A sapatão optou pela carreira. O gay, pela autonomia

Por Ela

Ela se acabou de trabalhar em horas extras muito mal pagas. Desenvolveu habilidades. Enfrentou desafios. Engoliu sapos. Aceitou feedbacks com os quais não concordava. Mais sapos. Trabalhou em condições difíceis. A cada novo projeto um novo cliente, um novo time, um novo chefe. Personalidades e estilos diferentes, uma variedade imensa de peças pra lidar. Ela se “acamaleou”, adaptando-se aqui e ali, e se moldando à Empresa.

Espelho, espelho meu, ninguém é mais acomodada do que eu!

Deixei meu barco correr bem solto, e só agora depois de 13 anos na estrada, penso e me planejo para o futuro. Só posso achar que sou incrivelmente acomodada, porque fiz isso mesmo sendo minha carreira notoriamente exaustiva. Vivo numa constante roda-viva, sob pressão, prazos absurdos, cobranças de todos os lados, inúmeras variáveis novas, desinformação, despreparo, riscos… E mesmo com tudo isso, minha carreira teve que tomar conta dela mesma.

Nunca, nunca, nunca na zona de conforto. Aliás, aprendi que não se cresce na zona de conforto. É preciso ter desafios, desossá-los, comê-los com farinha, andar sobre as águas, dar 3 voltinhas flutuando no ar. Só aí, e se ninguém der 4 voltinhas, você tem os merecidos louros da glória sem “poréns” ou descontos. Meus chefes mais doces costumam chamar isso de “a cenoura da frente”. Aquele prêmio ilusório que faz com que os coelhinhos corram até a exaustão.

Talvez por não acreditar tanto nas pequenas “cenouras da frente”, tive a paciência e o estômago para seguir em frente. Eu nunca fui “top performer” de absolutamente nada. Acho imbecil o conceito americano de no 1. Na escola, preguiçosa, só estudava pra 2ª prova. Tenho paúra de planejar meu dia. Enfim, eu tinha tudo pra ter tido uma longa carreira de 2 meses e acabar apertando grampeador em alguma copiadora.

Mas, contraditoriamente, não comprar as “empresísses” me segurou na empresa numa matemática muito simplória: menos expectativas, menos desilusões. Como os louros não me fascinavam tanto, os tombos não me agrediam tanto também. Ia passando pelos perrengues e me fortalecendo com o que aprendia enquanto colegas mais competentes se exauriam pela angústia. Paciência, seu nome é carreira.

Como só sei produzir sob pressão, precisava mesmo desse ambiente pra me desenvolver. Sempre perguntei para o espelho de manhã do balanço entre os sapos e os louros. Os sapos sempre se explicaram como um mal necessário. Os louros, traduzia e traduzo até hoje em desenvolvimento profissional. Enquanto estiver me desenvolvendo, está valendo a pena.

E onde está a minha sexualidade nisso tudo? Pois é, não está. Ela não tem nada a ver com a minha carreira, nadinha mesmo. E fica bem disfarçada nas camisas bonitas e sapatos de bico fino. Foi propositadamente que eu alienei o “ser lésbica” na esfera da carreira. Sentia que prejudicaria meu desenvolvimento profissional, e não estava disposta a levantar essa bandeira. De novo, acho que por pura preguiça, rs…

É claro que há gays, lésbicas, sapatões, viadinhos perambulando pelos corredores de qualquer companhia grande. E nós nos reconhecemos mais cedo ou mais tarde!

A questão aqui é como a carreira e a homossexualidade se interceptam. Eu optei por não conciliar e manter as duas completamente apartadas uma da outra. E continuo acreditando na minha escolha. Claro, válida pra minha vida, minha carreira, minha empresa.

A carreira que escolhi me impõe certas discrições, como me adaptar aos diferentes ambientes dos clientes que visito. Ser meio camaleoa, sem pigmentação sapatão me facilita essa habilidade.

 

Por Ele

Depois de um punhado de chefias no começo da carreira, adolescente ainda na ESPM, descobri que o emprego que me trouxe mais felicidade foi o último: pelo salário, por poder atender as demandas das minhas especialidades de design, por lidar com autonomia com os parceiros de tecnologia, atender clientes como “gente grande” e ter boa liberdade para participar da produção do começo, meio e fim sem me resumir a uma baia sufocante, fazedor de desenhos legais.

Antes disso, tive a experiência de frilar um tempo em parceria com um dos designers gráficos mais conhecidos do país. O cara foi gente fina, tinha toda uma vibe de surfista, seguidor de David Carson, e de por crédito no que eu fazia, como um mentor.

Tudo começou com um estágio não remunerado no estúdio de vídeo da ESPM. Seis meses depois tive um primeiro contato com uma agência de comunicação de ex-alunos da faculdade, indicado pelo meu professor de planejamento. Seis meses depois estava dentro da empresa do Amilcare Dallevo Junior e do Marcelo de Carvalho que na época estavam tornado-se donos da Rede TV!. Oito meses depois, no começo da Internet, fui convidado por um professor de criação para fazer parte da equipe de sua empresa que estava começando a se aventurar no universo da web que, na época, era uma fronteira ainda muito desconhecida.

Foi lá que lidei com egos absurdos que colegas de trabalho, da competição idiota de uma empresa com um punhado de funcionários, do xavecar o chefe e de realidades mediocres de algumas personalidades formadas na atmosfera das grandes agências de propaganda: pura ode ao ego. Odiei, traumatizei, perdi uns quilos e fiquei mais seis meses.

Lá conheci o Cássio Leitão, o desginer fodão que foi mentor e me ajudou a reestabelecer a auto-estima, que narro no começo desse texto. Há males que vem para bem.

Frilei feliz atendendo nomes grandes em parceira com o Cássio. Pagavam bem e assim pude montar minha infra completa com um Mac G3 que na época custou 12 mil reais e foi a vista.

Para retornar a uma empresa como funcionário a coisa que mais precisava era de autonomia. Boa ou excelente reputação na faculdade fez de novo o meu professor de planejamento, então diretor de graduação de comunicação me indicar para uma nova empresa, aquele que me deu total autonomia, até negociar que não fosse registrado porque achava um absurdo o tanto que entregávamos para o governo. Queria tudo no meu bolso.

Nasci geração X, mas hoje vejo que tenho uma alma Y quando o assunto é trabalho.

Tão Y que foi a autonomia e a sensação de estar no mesmo nível que todos nessa última empresa que me segurou um pouco mais de um ano. Não estava nem aí para o futuro e queria viver reconhecimentos no hoje.

Pulei de lá para cá sulgando tudo ou pelo menos o de melhor que as empresas me ofereciam. Fazia meu trabalhinho de design, mas me chamava a atenção a maneira que cada chefe lidava com suas empresas, funcionários e equipe. Gostava te entender processos, de participar de reuniões e atender clientes.

Pulei de cá pra lá e estou hoje na mesma empresa há 12 anos. A minha. Com 23 anos e com a mesma energia, fé ou ingenuidade comecei meu próprio negócio achando que fosse conquistar o mundo, enriquecer em meses e me superar todos os dias. Com os mesmos 23 também tirei para fora a minha sexualidade e foi num turbilhão: em meses, amigos, sócio, funcionários saberiam da minha sexualidade assim: “então, sou gay. Vamos continuar nossos afazeres?”.

Fui gay, doesse a quem doesse. Sou gay e das expectativas de uma empresa própria com meus virgens 23 anos, não conquistei o mundo, não enriqueci em meses mas aprendi definitivamente a me superar todos os dias. Ter empresa própria é lidar com necessidades previstas e imprevistas e não ter chefe ou mentor para assegurar e dizer como fazer. Era eu, meu sócio e Deus (rs).

A fé foi tamanha que estou aqui. O professor de planejamento, que virou diretor ban ban ban da ESPM virou também cliente. O primeiro chefe da agência de comunicação virou parceiro com a maior agência de São José dos Campos. O sócio original não está mais presente, mas os dois funcionários que mais resistiram as batalhas estão no contrato social. Em 12 anos descobri que mais importante que ser uma empresa numerosa é que na razão de números que saem para pagar as contas e números que entram de novos projetos o saldo precisa ser o mais gordo possível. Grosseiramente, quando o assunto é finanças, é assim que funciona.

Quando o assunto são negócios, o lastro deve ser de pessoas, parceiros e uma consciência absoluta de que o que vendemos é segurança e nada mais.

Segurança que venho adquirindo por ser gay, dono de micro empresa há 12 anos, gestor de equipe, líder de pequeno negócio que vende grandes ideias todos os dias quando entro na “casa” dos clientes. Acredito tanto no que faço que convenço, ou pelo menos acredito!

No meu caso, ser gay e ser homem está tudo misturado. Mas confesso que já é assim há tanto tempo que nem lembro que ser gay em relações de trabalho pode ser questão.

 

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