Pais lésbicas, mães gays e filhos!

Por Ela

Estou chegando aos 40 e pensando cada vez mais na possibilidade de ter filhos. Ser mãe e ter uma família nunca foi meu sonho como era para as outras meninas. Me lembro que aos 12 eu queria mais era ser independente, ganhar meu dinheiro e conhecer o mundo. A imagem de família na minha cabecinha daquela época remetia a uma mãe acanhada, sem pretensões além dos limites do lar e dependente do marido, o que me arrepiava de medo. Então, em lugar de fantasiar com a ideia de filhos eu a repudiava com todas as minhas forças.

Aí eu fui à vida como tinha de ser, segui e realizaei meus sonhos. E agora me pego refletindo sobre esse assunto. Será o tal relógio biológico começando a despertar? Será que a tal pressão social tem seu efeito afinal? Não sei, mas o assunto está aí e pensando nele as dúvidas e medos se multiplicam: me sentir capaz de ser mãe, o método para concepção, o modelo de família, o tipo de educação, o lugar onde morar e onde colocá-los pra estudar…

Dentre todas, o modelo de família é umas das minhas piores dúvidas. Os hormônios, a intensidade, a entrega… Tudo isso torna o relacionamento entre duas mulheres bastante difícil. E o que mais se vê é as meninas se separando e casando de novo com uma grande velocidade. Não sei se isso se repete com os gays ou com os héteros, mas as relações lésbicas parecem ter sempre um prazo de validade de alguns poucos anos. Chegada a hora da separação o convívio já se torna insuportável. Logo logo se estabelece um novo amor que, é claro, é incrivelmente libertador e parece perfeito de novo.

Mas as coisas ficam muito mais complicadas quando além do próprio relacionamento e das relações sociais há ainda a responsabilidade de uma criação nesse balaio. Me sinto sem coragem para encarar esse embrólio…

Além disso eu acho importante uma criança ter uma referência masculina, de preferência do próprio o pai biológico presente e participante ativo na educação. Sendo sapatão, é óbvio que não me casaria com um homem.

Então… Helloow!! Casal de lésbica + um homem dando pitacos = 3ª guerra mundial!!!

O que é ser uma lésbica com filhos? COMO é ser uma lésbica com filhos? O que acontece com os filhos de casais lésbicos que se separam? Como uma criança vê suas mães lésbicas? Será que esta situação gera problemas na vida da criança? Como os filhos de lésbicas se relacionam na escola e na vida?

Se ou como vou encarar esse desafio ainda não é um ponto decidido. Grandes decisões, grandes medos, grandes passos. Mas gosto de imaginar a sensação incrível que seria ensinar alguém a andar por aí.

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Por Ele:

Quando mais jovem e já assumido, com 23 ou 24 anos pensava na ideia de filhos. Algo meio pueril ainda, de sonho, de achar bonito e não ter a dimensão da parte trabalhosa e responsável de ter um filho, dois ou três!
O tempo foi passando e estabeleci algumas referências de relacionamentos afetivos com outros homens, em formato de namoro e até um casamento que perdurou por três anos e, sempre mais jovens que eu, percebi também um tom paternal na maneira de ser com meus ex. Livre de julgamentos, creio que alguns (ou muitos) gays estabelecem esse tipo de “paternidade” em seus namoros. Talvez, por esse motivo, por essa experiência vivida de “adotar parcialmente” algumas pessoas em fases diferentes da minha vida, a ideia de paternidade não bate mais dentro de mim como antes, aquela coisa utópica e bonita de cuidar da cria.
Educar, conviver, dá trabalho!
Como dono de empresa e lidando diariamente com pessoas mais jovens que eu, esse tipo de relação de ser referenciado também me abastece de alguma forma.
Essa questão de ser pai e gay vira assunto nas rodinhas pelo menos uma vez por ano. Pelo menos nas rodinhas que frequento! Não tenho a preocupação de ser um pai gay para a sociedade, ou melhor, d’eu formar um casal gay com um filho perante os grupos e esse formato gerar questões. Questões já temos tantas e essa seria apenas mais uma.
“E se o seu filho se influenciar por você ou por seu marido e ‘virar’ gay”?
Bem, nada mais NATURAL aceitá-lo como tal, oras bolas! Entrar nessas questões de influências só me mostraria um despreparo para ser um pai. Pais criam ao filho com fortes referências sobre inúmeras coisas. Ser gay ou não seria apenas mais uma.
O aspecto desafiador em si, ser pai e bancar essa realidade para o mundo torna-se até mais atraente para mim. Fora que na minha real concepção, se for necessário a figura feminina, existem maneiras diferentes de transmitir essa identidade para uma criança. Mesmo porque, nos tempos atuais, muitos filhos acabam sendo mais do pai ou mais da mãe: separação é algo bastante corriqueiro e é inevitável apenas um ser a referência mais positiva e predominante.
De fato, o que existe são referências de valores e comportamentos positivos e negativos. O que não existe é sexualidade negativa.
Assim, as crianças entendem conceitos de família de maneiras diversas hoje: “papai, mamãe e filho”, “papai e filho”, “mamãe e filho” e porque não “papais e filho” ou “mamães e filho”?
A grande questão da paternidade para mim – fruto principalmente da minha personalidade e da maneira como concebo a transmissão de educação, valores e base – é que é pré-requisito que eu seja um pai bastante presente.
Não penso em ter um filho para ser educado pela babá.
Em outras palavras, tenho 35 anos e existem ainda alguns objetivos individuais profissionais e pessoas que não possibilitariam essa educação presencial, da criação presencial.
Minha mãe deu um tempo de oito anos para transmitir valores e educação para mim e para meu irmão e posso dizer que, a medida resolvida que sou hoje é fruto autêntico dessa doação de minha mãe para comigo e para com meu irmão nos primeiros anos das nossas vidas. Meu pai não foi tão presente e fez falta. Falta que buscamos preencher hoje, antes tarde do que nunca!
Assim, como foi transmitido a mim o sentido de ter filhos, quando eu tiver condições de doar a maior parte do meu tempo para um rebento, quem sabe a ideia não se realize? Papai mamãe, sim serei! =P
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“S” de sapatão

Por Ela

Onde a abrina se distancia da imone, os ésses dão o tom

Ésses, ésse, ésses, plural
Nota? Sol
Dois sóis
Plural, múltiplo

E será que você me lê?
Te leio eu e me vejo em ti
Te leio eu e te vejo em mim

Ésses…

Ésse! Que, do avesso, segue sendo ésse ainda sendo 2

Ésse com ésse de coração
de saudadess, começo e fim

…de Simone e Sabrina se olhando de perto

SempreS

Por Ele

Conheci a amiga Sabrina por um amigo em comum. Naquela época, talvez há 10 anos atrás, as coisas da minha sexualidade não estavam tão claras como hoje e o S de Sapatão de Sabrina ainda não ecoava aos meus ouvidos como uma unanimidade.

Naquele tempo, nosso querido amigo transitava entre Eu e Ela muito provavelmente eleitos como os amigos de maior intimidade. Embora não soubesse que ela era S e talvez nem Sabrina entendesse direito o que se passava por dentro, por fora simpatizava pela rápida troca de intelectualidade e nada mais.

Três ou quatro anos depois, S de Sabrina já se definia. Nos encontrávamos em minha antiga casa e entrávamos numa onda-nerd-intelecto-deliciosa sobre a existência da aura da arte. Coisa refinada. Meu ex-marido, diante tantas pessoas e possibilidades de ciúmes, por algum motivo não tinha o mesmo sentimento pelo meu amigo que, naquele dia trazia Ela ao aconchego do meu lar para despejarmos intelectualidades.

Mais um tempo passou e Sabrina se fazia Ela plenamente. Carteados, viagem ao interior, teatro com final numa cantina do Bexiga e passava a reconher Ela, decidida e absoluta!

Tivemos três encontros marcantes e, no quarto, SabrinEla já era minha amiga. Não precisávamos mais da ponte de nosso querido-amigo-em-comum para nossos encontros e nossas trocas intelecto-contagiosas! Ponte que costuma existir em épocas juvenis, no momento que se tem ciúmes e crises quando amigos de amigos passam a ser amigos sem algum tipo de consentimento.

Daí a coisa grudou em 2012 de ver a virada de ano juntos, um tipo de grude não pegajoso mas intelecto-galático, e de orgasmos mentais de assuntos e afinidades sobre a vida, o ser, o estar e a sala de jantar. Duas comadres, sim! 😛

Recentemente, pero no mucho, tive apenas um contato com a imone com S, S forte, firme e existente! No mais sei que Sabrina e Simone vivem por aí as coisas que de A a Z vivem vez ou outra. Coisa de pessoas quando se gostam, se entendem e desentendem, se grudam, se soltam, se ateiam e se sapecam vivem com o surgimento do S de paixão! Prova de que apaixonite-aguda ou confusite-gostosa vem para quem tem 15 ou 40!

Espero que as duas estejam sassaricando em meio a sabrinelas e simonices porque a vida é assim: se olhando de longe e de perto!

Futebol alegria do povo

Por Ela e Ele

Ela: Vai dormir ao embalo dos rojões. Madrugada passa sonolenta entre os gritos na rua. Pela manhã, ruidosos comentários apaixonados em todos os meios de comunicação. A cada semana uma cor diferente no mesmo absurdo da alienação.

Ele: Preguiça enorme do alvoroço que o futebol causa nas ruas, nas pessoas. Mas confesso que assisti a final da Libertadores esse ano num desejo profundo do Corinthians perder. Meu time brasileiro: Anti-Conrinthiano, exemplo em largas quantidades da alienação.

Ela: Hoje me espantei de novo com a cultura promovida pelo consumismo da máquina do futebol. Já fazia um bom tempo, desde a faculdade, que não via com tristeza o circo na contemporaneidade.

Ele: Morar perto do estádio do Morumbi tem dessas coisas: pelo menos uma vez por mês as luzes clareiam o céu e aqueles ruídos e fogos invadem meu território. Bom mesmo foi ouvir a plateia em coro em “Hey Jude” no show do Paul McCartney.

Ela: Minha família sempre esteve às voltas com a prática dos esportes, mas não tenho notícias de exaltação por um clube de futebol. Nas copas do mundo, tudo era sim magia. Mas os campeonatos passavam despercebidos. Talvez por isso só na faculdade de engenharia que fiz, pude ver com espanto o envolvimento das pessoas por seus times.

Ele: Copa do Mundo. Isso sim vale a pena. Provavelmente porque, para mim, existe um sentido de patriotismo. Da minha nação verde amarela conseguindo se equiparar com o globo em alguma coisa. Alguma coisa, como esse verde amarelo. Como a Bossa Nova.

Ela: Nunca pude compreender bem o porquê de tanta dedicação. Os homens enlouquecidos discutindo infindavelmente sobre lances, momentos, prêmios, nomes, datas. Era incrível o volume de informação que conseguiam absorver sobre futebol, e o pouco que conseguiam guardar sobre coisas que realmente importam como seus sentimentos, suas famílias, namoradas, faculdade, etc.

Ele: Homens enlouquecem por futebol porque, se não for no sexo, é o único momento que podem expressar de maneira despreconceituosa suas emoções. Ainda bem que aprendi a não ser esse tipo de homem!

Ela: Que estranha conexão tinham aquelas seres com times às vezes de outras cidades? Vocês jogaram no clube? Faziam parte da comunidade? Frequentavam ao menos as festas do clube?

Ele: Durante uma partida, a sociedade ou melhor, os homens, permitem-se abraçar, se beijar e chorar juntos. Permitem-se se exaltar, “perder o controle” e deixam aflorar as emoções potencializadas.

Ela: O que diabos os unia tão fortemente a um time qualquer? Raras vezes aparecia alguma conexão razoável, na maior parte das vezes a máquina do consumo era quem determinava a afeição. O garoto escolhia seu time definitivo entre os seus 7 ou 8 anos. Não se pode dizer que a família não interferia, mas a escolha definitiva parecia muito mais pautada pelos resultados dos campeonatos vigentes, e não raro alterava a escolha prévia do pai.

A partir daí, o garoto era da cabeça aos pés da cor do seu “time do coração”, armazenando informações, colecionando memórias, camisetas, brindes. Vai crescendo e se declarando amante e dependente dessa “paixão”. “Paixão nacional”…

Ele: Desde muito jovem os meninos, gays ou heterossexuais, aprendem essa coisa de que, quando o assunto é futebol, é permitido que o homem transborde as coisas do coração. Graças aos céus não tive um pai bitolado no tema. Fui até que bem livre para poder descobrir onde despejar minhas “coceirinhas”. Mas no geral, o menino aprende a canalizar suas vibrações lá, no futebol. E depois, no sexo.

Ela: “Paixão nacional”… Ora bolas, o que é mesmo uma paixão nacional alimentada pela mídia mais poderosa do país desde sempre se não um amor falso, fabricado? É sim muito divertido reunir os amigos para assistir um jogo, mas o que motiva as pessoas à violência ou a esfuziantes comemorações dignas de campeonato mundial ao longo de toda a madrugada num dia de semana?

Ele: Até acredito no amor verdadeiro. Na realidade, diria paixão, daquela coisa que explode e que pode livremente na hora do futebol.

Ela: Eu devo ter perdido o capítulo da nossa história em que nos transformamos em um país de ricos empreendedores que não precisam se dar ao luxo de acordar cedo para trabalhar.

E vem cá, alguém ainda acha que alguma partida profissional se define num campo de futebol? Honestamente, meu povo, com tanta grana envolvida, o abismo entre os clubes, os figurões, etc.

E o que define o tamanho de um clube? O volume de telespectadores e consumidores das suas cores é um bom começo para esta estimativa. Algum palpite do porque Corinthians e Flamengo passam incessantemente em São Paulo e no Rio respectivamente na hora do almoço em vários jornais disponíveis?

Todos os santos dias. Os mesmos assuntos banais e irrelevantes, tais como o tamanho da barriga do Ronaldo, parecem hipnotizar os torcedores que assistem com a atenção de notícia nova, embevecidos de curiosidade.

Imperadores Romanos assistiriam essa cena com deleite de quem deixou um legado fortíssimo que perdura e se fortalece ao longo dos séculos: Circus.

Desculpem-me os fanáticos, mas me parece tola alguma dedicação a uma máquina fabricada e mantida para a descarada acumulação de riqueza.

Ele: O Sócrates mesmo disse no “De Frente com Gabi” que esse nosso futebol de hoje se perdeu dentro da máquina. A ideia da arena, assim como o MMA, sempre existiu. A diferença hoje é que existem patrocinadores investindo milhões de dólares e influenciando diretamente os pés, as pernas e as cabeças dos jogadores. Interesses econômicos, sem dúvidas, mestre Yoda!

Ela: Além disso, o que pauta a emoção com algo tão impessoal como o jogo de outros. Imagino que Freud deva ser mais eficaz em explicar isso. Como é possível os mesmos seres se emocionarem tão facilmente numa partida de futebol, e serem incapazes de entrar em contato com seus sentimentos em tantas outras ocasiões?

Ele: Porque macho que é macho não sai por aí compartilhando sentimentalidades. Macho que é macho sente na cama e na hora do futebol, solamente.

Ela: É impressionante ver esses caras se rasgando, sofrendo, chorando, se abraçando, rindo juntos, declarando seu amor a uma paixão fabricada. E na vida, fechados como ostras com medinho de seus próprios sentimentos no relacionamento com suas mulheres e famílias. Comentando duríssimos no trabalho sobre como é difícil se relacionar com suas mulheres que querem conversar sobre as coisas. Dai-me forças!

Até aqui, os homens. Mas se notarmos bem, cada vez mais as mulheres têm se colocado nesse lugar de torcedoras fanáticas. Vestem suas camisas coloridas, vão aos bares, às ruas, bradam seu amor, levantam a voz, conhecem os títulos, os lances e são capazes de emocionadas discussões sobre seus times de preferência.

Ele: Acho essa situação até positiva. Assim, indiretamente, o homem de hoje percebe que pode chorar na cozinha cortando cebola. Explico: minha teoria continua e diz que o homem é ligado em sexo não somente pelas questões da natureza primal, mas porque a sociedade que conhecemos, desde os tempos mais remotos da machadinha, colocam os homens como indivíduos que não podem perder tempo com sentimentalidades e devem ter foco no sexo para perpetuar a existência da comunidade. Homo Sapiens homens nasceram fisicamente mais fortes e, força, naquelas épocas áureas do desolamento, estava diretamente ligada com a existência das pequenas comunidades. Pequenos grupos que percebiam que funcionavam melhor em comunidades para a sobrevida de cada um. Homo Sapiens mulheres precisavam parir filhos para garantir mais lastro ao próprio grupo. Comunidade maior = mais chances de sobreviver. Comunidade maior = mais chances de evitar a dor da morte, a dor da perda. Morte = um bicho terrível, doloroso, inexplicável e assustador até hoje para a maioria.

Só que ser humano que foi e é o homem, precisa ter válvulas de escape para o dia atribulado, para liberar as tensões. Desde os tempos remotos descobriu-se que no sexo funciona essa válvula e descobriu-se também que duelando machadinhas – como no futebol – ajuda.

Esse modelinho primitivo, do homem que é naturalmente mais forte, brigar pela comunidade e fazer filho, e da mulher, de parir filhos e alimentar os futuros guerreiros, são bases primordiais até hoje. Deslocamos um pouco o peso da força física para a força moral, mas me soa ainda um tanto semelhante.

O fato das mulheres invadirem os territórios sagrados do homem-sapiens impulsiona a uma releitura desses valores primais, conscientemente ou sem consciência nenhuma. Assim, homem cansado desse modelo pode chorar cortando cebola! (Estou erguendo o braço nesse momento).

Ela: Então o futebol fanático não é mais coisa de menino. Somos finalmente uma nação inteira embriagada pelo futebol? Gays, lésbicas e héteros, almoçamos e dormimos times fabricados e falsas conquistas?

Ele: Panis et circenses ontem, hoje e amanhã. Messias e rebanhos. Dominantes e dominados. Eis o nível evolutivo do planeta Terra. Aí é questão de fé: numa próxima encarnação quero jogar outro tipo de partida!

 

O tipicamente feminino

Por Ela

Nosso imenso repertório de pré-conceitos é formado ao longo das nossas vivências e pela maneira como as internalizamos na nossa vida. Em cada fase do nosso amadurecimento nos predispomos de forma diferente com o que a vida nos apresenta.

Num exemplo bem simples, uma criança de 2 anos pode interpretar um fato simples como a saída dos pais para o trabalho como um abandono atroz. Anos mais tarde, poderia até desejar que eles saiam logo para poder explorar em paz seu quintal.

É assim tão única a formação de nosso caráter, que não se pode dizer que dois irmãos criados juntos compartilhem os mesmos valores.

Mas mesmo com todas essas possibilidades de pessoas que podemos ser dada à nossa experiência pessoal, há algo mais arraigado nos nossos costumes que também permeia nossas formas de expressão e até os nossos sentimentos. Me refiro às questões morais, valores sociais, o bem comum.

Anos de convívio social criaram relações complexas entre as pessoas e os grupos sociais, permeadas por valores nem sempre claramente expostos, mas certamente bem inteligíveis a todos.

No meio disso tudo estão os “comportamentos tipicamente femininos e masculinos”. Por muito tempo e até hoje se tenta reforçar certa ordem vigente associando esses “tipicamente isso ou aquilo” à fisiologia, à capacidade física, intelectual, à genética, entre outros. Como se se criasse uma razão superior para que nada fosse desafiado.

Controversamente o mundo cria os desafios e nos propõe outras respostas. Como a guerra que tornou o homem rico, um reforço óbvio à manutenção do poder masculino vigente, também impulsionou as mulheres ao mercado de trabalho. Este fato simples criou condições para tantas outras mudanças, que poderíamos ficar horas debatendo suas consequências.

A questão é que numa velocidade ou outra, desde que vivemos em sociedade estamos nos adaptando algo novo, nos redescobrindo e reinventando normas. Entretanto no meio disso tudo algo parece sobreviver sobremaneira aos tempos, e esse é o tal do “coisa de mulher” / “coisa de homem”.

Os termos e a intensidade variam, mas sabemos que trazemos esses valores de um jeito ou de outro, mesmo nós homossexuais que temos por princípio questionar a ordem vigente para que caibamos nela.

Sabemos disso quando discretamente nos surpreendemos com um homem dono de casa, ou uma mulher pilotando um avião.

Intrinsecamente, mesmo não querendo, trazemos o conceito do tipicamente feminino/masculino dentro de nós. E acredito que não nos deixamos influenciar menos por isso pelo fato de sermos lésbicas ou gays.

É claro que prestamos atenção nisso até para podermos protestar por outros lugares, mas se chegamos mais perto das pessoas, vamos ver que em nossas relações mais íntimas ainda tentamos reproduzir o tal “tipicamente”.

Na dicotomia do sexo, as pessoas ainda procuram exercer os tais papeis do homem e da mulher. É assim no sexo, na provisão do lar, e em tantas outros momentos. As relações lésbicas, por exemplo, não se pautam tanto numa sociedade formada por pessoas que contribuem com igualdade, mas sim em uma reprodução do padrão feminino/masculino tal como vivido pela geração dos nossos pais.

Menos com os tomates! É claro que o equilíbrio também é dinâmico e por vezes uma característica, uma afinidade vai determinar um comportamento mais masculino ou feminino numa determinada situação. Nem por isso pode-se dizer que se estabelece uma situação do “tipicamente”.

Mas o fato é que essa divisão cartesiana de gêneros aparece muito claramente em casais de lésbicas. Há sempre uma delas querendo dominar ou prover, e a outra querendo ser amparada enquanto cuida dos afazeres. Basta colocá-las em posições trocadas para perceber o desconforto e a tensão.

E o que é isso senão uma tentativa de reprodução do mecanismo já conhecido de papai e mamãe, onde se sabe claramente o que esperar do outro.

Gostaria de dizer que o “tipicamente” talvez nem exista tanto mais, já que vivemos hoje numa transição de gêneros, onde cada um procura seu novo lugar à medida que os valores vão se reconfigurando e as coisas se reordenando.

A autonomia da mulher, o individualismo, as novas famílias, tudo isso e muito mais questiona e remexe tudo até que não saibamos mais com tanta clareza o que hoje é “tipicamente masculino ou feminino”.

Mas nós como humanidade devemos ter mesmo muita preguiça dessa reinvenção toda, porque estamos sempre tentando ocupar o lugar pré-definido, e não criando nosso próprio espaço. Renegociar tudo isso novamente a cada relação é exaustivo obviamente.

Avessas às mudanças como todo o resto, acho que nós lésbicas ficamos aqui tentando chacoalhar o mundo ainda querendo vivendo como nossos pais.

 

Por Ele

Sou tipicamente feminino porque gosto de discutir a relação.

Sou tipicamente masculino porque trabalho 14h por dia como os homens work-a-holics.

Sou tipicamente feminino pois deixo fluir a minha intuição.

Sou tipicamente masculino porque passo tranquilamente por um heterossexual.

Sou tipicamente feminino por acreditar que homens canalizam muita coisa no sexo.

Sou tipicamente masculino por gostar de carros e não me interessar por novela.

Sou tipicamente feminino pois minha necessidade de carinho e atenção é assumida.

Sou tipicamente masculino porque ando com uma preguiça danada em cultuar meu corpo.

Sou tipicamente feminino porque me afeiçoo por astros, cartas de tarô e Chico Buarque.

Sou tipicamente masculino porque gosto de videogame até hoje.

Sou tipicamente feminino, ultimamente, em quatro paredes.

Sou tipicamente masculino porque as questões das mulheres sobre os homens me cansam.

Sou tipicamente feminino quando canso do meu eu masculino.

Sou predominantemente masculino e descobri que adoro meu eu feminino!

 

Trans-Homem, Trans-Mulher, violência e outros bichos

Por Ela

Já parou pra pensar com a cabeça de uma pessoa que se entende habitante de um corpo equivocado?

Sufocar sentimentos, desejos e sonhos pra tentar seguir os malucos padrões sociais e quando o forjado parceiro tira a roupa, sentir uma inveja paralizante do seu corpo de homem?

Parece talvez como uma lente de aumento extremamente forte na questão homosexual gay e sapatão. Um desconforto coma própria condição, um não aceitar-se como os outros esperam que você se porte ou se vista. Mas tudo isso extremamente maior, porque o desconforto nem precisa ser do outro, ele está em você, no espelho, na voz, na manifestação do hormônios.

Eu não “sei” na prática o é tudo isso, também não tenho contato próximo com essa realidade. E de repente por isso mesmo tenho uma curiosidade enorme de entender melhor essas pessoas, e vez por outra encontro algumas dessas historias que vou tentando montar no meu quebra-cabeças.

Uma das mais intrigantes pra mim foi uma reportagem bastante longa que a BBC fez com um rapaz que virou moça, que mais tarde viraria rapaz de novo. Este homem de uma tradicional família árabe, casado, pai de 2 meninos, se descobre envolvido por amigo. Na época já aos 20 e poucos anos. Se assume gay, já dá pra imaginar os problemas que enfrenta só aí.

Passados alguns anos de sua vida gay, sentindo-se ainda incompleto, errado, infeliz, faz a operação de trans gênero. É agora uma mulher árabe, enorme, desajeitada e solteira. Sim, seu companheiro a abandona após a cirurgia.

Vive mais alguns anos como mulher e, chega ao mesmo tempo à conclusão de que se equivocou ao fazer 1a cirurgia, e também se dá conta de que a vida como mulher é muito mais difícil.

Confesso que ri muito nessa hora. Queria que todo homem e mulher pudesse assistir a essa parte do depoimento pra entender onde estão os problemas que ninguém percebe, as dificuldades que, inseridas na vida cotidiana, passam desapercebidas.

Mas voltando ao nosso tema, eu fiquei intrigadíssima com a vida desta pessoa. Com a perturbação da sua cabeça, com a coragem das decisões que tomou, com todo o resto que imagino porque não coube na reportagem.

Alias, a própria vida depois da reportagem, pois ela estava com tudo agendado para novamente ser ele.

Essa história muito louca fica cozinhando na minha cabeça enquanto eu fico tentando entender. Enquanto isso aparecem trans-homens que engravidam, trans-homens que se vêem gays, trans-mulheres exageradamente femininas. E, cada um com a sua história, tem uma dor profunda em comum e muita coisa pra dizer.

João W. Nery é uma dessas pessoas que tem muito a dizer. Trans-homem de 61 anos, divididos matematicamente como mulher e homem. Além de tudo, um pensador, um psicólogo, um escritor. Um homem culto.

Esse cara lançou uma questão genial que queria muito propor aqui: o heterosexual precisa do “fora do padrão” para que ele mesmo seja considerado “o padrão”. Assim, o gay, a lésbica, o transexual, etc, etc, etc, são necessarios à condição de normalidade do heterossexual.

Se o “errado” precisa ser corrigido ou, paradoxalmente, eliminado, a violência contra os gays e trans não só se justifica como é também aplaudida por uma sociedade doente.

Vão dizer que estou exagerando. Mas aplaudir pode ser simplesmente fazer silêncio. Ouvir ou assistir impassivo à uma violência qualquer é como ser conivente com o crime. Basta fazer uma busca rápida para perceber que há um volume enorme de violências em nome da tal heterosexualidade “normal” por aí.

Então me parece que mais do que justificar a tal normalidade, somos também como um saco de pancadas animado, um video-game vivo. Porque muito se vê a respeito da violência contra os gays, trans, heteros que parecem gays, mas não muito respeito das punições. Tal como nos vídeo-games.

Recomendo: http://www.youtube.com/watch?v=tTqa5BgmEog&feature=youtube_gdata_player

Por Ele

Normalidade ou identidade. Prefiro dizer naturalidade. O vídeo que a querida Ela fez a crítica acima, dos 30 anos como trans-homem (ex mulher que virou homem) de João W. Nery mostra que os conceitos sociais de gênero (masculino e feminino) e sexo (homem e mulher) são formados pelas bases da heterossexualidade. Valores seculares que estão mudando a medida que nos desprendemos de modos tradicionais, morais e religiosos que não mais se aplicam à vida contemporânea, do hoje. Diga-se “vida contemporânea” aquela que possibilita a difusão da informação, de um reconhecimento plural da humanidade e que retoma ou enxerga pela primeira vez o ser humano acima de classificações antiquadas que a própria sociedade formou.

Os seres humanos pela necessidade de sobrevivência aprendeu em tempos remotos que o convívio social, em grupos, o tornariam mais hábeis e aumentariam as chances da sobreviência contra os inimigos naturais e outros grupos rivais que disputavam pela sobrevivência ou valores de poder. Só que com essa aglutinação, para criarem regras e condutas entre os próprios indivíduos, foram definidos valores, conceitos, políticas, hábitos, modos e cultura para que a própria sociedade se concebesse e se preservasse no próprio estado de sociedade. Nesse processo, na questão de sexualidade, a heterossexualidade que parecia garantir uma segurança em um mundo de muitos rivais numa luta constante pela sobrevivência, possibilitaria a perpetuação da própria sociedade. Nada mais natural e óbvio num cenário de desespero para sobreviver.

Esse modelos tiveram poucas variações e definitivamente se perpetuou por gerações e milênios. O que acontece é que nessa sociedade contemporânea o sentido visceral de sobrevivência está cada vez mais distante. Pois bem, se é assim, o que de fato as outras sexualidades que não a heterossexualidade podem causar à sociedade, mesmo que ela ainda preserve a necessidade de sobreviência e poder? Com a clareza e informação que temos hoje, vindas da ciência, da sociologia e das próprias relações diárias de um indivíduo perante a própria sociedade, sexualidade diferente da heterossexualidade reprodutória não quer mais dizer enfraquecimento ou, muito pelo contrário, a compreensão e a inclusão da diversidade numa sociedade contemporânea representa mais força. Principalmente nessa sociedade globalizada com tanta gente!

Abstraindo: essa coisa da preservação da espécie, ou da própria sociedade, me cheira forte o cheiro de grupos construídos por traumas de perdas, de entes, filhos e amigos que morriam inicialmente nos processos naturais, nas bocas de predadores e depois nas mãos de rivais até bem recentemente. Em outras palavras, o trauma ou o medo da desgraça era forte e movia a própria sociedade a se formar. Hoje não precisamos nos pautar mais nesses medos para nos entender em sociedade.

Utopia? Talvez, mas uma maneira bem resumida de alguns por quês das coisas serem o que ainda são hoje.

Pouco se pára para pensar do por quê de seguirmos modelos, métodos e regras e essa inércia acontece diariamente em nosso universo íntimo, nas famílias e no cotidiano. Por que afinal de contas uma mulher precisa casar de vestido branco na igreja, perante um padre idolatrando o altar sendo que muitas delas nem são mais efetivamente católicas? [Valorização do clássico]. Por que temos que louvar por um Jesus iluminadamente branco, de olhos claros, aloirado digno de um top model das passarelas do SPFW, cuja imagem idolatrada se formou pelo Renascimento? [Alienação pelo poder do belo]. Por que temos que acreditar no Papai Noel de roupas vermelhas, que nos visita todos os finais de ano, que em sua origem vestia-se de azul e foi a Coca-Cola que o tingiu de vermelho para associá-lo a marca? [Consentimento da manipulação].

Eis alguns hábitos culturais, dentre muitos outros que raramente paramos para pensar, que herdamos a milênios dessa sociedade que precisava se fortalecer. E nesse fluxo, de Jesus top model, noivas não católicas mas dentro de vestidos brancos e papai noel azul, levanto a questão: por que tão e somente a heterossexualidade? Para nos manter numa condição de procriação e perpetuação da espécie em situações constantes de ameaças? Para nos proteger do medo da perda, da desgraça e da diluição da força da coletividade?

Gente, esses valores se foram a milênios! Mas teimosos, tapados ou conformados com a sociedade da inércia seguimos. Ser gay, trans e bi exige um espírito crítico talvez maior do que aqueles que cumprem o menu social. Nos cobramos mais (ou é isso que se espera) para compreender os por quês de estarmos fora das “regras” e entender para onde devemos ir se é nosso interesse fazer parte das regras.

Muito do que estabelecemos a séculos atrás ainda são alicerces para hoje. Mas será que precisa? Creio que não. Podemos até devanear, afirmando que a sociedade atual é tão predatória como foi no passado. Mas não é bem assim. Não precisamos caçar com machadinha e defender o quadrado na base da porrada porque o vizinho pode roubar a plantação de cenoura! Pelo menos não deve ser assim nos países ou microcosmos mais evoluídos. Fora disso é estagnação, que também é uma condição humana.

Me parece que vivemos num universo muito mais apto a oferecer do que tomar posse, mas a tendência é querer enxergar o lado vazio do copo. Antigamente, as pessoas se apossavam dos terrenos para construir feudos. Apossavam na base do facão. Matavam “bruxas” porque desenvolviam remédios fitoterápicos e homeopáticos.

No tempo do meu pai, compravam terrenos como investimento e um tipo de garantia de status ou garantia para a velhice. No meu tempo e um pouco mais recentemente, o jovem anda pensando diferente. O jovem tem serviços a sua disposição de pousadas, hotéis e resorts. Os jovens coletivizam aluguéis de apartamentos e quiçá, muito em breve no Brasil, comprem juntos formando famílias de amigos e não famílias heterossexualizadas no modelo “propaganda de margarina”.

O mundo está mudando ou pelo menos busco viver essa parcela da mudança que não são poucos e não são somente gays, lésbicas e trans. Gosto da parcela desapegada que se enobrece em contraponto ao modelo de riqueza que definha. Obviamente o mundo é vasto e tem espaço para todos os jeitos. Eis o olhar: todos os jeitos que não quer dizer anarquia nem jogar todos os séculos de formação de sociedade fora.

Nesse fluxo de abstração, reflexões e pensamentos, primeiro vêm o “olhar mais natural” aos/às gays e depois aos trans. Não porque gays, como eu, são mais privilegiados. Mas porque numa escala de choque social, estético, ético, que inclusive inclui a transformação das próprias genitálias, o trans precisa martelar mais nessa sociedade da inércia (que odeia sair do tradicional) para a conquista de inclusão. Mudar os movimentos para o que aparentemente já funciona a milênios sempre vai dar mais trabalho. O que funciona há tanto tempo acomoda e exige muita clareza e disposição para mexer. É o mesmo que a lógica do novo ser mais capaz de mudar que o velho. Mas posso dizer que se existe necessidade todos mudam.

Continuo otimista acreditando que o antigo seremos nós, gays e trans. Em outras palavras, um dia seremos os contrários as novas ondas evolutivas porque deu tanto trabalho para ser assim. É tão seguro estar assim, por que temos que mexer? Achar que nos resumimos ao que somos, sem aceitar o que vier de novo, é o passo para aceitar a nossa própria condição de inércia.