O simpatizante da vida de uma lésbica ou de um gay

Por Ela

Todo mundo que vive no armário em alguma área da vida já se arrepiou de medo ao cruzar por acaso com algum colega do trabalho numa festa ou ambiente gay. “Bom, se ele/ela esta nesse lugar é porque não tem problema com gays, portanto não terá problemas com o fato d’eu ser sapatão.” É sempre isso que te dizem, e você até faz uma força terrível pra acreditar, mas a verdade é que o medo de ser revelada antes de estar preparada pra fazer isso é amedrontador.

E aquela pulguinha atrás da orelha não a deixa em paz o resto do tempo. Eu bem que tento parecer natural, quem sabe essa santa pessoa vai achar que eu, assim como ela, estou ali por estar acompanhando um amigo gay. Ai você lembra que esta usando aquela sua regata branca com o raiban pendurado, combinando perfeitamente com seu corte de cabelo, te denunciando sem deixar duvida que se trata de uma genuína sapatão. Pra completar, as pessoas te tratam com intimidade e está bem claro que você não está ali só de passagem. Aí então os olhares que aquela pessoa te lançam parecem caçoar do seu segredo. Ela vem toda sorridente na sua direção e você só quer um buraco pra desaparecer. Talvez ela tenha dito apenas “Oi, tudo bem?”, mas você já não ouve mais nada tamanha a sua tensão. A pessoa desaparece, você fica com uma bebida a mais e com a certeza de que a história não acaba por aí.

Mas afinal de contas esse medo tem algum fundamento? Viver escondida sempre gera uma tensãozinha, e é bem possível mesmo que o medo constante de sermos desmascaradas acabe nos exagerando muita coisa. Mas a questão é que tem sempre uma razão pra esse medo: preservar nossas vidas profissionais ou familiares, fugir da violência, evitar confronto, ou mesmo não encarar nossos problemas mais íntimos de aceitação.

Qualquer que seja a razão, se estamos no armário, é porque ainda não estamos prontas pra sair e ninguém tem o direito de precipitar isso. E o simpatizante que cruza com você na cena gay, será que ele/ela vai ter a sensibilidade e o compromisso com essas suas questões pessoais? Se essa pessoa não é um amigo seu, o que a impediria de comentar sobre a descoberta do fim de semana? Na verdade nada a impede, e talvez até algo a motive a fazer isso. Esse cara pode ser aquela maldita pessoa descoladinha que não entende porque você precisa se esconder, e acha tudo isso uma bobagem. Ou pior ainda, achar que a fofoca é inofensiva. Muitas vezes não se contém de euforia pra contar pra alguém que o sujeito sério do jurídico é na verdade uma bichona.

É claro há exceções a essa regra, mas a verdade é que heteros não tem compromisso com as limitações de uma vida vivida em parte num armário. Nem heteros, nem desconhecidos, nem desafetos, ninguém além da única pessoa que te colocou nessa situação: você mesmo. E o importante nessa historia toda é se resolver pra poder administrar melhor situações como estas. Quem sabe você não se surpreende descobrindo “colegas” disfarçados de hétero ou, melhor ainda, descobre que estava fazendo uma tempestade num copo d’água. Saiba que não tem sensação de maior leveza do que tirar esse peso das costas.

Por Ele

Lembro com bastante saudade dos primeiros anos do “came out” com 23 ou 24 anos e ainda existia o Allegro Bar, local que costumava bater cartão com meu primeiro namorado e levava meus amigos heterossexuais, meninos e meninas, para entender ou compartilhar um pouco mais da minha realidade que fazia alguns meses que tinha acabado de relevar.

Foi no final de uma balada “HT” no Enfarta Madalena, quando eu e o grupo de amigos do colegial estávamos literalmente na sarjeta, esperando o manobrista trazer nossos carros, que encosto no ombro de uma amiga, semi-bêbado e digo: “então, preciso te contar uma coisa”.

E a minha amiga meio mal humorada com a demora para chegar os carros responde monossilábica: “que foi?”

Eu: “então… sou gay”.

Ela: “Ah, tá”.

Desse diálogo objetivo e esclarecedor (rs) fomos comer algo em algum Fran’s Café e todos já estavam cientes da nova verdade que virou assunto por horas. Com muita coragem, ou entusiasmo ou até mesmo uma falta de noção acreditava que todos meus amigos passariam a ser simpatizantes inatos. E parece que deu certo.

De alguma forma ou muitas formas, os simpatizantes, principalmente quando em formato de amigos de adolescência, são bastante importantes para estabelecermos um contato mais seguro com a nossa realidade homossexual. Não fosse esse “despertar” com bastante simpatia e naturalidade, talvez a evolução de minha vida teria sido diferente.

A minha amiga da sarjeta não foi a primeira a saber. Antes dela, teve a “primeira pessoa de todas” que foi outra amiga, também do grupo do colegial.

Acho até natural o gay homem assumir primeiramente para amigas. Na sociedade brasileira e machista, que a priori o homem repudia coisas do “universo cor-de-rosa” pensava que meus amigos homens pudessem ter algum repúdio. Assim, preparei uma “cama mais confortável” com as amigas.

Por sorte, os amigos do grupo também lidaram com bastante tranquilidade. Obviamente vieram piadinhas. Aliás, em todos os encontros acontecia pelo menos uma piada entre os homens! Mas nada que não pudesse “descontar” em nossas noites no Allegro ou até mesmo na Ultra Lounge original na Rua da Consolação (que hoje é um mercado), quando alguma bichinha encarava algum dos amigos (rs).

A única frustração, quando comecei a me deparar com esse universo de simpatizantes próximos foi que o amigo da turma “mais gay”, com trejeitos e até gritinhos vez em quando, revelava-se como um verdadeiro heterossexual! Achava que poderia ter um companheiro de baladas! (rs)

Foi aí, nessa toada, que fui descobrindo também, além da importância dos simpatizantes, que homem afeminado nem sempre quer dizer que é gay. Não só a mim revelava-se essa verdade, mas a todos os demais amigos que não desconfiavam de mim, mas desconfiavam totalmente do amigo. Para que eles percebessem também que alguns másculos são gays. (rs)

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