amar. O conceito já começa diferente: está no amor e não na sexualidade em si.

Eis o vídeo:

Com a exceção da cor rosa da identidade da manifestação que, do ponto de vista da cultura ocidental, é cheia de referências femininas, delicadas (ou gays), a forma da manifestação que acontece anualmente em Cingapura é um outro (e novo) tipo de referência que não estamos acostumados por aqui.

Embora muitos dos ativistas brasileiros ou porta-vozes do movimento entendam que o formato de nossa parada traga uma repercussão perante a sociedade, me questiono o quanto desse modelo de “carnaval” é de resultados efetivos. Efetivos, no sentido de conscientização social, receptividade e inclusão dos valores da homossexualidade no contexto familiar. A mim, o que me parece importante é uma receptividade e atenção do núcleo familiar, fundamentalmente.

Para quem estuda assuntos relacionados a estética e a ética da estética, sabe muito bem que a forma de se manifestar muitas vezes define o sucesso da absorção da mensagem. Meu pai, por exemplo, que mantém alguns limites para conviver com a minha realidade homossexual, todos os anos acha engraçado o movimento da parada na região da Paulista e do centro.

Veja bem, “achar engraçado”, no meu ponto de vista, não é reação que eu sinceramente gostaria num processo de esclarecimento e inclusão que a Parada LBGT tivera em sua origem! Graça ou humor talvez sejam reações de uma boa parte das pessoas, no momento que a parada é uma forte ferramenta e que deveria trazer outros tipos de reação, como a reflexão e a conscientização.

O vídeo de Pinknot fala por si:

– Focam no amor e não no sexo;

– Estabelecem um diálogo audível e compreensível entre gays e heterossexuais;

– É uma manifestação muito mais de paz, atenção e convergência do que fervo e multidão;

– Todos vestidos iguais, me parecem muito mais convergentes;

– Na situação as pessoas conversam e apresentam pontos de vista, ao contrário do que ouvimos por aqui de barulho, embriaguez e graça;

– Não existe exibicionismo propriamente.

Poderíamos falar que essas coisas de ideologia por meio de manifestações organizadas e de efeitos sociais acontecem apenas nos países de primeiro mundo. Mas veja bem que Cingapura está longe de ser um país rico e de primeiro mundo!

Temos uma mania cultural de querer contabilizar quantidade. Como micro empresário que trabalha com a visibilidade dos meus clientes na web, quantas não foram as vezes que tive que sentar e explicar repetidamente que mais vale 10 potenciais clientes interessados entrando em contato do que 1000 visitando o site apenas quantificando o número de visitas?

Mas essa é a cabeça do brasileiro no geral. Não importa muito quem vá, quem compareça e quem se manifeste na Parada LGBT. Importa mais a quantidade sem necessariamente um efeito de repercussão social, de transformação, de resultados. Vale a quantidade para “competir” com as outras paradas do mundo e continuar com um discurso que nem precisava mais tanto: “vejam, somos muitos”.

Ok, somos muitos e acho que muita gente já sabe disso. Mas como fazer, por exemplo, para a homossexualidade ser ensinada nas escolas, no processo de formação de crianças e adolescentes? Não teríamos que começar a dar esses passos? Como fazer para os pais entenderem mais da diversidade e aceitarem com mais naturalidade as possibilidades de orientação de seus filhos?

Será que os líderes dessas manifestações saberiam dizer?

Por Ela

Eu confesso que o tema me divide. Concordo com todos os pontos negativos  ressaltados por Ele, e até acredito que poderíamos influenciar mais com menos gente transmitindo a mensagem correta. Mas não acho possível dissociar um evento público do contexto sóciocultural.

Vamos pra Cingapura? É preciso propor uma viagem mesmo, porque estamos falando de uma vida tão diferente da nossa que até parece uma ficção científica.

Imagina um lugar onde homossexualidade ainda é crime, que sexo oral é punido com multa de 5 mil dólares, e o sexo anal com prisão. Onde as pessoas de tão fechadas, não se tocam.

É bonito imaginar que os gays de lá são mais politizados e conscientes que os gays daqui. Mas meu lado incrédulo acredita apenas que eles são muito mais reprimidos que nós.

Agora vamos lembrar quem somos. O país do carnaval. E não à toa eu começo por isso. É preciso lembrar que já nos idos e contidos anos 30 de Noel Rosa, os homens e mulheres de bem já se permitiam celebrar a vida sem razão e se entregar à alegria. É desse povo leve e ligeiramente irresponsavel, de risada fácil, que saem os gays.

Nossa galera faz parte disso também. E é muito natural que no país dos homens héteros vestidos de mulheres horrendas em Fevereiro, os gays se joguem extravagantemente também.

E pára, não me permito estampar um carimbo de puta ou de alienada nem por um fato por nem outro.

É verdade que o carnaval não vai conscientizar ninguém. Mas tudo o que acontece lá é expressão desse país, dessa cultura e, também nossa.

MAS ! ! !

É APENAS uma parte de quem / do que nós somos. É meio limitado pensar que é somos feitos só disso.

Talvez seja mais comum com as mulheres, mas vou me arriscar com um exemplo. Alguém aí já ficou puto ao ouvir uma insinuação gringa maliciosa que generaliza o Brazil das mulatas?

Bom, eu já me indignei muitas vezes. E é a mesma indignação que me revolta na visão míope de quem prefere enxergar o homossexual como um estereotipo engraçado, e não como um pessoa inteira.

O preconceito está nos olhos de quem vê, caríssimo.

Por isso eu proponho viver sim o carnaval num dia e no outro quem sabe bater panelas num movimento politizado e consciente pelos nossos tão esquecidos direitos.

Permita-se! Borá? Eu topo!

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Casa nova, cachola limpa

Por Ela

É incrível nosso super cérebro. Como nos colocamos em armadilhas, a tamanha capacidade que temos de sair delas e quão pouco usamos nossas armas. Um psiquiatra uma vez me explicou o fantástico mecanismo do vicio no seu cérebro. No fim, tudo é química, mas olha só que bárbaro:

O viciado em cigarro ou cocaína, depois de muito sufoco consegue parar de usar. Ê, viva! Luta arduamente no começo, onde os alertas estão ativos, e após um tempo consegue ficar tranquilo de novo.

Passam-se anos e bang! Pinta uma maldita situação que ele antes “resolveria” no vicio, e o cérebro se põe prontamente a criar uma situação em que o indivíduo se exponha novamente à tentação.

Por exemplo, o cara que nunca compra revistas sente uma vontade incrível de passar na banca na esquina. Ele não se lembra, ou não traz para a consciência, mas a tal banca é o lugar mais próximo onde se vende cigarro. No caso da cocaína, pode lhe ocorrer ajudar aquela mulher pobrezinha e cheia de filhos, que mora bem na favela onde antes ia buscar a merda. Ops, a droga, rs

Porque conscientemente um viciado se colocaria numa situação de exposição à droga, se não pra reproduzir a sensação do vicio e finalmente sucumbir à ela?

Seu cérebro faz isso por você, obrigada.

As referências que fazemos das coisas nem sempre são óbvias, diretas ou claras, e pode ser um pesadelo destrinchar essa malha. A relação de amor ou busca de amor que se estabeleceu com seus pais pode ser uma chave pra muita coisa, mas é preciso se conhecer profundamente pra entender porque algumas situações te pegam tão forte.

Porque sempre caímos na mesma armadilha com nossos amores, porque ficamos presas a situações ruins que não parecem tão difíceis de resolver. Enfim… Com isso chegamos à casa.

O que diria Freud a respeito de uma mudança física? Um corte novo de cabelo, um corte no pulso, uma mudança voluntária de casa são todas manifestações em maior ou menor grau da nossa vontade de mudança na vida. Mas você às vezes cozinha isso por muito tempo até tomar coragem pra agir. Lá vem o cérebro de novo brincando com nossa consciência…

Me dei conta que era feita disso a minha recente mudança de casa conversando com uma amiga sobre a metáfora da casa para a psicologia: a casa representa você, e a forma como as coisas vão lá dentro é como estão organizadas nossas emoções. Mais ou menos, acho que é essa a idéia…

Eu que nunca morei mais que 2 anos no mesmo lugar antes, fiquei mais de 7 nessa casa e emendei dois relacionamentos longos neste cenário. Coisa também inédita até então. Estive tão presa ao último deles depois do fim, que por meses eu não podia ficar sozinha em casa sem ficar extremamente triste. No início sabia do que se tratava a tristeza, mas me acostumei à ela e depois de um tempo e parei de perceber que ali tinha mais lembranças do que eu podia suportar.

Um belo dia, sem nenhuma razão aparente ou pressão externa decidi me mudar. Eu não me dei conta, mas já estava disposta a colocar definitivamente pra traz todos os resquícios que dessa relação. De um dia pro outro provoquei a pressão que precisava pra isso acontecer e sai pelo mundo procurando endereço. Tudo fez o mais perfeito sentido lógico, devo dizer. Mas nada disso foi realmente necessário do ponto de vista prático.

E a busca em si também foi algo surreal, porque eu queria querer uma certa forma de viver, e isso tinha que funcionar com a casa nova. Mas eu nem sei bem o que eu procurava, foi realmente estranho. Não teve nenhuma lógica nos lugares que eu olhei, nem nos que eu rejeitei. Desisti de lugares excelentes, acreditei em opções impossíveis, me comprometi e depois desisti (coisa que não gosto de fazer) e, por fim, encontrei minha casa como uma combinação improvável. Ainda dias depois me pergunto se esse lugar tem ou não a ver comigo.

Minha leitura dessa coisa toda foi que eu precisava me desprender urgentemente de uma carga de histórias difíceis, porque os fantasmas ainda me assombravam silenciosamente. Por isso a pressa. Uma vez na casa nova e passado o deslumbre dos primeiros dias, a vida vai começando a se assentar. Como uma massa disforme vou me ajustando ao novo espaço, tomando sua forma. Fazendo turismo nas redondezas vou me desprendendo da minha pequena rotina anterior e descobrindo realmente a vida que há após o amor. Y sí, la hay!

E no fim era isso: meu cérebro trabalhando sorrateiramente pra me arremessar no futuro; e a casa improvável que ele escolheu combinando perfeitamente com que quero fazer da minha vida. Até o desconforto que ela traz combina com o medo que tenho dessa tal vida não ser bem o que vai me trazer alegria.

Como o barco segue daqui pra frente, eu não sei. Tenho dito demais que “tenho medo”, então vou ficar quietinha assistindo o futuro acontecer. Que seja iniciada uma nova etapa, um brinde ao futuro!

Por Ele

Há mim foi também sete anos sob o mesmo telhado e no oitavo, quando poderia continuar, resolvi dar uma virada, provocar uma mudança e me permitir ter um novo abrigo. Tudo novo, com a minha cara, com meu jeito, com os excessos ou minimalismos que meu “novo ego” transbordasse.

A nova casa, minha, é representativa e ao mesmo tempo simbólica. De 2010 para cá muita coisa mudou no meu jeito de pensar. A crise dos 30 veio com 33 e depois disso adulteci. Me despedi de um adolescente cheio de curiosidades e fantasias, cheio de dúvidas sobre a vida gay e passei a estabelecer meus conceitos. Outrora, os valores e os conceitos transitavam pelas referências que o mundo afora me apresentava: queria um pouco de tudo, um pouco de cada lugar, queria um namorado, queria a vida solteira, queria o sexo, a putaria e queria ser o “dono da balada”: “uma Absolut, copo baixo e dois gelos, por favor”.

O Absolut no copo baixo com dois gelos ainda é presente em algumas poucas circunstâncias e quem na maioria das vezes prepara agora sou eu mesmo. Mas algumas pessoas, alguns prazeres e alguns hábitos ficaram para trás. A bem da verdade é que uma parte de mim deixou de fazer sentido para a entrada de um novo eu que exerce função faz dois anos. Tudo novo.

As pessoas que ficaram para trás ainda existem. Porém o olhar que tenho por elas é definitivamente renovado. Referências a mim, que as vezes soavam como idolatria não me apetecem mais. O centro agora está mais em mim, fluxo até lógico quando em 2009 – época que me despedia de antigos modelos e últimas experiências carnais – me tinha como fora do eixo.

A casa nova veio para emanar meu eu novo e está assim há dois anos.

Nesse fluxo, as relações com minha equipe de trabalho também sofreu uma revisão. Não seria diferente com o modelo de namoro que tinha antes e que tenho agora. É realmente impressionante como meu “ego” se calou, como a minha necessidade de auto-afirmação não atinge nem influencia tanto o meio e passa a conversar diretamente comigo mesmo.

Adutelcer puxou no pacote minha equipe. Nos últimos dois anos saiu quem não aguentoua nova onda, entrou dois e os que ficaram viraram sócios, numa toada de lançar mais responsabilidade em todo mundo. O namoro que poderia ter acabado pelas minhas necessidades frenéticas de começar uma nova bagunça, assume novas circunstâncias, fragilidades, exposições e intimidades, revendo o valor de batalhar juntos por algo maior.

Realmente não sei se tudo isso é certo ou bom, mesmo porque não estou discutindo aqui ética ou moral. Sei apenas que isso é necessário, é de dentro pra fora e tem muito de movimento.

Num dos posts no Blog Minha Vida Gay, um heterossexual leitor reforçou em seus comentários algumas vezes que eu passo uma mensagem do “vencer”. Talvez seja isso porque a mim, vencer, só faz sentido se tiver conexão com transformar ou mudar.

A casa, o coração, a alma e a cabeça renovaram. Parece hoje que cada novo problema tem mais rapidamente uma resposta. Ou melhor, cada problema não é mais encarado com aflição, desespero ou necessidade de uma solução imediata para expelir o desconforto. Acho que aceito mais o desconforto, entendo sua representatividade e sua transitoriedade sem sofrer, sem reprimir ou sem querer tapar com a peneira.

 

Trans-Homem, Trans-Mulher, violência e outros bichos

Por Ela

Já parou pra pensar com a cabeça de uma pessoa que se entende habitante de um corpo equivocado?

Sufocar sentimentos, desejos e sonhos pra tentar seguir os malucos padrões sociais e quando o forjado parceiro tira a roupa, sentir uma inveja paralizante do seu corpo de homem?

Parece talvez como uma lente de aumento extremamente forte na questão homosexual gay e sapatão. Um desconforto coma própria condição, um não aceitar-se como os outros esperam que você se porte ou se vista. Mas tudo isso extremamente maior, porque o desconforto nem precisa ser do outro, ele está em você, no espelho, na voz, na manifestação do hormônios.

Eu não “sei” na prática o é tudo isso, também não tenho contato próximo com essa realidade. E de repente por isso mesmo tenho uma curiosidade enorme de entender melhor essas pessoas, e vez por outra encontro algumas dessas historias que vou tentando montar no meu quebra-cabeças.

Uma das mais intrigantes pra mim foi uma reportagem bastante longa que a BBC fez com um rapaz que virou moça, que mais tarde viraria rapaz de novo. Este homem de uma tradicional família árabe, casado, pai de 2 meninos, se descobre envolvido por amigo. Na época já aos 20 e poucos anos. Se assume gay, já dá pra imaginar os problemas que enfrenta só aí.

Passados alguns anos de sua vida gay, sentindo-se ainda incompleto, errado, infeliz, faz a operação de trans gênero. É agora uma mulher árabe, enorme, desajeitada e solteira. Sim, seu companheiro a abandona após a cirurgia.

Vive mais alguns anos como mulher e, chega ao mesmo tempo à conclusão de que se equivocou ao fazer 1a cirurgia, e também se dá conta de que a vida como mulher é muito mais difícil.

Confesso que ri muito nessa hora. Queria que todo homem e mulher pudesse assistir a essa parte do depoimento pra entender onde estão os problemas que ninguém percebe, as dificuldades que, inseridas na vida cotidiana, passam desapercebidas.

Mas voltando ao nosso tema, eu fiquei intrigadíssima com a vida desta pessoa. Com a perturbação da sua cabeça, com a coragem das decisões que tomou, com todo o resto que imagino porque não coube na reportagem.

Alias, a própria vida depois da reportagem, pois ela estava com tudo agendado para novamente ser ele.

Essa história muito louca fica cozinhando na minha cabeça enquanto eu fico tentando entender. Enquanto isso aparecem trans-homens que engravidam, trans-homens que se vêem gays, trans-mulheres exageradamente femininas. E, cada um com a sua história, tem uma dor profunda em comum e muita coisa pra dizer.

João W. Nery é uma dessas pessoas que tem muito a dizer. Trans-homem de 61 anos, divididos matematicamente como mulher e homem. Além de tudo, um pensador, um psicólogo, um escritor. Um homem culto.

Esse cara lançou uma questão genial que queria muito propor aqui: o heterosexual precisa do “fora do padrão” para que ele mesmo seja considerado “o padrão”. Assim, o gay, a lésbica, o transexual, etc, etc, etc, são necessarios à condição de normalidade do heterossexual.

Se o “errado” precisa ser corrigido ou, paradoxalmente, eliminado, a violência contra os gays e trans não só se justifica como é também aplaudida por uma sociedade doente.

Vão dizer que estou exagerando. Mas aplaudir pode ser simplesmente fazer silêncio. Ouvir ou assistir impassivo à uma violência qualquer é como ser conivente com o crime. Basta fazer uma busca rápida para perceber que há um volume enorme de violências em nome da tal heterosexualidade “normal” por aí.

Então me parece que mais do que justificar a tal normalidade, somos também como um saco de pancadas animado, um video-game vivo. Porque muito se vê a respeito da violência contra os gays, trans, heteros que parecem gays, mas não muito respeito das punições. Tal como nos vídeo-games.

Recomendo: http://www.youtube.com/watch?v=tTqa5BgmEog&feature=youtube_gdata_player

Por Ele

Normalidade ou identidade. Prefiro dizer naturalidade. O vídeo que a querida Ela fez a crítica acima, dos 30 anos como trans-homem (ex mulher que virou homem) de João W. Nery mostra que os conceitos sociais de gênero (masculino e feminino) e sexo (homem e mulher) são formados pelas bases da heterossexualidade. Valores seculares que estão mudando a medida que nos desprendemos de modos tradicionais, morais e religiosos que não mais se aplicam à vida contemporânea, do hoje. Diga-se “vida contemporânea” aquela que possibilita a difusão da informação, de um reconhecimento plural da humanidade e que retoma ou enxerga pela primeira vez o ser humano acima de classificações antiquadas que a própria sociedade formou.

Os seres humanos pela necessidade de sobrevivência aprendeu em tempos remotos que o convívio social, em grupos, o tornariam mais hábeis e aumentariam as chances da sobreviência contra os inimigos naturais e outros grupos rivais que disputavam pela sobrevivência ou valores de poder. Só que com essa aglutinação, para criarem regras e condutas entre os próprios indivíduos, foram definidos valores, conceitos, políticas, hábitos, modos e cultura para que a própria sociedade se concebesse e se preservasse no próprio estado de sociedade. Nesse processo, na questão de sexualidade, a heterossexualidade que parecia garantir uma segurança em um mundo de muitos rivais numa luta constante pela sobrevivência, possibilitaria a perpetuação da própria sociedade. Nada mais natural e óbvio num cenário de desespero para sobreviver.

Esse modelos tiveram poucas variações e definitivamente se perpetuou por gerações e milênios. O que acontece é que nessa sociedade contemporânea o sentido visceral de sobrevivência está cada vez mais distante. Pois bem, se é assim, o que de fato as outras sexualidades que não a heterossexualidade podem causar à sociedade, mesmo que ela ainda preserve a necessidade de sobreviência e poder? Com a clareza e informação que temos hoje, vindas da ciência, da sociologia e das próprias relações diárias de um indivíduo perante a própria sociedade, sexualidade diferente da heterossexualidade reprodutória não quer mais dizer enfraquecimento ou, muito pelo contrário, a compreensão e a inclusão da diversidade numa sociedade contemporânea representa mais força. Principalmente nessa sociedade globalizada com tanta gente!

Abstraindo: essa coisa da preservação da espécie, ou da própria sociedade, me cheira forte o cheiro de grupos construídos por traumas de perdas, de entes, filhos e amigos que morriam inicialmente nos processos naturais, nas bocas de predadores e depois nas mãos de rivais até bem recentemente. Em outras palavras, o trauma ou o medo da desgraça era forte e movia a própria sociedade a se formar. Hoje não precisamos nos pautar mais nesses medos para nos entender em sociedade.

Utopia? Talvez, mas uma maneira bem resumida de alguns por quês das coisas serem o que ainda são hoje.

Pouco se pára para pensar do por quê de seguirmos modelos, métodos e regras e essa inércia acontece diariamente em nosso universo íntimo, nas famílias e no cotidiano. Por que afinal de contas uma mulher precisa casar de vestido branco na igreja, perante um padre idolatrando o altar sendo que muitas delas nem são mais efetivamente católicas? [Valorização do clássico]. Por que temos que louvar por um Jesus iluminadamente branco, de olhos claros, aloirado digno de um top model das passarelas do SPFW, cuja imagem idolatrada se formou pelo Renascimento? [Alienação pelo poder do belo]. Por que temos que acreditar no Papai Noel de roupas vermelhas, que nos visita todos os finais de ano, que em sua origem vestia-se de azul e foi a Coca-Cola que o tingiu de vermelho para associá-lo a marca? [Consentimento da manipulação].

Eis alguns hábitos culturais, dentre muitos outros que raramente paramos para pensar, que herdamos a milênios dessa sociedade que precisava se fortalecer. E nesse fluxo, de Jesus top model, noivas não católicas mas dentro de vestidos brancos e papai noel azul, levanto a questão: por que tão e somente a heterossexualidade? Para nos manter numa condição de procriação e perpetuação da espécie em situações constantes de ameaças? Para nos proteger do medo da perda, da desgraça e da diluição da força da coletividade?

Gente, esses valores se foram a milênios! Mas teimosos, tapados ou conformados com a sociedade da inércia seguimos. Ser gay, trans e bi exige um espírito crítico talvez maior do que aqueles que cumprem o menu social. Nos cobramos mais (ou é isso que se espera) para compreender os por quês de estarmos fora das “regras” e entender para onde devemos ir se é nosso interesse fazer parte das regras.

Muito do que estabelecemos a séculos atrás ainda são alicerces para hoje. Mas será que precisa? Creio que não. Podemos até devanear, afirmando que a sociedade atual é tão predatória como foi no passado. Mas não é bem assim. Não precisamos caçar com machadinha e defender o quadrado na base da porrada porque o vizinho pode roubar a plantação de cenoura! Pelo menos não deve ser assim nos países ou microcosmos mais evoluídos. Fora disso é estagnação, que também é uma condição humana.

Me parece que vivemos num universo muito mais apto a oferecer do que tomar posse, mas a tendência é querer enxergar o lado vazio do copo. Antigamente, as pessoas se apossavam dos terrenos para construir feudos. Apossavam na base do facão. Matavam “bruxas” porque desenvolviam remédios fitoterápicos e homeopáticos.

No tempo do meu pai, compravam terrenos como investimento e um tipo de garantia de status ou garantia para a velhice. No meu tempo e um pouco mais recentemente, o jovem anda pensando diferente. O jovem tem serviços a sua disposição de pousadas, hotéis e resorts. Os jovens coletivizam aluguéis de apartamentos e quiçá, muito em breve no Brasil, comprem juntos formando famílias de amigos e não famílias heterossexualizadas no modelo “propaganda de margarina”.

O mundo está mudando ou pelo menos busco viver essa parcela da mudança que não são poucos e não são somente gays, lésbicas e trans. Gosto da parcela desapegada que se enobrece em contraponto ao modelo de riqueza que definha. Obviamente o mundo é vasto e tem espaço para todos os jeitos. Eis o olhar: todos os jeitos que não quer dizer anarquia nem jogar todos os séculos de formação de sociedade fora.

Nesse fluxo de abstração, reflexões e pensamentos, primeiro vêm o “olhar mais natural” aos/às gays e depois aos trans. Não porque gays, como eu, são mais privilegiados. Mas porque numa escala de choque social, estético, ético, que inclusive inclui a transformação das próprias genitálias, o trans precisa martelar mais nessa sociedade da inércia (que odeia sair do tradicional) para a conquista de inclusão. Mudar os movimentos para o que aparentemente já funciona a milênios sempre vai dar mais trabalho. O que funciona há tanto tempo acomoda e exige muita clareza e disposição para mexer. É o mesmo que a lógica do novo ser mais capaz de mudar que o velho. Mas posso dizer que se existe necessidade todos mudam.

Continuo otimista acreditando que o antigo seremos nós, gays e trans. Em outras palavras, um dia seremos os contrários as novas ondas evolutivas porque deu tanto trabalho para ser assim. É tão seguro estar assim, por que temos que mexer? Achar que nos resumimos ao que somos, sem aceitar o que vier de novo, é o passo para aceitar a nossa própria condição de inércia.

A sapatão optou pela carreira. O gay, pela autonomia

Por Ela

Ela se acabou de trabalhar em horas extras muito mal pagas. Desenvolveu habilidades. Enfrentou desafios. Engoliu sapos. Aceitou feedbacks com os quais não concordava. Mais sapos. Trabalhou em condições difíceis. A cada novo projeto um novo cliente, um novo time, um novo chefe. Personalidades e estilos diferentes, uma variedade imensa de peças pra lidar. Ela se “acamaleou”, adaptando-se aqui e ali, e se moldando à Empresa.

Espelho, espelho meu, ninguém é mais acomodada do que eu!

Deixei meu barco correr bem solto, e só agora depois de 13 anos na estrada, penso e me planejo para o futuro. Só posso achar que sou incrivelmente acomodada, porque fiz isso mesmo sendo minha carreira notoriamente exaustiva. Vivo numa constante roda-viva, sob pressão, prazos absurdos, cobranças de todos os lados, inúmeras variáveis novas, desinformação, despreparo, riscos… E mesmo com tudo isso, minha carreira teve que tomar conta dela mesma.

Nunca, nunca, nunca na zona de conforto. Aliás, aprendi que não se cresce na zona de conforto. É preciso ter desafios, desossá-los, comê-los com farinha, andar sobre as águas, dar 3 voltinhas flutuando no ar. Só aí, e se ninguém der 4 voltinhas, você tem os merecidos louros da glória sem “poréns” ou descontos. Meus chefes mais doces costumam chamar isso de “a cenoura da frente”. Aquele prêmio ilusório que faz com que os coelhinhos corram até a exaustão.

Talvez por não acreditar tanto nas pequenas “cenouras da frente”, tive a paciência e o estômago para seguir em frente. Eu nunca fui “top performer” de absolutamente nada. Acho imbecil o conceito americano de no 1. Na escola, preguiçosa, só estudava pra 2ª prova. Tenho paúra de planejar meu dia. Enfim, eu tinha tudo pra ter tido uma longa carreira de 2 meses e acabar apertando grampeador em alguma copiadora.

Mas, contraditoriamente, não comprar as “empresísses” me segurou na empresa numa matemática muito simplória: menos expectativas, menos desilusões. Como os louros não me fascinavam tanto, os tombos não me agrediam tanto também. Ia passando pelos perrengues e me fortalecendo com o que aprendia enquanto colegas mais competentes se exauriam pela angústia. Paciência, seu nome é carreira.

Como só sei produzir sob pressão, precisava mesmo desse ambiente pra me desenvolver. Sempre perguntei para o espelho de manhã do balanço entre os sapos e os louros. Os sapos sempre se explicaram como um mal necessário. Os louros, traduzia e traduzo até hoje em desenvolvimento profissional. Enquanto estiver me desenvolvendo, está valendo a pena.

E onde está a minha sexualidade nisso tudo? Pois é, não está. Ela não tem nada a ver com a minha carreira, nadinha mesmo. E fica bem disfarçada nas camisas bonitas e sapatos de bico fino. Foi propositadamente que eu alienei o “ser lésbica” na esfera da carreira. Sentia que prejudicaria meu desenvolvimento profissional, e não estava disposta a levantar essa bandeira. De novo, acho que por pura preguiça, rs…

É claro que há gays, lésbicas, sapatões, viadinhos perambulando pelos corredores de qualquer companhia grande. E nós nos reconhecemos mais cedo ou mais tarde!

A questão aqui é como a carreira e a homossexualidade se interceptam. Eu optei por não conciliar e manter as duas completamente apartadas uma da outra. E continuo acreditando na minha escolha. Claro, válida pra minha vida, minha carreira, minha empresa.

A carreira que escolhi me impõe certas discrições, como me adaptar aos diferentes ambientes dos clientes que visito. Ser meio camaleoa, sem pigmentação sapatão me facilita essa habilidade.

 

Por Ele

Depois de um punhado de chefias no começo da carreira, adolescente ainda na ESPM, descobri que o emprego que me trouxe mais felicidade foi o último: pelo salário, por poder atender as demandas das minhas especialidades de design, por lidar com autonomia com os parceiros de tecnologia, atender clientes como “gente grande” e ter boa liberdade para participar da produção do começo, meio e fim sem me resumir a uma baia sufocante, fazedor de desenhos legais.

Antes disso, tive a experiência de frilar um tempo em parceria com um dos designers gráficos mais conhecidos do país. O cara foi gente fina, tinha toda uma vibe de surfista, seguidor de David Carson, e de por crédito no que eu fazia, como um mentor.

Tudo começou com um estágio não remunerado no estúdio de vídeo da ESPM. Seis meses depois tive um primeiro contato com uma agência de comunicação de ex-alunos da faculdade, indicado pelo meu professor de planejamento. Seis meses depois estava dentro da empresa do Amilcare Dallevo Junior e do Marcelo de Carvalho que na época estavam tornado-se donos da Rede TV!. Oito meses depois, no começo da Internet, fui convidado por um professor de criação para fazer parte da equipe de sua empresa que estava começando a se aventurar no universo da web que, na época, era uma fronteira ainda muito desconhecida.

Foi lá que lidei com egos absurdos que colegas de trabalho, da competição idiota de uma empresa com um punhado de funcionários, do xavecar o chefe e de realidades mediocres de algumas personalidades formadas na atmosfera das grandes agências de propaganda: pura ode ao ego. Odiei, traumatizei, perdi uns quilos e fiquei mais seis meses.

Lá conheci o Cássio Leitão, o desginer fodão que foi mentor e me ajudou a reestabelecer a auto-estima, que narro no começo desse texto. Há males que vem para bem.

Frilei feliz atendendo nomes grandes em parceira com o Cássio. Pagavam bem e assim pude montar minha infra completa com um Mac G3 que na época custou 12 mil reais e foi a vista.

Para retornar a uma empresa como funcionário a coisa que mais precisava era de autonomia. Boa ou excelente reputação na faculdade fez de novo o meu professor de planejamento, então diretor de graduação de comunicação me indicar para uma nova empresa, aquele que me deu total autonomia, até negociar que não fosse registrado porque achava um absurdo o tanto que entregávamos para o governo. Queria tudo no meu bolso.

Nasci geração X, mas hoje vejo que tenho uma alma Y quando o assunto é trabalho.

Tão Y que foi a autonomia e a sensação de estar no mesmo nível que todos nessa última empresa que me segurou um pouco mais de um ano. Não estava nem aí para o futuro e queria viver reconhecimentos no hoje.

Pulei de lá para cá sulgando tudo ou pelo menos o de melhor que as empresas me ofereciam. Fazia meu trabalhinho de design, mas me chamava a atenção a maneira que cada chefe lidava com suas empresas, funcionários e equipe. Gostava te entender processos, de participar de reuniões e atender clientes.

Pulei de cá pra lá e estou hoje na mesma empresa há 12 anos. A minha. Com 23 anos e com a mesma energia, fé ou ingenuidade comecei meu próprio negócio achando que fosse conquistar o mundo, enriquecer em meses e me superar todos os dias. Com os mesmos 23 também tirei para fora a minha sexualidade e foi num turbilhão: em meses, amigos, sócio, funcionários saberiam da minha sexualidade assim: “então, sou gay. Vamos continuar nossos afazeres?”.

Fui gay, doesse a quem doesse. Sou gay e das expectativas de uma empresa própria com meus virgens 23 anos, não conquistei o mundo, não enriqueci em meses mas aprendi definitivamente a me superar todos os dias. Ter empresa própria é lidar com necessidades previstas e imprevistas e não ter chefe ou mentor para assegurar e dizer como fazer. Era eu, meu sócio e Deus (rs).

A fé foi tamanha que estou aqui. O professor de planejamento, que virou diretor ban ban ban da ESPM virou também cliente. O primeiro chefe da agência de comunicação virou parceiro com a maior agência de São José dos Campos. O sócio original não está mais presente, mas os dois funcionários que mais resistiram as batalhas estão no contrato social. Em 12 anos descobri que mais importante que ser uma empresa numerosa é que na razão de números que saem para pagar as contas e números que entram de novos projetos o saldo precisa ser o mais gordo possível. Grosseiramente, quando o assunto é finanças, é assim que funciona.

Quando o assunto são negócios, o lastro deve ser de pessoas, parceiros e uma consciência absoluta de que o que vendemos é segurança e nada mais.

Segurança que venho adquirindo por ser gay, dono de micro empresa há 12 anos, gestor de equipe, líder de pequeno negócio que vende grandes ideias todos os dias quando entro na “casa” dos clientes. Acredito tanto no que faço que convenço, ou pelo menos acredito!

No meu caso, ser gay e ser homem está tudo misturado. Mas confesso que já é assim há tanto tempo que nem lembro que ser gay em relações de trabalho pode ser questão.

 

Dilma presidenta. O que isso quer dizer para nós, gays e lésbicas?

Por Ela

A Dilma foi eleita em 31 de Outubro de 2010 em meio a muito tumulto, uma época de escandalosos casos de corrupção, baixo ao apoio, sem dúvida decisivo, do então Presidente Lula.Dilma assumiu a presidencia num cenário em que comprovadamente as mulheres ainda ganhavam menos que os homens e ocupavam menos os cargos de liderança. Um significativo exemplo desta desigualdade está estampado no Congresso Nacional: em 2010 das 513 cadeiras disponíveis na Câmara Federal, apenas 43 era ocupadas por mulheres. Já no Senado, a representativade feminina tem em 2011 apenas 12 representantes, de um total de 81 senadores.

É inegável que o Brasil deu um passo importante no sentido da redução das diferenças entre homens e mulheres quando elegeu a nossa primeira presidenta. É importante entretanto, que entendendamos as diferenças a que nos submetemos especialmente no mercado de trabalho, para que este fato hoje inédito possa se tornar corriqueiro.

Sabe-se também que a presidenta traz abertamente na agenda o objetivo de melhorar a posição da mulher na sociedade. E notórias ações práticas são tomadas neste sentido, como exemplos a mudança que ela fez no programa Minha Casa Minha Vida para beneficiar as mulheres, a nomeação de 9 mulheres para a liderança de Ministérios e para a presidência da Petrobrás, a maior estatal brasileira.

A eleição de uma mulher na presidência de um país como o Brasil é por si só de uma importância monumental, pois que desperta à consciência de homens e das próprias mulheres que elas podem desempenhar qualquer papel na sociedade.

Este é sem dúvida um fato histórico, mas não só o que Dilma alcançará num período tão curto sobre um cenário arraigado há tantos séculos, como também o como isso vai realmente impactar a sociedade a médio e longo prazo é ainda uma incógnita.

Já quanto à questão gay, a posição da presidenta não é clara e a sua atuação controversa. Um grande exemplo que a nossa presidenta não sabe muito bem como lidar com esta questão é o controverso “Kit Gay” proposto para instruir crianças de 1º grau sobre a homossexualidade, que ajudaria a formar cidadãos conscientes das diferenças e portanto menos preconceituosos. Esta iniciativa gerou obviamente muitas reações dos grupos claramente homofóbicos, mas também muitas críticas quanto à abordagem e insinuações sobre a intenção de incentivar a conduta gay (umpf…).

A presidenta reagiu e alterou a proposta, mas por fim sucumibiu às pressões e a proposta foi vetada. Ao mesmo tempo que fala em seus discursos sobre o tabu da orientação sexual e se diz à favor do casamento gay, a inconsistente presidenta veta o kit gay e o anúncio gay do ministério da Saúde voltada a homossexuais jovens.

Eu me lembrava vagamente de ouvir insinuações sobre a sexualidade da presidenta, e fui à minha enciclopédia favorita para confirmar. E lá estavam dois episódios muito simbólicos:

1. O deputado Jair Bolsonaro num discurso vergonhoso em 24 de Novembro de 2011 diz “Dilma Rousseff, pare de mentir. Se gosta de homossexual, assuma. Se o teu negócio é amor com homossexual, assuma. Mas não deixe que essa covardia entre nas escolas do primeiro grau”.

Bom, assim como outros absurdos nesse país, não consigo entender porque este senhor que externa publica e veementemente seu preconceito ainda não foi indiciado.

E não posso deixar de compartilhar também a reação louvável do deputado Alfredo Sirkis: “O que nós ouvimos aqui hoje foi novamente um discurso de ódio, um discurso de preconceito, um discurso inclusive que, se eu entendi direito, faltou com o decoro parlamentar ao fazer insinuações a respeito da própria presidente da República. A opção sexual de qualquer ser humano, deputado, é uma questão de foro íntimo desse mesmo ser. E todos nós temos o mesmo direito perante a Constituição”.

2. O segundo episódio foi ainda em campanha quando um grupo de reporteres cercam Dilma em Teresina e alguém lá do fundo pergunta sem rodeios “A senhora é homossexual?” como se esta fosse uma questão de suma importância a uma candidata da república. A resposta de Dilma não foi das mais hábeis, tenho que dizer, dando a entender que o fato de ser mãe e avó a “imunizasse” de tal acusação. Na minha imaginação, eu adoraria ver uma mulher segura chamando à luz o limitado indivíduo:

“- Quem fez a pergunta, por favor, queira se aproximar.
Silêncio
– Muito bem, meu filho. Qual é mesmo o jornal que você representa? (expondo a credencial). Reparo que num momento tão importante como a eleição à presidencia do seu país, seu jornal tem oportunidade de explorar questões críticas para o país, mas você se mostra mais interessado na minha orientação sexual.
Lamento e posso supor que você não esteja familiarizado com o termo respeito. Entretanto o que realmente me intriga é que um veículo de informação tenha tão pouco interesse na vida pública do país, e fico muito preocupada com a qualidade da informação que veiculada pela instituição a que o senhor representa.
Se prepare melhor, meu filho, talvez na próxima oportunidade você possa fazer um trabalho melhor.”
Mas será que não rolou algo mais assim justamente porque a presidenta não está nada à vontade e segura com o tema?Fico me perguntando se estaria ela como milhares de colegas numa luta interna para esconder a própria homossexualidade, ou intrinsecamente é ela mesma homofóbica.

Qualquer que seja a condição da presidenta Dilma, no frigir dos ovos ela falhou com a comunidade gay e parece que não conseguirá dar apoio consistente à redução da homofobia como tem conseguido à outras minorias e questões delicadas.

Por Ele:

Fico bastante interessado em perceber as mudanças de percepção da sociedade brasileira durante o mandato de nossa presidente Dilma.

Tudo que tenho visto, ou pelo menos a maioria, numa briga firme para colocar seus ideais e projetos sem se apropriar da sombra do antecessor Lula, tem me agradado bastante.

Firmeza na postura e praticidade não é coisa nem de homem nem mulher, mas é coisa de caráter, personalidade e bastante segurança, afinal, para tangibilizarmos nossos ideais e fazermos outras pessoas apostarem e executarem por nós precisamos estar muito certos do que queremos e de quem buscamos ter ao nosso lado para que a fidelidade nas relações façam valer e façam acontecer o que temos como objetivo.

Administrar essa “empresa Brasil” é de fazer qualquer presidente americano refletir em suas reais capacidades. Uma coisa é administrar um país que já vive um fluxo de crescimento, sentido de pátria de seus cidadãos e uma homogeneidade maior de valores.

O Brasil é um país de muitas cores, costumes e valores diferentes. O país é gigante e existem lugares que ainda as vozes de uma liderança governamental ecoam com mais ruídos e dificuldades.

Mas o fato da Dilma ser uma mulher me agrada bastante. Não foi nela em quem votei, mas quando soube de sua vitória nas urnas, a primeira coisa que pensei foi “fundamental é dar o crédito para a Dilma e ver como caminhará com seu governo sem julgamentos precipitados”.

Tenho gostado e independentemente de sua intimidade, de sua sexualidade que como presidente não me interessa, uma mulher no poder aliada a outras mulheres para fortalecer o lastro de sua governança e homens que estão descobrindo como respeitar uma na mais responsável posição de um indivíduo perante um país, tem me passado confiança.

Como microempresário, que atendo mensalmente dezenas de caras novas, homens e mulheres, tem me agradado as referências das mulheres no geral, donas de seus negócios que tenho atendido e conhecido, suas dinâmicas perante empresa e funcionários, a facilidade impressionante para articulação, sem reticências, a espontaneidade misturada com objetividade, e a forte capacidade de trabalhar tão intensamente como qualquer pessoa que quer ver desdobramentos efetivos de seu trabalho.

Eis os referenciais próximos e frequentes que tenho de mulheres na liderança, e não é diferente da percepção que tenho da Dilma.

É um país que tende a dar certo pois existem muitos potenciais a serem explorados. Dilma é a evolução de Lula que foi filho de FHC. A política construtivista deve permanecer no meu ponto de vista.

Os benefícios de tudo isso recaem em nossas realidades, como gays e lésbicas. Uma sociedade mais preparada, mais esclarecida, mais madura e com mais acesso a informação e ao desenvolvimento tende a fragmentar os mitos, os preconceitos e os próprios paradigmas.

Depende também de nós nos politizarmos um pouco mais ou pelo menos entendermos conceitos, sentido de direitos e senso de nação. Uma nação tão diversa como o Brasil, se de valores de base em comum consolidados, tende a ser um dos países mais ricos do mundo, não da riqueza material somente que é fundamental para a sustentabilidade óbvia, mais ricos de tolerância e sabedoria.

A presidente faz de cima para baixo. Nós devemos fazer de dentro para fora.

Filhos de lésbicas são melhores alunos

Por Ela

Contrariando o senso comum, uma pesquisa realizada nos estados unidos sobre o desempenho de filhos de lésbicas revelou esse resultado surpreendente: que eles têm um desempenho superior os filhos de casais heterossexuais.

Eu mesma me surpreendi com o resultado. Imaginava que sofreriam mais discriminação, também que a ausência da figura paterna seria uma fonte de conflito, e que tudo isso terminaria por desencadear crises e teria repercussão negativa no desempenho dessas crianças.

Foram escolhidas 84 casais com filhos gerados através de inseminação artificial, e essas famílias foram acompanhadas por 17 anos. Quer dizer uma pesquisa bastante sólida pra ser realmente levada a sério.

Existem indícios mas não se sabe ao certo o que essas mães fazem que dá tão certo. Meu palpite é que esse resultado pode ter a ver com algumas características femininas em dobro, como a sensibilidade ao outro e maior prontidão a verbalizar e discutir questões de foro íntimo.

Além disso, ser vitima de preconceito social acaba também motivando lésbicas e gays a ensinarem a seus filhos valores de respeito e tolerância.

Segundo a pesquisa, “A participação ativa das mães homossexuais é apontada pelos pesquisadores como uma possível causa para o melhor desempenho das crianças. Eles afirmam que lésbicas estimulam seus filhos a lidar com o preconceito e a diversidade. Além de abordar com mais naturalidade temas como sexualidade e tolerância. “Essas mães devem educar seus filhos a partir de uma visão positiva e afirmativa sobre os diferentes modelos familiares e prepará-los para lidar com o preconceito”, diz Borges.”

http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI147819-10521,00.html

http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/lifestyle/2010/06/08/250900-estudo-diz-que-filhos-de-lesbicas-sao-mais-equilibrados

Por Ele

Entendo que a tolerância e o sentido de diversidade nos tornam mais preparados para as múltiplas situações que a vida nos coloca. Talvez, o que a pesquisa não abrange, é que os filhos de casais heterossexuais tendem a amadurecer mais tardiamente sob os aspectos e conceitos de tolerância e diversidade pois esses valores acabam se formando depois, no convívio social, fora das referências dos pais heterossexuais que costumam não tocar em determinados assuntos, ao passo que o jovem de pais gays ou mães lésbicas já entram na escola sabendo.

No momento que uma criança, desde o primeiro despertar de consciência de mundo, passa a ter esses referenciais de diversidade ou tolerância ao que é diferente dentro de casa, tornam-se pessoas com menos limites mais cedo.

Preconceito, repúdios ou a própria intolerância nada mais é que o ego em limites mais extremos.

Se o “cercadinho” psicológico é mais amplo, existem “terrenos” diferentes para explorar, a sensação de liberdade ou a naturalidade em lidar com determinados valores e conceitos já foram plantadas, coisas que não costumam a acontecer na educação de pais heterossexuais que tendem a “empurrar” a tradução desses temas para a sociedade (escola, professores, relação com amigos, etc).

Gays e lésbicas também envelhecem

Por Ele

Que todo mundo já sabe é que velhice, a chegada da maturidade no geral, é algo que as pessoas costumam evitar. Cirurgias plásticas, técnicas mirabolantes, exercícios físicos, dietas fantásticas e, principalmente, não pensar a respeito são as soluções mais imediatas da sociedade moderna!

Mas e no universo gay ou lésbico? Como será que funciona?

Não dá para generalizar, mas acredito que muitos gays e lésbicas (ou principalmente os gays) temem a velhice muito mais. Isso se dá por um grupo de motivos que correspondem ao modelo de vida que muitos homossexuais adotam. O apelo estético, a imagem jovial e sempre animada, o apelo sexual e o desejo de frequentar determinadas festas e baladas acabam sendo características opostas à chegada da maturidade.

Como perder toda a intensidade que nos abastece praticamente todos os dias sendo velhos? Nos resta, possivelmente, correr atrás para que no mínimo tenhamos boas condições financeiras para dar alguma possibilidade de sustentar esse espírito. Ninguém será belo para sempre. No máximo esticado.

Porque de fato esse perfil gay tão comum nos guetos GLS nos desumanizam. No momento que a velhice é um processo natural e humano, querer estender uma fase da vida, da juventude pós-dolescente, é uma característica bastante comum ao homem gay e acaba por subjulgar processos naturais que dão o tom humano a própria vida. Em outras palavras, gay tende a querer ser meio imortal, belo e sexualmente ativo para sempre!

O fato é que a gente pode até se enganar, e se existem duas coisas que não temos como controlar é o tempo e a própria morte. Não penso e nem quero ser um representante da comunidade gay que não aceite o fluxo natural das coisas. Muito menos ser um gay “periguete” que é o velho no mais bom estilo moderninho Mick Jagger, que se acha jovem mas tem cara de Iggy Pop.

Penso e até desejo respeitar as fases naturais da vida. Hoje tenho 35 anos, me sinto prioritariamente um homem adulto e já começo a achar feio colegas da mesma idade numa vibração teenager. Começa a me cheirar falta de maturidade, desrepeito a si mesmo e uma falta de noção comportamental. Me bate uma preguiça, posso até estar sendo crítico demais, mas creio que o blog aqui tenha essa intenção: despertar um senso crítico para pensar em coisas que não costumamos refletir muito.

Sinto prazer das novas experiências. Chegar nos 35 e viver como alguém de 24 é não querer sair do lugar basicamente. Podemos preservar uma coisa “jovenzinha”, mas dizer que ganhamos novas experiências na frequência adolescente é bobagem. As experiências no máximo vão se repetir entre caras, bocas e corpos diferentes.

Nunca tive tanto prazer no trabalho, na condição de dono de empresa, em profissionalizar minha equipe e trazê-los para a sociedade, em atender clientes dos mais diferentes perfis e segmentos, de cultivar um namoro que vai atingir a marca de dois anos e meio, de curtir família, primos e amigos e até, quiçá, esquecer que sou gay. Cuidar da casa, planejar viagens com o namorado e construir uma vida para benefícios mais consistentes como casa própria, poder trocar de carro, comprar bens sem sofrer em contraposição à excitação de flertes e paqueras, baladas e bebidas me soam mais amadurecidos, ou “coisa de velho”. Que seja porque “ser velho” não me incomoda.

Nunca a palavra “foco” esteve tão presente em minha vida, e veio junto com a realidade de que ter 35 anos é diferente!

Ultimamente tenho sido mais homem (geral) do que gay (particular).

Por Ela

Envelhecer é um saco, é o que tenho a dizer. Começam a despontar sorrateiros os problemas fisiológicos, diminui gradativamente a capacidade de realizar as mesmas tarefas, as marcas do tempo se instalam como posseiras no rosto e no corpo. A questao física do envelhecer não é pra principiantes!

Se essa questão é mais intensa ou diferente para os gays ou as lésbicas, sinceramente acho que não. Vivemos uma época de grande foco no indivíduo, uma personificação e individualização de tudo, que nos afeta a todos sem discriminação de sexo, raça, opção sexual, etc. Deixamos de ver a família como a razão de uma existência, para ver o indivíduo em si mesmo como a razão de sua própria existência. Nesse contexto, estar bem, bonita e feliz tem uma enorme influência na sociedade de maneira geral.

Vamos pensar que já há mais de 5 anos no Brasil se realizam mais cirurgias plásticas estéticas do que nos Estados Unidos proporcionalmente. O que quer dizer isso num pais onde a diferença social é tão gigante? E vejam que nessas estatísticas não se encontram apenas as madames da Oscar Freire. Estão também a sua manicure e a faxineira da vizinha, além dos maridos delas. As academias estão lotadas de senhoras e senhores, há tanto divórcio quanto celebração de boda. Nos trens e metrôs as pessoas não se olham, porque estão ocupadas demais com suas distrações virtuais em seus celulares.

A bola da vez nessa era é o indivíduo, e isso vai determinar como nos envelheceremos, como serão nossas relações no futuro. O fato de sermos gays ou lésbicas nesse contexto no máximo talvez de um tom mais dramático a questão estética no caso dos meninos, ou dos vínculos pífios de amizade no caso das meninas.

Talvez nessa explicação perca algumas amigas, rs. Eu vejo no geral as amizades entre as lésbicas um pouco etéreas. É como se elas estivessem num equilíbrio dinâmico, apoiadas em pontos móveis. Simplificando muito essa história, vejo as meninas se jogarem de cabeça e cegamente em intensos relacionamentos, sempre em busca do eterno amor verdadeiro. Sem entrar no mérito de se viver intensamente os amores, é como se as amigas pudessem se-lo somente quando o relacionamento permite. Essa dinâmica nao é nada fácil de administrar, e com freqüência perde a amizade.

Isso a meu ver é ressaltado demais pela individualidade, pela ampla possibilidade de outras conexões sociais, etc, e cria uma verdadeira caixa de pandora de relações. Novelo difícil de desenrolar a longo prazo. No limite, terminaríamos sozinhas e ressentidas.

Felizmente em contraposição a todas as chatices de enrugar, a maturidade é, sem dúvida, aquela parte que nos motiva a seguir em frente. E daqui a 10 anos, tomara que ela mesma me surpreenda com lésbicas maduras mantendo relações saudáveis de amor e amizade concomitantemente.

Em resumo, arranjar um jeito de conviver bem com tudo isso é a tarefa mais nobre que nos resta. Embora das mais desafiadoras. Eu aos 36 me sinto entrando numa existência diferente, onde as coisas tem outro peso que antes e a vida uma áura diferente.

No meu caso não inaugurei essa nova fase aos 30. A famosa crise dos 30 aconteceu mais tarde, aos 35. Talvez por estar vivendo um amor plenamente feliz nessa época, os 30 me passaram imperceptíveis. Eu ainda sentia plenamente o vigor dos vinte anos e aquela sensação mágica que só na juventude se desfruta de ter a vida toda pela frente e o mundo à disposição. Apenas para constar, vivia uma vida de simbiose, quase nenhum amigo intimo, como manda o bom manual da lésbica embevecida de um amor sufocante.

Quando aos 34 meu mundo caiu, aos poucos me foi aflorando a ser madura, e acho que a primeira coisa de que tomei consciência foi que as escolhas que faço hoje definem meu amanhã. Isso é o obvio, não é? Mas a verdade é que os jovens tem um senso de consequência embaçado pela síndrome do super-homem / mulher maravilha, de que tudo podem. Nós “velhos” continuamos podendo muita coisa, na verdade. Mas a maturidade vai trazendo a certeza de que nem tudo o que podemos nos beneficia. Surge uma pessoa que começa a pensar antes de agir e de priorizar conscientemente as escolhas, agora com um panorama menos imediatista e com foco em objetivos claros e de longo prazo.

Em seguida se transformou a percepção do tempo. Lembro tanto nos meus 20 anos da minha sensação de ter a vida interinha a minha disposição para fazer e refazer escolhas a meu bel prazer, mudar, arriscar, recomeçar sempre com a mesma facilidade e leveza. Mas minhas escolhas deixaram marcas, legados. E novas escolhas a partir de agora, podem significar interromper uma trilha, abrir mão ou arriscar conquistas. A leveza se foi, no seu lugar a experiência e a ponderação de quem tem conquistas a preservar, e não mais uma página em branco para escrever.

Resumo isso tudo muito pragmaticamente: vejo com cada vez mais clareza que eu não tenho muito tempo a perder. Ainda tenho uma porção de coisas para realizar nessa vida, e os prazeres baratos não me iludem e inebriam como antes. Também as relações simbióticas que tanto me atraíram no passado, não exercem mais tanta sedução em mim e agora me parecem até bem perigosas.

Mas quanto ao que esperar da minha velhice enquanto mulher, enquanto lésbica é ainda uma incógnita. Imagino o mundo mais receptivo aos gays, como de fato tem se mostrado nos últimos anos. Imagino menos e mais amigos. Isso é assim: menos pessoas no meu circulo, mas mais intimas. Nem gays, nem héteros, sem etiqueta, mas diversamente ricas. Sempre gostei da mistura, e ela não pode faltar na minha fantasia de almoço de domingo com os amigos. Tenho esses almoços de domingo como meu desafio pessoal. Reunir amigos que são amor, família, que tem caras, gostos, cores e vidas próprios. Que coexistem e acrescentam uns nas vidas dos outros.

E eu… bom, eu vou ser aquela “veinha” irreverente, espero não muito endurecida pelas certezas. Simplificações e brincadeiras a parte, de fato há muito o resolver quanto a envelhecer. Há muito também o que aceitar, preparar, construir. Eu não me vejo uma velha lésbica, porque não me vejo só lésbica agora. Minha vida não esta nada resolvida, ainda há muito o que descobrir, testar, apanhar, crescer.

Aliás acho que nem quero prever muita coisa pra deixar a vida me surpreender. Quero ser capaz de me reinventar. Essa é a velha que quero ser.

O simpatizante da vida de uma lésbica ou de um gay

Por Ela

Todo mundo que vive no armário em alguma área da vida já se arrepiou de medo ao cruzar por acaso com algum colega do trabalho numa festa ou ambiente gay. “Bom, se ele/ela esta nesse lugar é porque não tem problema com gays, portanto não terá problemas com o fato d’eu ser sapatão.” É sempre isso que te dizem, e você até faz uma força terrível pra acreditar, mas a verdade é que o medo de ser revelada antes de estar preparada pra fazer isso é amedrontador.

E aquela pulguinha atrás da orelha não a deixa em paz o resto do tempo. Eu bem que tento parecer natural, quem sabe essa santa pessoa vai achar que eu, assim como ela, estou ali por estar acompanhando um amigo gay. Ai você lembra que esta usando aquela sua regata branca com o raiban pendurado, combinando perfeitamente com seu corte de cabelo, te denunciando sem deixar duvida que se trata de uma genuína sapatão. Pra completar, as pessoas te tratam com intimidade e está bem claro que você não está ali só de passagem. Aí então os olhares que aquela pessoa te lançam parecem caçoar do seu segredo. Ela vem toda sorridente na sua direção e você só quer um buraco pra desaparecer. Talvez ela tenha dito apenas “Oi, tudo bem?”, mas você já não ouve mais nada tamanha a sua tensão. A pessoa desaparece, você fica com uma bebida a mais e com a certeza de que a história não acaba por aí.

Mas afinal de contas esse medo tem algum fundamento? Viver escondida sempre gera uma tensãozinha, e é bem possível mesmo que o medo constante de sermos desmascaradas acabe nos exagerando muita coisa. Mas a questão é que tem sempre uma razão pra esse medo: preservar nossas vidas profissionais ou familiares, fugir da violência, evitar confronto, ou mesmo não encarar nossos problemas mais íntimos de aceitação.

Qualquer que seja a razão, se estamos no armário, é porque ainda não estamos prontas pra sair e ninguém tem o direito de precipitar isso. E o simpatizante que cruza com você na cena gay, será que ele/ela vai ter a sensibilidade e o compromisso com essas suas questões pessoais? Se essa pessoa não é um amigo seu, o que a impediria de comentar sobre a descoberta do fim de semana? Na verdade nada a impede, e talvez até algo a motive a fazer isso. Esse cara pode ser aquela maldita pessoa descoladinha que não entende porque você precisa se esconder, e acha tudo isso uma bobagem. Ou pior ainda, achar que a fofoca é inofensiva. Muitas vezes não se contém de euforia pra contar pra alguém que o sujeito sério do jurídico é na verdade uma bichona.

É claro há exceções a essa regra, mas a verdade é que heteros não tem compromisso com as limitações de uma vida vivida em parte num armário. Nem heteros, nem desconhecidos, nem desafetos, ninguém além da única pessoa que te colocou nessa situação: você mesmo. E o importante nessa historia toda é se resolver pra poder administrar melhor situações como estas. Quem sabe você não se surpreende descobrindo “colegas” disfarçados de hétero ou, melhor ainda, descobre que estava fazendo uma tempestade num copo d’água. Saiba que não tem sensação de maior leveza do que tirar esse peso das costas.

Por Ele

Lembro com bastante saudade dos primeiros anos do “came out” com 23 ou 24 anos e ainda existia o Allegro Bar, local que costumava bater cartão com meu primeiro namorado e levava meus amigos heterossexuais, meninos e meninas, para entender ou compartilhar um pouco mais da minha realidade que fazia alguns meses que tinha acabado de relevar.

Foi no final de uma balada “HT” no Enfarta Madalena, quando eu e o grupo de amigos do colegial estávamos literalmente na sarjeta, esperando o manobrista trazer nossos carros, que encosto no ombro de uma amiga, semi-bêbado e digo: “então, preciso te contar uma coisa”.

E a minha amiga meio mal humorada com a demora para chegar os carros responde monossilábica: “que foi?”

Eu: “então… sou gay”.

Ela: “Ah, tá”.

Desse diálogo objetivo e esclarecedor (rs) fomos comer algo em algum Fran’s Café e todos já estavam cientes da nova verdade que virou assunto por horas. Com muita coragem, ou entusiasmo ou até mesmo uma falta de noção acreditava que todos meus amigos passariam a ser simpatizantes inatos. E parece que deu certo.

De alguma forma ou muitas formas, os simpatizantes, principalmente quando em formato de amigos de adolescência, são bastante importantes para estabelecermos um contato mais seguro com a nossa realidade homossexual. Não fosse esse “despertar” com bastante simpatia e naturalidade, talvez a evolução de minha vida teria sido diferente.

A minha amiga da sarjeta não foi a primeira a saber. Antes dela, teve a “primeira pessoa de todas” que foi outra amiga, também do grupo do colegial.

Acho até natural o gay homem assumir primeiramente para amigas. Na sociedade brasileira e machista, que a priori o homem repudia coisas do “universo cor-de-rosa” pensava que meus amigos homens pudessem ter algum repúdio. Assim, preparei uma “cama mais confortável” com as amigas.

Por sorte, os amigos do grupo também lidaram com bastante tranquilidade. Obviamente vieram piadinhas. Aliás, em todos os encontros acontecia pelo menos uma piada entre os homens! Mas nada que não pudesse “descontar” em nossas noites no Allegro ou até mesmo na Ultra Lounge original na Rua da Consolação (que hoje é um mercado), quando alguma bichinha encarava algum dos amigos (rs).

A única frustração, quando comecei a me deparar com esse universo de simpatizantes próximos foi que o amigo da turma “mais gay”, com trejeitos e até gritinhos vez em quando, revelava-se como um verdadeiro heterossexual! Achava que poderia ter um companheiro de baladas! (rs)

Foi aí, nessa toada, que fui descobrindo também, além da importância dos simpatizantes, que homem afeminado nem sempre quer dizer que é gay. Não só a mim revelava-se essa verdade, mas a todos os demais amigos que não desconfiavam de mim, mas desconfiavam totalmente do amigo. Para que eles percebessem também que alguns másculos são gays. (rs)