Gays e lésbicas também envelhecem

Por Ele

Que todo mundo já sabe é que velhice, a chegada da maturidade no geral, é algo que as pessoas costumam evitar. Cirurgias plásticas, técnicas mirabolantes, exercícios físicos, dietas fantásticas e, principalmente, não pensar a respeito são as soluções mais imediatas da sociedade moderna!

Mas e no universo gay ou lésbico? Como será que funciona?

Não dá para generalizar, mas acredito que muitos gays e lésbicas (ou principalmente os gays) temem a velhice muito mais. Isso se dá por um grupo de motivos que correspondem ao modelo de vida que muitos homossexuais adotam. O apelo estético, a imagem jovial e sempre animada, o apelo sexual e o desejo de frequentar determinadas festas e baladas acabam sendo características opostas à chegada da maturidade.

Como perder toda a intensidade que nos abastece praticamente todos os dias sendo velhos? Nos resta, possivelmente, correr atrás para que no mínimo tenhamos boas condições financeiras para dar alguma possibilidade de sustentar esse espírito. Ninguém será belo para sempre. No máximo esticado.

Porque de fato esse perfil gay tão comum nos guetos GLS nos desumanizam. No momento que a velhice é um processo natural e humano, querer estender uma fase da vida, da juventude pós-dolescente, é uma característica bastante comum ao homem gay e acaba por subjulgar processos naturais que dão o tom humano a própria vida. Em outras palavras, gay tende a querer ser meio imortal, belo e sexualmente ativo para sempre!

O fato é que a gente pode até se enganar, e se existem duas coisas que não temos como controlar é o tempo e a própria morte. Não penso e nem quero ser um representante da comunidade gay que não aceite o fluxo natural das coisas. Muito menos ser um gay “periguete” que é o velho no mais bom estilo moderninho Mick Jagger, que se acha jovem mas tem cara de Iggy Pop.

Penso e até desejo respeitar as fases naturais da vida. Hoje tenho 35 anos, me sinto prioritariamente um homem adulto e já começo a achar feio colegas da mesma idade numa vibração teenager. Começa a me cheirar falta de maturidade, desrepeito a si mesmo e uma falta de noção comportamental. Me bate uma preguiça, posso até estar sendo crítico demais, mas creio que o blog aqui tenha essa intenção: despertar um senso crítico para pensar em coisas que não costumamos refletir muito.

Sinto prazer das novas experiências. Chegar nos 35 e viver como alguém de 24 é não querer sair do lugar basicamente. Podemos preservar uma coisa “jovenzinha”, mas dizer que ganhamos novas experiências na frequência adolescente é bobagem. As experiências no máximo vão se repetir entre caras, bocas e corpos diferentes.

Nunca tive tanto prazer no trabalho, na condição de dono de empresa, em profissionalizar minha equipe e trazê-los para a sociedade, em atender clientes dos mais diferentes perfis e segmentos, de cultivar um namoro que vai atingir a marca de dois anos e meio, de curtir família, primos e amigos e até, quiçá, esquecer que sou gay. Cuidar da casa, planejar viagens com o namorado e construir uma vida para benefícios mais consistentes como casa própria, poder trocar de carro, comprar bens sem sofrer em contraposição à excitação de flertes e paqueras, baladas e bebidas me soam mais amadurecidos, ou “coisa de velho”. Que seja porque “ser velho” não me incomoda.

Nunca a palavra “foco” esteve tão presente em minha vida, e veio junto com a realidade de que ter 35 anos é diferente!

Ultimamente tenho sido mais homem (geral) do que gay (particular).

Por Ela

Envelhecer é um saco, é o que tenho a dizer. Começam a despontar sorrateiros os problemas fisiológicos, diminui gradativamente a capacidade de realizar as mesmas tarefas, as marcas do tempo se instalam como posseiras no rosto e no corpo. A questao física do envelhecer não é pra principiantes!

Se essa questão é mais intensa ou diferente para os gays ou as lésbicas, sinceramente acho que não. Vivemos uma época de grande foco no indivíduo, uma personificação e individualização de tudo, que nos afeta a todos sem discriminação de sexo, raça, opção sexual, etc. Deixamos de ver a família como a razão de uma existência, para ver o indivíduo em si mesmo como a razão de sua própria existência. Nesse contexto, estar bem, bonita e feliz tem uma enorme influência na sociedade de maneira geral.

Vamos pensar que já há mais de 5 anos no Brasil se realizam mais cirurgias plásticas estéticas do que nos Estados Unidos proporcionalmente. O que quer dizer isso num pais onde a diferença social é tão gigante? E vejam que nessas estatísticas não se encontram apenas as madames da Oscar Freire. Estão também a sua manicure e a faxineira da vizinha, além dos maridos delas. As academias estão lotadas de senhoras e senhores, há tanto divórcio quanto celebração de boda. Nos trens e metrôs as pessoas não se olham, porque estão ocupadas demais com suas distrações virtuais em seus celulares.

A bola da vez nessa era é o indivíduo, e isso vai determinar como nos envelheceremos, como serão nossas relações no futuro. O fato de sermos gays ou lésbicas nesse contexto no máximo talvez de um tom mais dramático a questão estética no caso dos meninos, ou dos vínculos pífios de amizade no caso das meninas.

Talvez nessa explicação perca algumas amigas, rs. Eu vejo no geral as amizades entre as lésbicas um pouco etéreas. É como se elas estivessem num equilíbrio dinâmico, apoiadas em pontos móveis. Simplificando muito essa história, vejo as meninas se jogarem de cabeça e cegamente em intensos relacionamentos, sempre em busca do eterno amor verdadeiro. Sem entrar no mérito de se viver intensamente os amores, é como se as amigas pudessem se-lo somente quando o relacionamento permite. Essa dinâmica nao é nada fácil de administrar, e com freqüência perde a amizade.

Isso a meu ver é ressaltado demais pela individualidade, pela ampla possibilidade de outras conexões sociais, etc, e cria uma verdadeira caixa de pandora de relações. Novelo difícil de desenrolar a longo prazo. No limite, terminaríamos sozinhas e ressentidas.

Felizmente em contraposição a todas as chatices de enrugar, a maturidade é, sem dúvida, aquela parte que nos motiva a seguir em frente. E daqui a 10 anos, tomara que ela mesma me surpreenda com lésbicas maduras mantendo relações saudáveis de amor e amizade concomitantemente.

Em resumo, arranjar um jeito de conviver bem com tudo isso é a tarefa mais nobre que nos resta. Embora das mais desafiadoras. Eu aos 36 me sinto entrando numa existência diferente, onde as coisas tem outro peso que antes e a vida uma áura diferente.

No meu caso não inaugurei essa nova fase aos 30. A famosa crise dos 30 aconteceu mais tarde, aos 35. Talvez por estar vivendo um amor plenamente feliz nessa época, os 30 me passaram imperceptíveis. Eu ainda sentia plenamente o vigor dos vinte anos e aquela sensação mágica que só na juventude se desfruta de ter a vida toda pela frente e o mundo à disposição. Apenas para constar, vivia uma vida de simbiose, quase nenhum amigo intimo, como manda o bom manual da lésbica embevecida de um amor sufocante.

Quando aos 34 meu mundo caiu, aos poucos me foi aflorando a ser madura, e acho que a primeira coisa de que tomei consciência foi que as escolhas que faço hoje definem meu amanhã. Isso é o obvio, não é? Mas a verdade é que os jovens tem um senso de consequência embaçado pela síndrome do super-homem / mulher maravilha, de que tudo podem. Nós “velhos” continuamos podendo muita coisa, na verdade. Mas a maturidade vai trazendo a certeza de que nem tudo o que podemos nos beneficia. Surge uma pessoa que começa a pensar antes de agir e de priorizar conscientemente as escolhas, agora com um panorama menos imediatista e com foco em objetivos claros e de longo prazo.

Em seguida se transformou a percepção do tempo. Lembro tanto nos meus 20 anos da minha sensação de ter a vida interinha a minha disposição para fazer e refazer escolhas a meu bel prazer, mudar, arriscar, recomeçar sempre com a mesma facilidade e leveza. Mas minhas escolhas deixaram marcas, legados. E novas escolhas a partir de agora, podem significar interromper uma trilha, abrir mão ou arriscar conquistas. A leveza se foi, no seu lugar a experiência e a ponderação de quem tem conquistas a preservar, e não mais uma página em branco para escrever.

Resumo isso tudo muito pragmaticamente: vejo com cada vez mais clareza que eu não tenho muito tempo a perder. Ainda tenho uma porção de coisas para realizar nessa vida, e os prazeres baratos não me iludem e inebriam como antes. Também as relações simbióticas que tanto me atraíram no passado, não exercem mais tanta sedução em mim e agora me parecem até bem perigosas.

Mas quanto ao que esperar da minha velhice enquanto mulher, enquanto lésbica é ainda uma incógnita. Imagino o mundo mais receptivo aos gays, como de fato tem se mostrado nos últimos anos. Imagino menos e mais amigos. Isso é assim: menos pessoas no meu circulo, mas mais intimas. Nem gays, nem héteros, sem etiqueta, mas diversamente ricas. Sempre gostei da mistura, e ela não pode faltar na minha fantasia de almoço de domingo com os amigos. Tenho esses almoços de domingo como meu desafio pessoal. Reunir amigos que são amor, família, que tem caras, gostos, cores e vidas próprios. Que coexistem e acrescentam uns nas vidas dos outros.

E eu… bom, eu vou ser aquela “veinha” irreverente, espero não muito endurecida pelas certezas. Simplificações e brincadeiras a parte, de fato há muito o resolver quanto a envelhecer. Há muito também o que aceitar, preparar, construir. Eu não me vejo uma velha lésbica, porque não me vejo só lésbica agora. Minha vida não esta nada resolvida, ainda há muito o que descobrir, testar, apanhar, crescer.

Aliás acho que nem quero prever muita coisa pra deixar a vida me surpreender. Quero ser capaz de me reinventar. Essa é a velha que quero ser.

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