A sapatão optou pela carreira. O gay, pela autonomia

Por Ela

Ela se acabou de trabalhar em horas extras muito mal pagas. Desenvolveu habilidades. Enfrentou desafios. Engoliu sapos. Aceitou feedbacks com os quais não concordava. Mais sapos. Trabalhou em condições difíceis. A cada novo projeto um novo cliente, um novo time, um novo chefe. Personalidades e estilos diferentes, uma variedade imensa de peças pra lidar. Ela se “acamaleou”, adaptando-se aqui e ali, e se moldando à Empresa.

Espelho, espelho meu, ninguém é mais acomodada do que eu!

Deixei meu barco correr bem solto, e só agora depois de 13 anos na estrada, penso e me planejo para o futuro. Só posso achar que sou incrivelmente acomodada, porque fiz isso mesmo sendo minha carreira notoriamente exaustiva. Vivo numa constante roda-viva, sob pressão, prazos absurdos, cobranças de todos os lados, inúmeras variáveis novas, desinformação, despreparo, riscos… E mesmo com tudo isso, minha carreira teve que tomar conta dela mesma.

Nunca, nunca, nunca na zona de conforto. Aliás, aprendi que não se cresce na zona de conforto. É preciso ter desafios, desossá-los, comê-los com farinha, andar sobre as águas, dar 3 voltinhas flutuando no ar. Só aí, e se ninguém der 4 voltinhas, você tem os merecidos louros da glória sem “poréns” ou descontos. Meus chefes mais doces costumam chamar isso de “a cenoura da frente”. Aquele prêmio ilusório que faz com que os coelhinhos corram até a exaustão.

Talvez por não acreditar tanto nas pequenas “cenouras da frente”, tive a paciência e o estômago para seguir em frente. Eu nunca fui “top performer” de absolutamente nada. Acho imbecil o conceito americano de no 1. Na escola, preguiçosa, só estudava pra 2ª prova. Tenho paúra de planejar meu dia. Enfim, eu tinha tudo pra ter tido uma longa carreira de 2 meses e acabar apertando grampeador em alguma copiadora.

Mas, contraditoriamente, não comprar as “empresísses” me segurou na empresa numa matemática muito simplória: menos expectativas, menos desilusões. Como os louros não me fascinavam tanto, os tombos não me agrediam tanto também. Ia passando pelos perrengues e me fortalecendo com o que aprendia enquanto colegas mais competentes se exauriam pela angústia. Paciência, seu nome é carreira.

Como só sei produzir sob pressão, precisava mesmo desse ambiente pra me desenvolver. Sempre perguntei para o espelho de manhã do balanço entre os sapos e os louros. Os sapos sempre se explicaram como um mal necessário. Os louros, traduzia e traduzo até hoje em desenvolvimento profissional. Enquanto estiver me desenvolvendo, está valendo a pena.

E onde está a minha sexualidade nisso tudo? Pois é, não está. Ela não tem nada a ver com a minha carreira, nadinha mesmo. E fica bem disfarçada nas camisas bonitas e sapatos de bico fino. Foi propositadamente que eu alienei o “ser lésbica” na esfera da carreira. Sentia que prejudicaria meu desenvolvimento profissional, e não estava disposta a levantar essa bandeira. De novo, acho que por pura preguiça, rs…

É claro que há gays, lésbicas, sapatões, viadinhos perambulando pelos corredores de qualquer companhia grande. E nós nos reconhecemos mais cedo ou mais tarde!

A questão aqui é como a carreira e a homossexualidade se interceptam. Eu optei por não conciliar e manter as duas completamente apartadas uma da outra. E continuo acreditando na minha escolha. Claro, válida pra minha vida, minha carreira, minha empresa.

A carreira que escolhi me impõe certas discrições, como me adaptar aos diferentes ambientes dos clientes que visito. Ser meio camaleoa, sem pigmentação sapatão me facilita essa habilidade.

 

Por Ele

Depois de um punhado de chefias no começo da carreira, adolescente ainda na ESPM, descobri que o emprego que me trouxe mais felicidade foi o último: pelo salário, por poder atender as demandas das minhas especialidades de design, por lidar com autonomia com os parceiros de tecnologia, atender clientes como “gente grande” e ter boa liberdade para participar da produção do começo, meio e fim sem me resumir a uma baia sufocante, fazedor de desenhos legais.

Antes disso, tive a experiência de frilar um tempo em parceria com um dos designers gráficos mais conhecidos do país. O cara foi gente fina, tinha toda uma vibe de surfista, seguidor de David Carson, e de por crédito no que eu fazia, como um mentor.

Tudo começou com um estágio não remunerado no estúdio de vídeo da ESPM. Seis meses depois tive um primeiro contato com uma agência de comunicação de ex-alunos da faculdade, indicado pelo meu professor de planejamento. Seis meses depois estava dentro da empresa do Amilcare Dallevo Junior e do Marcelo de Carvalho que na época estavam tornado-se donos da Rede TV!. Oito meses depois, no começo da Internet, fui convidado por um professor de criação para fazer parte da equipe de sua empresa que estava começando a se aventurar no universo da web que, na época, era uma fronteira ainda muito desconhecida.

Foi lá que lidei com egos absurdos que colegas de trabalho, da competição idiota de uma empresa com um punhado de funcionários, do xavecar o chefe e de realidades mediocres de algumas personalidades formadas na atmosfera das grandes agências de propaganda: pura ode ao ego. Odiei, traumatizei, perdi uns quilos e fiquei mais seis meses.

Lá conheci o Cássio Leitão, o desginer fodão que foi mentor e me ajudou a reestabelecer a auto-estima, que narro no começo desse texto. Há males que vem para bem.

Frilei feliz atendendo nomes grandes em parceira com o Cássio. Pagavam bem e assim pude montar minha infra completa com um Mac G3 que na época custou 12 mil reais e foi a vista.

Para retornar a uma empresa como funcionário a coisa que mais precisava era de autonomia. Boa ou excelente reputação na faculdade fez de novo o meu professor de planejamento, então diretor de graduação de comunicação me indicar para uma nova empresa, aquele que me deu total autonomia, até negociar que não fosse registrado porque achava um absurdo o tanto que entregávamos para o governo. Queria tudo no meu bolso.

Nasci geração X, mas hoje vejo que tenho uma alma Y quando o assunto é trabalho.

Tão Y que foi a autonomia e a sensação de estar no mesmo nível que todos nessa última empresa que me segurou um pouco mais de um ano. Não estava nem aí para o futuro e queria viver reconhecimentos no hoje.

Pulei de lá para cá sulgando tudo ou pelo menos o de melhor que as empresas me ofereciam. Fazia meu trabalhinho de design, mas me chamava a atenção a maneira que cada chefe lidava com suas empresas, funcionários e equipe. Gostava te entender processos, de participar de reuniões e atender clientes.

Pulei de cá pra lá e estou hoje na mesma empresa há 12 anos. A minha. Com 23 anos e com a mesma energia, fé ou ingenuidade comecei meu próprio negócio achando que fosse conquistar o mundo, enriquecer em meses e me superar todos os dias. Com os mesmos 23 também tirei para fora a minha sexualidade e foi num turbilhão: em meses, amigos, sócio, funcionários saberiam da minha sexualidade assim: “então, sou gay. Vamos continuar nossos afazeres?”.

Fui gay, doesse a quem doesse. Sou gay e das expectativas de uma empresa própria com meus virgens 23 anos, não conquistei o mundo, não enriqueci em meses mas aprendi definitivamente a me superar todos os dias. Ter empresa própria é lidar com necessidades previstas e imprevistas e não ter chefe ou mentor para assegurar e dizer como fazer. Era eu, meu sócio e Deus (rs).

A fé foi tamanha que estou aqui. O professor de planejamento, que virou diretor ban ban ban da ESPM virou também cliente. O primeiro chefe da agência de comunicação virou parceiro com a maior agência de São José dos Campos. O sócio original não está mais presente, mas os dois funcionários que mais resistiram as batalhas estão no contrato social. Em 12 anos descobri que mais importante que ser uma empresa numerosa é que na razão de números que saem para pagar as contas e números que entram de novos projetos o saldo precisa ser o mais gordo possível. Grosseiramente, quando o assunto é finanças, é assim que funciona.

Quando o assunto são negócios, o lastro deve ser de pessoas, parceiros e uma consciência absoluta de que o que vendemos é segurança e nada mais.

Segurança que venho adquirindo por ser gay, dono de micro empresa há 12 anos, gestor de equipe, líder de pequeno negócio que vende grandes ideias todos os dias quando entro na “casa” dos clientes. Acredito tanto no que faço que convenço, ou pelo menos acredito!

No meu caso, ser gay e ser homem está tudo misturado. Mas confesso que já é assim há tanto tempo que nem lembro que ser gay em relações de trabalho pode ser questão.

 

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Família ê de gay, família á de lésbica…

Por Ela:

Sexta-feira dia 15 se iniciou um novo ciclo na vida vida.

Passava a manhã toda preguiçosa enrolada na minha namorada quando o telefone tocou e a notícia mais bizarra saiu do outro lado da linha: alguém que sequer existia, morrera. Como se não bastasse esse tranco, exatos 11 meses separaram o fato da notícia.

Bizarríssimo, ainda me pergunto se isso tudo poderia ser mais estranho.

Precisava explodir, pensar, pensar, pensar… Fiz minha pereguinação no trânsito dividindo a história com amigas queridas que conhecem tão bem esse meu passado, lavando a bronca na chuva, chorando cântaros, procurando briga entre ladrões, os mendigos, tentando encontrar razão e saída. Uma semana depois, já com certo controle das emoções fui atrás da minha infância querida, procurar razões pra erguer a cabeça e seguir.

Como nas vésperas de Natal, quando podia pensar com clareza e refletir minha vida na época do deslumbramento, minhas energias se renovaram incrivelmente. Era como estar no porto seguro de novo. Não pude falar tudo. Também não pude chorar. Mas me sentir à volta de pessoas que me querem bem “no matter what”, era tudo o que eu precisava. Passar por lugares que me remetiam às lembranças das minhas férias de infância, notícias da professora do jardim, o olhar carinhoso, o abraço afetuoso.

A família tem esse poder na gente. Te destrói, e te recompõe. Pessoas diferentes, que fique bem claro.

A tal notícia encerrou um ciclo de longa espera na minha vida. Por mais brutal que tenha sido pra mim, foi fundamental pra colocar um grande ponto final numa débil esperança de resignação e reconciliação. Ao mesmo tempo que a forma com que veio e o tempo que demorou pra chegar, lacraram de vez qualquer possibilidade de transferência desse sentimento para outras pessoas.

Eu vou podendo respirar mais leve e me recarregando aos poucos. Até posso refletir com mais clareza sobre as consequências de todos os traumas que essa pessoa que se foi me infringiu, e trazendo isso pra Ela de hoje, vou querendo descobrir as raízes do comportamento das minhas relações.

Se tem sempre uma coisa boa em tudo, abrir uma porta pra outras possibilidades é fenomenal, mesmo que seja duro. Estou nessa página esses dias. Tentando interferir mais no meu destino tomando conhecimento de atitudes que eu tomo intuitivamente e em referêncas malucas que minha mente infantil incrustou lá no fundo da minha consciência.

Desde esse episódio eu tenho tentado escrever, mas minha cabeça vitrola quebrada não saia dessa faixa. De repente escrever é muito libertador mesmo.

Nessa história não tem nada de sapatão, gay, lésbicas. O que me separou desse lado da minha família não foi minha orientação sexual. Mas achei que cabia muito bem refletir tudo isso aqui, porque quando mais navego por este universo noto histórias mal resolvidas, obscuras, difíceis com os pais e a família.

O clichê mais clichê de todos os clichês, a família é a base de tudo, fica martelando na minha cabeça. Numa nota só, como as torturas. O poder que essas pessoas tem de nos influenciarem, moldarem nosso caráter e nossas atitudes às vezes é muito maior que gostamos de admitir.

Para o bem e para o mal, famílias são feitas de todas as cores do arco-íris mesmo sem vermos isso o tempo todo. Me reconcilio com a minha, já não sem tempo e com muito esforço pra genuinamente aceitar a herança que ela me impõe.

Essa família que trago pra perto de novo me recebe de braços abertos a despeito da minha gayzisse. Engraçado, porque era dela que eu tinha mais medo. Por milhares de motivos, os julguei e fugi deles na descoberta da minha sexualidade. E veja só que ironia. São justamente os que se mostram mais acolhedores num dos momentos mais difíceis da minha vida.

É isso, pessoas. Minha vida caixinha de pandora fazendo cair meus paradigmas uma vez mais.

Por Ele:

Depois de dois anos e meio de namoro, ou quase isso, tenho feito um balanço novo. Quando tive a primeira família de um namorado existia uma vontade muito grande de ser aceito, de fazer parte, de integrar e de ser querido. Existia uma vontade de ter cunhados, cunhadas, sogro, sogra e todas as variantes que vinham no pacote. Outrora, precisava me provar que um homem seria capaz de criar um relacionamento por outro homem. Depois, que um casal gay poderia ser incluso naturalmente numa família, casado.

A minha própria família é pequena. Tios, primos estão cada um num canto do Brasil e os que estão por perto se vêem pouco. Família, para mim, é mãe, pai e irmão, nas qualidades e defeitos que esse modelo traz e que por muitas vezes critiquei por ser tão resumido a nós, longe de um convívio mais amplo que é bastante comum em outras famílias e que me soavam tão encantadoras como referência.

Família pequena é a minha, mãe bastante presente, pai num reencontro comigo e vice-versa e irmão virando gente grande a distância. O balanço novo tem me apresentado virtudes nesse modelo. Não existem fofocas, não existem rivalidades entre primos e tão pouco o espírito de hiprocisia, das panelas que falam mal uma das outras e quando estão juntas são sorridentes.

Família pequena para sobreviver junta precisa de muita lealdade e transparência. Seja para as convergências que são rapidamente absorvidas, seja para as divergências que se escancaram em discussões, debates, exercício de senso crítico mas que no final, doa a quem doer, precisa chegar num acordo. Pelo menos, esse modelo aberto de “lavagem de roupa suja” foi algo que batalhei para ter com meus pais superando os medos, facilmente conquistado com a minha mãe pela sintonia despida e autêntica para comigo, ou trabalhoso como foi com meu pai cuja personalidade e falta de resoluções pessoais o fazem ou faziam bastante inseguro quando o assunto tange ou tangia a humanidade de si e perante sua esposa e filhos.

Em outras palavras, minha mãe é essencialmente humana e precisou se desumanizar pontualmente para chegar numa maturidade resolvida e conquistada. Meu pai seguiu pelos trilhos da desumanidade se acovardando diante muitos desejos e sinais que a vida lhe apresentava, assumiu a vida toda um personagem de quem trazia o sustento e definia as regras do jogo (nem ele mesmo compreendendo a fundo porque seguia essas regras herdadas) para hoje trabalhar um resgate de sua humanidade, modestamente tendo-me como uma espécie de guia de segurança para poder afrouxar o nó e perceber que dá para ser feliz, homem e em paz consigo mesmo sem precisar assumir todos os dias uma linha dura, do eterno pai que tinha que impor valores, muitos deles sem saber exatamente o por quê.

Todo esse novo padrão foi um processo batalhado. Os meios não foram os mais prazerosos, tiveram decepções, frustrações, jogos psicológicos e emocionais, ameaças de expulsões e terapia para sairmos dos vícios de relacionamento, aprendermos, chegarmos amadurecidos e mais conscientes do que representamos hoje uns aos outros, sem máscaras ou perfis sociais do tipo “papel de pai”, “papel de mãe”, “papel de filho” ou “papel de família”. Conquistamos nossas independências sem perder a ternura.

Meu irmão nessa história toda preferiu se ausentar e quando nos reencontramos tende a fazer o mesmo jogo que joga há 30 e poucos anos com eles. Não é o tipo que aceita conselhos quando não pede por conselhos. Tem lá seus excessos e loucuras herdados. Mas quem não tem? Espero, com muitas forças, que ele não repita os modelos de papai, mas também não posso fazer muita coisa além de torcer.

Nessa história, de rever valores perante meus pais, minha posição como integrante e suas posições como pais, neguei o modelo, mexi aqui e ali, provoquei e gerei conflitos. Fui a ovelha negra da Rita Lee para o horror de muitos pais! =P

Fui buscar nas famílias de meus namorados outras referências, das famílias grandes e próximas, das famílias médias e dos “sem família” para olhar de novo para a minha e perceber hoje que é nela que me encontro ou reencontro quando preciso. Na minha família que me encontro como filho dos meus pais e eles me aceitam como o filho adulto, com meus próprios valores sem precisar me poupar de nada, sem ressentimentos ou feridas que não cicatrizaram.

Os meios não foram fáceis, mas foram fundamentais para chegarmos onde chegamos sem ter receio de cutucar em feridas abertas. Aprendi na minha família que preservar feridas abertas dá mais chances de encolhermos a alma.

 

 

A cena gay, a vida lésbica de São Paulo

Por Ela:

Not too long ago, not too far away…

Jovem princesa Ela chega a São Paulo levitando em sonhos que finalmente começam a se concretizar e muitas fantasias sobre o futuro. Ela está pronta para desabrochar uma vida rica culturalmente e efervescente, beijar muitas sapas e, dentre as mais glamurosas, encontrar sua cara metade.

Na euforia dos primeiros anos, a vida segue num ritmo alucinante: festas, viagens, trabalho, amores, ressacas, experiências, perdas e descobertas… Ela percebe rapidamente o óbvio: A cidade não pára nunca, assim como sua vida cada vez mais intensa e interessante. Ainda envolta numa atmosfera de deslumbramento, Ela se deleita com uma vida social incrível, cheia de cultura e as concretas oportunidades no trabalho.

É somente no natal que Ela está calma, num mesmo lugar por mais que algumas horas, e não está atrasada para nada. Tudo está calmo e o tempo parece passar mais devagar. E assim, ao final de cada ano, Ela vai entendendo e refletindo sobre o que lhe resta de cada ano vivido.

Aos poucos, o entusiasmo vai dando lugar a reflexões. E assim vou começando a tomar consciência da repetição vazia de certos hábitos. São Paulo é realmente uma cidade incrível pelas inúmeras formas possíveis que a vida pode tomar aqui. Uma das qualidades que mais me cativa. Mas é também um lugar perigoso para se perder no caminho e despertar sem objetivos.

Hoje vejo também a São Paulo menos glamurosa, hiper segmentada, dispersa e superficial. Talvez seja só o tempo em que vivemos, talvez aqui as coisas tomem proporções maiores e cheguem mais nos extremos. Talvez meu campo de visão seja limitado. Mas enfim o que percebo daqui é que há inúmeras pequenas micro-cidades ou, como gosto de chamar, guetos. Estes, produzindo seres que se igualam no estilo de se vestir, nos trejeitos, no linguajar, e por fim em pensamentos pré-fabricados e carregados de preconceitos.

Às exceções, minhas desculpas! Mas visualizo muitos grupos de gays e lésbicas quando penso nisso. A cidade borbulhanado e esses guetos fechados em si mesmos.

Acredito que muitas pessoas sejam atraídas para este modelo pela necessidade da paquera, de se relacionar com outros gays e lésbicas e de trocar experiências. E, como num círculo vicioso, acabam repetindo esta rotina semana após semana. E naturalmente se privando de outras experiências para viver exclusivamente nesse universo de festas e bares gays.

É bom estar “cazamiga”, falar abertamente, dividir e palpitar de amores e frustrações, paquerar, ser paquerada e, demonstrar afeto sem olhares repressores ou curiosos. Tudo isso, é claro, é muito bom e bem mais fácil em lugares gays. E em São Paulo o que não falta são lugares gays. Mas por isso mesmo muita gente acaba não se dispondo a sair do gueto, falar de outros assuntos e ver outras coisas.

Me parece inevitável que, à medida que o tempo passe, os outros conteúdos sumam e o único tema nos guetos vire a própria vida nos guetos. As desventuras amorosas, as conquistas, as músicas, as pessoas. E logo as intrigas e fofocas.
Independente do assunto que une as pessoas, os grupos muito fechados acabam desenvolvendo certa distancia/crítica/repulsa do diferente.

E me parece a maior das contradições que minorias desenvolvam preconceitos contra outras minorias ao mesmo tempo em que reclamam de sua própria condição de minoria. Confuso, não?

Fico espantada que numa cidade que abriga tantas vidas, que proporciona às pessoas tantas experiências, acabe também favorecendo a proliferação dos guetos. Ao mesmo tempo em que dá tanto espaço para o diferente, São Paulo o isola numa caixa de iguais. Diferentes do resto, iguais entre si.

Quero ter amigos diferentes uns dos outros, que sejam até incompatíveis no convívio, que questionem uns os valores dos outros e os meus. Porque é triste ver a vida sempre do mesmo jeito, sem entender outros pontos de vista, sem desconstruir as convicções de vez em quando. E só a diferença traz essa riqueza.

A vida segue com o olhinho pra fora da caixa…

Por Ele:

Dos meus 23 anos, idade que me assumi até meus 33 os guetos gays em São Paulo eram cenários certos para minha solteirice. Acontece que para a maioria das pessoas, as fases de descobertas, de auto-afirmação, o encontro da auto-estima e uma consciência maior de si mesmo acontecem, no geral, da adolescência até a vida adulta. Vida adulta que pode ser estabelecida a partir dos 28, mas com 60 também.

Apesar de muitos namoros e um casamento nesse caminho de uma década, tinha uma necessidade, diga-se necessidade como um desejo mesmo de ver e ser visto, de cobiçar e ser cobiçado. Tinha uma curiosidade absoluta de frequentar os lugares gls, conhecer ou pelo menos ver pessoas e, talvez por uma simpatia, costumava a ter a simpatia recíproca dos garçons e atendentes dos locais que costumava frequentar. Fato específico mas que ficou marcado. Talvez um fetiche? Talvez.

Numa ordem cronológica, se a minha memória não falhar, consigo pontuar aqui do primeiro lugar que conheci até o “present day”, ou melhor até os meus 33/34 anos quando resolvi desligar a chave do viver a vida gay:

Com 23 anos, o Allegro Bar, a SoGo em início de casa e o Ultralounge original que ficava na Rua da Consolação eram os pontos certos. Lembro até do Marcos, nome do garçom do Allegro que sempre me atendia muito bem. (Olha o fetiche aí de novo!)

Conheci duas ou três vezes a clássica e ancestral Túnel, mas que não me chamava muito a atenção.

Depois veio a Bubu, numa época que o mezanino era 1/5 do que é hoje e tocava anos 80. Baladas “sujas” no centro também, vez ou outra.

De lá pra cá, The Week, D-Edge, Sonique, Bar da Dida, Director’s Gourmet, A Lôca, Clube Glória.

Sauna 269, garotos de programa do Trianon, maconha, cocaína e ácido, sim, vez ou outra.

Tudo junto, tudo misturado, tudo intenso, num exercício de reconhecimento de mim mesmo, lado A e lado B.

E repete o disco! Está riscado? Não tem problema que tem gente nova na piXta!

Parece assim que só vivi do desapego nesses anos e é só impressão mesmo. Desses 10 anos, até meus 33, sete foram em relacionamentos. Dois foram nessa curtição. Intensidade pura de chafurdar na purpurina!

Dos 33 anos para cá peguei o disco riscado e empilhei na estante. Mas ele está lá ou aqui no QGSE para rever as faixas da contracapa de vez em quando sem precisar tocar, para lembrar com saudade. O som que tenho ouvido agora é um pouco mais compassado, fluido, com notas e arranjos mais elaborados. É o que tem me preenchido.

A palavra foco nunca fez tanto sentido. Foco em mim e não no mundo porque desse mundo GLS, que inclusive me ajudou a chegar até aqui e me ajudou a ser o que é, posso guardar bons amigos, e blogs, e discos, e nada mais (rs).

Tenho a impressão que me tornei adulto e feliz. Quando a gente é jovem a gente tem medo de ficar adulto e acabado. Tem medo de ficar calcificado em valores e princípios. Quando fui um jovem gay, ser gay era o início, o fim e o meio. Hoje, ser gay é só uma parte que as vezes até esqueço!

Reconheço de novo família, pais, amigos gays e heterossexuais, cachorro frequentando a casa – minha casa – viagens, responsabilidades, meu namorado querido e um profissional work-a-holic, eu, apaixonado pelo que faz, incluindo o blog QGSE!

Reconheço a mim mesmo sem precisar do reconhecimento dos que estão fora de mim.

Faz tempo, dois anos, que não respiro profundamente os ares gays do quadrilátero-rosa-da-Paulista. A grande maioria dos meus amigos continuam por lá e eu estou aqui. Para eles, a desculpa de não comparecer pode ser o namoro. Mas é mentira.

A verdade é que estou apaixonado por mim. Não no sentido do Narciso que se olha no espelho e se adora, mesmo porque o Narciso precisa mostrar para o mundo que é belo. E Narcisos já somos tantos! Não quero mais competir no momento.

Apaixonado porque me reconheço. O disco ficou velho e quem se revela novo sou eu, de novo.

Claro que posso me pegar ouvindo algumas das faixas antigas, por que não? Mas não precisa ser agora.

 

Dilma presidenta. O que isso quer dizer para nós, gays e lésbicas?

Por Ela

A Dilma foi eleita em 31 de Outubro de 2010 em meio a muito tumulto, uma época de escandalosos casos de corrupção, baixo ao apoio, sem dúvida decisivo, do então Presidente Lula.Dilma assumiu a presidencia num cenário em que comprovadamente as mulheres ainda ganhavam menos que os homens e ocupavam menos os cargos de liderança. Um significativo exemplo desta desigualdade está estampado no Congresso Nacional: em 2010 das 513 cadeiras disponíveis na Câmara Federal, apenas 43 era ocupadas por mulheres. Já no Senado, a representativade feminina tem em 2011 apenas 12 representantes, de um total de 81 senadores.

É inegável que o Brasil deu um passo importante no sentido da redução das diferenças entre homens e mulheres quando elegeu a nossa primeira presidenta. É importante entretanto, que entendendamos as diferenças a que nos submetemos especialmente no mercado de trabalho, para que este fato hoje inédito possa se tornar corriqueiro.

Sabe-se também que a presidenta traz abertamente na agenda o objetivo de melhorar a posição da mulher na sociedade. E notórias ações práticas são tomadas neste sentido, como exemplos a mudança que ela fez no programa Minha Casa Minha Vida para beneficiar as mulheres, a nomeação de 9 mulheres para a liderança de Ministérios e para a presidência da Petrobrás, a maior estatal brasileira.

A eleição de uma mulher na presidência de um país como o Brasil é por si só de uma importância monumental, pois que desperta à consciência de homens e das próprias mulheres que elas podem desempenhar qualquer papel na sociedade.

Este é sem dúvida um fato histórico, mas não só o que Dilma alcançará num período tão curto sobre um cenário arraigado há tantos séculos, como também o como isso vai realmente impactar a sociedade a médio e longo prazo é ainda uma incógnita.

Já quanto à questão gay, a posição da presidenta não é clara e a sua atuação controversa. Um grande exemplo que a nossa presidenta não sabe muito bem como lidar com esta questão é o controverso “Kit Gay” proposto para instruir crianças de 1º grau sobre a homossexualidade, que ajudaria a formar cidadãos conscientes das diferenças e portanto menos preconceituosos. Esta iniciativa gerou obviamente muitas reações dos grupos claramente homofóbicos, mas também muitas críticas quanto à abordagem e insinuações sobre a intenção de incentivar a conduta gay (umpf…).

A presidenta reagiu e alterou a proposta, mas por fim sucumibiu às pressões e a proposta foi vetada. Ao mesmo tempo que fala em seus discursos sobre o tabu da orientação sexual e se diz à favor do casamento gay, a inconsistente presidenta veta o kit gay e o anúncio gay do ministério da Saúde voltada a homossexuais jovens.

Eu me lembrava vagamente de ouvir insinuações sobre a sexualidade da presidenta, e fui à minha enciclopédia favorita para confirmar. E lá estavam dois episódios muito simbólicos:

1. O deputado Jair Bolsonaro num discurso vergonhoso em 24 de Novembro de 2011 diz “Dilma Rousseff, pare de mentir. Se gosta de homossexual, assuma. Se o teu negócio é amor com homossexual, assuma. Mas não deixe que essa covardia entre nas escolas do primeiro grau”.

Bom, assim como outros absurdos nesse país, não consigo entender porque este senhor que externa publica e veementemente seu preconceito ainda não foi indiciado.

E não posso deixar de compartilhar também a reação louvável do deputado Alfredo Sirkis: “O que nós ouvimos aqui hoje foi novamente um discurso de ódio, um discurso de preconceito, um discurso inclusive que, se eu entendi direito, faltou com o decoro parlamentar ao fazer insinuações a respeito da própria presidente da República. A opção sexual de qualquer ser humano, deputado, é uma questão de foro íntimo desse mesmo ser. E todos nós temos o mesmo direito perante a Constituição”.

2. O segundo episódio foi ainda em campanha quando um grupo de reporteres cercam Dilma em Teresina e alguém lá do fundo pergunta sem rodeios “A senhora é homossexual?” como se esta fosse uma questão de suma importância a uma candidata da república. A resposta de Dilma não foi das mais hábeis, tenho que dizer, dando a entender que o fato de ser mãe e avó a “imunizasse” de tal acusação. Na minha imaginação, eu adoraria ver uma mulher segura chamando à luz o limitado indivíduo:

“- Quem fez a pergunta, por favor, queira se aproximar.
Silêncio
– Muito bem, meu filho. Qual é mesmo o jornal que você representa? (expondo a credencial). Reparo que num momento tão importante como a eleição à presidencia do seu país, seu jornal tem oportunidade de explorar questões críticas para o país, mas você se mostra mais interessado na minha orientação sexual.
Lamento e posso supor que você não esteja familiarizado com o termo respeito. Entretanto o que realmente me intriga é que um veículo de informação tenha tão pouco interesse na vida pública do país, e fico muito preocupada com a qualidade da informação que veiculada pela instituição a que o senhor representa.
Se prepare melhor, meu filho, talvez na próxima oportunidade você possa fazer um trabalho melhor.”
Mas será que não rolou algo mais assim justamente porque a presidenta não está nada à vontade e segura com o tema?Fico me perguntando se estaria ela como milhares de colegas numa luta interna para esconder a própria homossexualidade, ou intrinsecamente é ela mesma homofóbica.

Qualquer que seja a condição da presidenta Dilma, no frigir dos ovos ela falhou com a comunidade gay e parece que não conseguirá dar apoio consistente à redução da homofobia como tem conseguido à outras minorias e questões delicadas.

Por Ele:

Fico bastante interessado em perceber as mudanças de percepção da sociedade brasileira durante o mandato de nossa presidente Dilma.

Tudo que tenho visto, ou pelo menos a maioria, numa briga firme para colocar seus ideais e projetos sem se apropriar da sombra do antecessor Lula, tem me agradado bastante.

Firmeza na postura e praticidade não é coisa nem de homem nem mulher, mas é coisa de caráter, personalidade e bastante segurança, afinal, para tangibilizarmos nossos ideais e fazermos outras pessoas apostarem e executarem por nós precisamos estar muito certos do que queremos e de quem buscamos ter ao nosso lado para que a fidelidade nas relações façam valer e façam acontecer o que temos como objetivo.

Administrar essa “empresa Brasil” é de fazer qualquer presidente americano refletir em suas reais capacidades. Uma coisa é administrar um país que já vive um fluxo de crescimento, sentido de pátria de seus cidadãos e uma homogeneidade maior de valores.

O Brasil é um país de muitas cores, costumes e valores diferentes. O país é gigante e existem lugares que ainda as vozes de uma liderança governamental ecoam com mais ruídos e dificuldades.

Mas o fato da Dilma ser uma mulher me agrada bastante. Não foi nela em quem votei, mas quando soube de sua vitória nas urnas, a primeira coisa que pensei foi “fundamental é dar o crédito para a Dilma e ver como caminhará com seu governo sem julgamentos precipitados”.

Tenho gostado e independentemente de sua intimidade, de sua sexualidade que como presidente não me interessa, uma mulher no poder aliada a outras mulheres para fortalecer o lastro de sua governança e homens que estão descobrindo como respeitar uma na mais responsável posição de um indivíduo perante um país, tem me passado confiança.

Como microempresário, que atendo mensalmente dezenas de caras novas, homens e mulheres, tem me agradado as referências das mulheres no geral, donas de seus negócios que tenho atendido e conhecido, suas dinâmicas perante empresa e funcionários, a facilidade impressionante para articulação, sem reticências, a espontaneidade misturada com objetividade, e a forte capacidade de trabalhar tão intensamente como qualquer pessoa que quer ver desdobramentos efetivos de seu trabalho.

Eis os referenciais próximos e frequentes que tenho de mulheres na liderança, e não é diferente da percepção que tenho da Dilma.

É um país que tende a dar certo pois existem muitos potenciais a serem explorados. Dilma é a evolução de Lula que foi filho de FHC. A política construtivista deve permanecer no meu ponto de vista.

Os benefícios de tudo isso recaem em nossas realidades, como gays e lésbicas. Uma sociedade mais preparada, mais esclarecida, mais madura e com mais acesso a informação e ao desenvolvimento tende a fragmentar os mitos, os preconceitos e os próprios paradigmas.

Depende também de nós nos politizarmos um pouco mais ou pelo menos entendermos conceitos, sentido de direitos e senso de nação. Uma nação tão diversa como o Brasil, se de valores de base em comum consolidados, tende a ser um dos países mais ricos do mundo, não da riqueza material somente que é fundamental para a sustentabilidade óbvia, mais ricos de tolerância e sabedoria.

A presidente faz de cima para baixo. Nós devemos fazer de dentro para fora.

Filhos de lésbicas são melhores alunos

Por Ela

Contrariando o senso comum, uma pesquisa realizada nos estados unidos sobre o desempenho de filhos de lésbicas revelou esse resultado surpreendente: que eles têm um desempenho superior os filhos de casais heterossexuais.

Eu mesma me surpreendi com o resultado. Imaginava que sofreriam mais discriminação, também que a ausência da figura paterna seria uma fonte de conflito, e que tudo isso terminaria por desencadear crises e teria repercussão negativa no desempenho dessas crianças.

Foram escolhidas 84 casais com filhos gerados através de inseminação artificial, e essas famílias foram acompanhadas por 17 anos. Quer dizer uma pesquisa bastante sólida pra ser realmente levada a sério.

Existem indícios mas não se sabe ao certo o que essas mães fazem que dá tão certo. Meu palpite é que esse resultado pode ter a ver com algumas características femininas em dobro, como a sensibilidade ao outro e maior prontidão a verbalizar e discutir questões de foro íntimo.

Além disso, ser vitima de preconceito social acaba também motivando lésbicas e gays a ensinarem a seus filhos valores de respeito e tolerância.

Segundo a pesquisa, “A participação ativa das mães homossexuais é apontada pelos pesquisadores como uma possível causa para o melhor desempenho das crianças. Eles afirmam que lésbicas estimulam seus filhos a lidar com o preconceito e a diversidade. Além de abordar com mais naturalidade temas como sexualidade e tolerância. “Essas mães devem educar seus filhos a partir de uma visão positiva e afirmativa sobre os diferentes modelos familiares e prepará-los para lidar com o preconceito”, diz Borges.”

http://revistacrescer.globo.com/Revista/Crescer/0,,EMI147819-10521,00.html

http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/lifestyle/2010/06/08/250900-estudo-diz-que-filhos-de-lesbicas-sao-mais-equilibrados

Por Ele

Entendo que a tolerância e o sentido de diversidade nos tornam mais preparados para as múltiplas situações que a vida nos coloca. Talvez, o que a pesquisa não abrange, é que os filhos de casais heterossexuais tendem a amadurecer mais tardiamente sob os aspectos e conceitos de tolerância e diversidade pois esses valores acabam se formando depois, no convívio social, fora das referências dos pais heterossexuais que costumam não tocar em determinados assuntos, ao passo que o jovem de pais gays ou mães lésbicas já entram na escola sabendo.

No momento que uma criança, desde o primeiro despertar de consciência de mundo, passa a ter esses referenciais de diversidade ou tolerância ao que é diferente dentro de casa, tornam-se pessoas com menos limites mais cedo.

Preconceito, repúdios ou a própria intolerância nada mais é que o ego em limites mais extremos.

Se o “cercadinho” psicológico é mais amplo, existem “terrenos” diferentes para explorar, a sensação de liberdade ou a naturalidade em lidar com determinados valores e conceitos já foram plantadas, coisas que não costumam a acontecer na educação de pais heterossexuais que tendem a “empurrar” a tradução desses temas para a sociedade (escola, professores, relação com amigos, etc).

Gays e lésbicas também envelhecem

Por Ele

Que todo mundo já sabe é que velhice, a chegada da maturidade no geral, é algo que as pessoas costumam evitar. Cirurgias plásticas, técnicas mirabolantes, exercícios físicos, dietas fantásticas e, principalmente, não pensar a respeito são as soluções mais imediatas da sociedade moderna!

Mas e no universo gay ou lésbico? Como será que funciona?

Não dá para generalizar, mas acredito que muitos gays e lésbicas (ou principalmente os gays) temem a velhice muito mais. Isso se dá por um grupo de motivos que correspondem ao modelo de vida que muitos homossexuais adotam. O apelo estético, a imagem jovial e sempre animada, o apelo sexual e o desejo de frequentar determinadas festas e baladas acabam sendo características opostas à chegada da maturidade.

Como perder toda a intensidade que nos abastece praticamente todos os dias sendo velhos? Nos resta, possivelmente, correr atrás para que no mínimo tenhamos boas condições financeiras para dar alguma possibilidade de sustentar esse espírito. Ninguém será belo para sempre. No máximo esticado.

Porque de fato esse perfil gay tão comum nos guetos GLS nos desumanizam. No momento que a velhice é um processo natural e humano, querer estender uma fase da vida, da juventude pós-dolescente, é uma característica bastante comum ao homem gay e acaba por subjulgar processos naturais que dão o tom humano a própria vida. Em outras palavras, gay tende a querer ser meio imortal, belo e sexualmente ativo para sempre!

O fato é que a gente pode até se enganar, e se existem duas coisas que não temos como controlar é o tempo e a própria morte. Não penso e nem quero ser um representante da comunidade gay que não aceite o fluxo natural das coisas. Muito menos ser um gay “periguete” que é o velho no mais bom estilo moderninho Mick Jagger, que se acha jovem mas tem cara de Iggy Pop.

Penso e até desejo respeitar as fases naturais da vida. Hoje tenho 35 anos, me sinto prioritariamente um homem adulto e já começo a achar feio colegas da mesma idade numa vibração teenager. Começa a me cheirar falta de maturidade, desrepeito a si mesmo e uma falta de noção comportamental. Me bate uma preguiça, posso até estar sendo crítico demais, mas creio que o blog aqui tenha essa intenção: despertar um senso crítico para pensar em coisas que não costumamos refletir muito.

Sinto prazer das novas experiências. Chegar nos 35 e viver como alguém de 24 é não querer sair do lugar basicamente. Podemos preservar uma coisa “jovenzinha”, mas dizer que ganhamos novas experiências na frequência adolescente é bobagem. As experiências no máximo vão se repetir entre caras, bocas e corpos diferentes.

Nunca tive tanto prazer no trabalho, na condição de dono de empresa, em profissionalizar minha equipe e trazê-los para a sociedade, em atender clientes dos mais diferentes perfis e segmentos, de cultivar um namoro que vai atingir a marca de dois anos e meio, de curtir família, primos e amigos e até, quiçá, esquecer que sou gay. Cuidar da casa, planejar viagens com o namorado e construir uma vida para benefícios mais consistentes como casa própria, poder trocar de carro, comprar bens sem sofrer em contraposição à excitação de flertes e paqueras, baladas e bebidas me soam mais amadurecidos, ou “coisa de velho”. Que seja porque “ser velho” não me incomoda.

Nunca a palavra “foco” esteve tão presente em minha vida, e veio junto com a realidade de que ter 35 anos é diferente!

Ultimamente tenho sido mais homem (geral) do que gay (particular).

Por Ela

Envelhecer é um saco, é o que tenho a dizer. Começam a despontar sorrateiros os problemas fisiológicos, diminui gradativamente a capacidade de realizar as mesmas tarefas, as marcas do tempo se instalam como posseiras no rosto e no corpo. A questao física do envelhecer não é pra principiantes!

Se essa questão é mais intensa ou diferente para os gays ou as lésbicas, sinceramente acho que não. Vivemos uma época de grande foco no indivíduo, uma personificação e individualização de tudo, que nos afeta a todos sem discriminação de sexo, raça, opção sexual, etc. Deixamos de ver a família como a razão de uma existência, para ver o indivíduo em si mesmo como a razão de sua própria existência. Nesse contexto, estar bem, bonita e feliz tem uma enorme influência na sociedade de maneira geral.

Vamos pensar que já há mais de 5 anos no Brasil se realizam mais cirurgias plásticas estéticas do que nos Estados Unidos proporcionalmente. O que quer dizer isso num pais onde a diferença social é tão gigante? E vejam que nessas estatísticas não se encontram apenas as madames da Oscar Freire. Estão também a sua manicure e a faxineira da vizinha, além dos maridos delas. As academias estão lotadas de senhoras e senhores, há tanto divórcio quanto celebração de boda. Nos trens e metrôs as pessoas não se olham, porque estão ocupadas demais com suas distrações virtuais em seus celulares.

A bola da vez nessa era é o indivíduo, e isso vai determinar como nos envelheceremos, como serão nossas relações no futuro. O fato de sermos gays ou lésbicas nesse contexto no máximo talvez de um tom mais dramático a questão estética no caso dos meninos, ou dos vínculos pífios de amizade no caso das meninas.

Talvez nessa explicação perca algumas amigas, rs. Eu vejo no geral as amizades entre as lésbicas um pouco etéreas. É como se elas estivessem num equilíbrio dinâmico, apoiadas em pontos móveis. Simplificando muito essa história, vejo as meninas se jogarem de cabeça e cegamente em intensos relacionamentos, sempre em busca do eterno amor verdadeiro. Sem entrar no mérito de se viver intensamente os amores, é como se as amigas pudessem se-lo somente quando o relacionamento permite. Essa dinâmica nao é nada fácil de administrar, e com freqüência perde a amizade.

Isso a meu ver é ressaltado demais pela individualidade, pela ampla possibilidade de outras conexões sociais, etc, e cria uma verdadeira caixa de pandora de relações. Novelo difícil de desenrolar a longo prazo. No limite, terminaríamos sozinhas e ressentidas.

Felizmente em contraposição a todas as chatices de enrugar, a maturidade é, sem dúvida, aquela parte que nos motiva a seguir em frente. E daqui a 10 anos, tomara que ela mesma me surpreenda com lésbicas maduras mantendo relações saudáveis de amor e amizade concomitantemente.

Em resumo, arranjar um jeito de conviver bem com tudo isso é a tarefa mais nobre que nos resta. Embora das mais desafiadoras. Eu aos 36 me sinto entrando numa existência diferente, onde as coisas tem outro peso que antes e a vida uma áura diferente.

No meu caso não inaugurei essa nova fase aos 30. A famosa crise dos 30 aconteceu mais tarde, aos 35. Talvez por estar vivendo um amor plenamente feliz nessa época, os 30 me passaram imperceptíveis. Eu ainda sentia plenamente o vigor dos vinte anos e aquela sensação mágica que só na juventude se desfruta de ter a vida toda pela frente e o mundo à disposição. Apenas para constar, vivia uma vida de simbiose, quase nenhum amigo intimo, como manda o bom manual da lésbica embevecida de um amor sufocante.

Quando aos 34 meu mundo caiu, aos poucos me foi aflorando a ser madura, e acho que a primeira coisa de que tomei consciência foi que as escolhas que faço hoje definem meu amanhã. Isso é o obvio, não é? Mas a verdade é que os jovens tem um senso de consequência embaçado pela síndrome do super-homem / mulher maravilha, de que tudo podem. Nós “velhos” continuamos podendo muita coisa, na verdade. Mas a maturidade vai trazendo a certeza de que nem tudo o que podemos nos beneficia. Surge uma pessoa que começa a pensar antes de agir e de priorizar conscientemente as escolhas, agora com um panorama menos imediatista e com foco em objetivos claros e de longo prazo.

Em seguida se transformou a percepção do tempo. Lembro tanto nos meus 20 anos da minha sensação de ter a vida interinha a minha disposição para fazer e refazer escolhas a meu bel prazer, mudar, arriscar, recomeçar sempre com a mesma facilidade e leveza. Mas minhas escolhas deixaram marcas, legados. E novas escolhas a partir de agora, podem significar interromper uma trilha, abrir mão ou arriscar conquistas. A leveza se foi, no seu lugar a experiência e a ponderação de quem tem conquistas a preservar, e não mais uma página em branco para escrever.

Resumo isso tudo muito pragmaticamente: vejo com cada vez mais clareza que eu não tenho muito tempo a perder. Ainda tenho uma porção de coisas para realizar nessa vida, e os prazeres baratos não me iludem e inebriam como antes. Também as relações simbióticas que tanto me atraíram no passado, não exercem mais tanta sedução em mim e agora me parecem até bem perigosas.

Mas quanto ao que esperar da minha velhice enquanto mulher, enquanto lésbica é ainda uma incógnita. Imagino o mundo mais receptivo aos gays, como de fato tem se mostrado nos últimos anos. Imagino menos e mais amigos. Isso é assim: menos pessoas no meu circulo, mas mais intimas. Nem gays, nem héteros, sem etiqueta, mas diversamente ricas. Sempre gostei da mistura, e ela não pode faltar na minha fantasia de almoço de domingo com os amigos. Tenho esses almoços de domingo como meu desafio pessoal. Reunir amigos que são amor, família, que tem caras, gostos, cores e vidas próprios. Que coexistem e acrescentam uns nas vidas dos outros.

E eu… bom, eu vou ser aquela “veinha” irreverente, espero não muito endurecida pelas certezas. Simplificações e brincadeiras a parte, de fato há muito o resolver quanto a envelhecer. Há muito também o que aceitar, preparar, construir. Eu não me vejo uma velha lésbica, porque não me vejo só lésbica agora. Minha vida não esta nada resolvida, ainda há muito o que descobrir, testar, apanhar, crescer.

Aliás acho que nem quero prever muita coisa pra deixar a vida me surpreender. Quero ser capaz de me reinventar. Essa é a velha que quero ser.

O simpatizante da vida de uma lésbica ou de um gay

Por Ela

Todo mundo que vive no armário em alguma área da vida já se arrepiou de medo ao cruzar por acaso com algum colega do trabalho numa festa ou ambiente gay. “Bom, se ele/ela esta nesse lugar é porque não tem problema com gays, portanto não terá problemas com o fato d’eu ser sapatão.” É sempre isso que te dizem, e você até faz uma força terrível pra acreditar, mas a verdade é que o medo de ser revelada antes de estar preparada pra fazer isso é amedrontador.

E aquela pulguinha atrás da orelha não a deixa em paz o resto do tempo. Eu bem que tento parecer natural, quem sabe essa santa pessoa vai achar que eu, assim como ela, estou ali por estar acompanhando um amigo gay. Ai você lembra que esta usando aquela sua regata branca com o raiban pendurado, combinando perfeitamente com seu corte de cabelo, te denunciando sem deixar duvida que se trata de uma genuína sapatão. Pra completar, as pessoas te tratam com intimidade e está bem claro que você não está ali só de passagem. Aí então os olhares que aquela pessoa te lançam parecem caçoar do seu segredo. Ela vem toda sorridente na sua direção e você só quer um buraco pra desaparecer. Talvez ela tenha dito apenas “Oi, tudo bem?”, mas você já não ouve mais nada tamanha a sua tensão. A pessoa desaparece, você fica com uma bebida a mais e com a certeza de que a história não acaba por aí.

Mas afinal de contas esse medo tem algum fundamento? Viver escondida sempre gera uma tensãozinha, e é bem possível mesmo que o medo constante de sermos desmascaradas acabe nos exagerando muita coisa. Mas a questão é que tem sempre uma razão pra esse medo: preservar nossas vidas profissionais ou familiares, fugir da violência, evitar confronto, ou mesmo não encarar nossos problemas mais íntimos de aceitação.

Qualquer que seja a razão, se estamos no armário, é porque ainda não estamos prontas pra sair e ninguém tem o direito de precipitar isso. E o simpatizante que cruza com você na cena gay, será que ele/ela vai ter a sensibilidade e o compromisso com essas suas questões pessoais? Se essa pessoa não é um amigo seu, o que a impediria de comentar sobre a descoberta do fim de semana? Na verdade nada a impede, e talvez até algo a motive a fazer isso. Esse cara pode ser aquela maldita pessoa descoladinha que não entende porque você precisa se esconder, e acha tudo isso uma bobagem. Ou pior ainda, achar que a fofoca é inofensiva. Muitas vezes não se contém de euforia pra contar pra alguém que o sujeito sério do jurídico é na verdade uma bichona.

É claro há exceções a essa regra, mas a verdade é que heteros não tem compromisso com as limitações de uma vida vivida em parte num armário. Nem heteros, nem desconhecidos, nem desafetos, ninguém além da única pessoa que te colocou nessa situação: você mesmo. E o importante nessa historia toda é se resolver pra poder administrar melhor situações como estas. Quem sabe você não se surpreende descobrindo “colegas” disfarçados de hétero ou, melhor ainda, descobre que estava fazendo uma tempestade num copo d’água. Saiba que não tem sensação de maior leveza do que tirar esse peso das costas.

Por Ele

Lembro com bastante saudade dos primeiros anos do “came out” com 23 ou 24 anos e ainda existia o Allegro Bar, local que costumava bater cartão com meu primeiro namorado e levava meus amigos heterossexuais, meninos e meninas, para entender ou compartilhar um pouco mais da minha realidade que fazia alguns meses que tinha acabado de relevar.

Foi no final de uma balada “HT” no Enfarta Madalena, quando eu e o grupo de amigos do colegial estávamos literalmente na sarjeta, esperando o manobrista trazer nossos carros, que encosto no ombro de uma amiga, semi-bêbado e digo: “então, preciso te contar uma coisa”.

E a minha amiga meio mal humorada com a demora para chegar os carros responde monossilábica: “que foi?”

Eu: “então… sou gay”.

Ela: “Ah, tá”.

Desse diálogo objetivo e esclarecedor (rs) fomos comer algo em algum Fran’s Café e todos já estavam cientes da nova verdade que virou assunto por horas. Com muita coragem, ou entusiasmo ou até mesmo uma falta de noção acreditava que todos meus amigos passariam a ser simpatizantes inatos. E parece que deu certo.

De alguma forma ou muitas formas, os simpatizantes, principalmente quando em formato de amigos de adolescência, são bastante importantes para estabelecermos um contato mais seguro com a nossa realidade homossexual. Não fosse esse “despertar” com bastante simpatia e naturalidade, talvez a evolução de minha vida teria sido diferente.

A minha amiga da sarjeta não foi a primeira a saber. Antes dela, teve a “primeira pessoa de todas” que foi outra amiga, também do grupo do colegial.

Acho até natural o gay homem assumir primeiramente para amigas. Na sociedade brasileira e machista, que a priori o homem repudia coisas do “universo cor-de-rosa” pensava que meus amigos homens pudessem ter algum repúdio. Assim, preparei uma “cama mais confortável” com as amigas.

Por sorte, os amigos do grupo também lidaram com bastante tranquilidade. Obviamente vieram piadinhas. Aliás, em todos os encontros acontecia pelo menos uma piada entre os homens! Mas nada que não pudesse “descontar” em nossas noites no Allegro ou até mesmo na Ultra Lounge original na Rua da Consolação (que hoje é um mercado), quando alguma bichinha encarava algum dos amigos (rs).

A única frustração, quando comecei a me deparar com esse universo de simpatizantes próximos foi que o amigo da turma “mais gay”, com trejeitos e até gritinhos vez em quando, revelava-se como um verdadeiro heterossexual! Achava que poderia ter um companheiro de baladas! (rs)

Foi aí, nessa toada, que fui descobrindo também, além da importância dos simpatizantes, que homem afeminado nem sempre quer dizer que é gay. Não só a mim revelava-se essa verdade, mas a todos os demais amigos que não desconfiavam de mim, mas desconfiavam totalmente do amigo. Para que eles percebessem também que alguns másculos são gays. (rs)