A inclusão da família em nossa reliadade

Por Ele

Passaram-se 10 ou 11 anos para que meu pai pudesse entender com mais tranquilidade as questões que pairavam em sua mente quanto a minha homossexualidade. A gente pode pensar: “puxa vida, todo esse tempo?”. Pois é, realmente levou-se uma década para ele entender, em seu ritmo, tudo isso de ter um filho gay.

Como filho, frequentando a família, a casa dos meus pais em almoços e encontros, o fato de ser gay nunca foi algum tipo de ameaça. Como não aparento (e a amiga Ela pode confirmar), meu pai nunca se sentiu desconfortável. Nosso problemas foram outros e que – muito bem – resolvemos todos há dois anos atrás. Assim, posso dizer com satisfação que minhas questões com meu pai (normalmente há questões ou com a mãe ou com o pai) se resolveram em 2011, quando conseguimos entender que eu não era mais o “jovem porra louca” como ele me intitulava e ele não precisava ser “o super pai ideal” como eu queria.

A questão que faltava é que, diante de um namorado ou de um amigo aparentemente gay, ele sempre lembraria que eu – seu filho – também compartilhava das mesmas vontades homossexuais. Pois a bem da verdade é essa: muitos pais, mesmo dos filhos assumidos, tentam esquecer o máximo possível que o filho é gay, enquanto não o aceita, ou não assume a ideia. Natural, assim, meu pai lembrar que eu era gay somente nessas circunstâncias, querendo projetar “um filho gay porém assexuado”.

Uma década se passou desde o dia que sentei na mesa da cozinha e tivemos a famigerada conversa, cara-a-cara, preto no branco e sem a possibilidade de ser diferente. De lá pra cá, como pai e filho não havíamos problemas (a exceção das questões dos ideais comportamentais que tínhamos um pelo outro). Mas seu filho como um ser social gay, que namoraria um homem, a ele era um motivo para desgosto. Tanto era que eu havia assumido a mim mesmo que não teria para quê muda-lo. O importante era poupá-lo e respeitar incondicionalmente seus limites. Trazer um namorado para a realidade familiar, quando na presença dele, era algo que não se realizaria. Assim se fez e consegui tranquilamente criar uma zona de conforto nessa situação. Soube muito bem administrar.

10 anos nesse modelo e, aos poucos, respeitando sua zona de segurança, não havia como – raras vezes – trazer o assunto ou nos pegar em situação que o encontro com meu namorado seria inevitável. Mãe, irmão e futura cunhada, totalmente abertos para essa possibilidade, acabavam criando ocasiões de reunião que colocavam meu pai a questionar se iria ou não. Recusou dezenas e das vezes que recusou não tinha porque me chatear ou forçar o contrário. Meu namorado as vezes se incomodava, as vezes não, já que do lado dele tive uma forte abertura. Está certo que boa parte dessa abertura eu dei um bom “empurrão”, mas isso é somente detalhe.

Eis que nas últimas semanas aconteceu um “click” por parte do meu velho. Na realidade o tal “click”, pela primeira vez, ocorrera no final de 2012, já próximo do Natal. Resolvi fazer um jantar em casa, quando meu irmão e sua futura esposa – que moram no Rio – estavam em São Paulo. Levei o convite a todos, incluindo meu pai. Meio sim, meio não, meio a contra gosto, meu pai veio para a reunião familiar sob meu teto na presença de meu namorado. Ficou evidente o desconforto por parte do meu pai, daquela situação de não saber para onde olhar, o que dizer e como agir. A mim, natural não saber para onde olhar, o que dizer e para onde agir: pela inédita primeira vez ele estava enfrentando seus monstros e fantasias, embora já tivesse conhecido outrora meu namorado sem que eu anunciasse como tal.

Depois desse primeiro “choque”, houve um segundo no começo de 2013, muito mais natural, quando minha futura cunhada convidara a todos para um almoço na casa de seu pai. Uma certa palidez no ar, mas fui firme em respeitar a tal turbidez.

E, de uma maneira totalmente inédita a mim, sem a necessidade de me auto-afirmar, dessas duas primeiras vezes deixei acontecer sem expectativas sobre ninguém. Literalmente fingi que nada estava acontecendo além de um simples encontro de família. Foco nas pessoas e não nas sexualidades.

Assim, nessas últimas semanas, meu pai chegou a pronunciar o nome do meu namorado, numa sugestão de encontro familiar. Confesso que na hora me passou batido ou, talvez, foi tão inesperado e fora das minhas expectativas que eu preferi desconversar! Até chegar o final de semana e reunirmos toda a família no sábado e no domingo. Tudo junto e misturado, um casal gay em meio a um grupo de heterossexuais.

Uma mistura inicial de absoluta estranheza com orgulho. Orgulho por fazer valer uma década de construção da inclusão, do compreendimento e do respeito às diferenças. Plenitude, minha gente. Estranheza por estar totalmente conformado com os limites colocados pelo meu pai e que – de repente – ele mesmo resolveu transformar. E não avisou ninguém! O velho fará 72 anos esse ano e eu preciso tirar o chapéu. Não somente a ele por todas as circunstâncias, contextos e realidades que jogou no lixo para me incluir, mas – humildemente – a mim mesmo que aprendi a respeitá-lo quase que incondicionalmente. Tivemos um tipo de “vitória” fazendo bom uso da paciência.

Somos plenos um ao outro agora.

Por Ela

Fantástico, amigo Ele! Sabendo um pouquinho da sua trajetória, sei o quanto esse momento é importante e simbólico pra você, e fico muito feliz que você tenha quebrado mais essa barreira.

Rumo à aceitação total!

Eu percebo que o preconceito de maneira bem geral está no desconhecido e consequente generalização. Se fulano não sabe nada sobre a cultura mulçumana, por exemplo, pode achar que todos são perigosos explosivos fundamentalistas.

Eu mesma sem ter nenhum contato mais estreito com eles e consumindo apenas o que a mídia me traz, só consigo sentir pena das mulheres passeando com seus filhos e burcas, sempre um passo atrás dos maridos. Nada sei sobre suas crenças, seus valores e, pior: me assusta muito ver burcas passeando pelo meu mundo ocidental!

Nem sequer quero ver algo que de uma forma meio torta me soa como ameaça. Vejam se não é um clássico do preconceito!

Esse almoço com seu pai, caro Ele, representa o início do fim da estranheza. Tenho certeza que seu pai fez um esforço colossal para superar os próprios fantasmas só pra estar mais perto de você. E tiro meu chapéu!

E tenho certeza que vendo que você e o respectivo se portam como quaisquer outras pessoas adultas, exorcisou muitas das assombrações que em algum plano afastavam vocês. Imagino que ele agora esteja desconstruindo a imagem gay que tem na cabeça, dando espaço para outras possibilidades.

O que muito hetero não entende é que sapatões, gays, trans… somos seres humanos mais profundos que uma imagem, com todas as idiossincrasias, questões e sonhos como eles também tem. E é justamente isso o que precisa ser mostrado à eles.

Sem questionar o papel da parada ou da televisão nisso tudo, só mesmo nós assim de pertinho no almoço de domingo podemos mostrar pra quem nos cerca que nem tudo é purpurina 🙂

A aceitação plena não é uma mágica, mas um processo. Uma transformação pessoal, resultado da capacidade de questionar as próprias certezas e se permitir conclusões diferentes do que no passado.

Esse processo não é só nosso, entendo que os heteros tem que passar por isso também para uma aceitação realmente plena.

Olhando a questão gay ao longo do tempo, acredito que a sociedade superará os preconceitos. Alguns mais rápido que outros, mas um dia será tão corriqueiro ver casais gays nas ruas, no trabalho, na televisão, na convivência íntima do lar, que as bobagens que hoje são argumentos de preconceito causarão boas risadas em todos.

Parabéns Ele, por mais esse passo!! Rumo à aceitação total!

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Plano de vida. Quem pensa nisso hoje em dia?

Por Ele

CARPE DIEM e talvez essa seja a máxima nos dias de hoje. Mas depois que se amadurece é melhor ainda. Explico por que:

Tenho um tipo de culto pelas Gerações Millenials e Plurals. Talvez pelo fato de lidar com profissionais jovens, de 18, 19 ou 22 anos e ser constantemente bombardeado pelas suas dinâmicas e percepções de mundo. Meu sócio tem 28 e eu, com 36, levo a frente da minha microempresa desde meus 23 anos. A vida de autonomia começou muito cedo para mim e lido com bastante gente que está relativamente há pouco tempo nessa Terra (18 anos é um espirro). Incrível é perceber que essas novas gerações, principalmente os tais de Plurals, que nasceram a partir de 1995, carregam uma vontade muito forte de “virar gente grande” logo, ter a autonomia financeira e voz para conduzir seu próprios feitos. Gosto muito de tudo isso muito provavelmente por me ajudar a manter acesa o mesmo tipo de fagulha que me ilumina desde meus 23 anos. E que bom, QUE BOM MESMO, que existem jovens de 18 anos muito mais antenados do que eu, quando tinha a mesma idade.

A minha realidade homossexual e as questões que envolvem minha sexualidade não é assunto faz um bom tempo. Tampouco ter que viver o nano universo gay de São Paulo para me auto afirmar uma vez por semana sobre as vontades das minhas gayzices, de ver e ser visto. Graças ao bom Deus e uma necessidade pessoal de mudar dessa rota, me fiz focar em questões menos existenciais, egóicas ou auto afirmativas. Passei disso e a luz brilha em outros aspectos. Posso definitivamente tocar meu “plano de vida”, palavrinha estranha, digna de folhetos de planos de previdência, mas que – na prática – diz respeito a usar seus esforços e o fruto desses esforços para assuntos mais estruturais.

Assuntos estruturais são básicos mas nem todos se dão conta: sabe-se o tempo que se leva para comprar um carro? Como tenho que fazer para comprar uma casa? E se der aquela vontade súbita de viajar para o exterior e precisar de um dinheiro na hora para realizar sem insegurança? Quero mudar totalmente meu guarda-roupa e não quero sofrer para fazer o 360 graus no armário. Isso, a mim, são assuntos de autonomia. Paitrocínio é cruel depois de uma idade e não cabe de maneira nenhuma no contexto desse post de hoje.

Apesar de ser alguns anos, não faz muito tempo que o assunto era a minha homossexualidade e todo o micro universo que rodeava esse tema. Precisava comparecer na balada, morria de medo de abismos sociais, precisava contabilizar amigos, ir a restaurantes no Jardins e na Vila Madalena e o “problema” disso tudo era que a minha vida era tão norteada sob a minha sexualidade que não sobrava tempo para me dar conta que o “viver o hoje” sai caro e só nos garante um prazer imediato, como uma droga. Alto lá que não estou negando que curtir a vida não seja humanamente necessário! Curto, mas diferente: “quero ir para NY e gastar 10 mil reais em compras”. Planejarei e farei. “Depois, ainda esse ano, vou até o casamento do meu irmão em Floripa, vou enforcar dois dias de trabalho (que como dono de empresa posso permutar essas regalias), conhecer a ilha, suas praias e esmerilhar em bons restaurantes”. Farei. “Show do Elton John na ala VIP”, fiz. Entrar no cheque especial também não vale.

Acontece que isso, e mais um pouco e até quando eu tiver tesão por trabalhar (provavelmente enquanto minha cabeça e meu físico permitirem) – ANTES QUE PAREÇA ESNOBE – é resultado de suor, labuta e foco. Decidi com 23 anos ser condutor da minha própria vida. Com 23 anos, além de meu primeiro sócio ter se deligado, casei e sai de casa com meu pai contrariado, severamente contrariado. Claro que teve um preço, fiquei defasado financeiramente durante alguns anos, e sei que até hoje muitos amigos não botavam fé pela simples estatística. Alguns assumiram, ou não. Mas a gente percebe que empreender depende bem pouco das estatísticas do mundo. Existe uma tríade poderosa no jogo: resiliência, obstinação e foco. Não dá para desaminar nem quando o pai duvida. E ele duvidou, entramos em guerra e erguemos a bandeira branca não faz dois anos.

Não tem jeito, queridos leitores, e nessa equação eu acredito: se você foca no trabalho, tem a ambição para conquistar novos “territórios” e não se deixa abater por influências alheias (mesmo daqueles que desdenhem de você por ser assim tão “caxias”) a própria natureza te faz acumular experiência, riqueza, respeito e tranquilidade. Quem não respeita, acaba se afastando porque, acima de tudo, a gente aprende a filtrar.

Graças a muito suor, tombos, recuos, brigas e muito esforço, não preciso pestanejar para saber o gasto da conta do restaurante. E mais, estou aprendendo em investir em fundos de baixo risco, médio e alto para o tal plano de vida. Nem por isso tenho que deixar de falar bobagens do universo de jovens de 18 anos, de respeitá-los um tanto pelo senso crítico que carregam, de tomar um porre (só que agora com exclusivas bebidas de boas marcas) e de curtir a “nite”.

O CARPE DIEM é para todas as idades. Mas depois de uma idade, ter uma infra por trás é definitiva para ser, inclusive, CARPE DIEM! No mais, paitrocínio sucks.

 

Por Ela

Concordando em gênero, número e grau, caro Ele!

Mas no meu caso, mãetrocínio sucks! Eu usufrui intencionalmente e sem culpa dele até a minha formatura, a partir daí tenho sido responsável por meus buzzes e fails sozinha. E essa sensação de liberdade foi o meu maior orgulho na entrada da vida realmente adulta.

Dizem que são duas as cenouras que fazem os coelhinnhos aqui andarem mais: o prêmio e o castigo. Como a partir da formatura sou inteiramente responsável por ambos, não delego a ninguém meu hoje nem meu amanhã. Além disso, tenho uma forte convicção que nada florece sem ser plantado. Ou seja, nada acontece sem investimento de esforço.

Essa não parece ser a verdade para a geração que vejo chegar ao mercado de trabalho. Esses meninos e meninas vêem com uma sede invejável de sucesso, mas infelizmente com uma visão também muito imediatista e super valorizando sucessos meteóricos. É bem possível que essa massa daqui há 10 anos forme um rebanho de ressentidos e frustrados, porque na vida real apenas 5% das pessoas chegam ao topo de alguma coisa. E, ainda que não leve toda uma vida em todos os casos, sem excessão nenhuma é preciso muitíssimo esforço e dedicação. Palavras que parecem não trazer mensagens positivas para ouvidos jovens.

Com o diploma embaixo do braço, entrei de cabeça nessa paulicéia maravilhosa, abracei minha carreira oferecendo a ela muitíssimas e preciosas horas da minha juventude. Aprendi a trabalhar e dei passos consideráveis na carreira. Diferente do meu amigo Ele, sou funcionária de carreira dessas que passa 13 anos no mesmo lugar. Sem entrar no mérito dos positivos ou negativos, gosto do que eu conquistei.

Mas sem ilusões, eu não fui dessas que planejam e conduzem ativamente a carreira, não. Deixei até o barco correr meio solto em alguns aspectos. Agora parece que o sucesso que acho que tive foi em parte devido à sorte, rs. Na carreira, acho que mesmo deixando o barco correr, nunca deixei de trabalhar com afinco e aceitar os desafios que apareceram. Essa postura e dedicação são os responsáveis pelo meu sucesso, não a sorte pura e simplesmente.

Inicialmente fiquei até deslumbrada com a minha liberdade. Viajei pra caramba, baladei, me meti em cursos e grupos das mais diversas coisas por pura curiosidade. De algumas dessas aventuras trago amigos queridos, de outras apenas fotos e lembranças. E de tudo isso a sensação impagável de ser dona da minha vida.

De uns tempos pra cá, começei a querer ser dona do meu futuro também. Tenho me preocupado em construir matéria ao meu redor: adquirir coisas além das vivências. E pra mim, pensar no futuro significa se preparar pra ele.

Eu quero me aposentar um dia pra jogar damas na praça! Mas não quero ser refém de uma situação econômica desconfortável. Chego à seguinte realidade: preparar-se pra isso leva looongos anos. Mais ainda, é preciso equilíbrio pra definir prioridades e se dividir entre o agora e o depois.

Não tem milagre e não vem de graça!

 

Um homofóbico para tratar de direitos humanos

Por Ela

Sabe gente, eu cresci em meio à política em Brasília, discutindo na escola, no almoço em casa, acompanhando eleições e propostas, nomeações e ações, votando em plebiscitos, acompanhando paradas em dias cívicos, cantarolando hinos quase desconhecidos, dando a cara em passeatas, pintando a cara inclusive.

Isso tudo era parte integrante e indissossiável da minha vida e de muitos outros que cresceram à minha volta. Como adolescente nem sempre tive discernimento para abraçar as causas certas, ou para estar munida de toda a informação necessária para formar uma opinião crítica, ou ainda malícia para entender as jogadas políticas, mas de certa forma participava ativamente da formação do processo democrático nas décadas de 80 e 90.

De repente não havia mais espaço na minha vida adulta para nem sequer me preocupar em quem votar. Só não me envergonho mais por saber que este triste descaso é muitíssimo mais comum do que o contrário. Conveniente, a falta de vergonha e decoro dos integrantes do nosso congresso, é a desculpa perfeita.

E foi ficando a sensação que havia algo de nocivo na política, algo de podre no Brasil que nos envergonha profundamente. E o pior, a sensação que a grama seria muito mais verde do outro lado da cerca.

Minha vida seguiu como tantas outras à deriva da política e de seus reflexos práticos. Mas pude conhecer outros países e perceber que o Brasil está longe de ser o fim do mundo, porque os problemas que vivemos aqui acontecem também em todos os outros lugares. Em proporções diferentes, com estampas diferentes, com desencadeamentos diferentes, mas até na bela e engomada Inglaterra acontecem.

Entendi a confusa dinâmica de interesses do congresso assistindo o seriado Roma. Nossa baderna espetacular tão aclamada como nossa vergonha, tem na verdade raízes muito mais profundas na própria formação do povo latino. Acredito muito pouco na virtude nata do ser humano para aceitar que tudo isso é parte de um passado distante nos outros países.

E me envergonhei profundamente com Maquiavel e sua estratégia de conquista e submissão que permeou toda a história de formação dos países europeus e foi depois exportada para os demais continentes, quando li a incrível história de Gengis-Khan.

Apesar do repúdio, sempre a pulguinha atrás da orelha me dizia que deveria prestar mais atenção na política. Um dia pensei em montar ONG para instruir pessoas comuns a votar e fiscalizar. Na verdade eu seria a 1ª pessoa comum a ser instruída, rsrs, mas essa idéia se dissolveu e deu lugar à outras um tanto mais capitalistas.

Toda a corrupção televisionada mais fortemente desde o governo Lula foi me causando desconforto, ver os mesmos rostos condenados assumindo postos proeminentes pouquíssimos anos depois é de desanimar, mas só a nomeação do deputado pastor Marco Feliciano, ignorante e preconceituoso, para presidente da Comissão de Direitos Humanos me tirou da inércia.

Eu tenho um medozinho guardado de que forças ultra-conservadoras arrebatem a juventude e transformem o mundo num bando de robôs fundamentalistas sem senso crítico. Não é um medo infundado, se pensarmos na expansão recente das religiões alienatórias e intolerantes na América Latina, na cega flexibilização de leis de países europeus para que passem a tolerar poligamia e outras condições de submissão da mulher, tudo em nome da democracia.

Essa democracia sem senso crítico, sem preservação de condições básicas de desenvolvimento humano e sem promoção da igualdade social é palco para misturas corrosivas como de religião e política em um país laico como o nosso; ou de drogas e política como na nossa vizinha explosiva, Colombia.

Aí me apavoro quando eu vejo que à frente de um grupo feito para garantir direitos básicos do ser humano está um pastor desses que têm longos diálogos com Jesus, que pregam o esculachamento de outras religões, que proliferam o ódio à homossexuais e a discriminação dos negros, que cobram dinheiro de seus fiéis com constrangimento público e coação, que proliferam falaciosos sofismas para convencer uma plateia iletrada das suas verdades tendenciosas, que representam religiões que enriqueceram rapidamente, que vendem falsos milagres e são donas de emissoras de canais de tv e rádio, partidos políticos e de uma enorme fortuna.

Eu bem sei que a situação com essa comissão é apenas uma gota no meio de uma tempestade, e que há muito o que atacar para ter um país minimamente ético. Mas aí é o seguinte, minha gente, são duas opções:

1. Não fazer nada, porque há problemas maiores; 1. Não fazer nada, porque o país não vai se resolver com a resolução deste pequeno problema; 1. Não fazer nada, proque tenho minha vida pra tocar; 1. Não fazer nada, porque já estou na inércia de não fazer nada;

OU

2. Fazer alguma coisa para dizer que não estou dormindo, para sair da inércia, para criar o hábito, para exercer a democracia e cidadania, para gritar bem alto que ESTE SENHOR NÃO ME REPRESENTA.

Sou mulher, lésbica, solteira, ateia, descendo de negros e ganho menos que meus colegas de profissão no mesmo nível de carreira. Acredito que sou uma legítima minoria, e por isso me esbaldo do direito de dizer ESTE SENHOR NÃO ME REPRESENTA E QUERO ELE LONGE DE CAUSAS RELACIONADAS AO DIREITO HUMANO OU ÀS MINORIAS.

Que a mobilização que estamos vendo dê ou não em resultado imediato, que seja um impulsozinho para que o país se politize novamente. Que amanhã esteja me engajando em outras mobilizações contra corrupção. Que meu facebook fale tanto de política quanto de futilidades.

Eu vou fazer questão de expressar a minha indignação fazendo volume na Paulista, por mais juvenil e ingênuo que possa parecer hoje em dia exercer o direito de protestar.

 

Segundo Ato de repúdio a nomeação do deputado marco feliciano para a comissão de direitos humanos: http://www.facebook.com/#!/events/340454419387589/

 

CDHM – Comissão de Direitos Humanos e Minorias

É uma comissão permanente da Câmara dos Deputados. Suas atribuições são receber, avaliar e investigar denúncias de violações de direitos humanos; discutir e votar propostas legislativas relativas à sua área temática; fiscalizar e acompanhar a execução de programas governamentais do setor; colaborar com entidades não-governamentais; realizar pesquisas e estudos relativos à situação dos direitos humanos no Brasil e no mundo, inclusive para efeito de divulgação pública e fornecimento de subsídios para as demais Comissões da Casa; além de cuidar dos assuntos referentes às minorias étnicas e sociais, especialmente aos índios e às comunidades indígenas, a preservação e proteção das culturas populares e étnicas do País.

O principal objetivo da CDH é contribuir para a afirmação dos direitos humanos. Parte do princípio de que toda a pessoa humana possui direitos básicos e inalienáveis que devem ser protegidos pelos Estados e por toda a comunidade internacional. Tais direitos estão inscritos em textos e diplomas importantes de direitos humanos, que foram construídos através dos tempos, como são, no âmbito da ONU, a Declaração Universal dos Direitos  Humanos (1948) e, no âmbito da OEA, a Declaração Americana de Direitos Humanos (1948). O Brasil é signatário desses e de outros instrumentos internacionais, o que significa que assumiu compromissos com os direitos humanos perante a Humanidade e diante de seu povo.

Sobre a comissão: http://www2.camara.leg.br/atividade-legislativa/comissoes/comissoes-permanentes/cdhm

Sobre a ONU: http://www.onu.org.br/a-onu-em-acao/a-onu-e-os-direitos-humanos/

 

Marco Feliciano

Deputado Federal, 2011-2015, SP, PSC. Dt. Posse: 01/02/2011

Pastor Presidente, Igreja Assembléia de Deus de Orlândia

Quem é o Deputado Marco Feliciano por ele mesmo: http://www.anonymousbrasil.com/meu-jesus-nao-foi-feito-para-ser-enfeite-em-pescoco-de-homossexual-nem-de-lesbica-diz-pastor-marco-feliciano/ (agressões à Igreja Católica a partir de 3 minutos e 10 segundos. Homofobia declarada depois de 4 minutos e 30 segundos.)

 

Manifestações:

Depoimento Jean Wyllys: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/1241330-jean-wyllys-cinismo-cruel.shtml

Depoimento Contardo Calligaris: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/1245545-o-uso-reto-do-corpo.shtml

Depoimento Juca Chaves: http://www.youtube.com/watch?v=Fi4vbotICF0&feature=youtu.be

Mobilizações populares: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,internautas-organizam-novos-protestos-contra-feliciano,1007302,0.htm

Pedido de cancelamento da eleição: http://www.estadao.com.br/noticias/nacional,partidos-pedem-que-stf-cancele-eleicao-de-pastor-nos-direitos-humanos,1007758,0.htm

 

Por Ele

Achei o depoimento Dela muito completo e, apesar de andar muito ocupado com meus afazeres profissionais e pessoais, pude ler nas páginas amarelas da Veja, umas duas semanas atrás, a entrevista com o Marco Feliciano.

As certezas desse homem, não muito diferentes de Malafaia, são tão estapafúrdias que praticamente os sinto como personagens de um seriado de comédia latina numa festinha de vila com o Tiririca. Assisti-los em algum programa de entrevista ou lê-los em algum canto de um jornal fortalecem essa característica de ser brasileiro, das posturas e caráter líquidos, dessa nossa tendência cultural de relativizar tudo, onde o bem e o mal, o certo e o errado dependem de pontos de vista e a nossa “espinha dorsal” cultural e ética se forma repleta de viés; é o viés dos religiosos, das classes abastadas, da massa popular silenciosa, da classe média que vive em crise por ser média/medíocre, dos negros, dos gays e assim por diante, como uma país qualquer de terceiro mundo, das diferenças e das células sociais completamente isoladas que raramente se misturam.

Ontem, um grupo de amigos gays da classe média-alta (ou que visam transparecer esse nível) ficou criticando os crentes da frente da minha empregada (evangélica), que trabalha na minha família a mais de 25 anos. Vale mais a mim o fato dela ser crente ou da confiança de mais de 25 anos?

Semana passada estive no consulado americano para tirar meu visto. O esquema continua rigoroso, algo lendário e até assustador, embora o brasileiro seja o estrangeiro que mais consome nos EUA e possivelmente a rigidez caia por causa disso.

Durante o percursos das filas para o visto – que aliás estavam muito bem organizadas e agilizadas – conheci uma designer, brasileira, tirando pela primeira vez o visto e aflita (ou ansiosa) pela “aura” que existe entre nós, de se adquirir nossa validação americana. Reparando aquela massa popular, que reunia os oportunistas atrás do subemprego, as dondocas frenéticas por compras, o casal jovem e moderno, um gay como eu, meu namorado na fila seguinte e uma designer autônoma como a moça que acabara de conhecer, tirei do pensamento uma ideia que surgiu em complemento a uma afirmação da menina. Ela, em pequenos surtos de nervosismo lança assim: “Eu no fundo acho que o esquema precisa ser rigoroso assim. As pessoas passam a respeitar e valorizar mais”.

Eu: “Realmente. E o que acho interessante é que nesse exato momento, no meio dessa multidão enfileirada, somos todos iguais. Não será a riqueza de um magnata nessa fila que vai garantir a aprovação de seu visto. Estão todos aqui, iguais, ‘submissos’ a uma necessidade”.

A mim, o que falta para esse nosso país é um senso de unidade. Tiriricas, Felicianos, Malafaias, Silvios (Santos), Hebes, Xuxas, Bundas, Fanfarronices são – cada um pelos seus feitos e representação perante seus seguidores – subprodutos dessa nossa cultura amórfica , latina e plural. O Brasil é um país de blocos, células e núcleos que se refletem no entretenimento, na cultura e, não seria diferente, na política também. Mas raramente essas células se entendem ou trocam fluidos.

No quesito Feliciano, o país me parece equivocado pelo simples fato desse homem não representar em nada meus valores, meu senso e o que entendo de ético. Mas há quem compre e que inclusive o colocou onde está.

Longe de mim querer defender ou articular a favor dessas figuras populares, alegóricas e caricatas. Mas não vejo tanta diferença quando noto aquele jovem burguês ou empresário que faz questão de gastar mais de 100 mil reais em um Mini Cooper para – na realidade – apresentar ao mundo Brasil sua potência de diferenciação de classe. Esse carro, lá fora, não sai mais de 10 mil dólares.

O rico no Brasil paga em automóveis 4 ou 5 vezes mais que um americano ou um japonês pelo simples poder da aparência, da vontade da diferenciação sob esse solo, sob as vistas por onde ele passa. A massa de crentes pedrominante no país – mas fora da minha célula – aprova o Malafaia. Políticos do caldo da latinidade dão o tal cargo para o Feliciano.

Não existe essa unidade porque o brasileiro não quer olhar para o lado. O pobre se enruste no orgulho de ser trabalhador e o rico quer assumir cada vez mais um status que o diferencie. Disso, nascem os Malafaias, os Felicianos, as Bundas e tudo aquilo que a gente entende da latinidade brasileira.

A mim, Feliciano é só consequência de nós mesmos, do que somos, avessos a encarar esse país como uma unidade, com políticas e métodos que nos dêem acessos mais iguais, que tragam recursos de maneira mais comum a grande maioria dos brasileiros.

Recentemente larguei uma cliente. Há um tempo atrás ela já havia manifestado um certo repúdio aos gays. Passou. Mas há um mês atrás, bela, esbelta e classificada (sob seus próprios critérios) fez uma viagem para NY (como faz pelo menos duas vezes ao ano). Ficou estarrecida ao perceber que ao seu lado, no avião, existia uma família de classe C, de trajes mais simples e que levavam travesseiros à bordo. Achou aquilo um absurdo, se sentiu desvalorizada.

Absurdo é saber que tem brasileiro que se sente assim.

Gays e lésbicas – As formas das manifestações sociais

Por Ele

A Parada LGBT todos os anos ganha os holofotes aqui em São Paulo, numa busca incansável de bater o recorde mundial para ser a número um em quantidade de pessoas. Esse ano deu até bafafá: organizadores contabilizaram 4 milhões de pessoas e a Datafolha não mais de 300 mil. A briga do cabelão se fez, nessa nossa vontade extrema de quantificar pessoas e exalar ao mundo que São Paulo – todos os anos – concentra o maior número de lésbicas, gays, trans e simpatizantes por meio dessa grande e popular manifestação.

Recentemente no meu Blog Minha Vida Gay apresentei um “olhar utópico” pontuando diversas frentes para a busca de nossa tão sonhada emancipação. Me embasei contestando o texto do colunista JR Guzzo que foi publicada na revista Veja da semana passada e uma das ideias que descrevi no post foi sugerir jeito diferente para a Parada LGBT de São Paulo: todos de calça jeans e camiseta, sem a euforia das caixas de som, sem a bagunça, a sujeira e a promiscuidade. Uma caminhada que trocasse a a alegria e a dispersão pela sobriedade e atenção.

Nesse contexto, um dos leitores mandou um e-mail apresentando como o movimento em Cingapura funciona. Trata-se do “Pinkdot – Supporting the freedom to love”, ou Pinkdot – Apoiando a liberdade para amar. O conceito já começa diferente: está no amor e não na sexualidade em si.

Eis o vídeo:

Com a exceção da cor rosa da identidade da manifestação que, do ponto de vista da cultura ocidental, é cheia de referências femininas, delicadas (ou gays), a forma da manifestação que acontece anualmente em Cingapura é um outro (e novo) tipo de referência que não estamos acostumados por aqui.

Embora muitos dos ativistas brasileiros ou porta-vozes do movimento entendam que o formato de nossa parada traga uma repercussão perante a sociedade, me questiono o quanto desse modelo de “carnaval” é de resultados efetivos. Efetivos, no sentido de conscientização social, receptividade e inclusão dos valores da homossexualidade no contexto familiar. A mim, o que me parece importante é uma receptividade e atenção do núcleo familiar, fundamentalmente.

Para quem estuda assuntos relacionados a estética e a ética da estética, sabe muito bem que a forma de se manifestar muitas vezes define o sucesso da absorção da mensagem. Meu pai, por exemplo, que mantém alguns limites para conviver com a minha realidade homossexual, todos os anos acha engraçado o movimento da parada na região da Paulista e do centro.

Veja bem, “achar engraçado”, no meu ponto de vista, não é reação que eu sinceramente gostaria num processo de esclarecimento e inclusão que a Parada LBGT tivera em sua origem! Graça ou humor talvez sejam reações de uma boa parte das pessoas, no momento que a parada é uma forte ferramenta e que deveria trazer outros tipos de reação, como a reflexão e a conscientização.

O vídeo de Pinknot fala por si:

– Focam no amor e não no sexo;

– Estabelecem um diálogo audível e compreensível entre gays e heterossexuais;

– É uma manifestação muito mais de paz, atenção e convergência do que fervo e multidão;

– Todos vestidos iguais, me parecem muito mais convergentes;

– Na situação as pessoas conversam e apresentam pontos de vista, ao contrário do que ouvimos por aqui de barulho, embriaguez e graça;

– Não existe exibicionismo propriamente.

Poderíamos falar que essas coisas de ideologia por meio de manifestações organizadas e de efeitos sociais acontecem apenas nos países de primeiro mundo. Mas veja bem que Cingapura está longe de ser um país rico e de primeiro mundo!

Temos uma mania cultural de querer contabilizar quantidade. Como micro empresário que trabalha com a visibilidade dos meus clientes na web, quantas não foram as vezes que tive que sentar e explicar repetidamente que mais vale 10 potenciais clientes interessados entrando em contato do que 1000 visitando o site apenas quantificando o número de visitas?

Mas essa é a cabeça do brasileiro no geral. Não importa muito quem vá, quem compareça e quem se manifeste na Parada LGBT. Importa mais a quantidade sem necessariamente um efeito de repercussão social, de transformação, de resultados. Vale a quantidade para “competir” com as outras paradas do mundo e continuar com um discurso que nem precisava mais tanto: “vejam, somos muitos”.

Ok, somos muitos e acho que muita gente já sabe disso. Mas como fazer, por exemplo, para a homossexualidade ser ensinada nas escolas, no processo de formação de crianças e adolescentes? Não teríamos que começar a dar esses passos? Como fazer para os pais entenderem mais da diversidade e aceitarem com mais naturalidade as possibilidades de orientação de seus filhos?

Será que os líderes dessas manifestações saberiam dizer?

Por Ela

Eu confesso que o tema me divide. Concordo com todos os pontos negativos  ressaltados por Ele, e até acredito que poderíamos influenciar mais com menos gente transmitindo a mensagem correta. Mas não acho possível dissociar um evento público do contexto sóciocultural.

Vamos pra Cingapura? É preciso propor uma viagem mesmo, porque estamos falando de uma vida tão diferente da nossa que até parece uma ficção científica.

Imagina um lugar onde homossexualidade ainda é crime, que sexo oral é punido com multa de 5 mil dólares, e o sexo anal com prisão. Onde as pessoas de tão fechadas, não se tocam.

É bonito imaginar que os gays de lá são mais politizados e conscientes que os gays daqui. Mas meu lado incrédulo acredita apenas que eles são muito mais reprimidos que nós.

Agora vamos lembrar quem somos. O país do carnaval. E não à toa eu começo por isso. É preciso lembrar que já nos idos e contidos anos 30 de Noel Rosa, os homens e mulheres de bem já se permitiam celebrar a vida sem razão e se entregar à alegria. É desse povo leve e ligeiramente irresponsavel, de risada fácil, que saem os gays.

Nossa galera faz parte disso também. E é muito natural que no país dos homens héteros vestidos de mulheres horrendas em Fevereiro, os gays se joguem extravagantemente também.

E pára, não me permito estampar um carimbo de puta ou de alienada nem por um fato por nem outro.

É verdade que o carnaval não vai conscientizar ninguém. Mas tudo o que acontece lá é expressão desse país, dessa cultura e, também nossa.

MAS ! ! !

É APENAS uma parte de quem / do que nós somos. É meio limitado pensar que é somos feitos só disso.

Talvez seja mais comum com as mulheres, mas vou me arriscar com um exemplo. Alguém aí já ficou puto ao ouvir uma insinuação gringa maliciosa que generaliza o Brazil das mulatas?

Bom, eu já me indignei muitas vezes. E é a mesma indignação que me revolta na visão míope de quem prefere enxergar o homossexual como um estereotipo engraçado, e não como um pessoa inteira.

O preconceito está nos olhos de quem vê, caríssimo.

Por isso eu proponho viver sim o carnaval num dia e no outro quem sabe bater panelas num movimento politizado e consciente pelos nossos tão esquecidos direitos.

Permita-se! Borá? Eu topo!

Gays e lésbicas – Quem tem medo da solidão?

Por Ele

Já brinquei com Ela e disse: “no futuro vou abrir uma ‘Casa de Repouso LGBT’. Teremos centenas de idosos gays, classe média e alta, para um convívio mútuo buscando desviar da solidão!

Até meus 23 anos me sentia muito sozinho. Embora estar só e solidão tenham diferenças sutis, enquanto não assumia minha homossexualidade, a parcialidade que apresentava para meus amigos, pais e a mim mesmo, me reservava noites solitárias, atrás de meus CD’s ou filmes prediletos. Eram horas a fio numa compulsão de devorar música e cinema.

Fui notar que todo esse padrão de comportamento me dava medo – pela solidão existente – depois que terminei meu primeiro namoro gay. Voltar para aquele estado de “estar só” era aterrorizante.

Fui aprendendo a encontrar mais pessoas, a frequentar novos lugares e me propiciar uma dinâmica de vida longe dessa solidão. Casei, descasei e namorei de novo. Até bem pouco tempo atrás uma boa cota de estar com alguém era para não estar sozinho. Só que depois dos 30 anos, a mim, essa cota mudou.

Hoje, present day, já entendi bastante o que é estar só com ou sem namorado. É aquela coisa que muitos dizem por aí: “você pode se sentir só mesmo estando com alguém”. E pode mesmo! Assim como pode estar sozinho e conviver bem com a solidão.

Pra mim, a solidão é algo relacionado à alma e algo para se preparar com o passar dos anos. Não dá para achar que hormônios e cirurgias plásticas podem segurar a nossa juventude para o resto da vida. É preciso plantar e cultivar o espírito de jovialidade dentro da gente desde cedo e, creio eu, não temer o envelhecimento.

Quando tinha 20 e poucos anos achava que ter 30 era muito velho. Hoje com 35 anos imagino que com 40 será diferente e, assim, sucessivamente. Quando somos jovens projetamos a maior idade como algo “ruim”, da falta da vitalidade e das limitações. Mas será que essas projeções funcionam ou dizem respeito a uma verdade?

Vejo meu pai e minha mãe com seus 71 e 65 anos encaram essa fase com naturalidade. Está certo que ambos se bastam um ao outro. Mas será que não teremos com quem nos bastar como gays e lésbicas? De alguma maneira precisamos resolver qualquer problema de solidão. A necessidade faz a ocasião e Eu e Ela não seremos os únicos gay e lésbica respectivamente, velhos, encardidos e mal amados!

Por isso acho que esse medo de ser velho, em parte, é coisa de projeção. Projetamos enquanto jovens uma velhice solitária, como a velha viúva vizinha que não sai mais de casa e costuma deixar a casa repleta de lembranças. Ou o vovô vizinho adoentado que usa muleta e não tem mais ninguém.

De fato, todos temos medo da solidão em alguma medida. E esse medo nos acompanha mesmo antes da velhice. Conciliar maior idade, solidão e homossexualidade faz parte de nossa realidade que a gente nunca quer lembrar (ou não).

 

Por Ela

É amiguinho, solidão é um fantasma do futuro. Do meu pelo menos.

Eu, como você, também vivi momentos de solidão desde menina. Eu tinha uma sensação muito nítida de que tinha que ser resposável por mim, e desenvolvi uma auto-suficiencia e um senso de auto-proteção grandes, me protegendo e isolando dos outros.

A insegurança que eu sentia com a minha sexualidade só serviu pra potencializar ainda mais essa característica minha. Na adoslescencia me escondi num personagem criado pra não mostrar pros outros a minha timidez e inexperiencia. Então fazia de conta que os assuntos mais picantes eram muito naturais, e adotei uma postura bastante sarcástica.

Bom, escapei de fazer a boba, mas acabei me fechando em mim mesma. As pessoas tem uma dificuldade grande em se abrir e dividir coisas com uma pessoa sarcástica, rs…

Eu me acostumei tanto a esta solidão, que mesmo estando sempre cercada de amigos, me sentia inteiramente responsável pela minha felicidade, e não dividia nada íntimo ou pessoal com ninguém. Literalmente uma ilha cercada de gente por todos os lados.

Na escola estava no grupo das meninas e circulava por todos os outros grupos sem problemas. Conversava com todo mundo, influenciava alguns. Na rua era a líder da gangue, estava em todas.

Na faculdade todos me conheciam, era vista como despojada e desprendida. Tomei liderança em várias coisas, parecia uma pessoa muito segura. E gostava muito dessa imagem que eu projetava.

Em São Paulo, continuei conhecendo gente por um tempo. Depois meu gelo foi derretendo, eu acho. O personagem foi cansando, e comecei a curtir ficar só. E não se engane, porque nunca passei essa solidão entre as paredes do meu cafofo.

Saia pra fazer as minhas coisinhas, pra curtir a cidade, as festas, cinema, jantares. Me sentia tão à vontade comigo mesma, que pouco importava se havia outras pessoas ou não nos meus programas. Eu decidia o roteiro e quem quisesse que acompanhasse.

Imaginem a minha vontade de mergulhar num relacionamento nesta época e discutir concessões! Impensável. Eu tava curtindo minha solidão em grande estilo, e isso me bastava.

Até que um belo dia a princesa, que nem sabia que tinha perdido o sapatinho, tropeçou. Tem algumas coisas que marcam a nossa vida a ponto de ser um divisor de águas, meu primeiro envolvimento amoroso foi assim.

Como uma brincadeira, uma aventura pra contar pros netos, tudo começou leviano. Aí abri os olhos e lá estava eu, uma pessoa mudada e perdida. Um grande clichê mesmo. Esse relacionamento, sem nem isso ser de verdade, foi uma mudança de rumo na minha vida.

Com ele troquei sonhos de explorar o mundo lá fora, por explorar o meu mundinho aqui dentro, e também abri as portas pra outras pessoas entrarem de verdade na minha intimidade. E olha, ninguém morreu. Hoje estou aqui falando esse monte de coisas a pessoas que nem sei que rosto tem. Mas veja que falo muito sem dizer tanto 😉

Acho que sempre serei fechada e poucos vão chegar muito mais fundo. Mas me permitir envolver e deixar alguns ficarem mais íntimos  meio que me mostrou uma forma muito bacana de viver. E tudo que é bacana se quer perpetuar, não é assim.

Preservar um tempo a sós consigo mesmo é muito saudável. Mas a possibilidade de estar só o tempo todo me arrepia. Compartilho com Ele que quando encaramos de maneira natural, as coisas doem bem menos ou quase nada. Mas haja mind-set pra desenvolver essa relação com uma possível solidão, viu!

É bem capaz de aceitar a sua proposta do lar de velhas bixas e sapatões usadas só pra ter gente por perto 🙂

 

Bate papo entre uma lésbica e um gay – Dias que passam lentos

Por Ela

Por vezes a tensão ocupa os espaços vazios entre as meninas. Às vezes é difícil dizer como ou porque a coisa começa a ser tensa, as coisas se misturaram tanto que fica difícil dizer onde termina um bico e onde começa o outro. Esses momentos batem, desaparecem, re-surgem como uma fênix das cinzas, se diluem num sorriso de abraço apertado, numa troca de confidências. O relacionamento vai ficando mais gostoso quanto mais intimidade se alcança, os ponteiros vão se acertando e os problemas vão tomando uma dimensão mais real.

Mas de um jeito ou de outro todo relacionamento é por vezes tenso, todo relacionamento meu é por vezes tenso, ou comigo tudo é por vezes tenso. Ando com a impressão de que não sou uma pessoa fácil, rs. Eu requeiro manutenção da braba!

Vou encerrar por aqui a sessão terapia, concluindo que todo mundo tem as suas dificuldades com relacionamentos e encontrar duas pessoas 100% compatíveis é um lindo sonho.

A realidade é que manter um relacionamento saudável e equilibrado exige um bocado das vidas em questão, além de uma boa dose de compreensão e paciência.

Tenho certeza hoje que a verdade de novela que o amor é tudo que se precisa numa relação é uma boa balela. Na vera, esse trem de estar junto te exige muito mais. Claro começa com um bem-querer muito grande, que aos poucos ou de enxurrada se transforma em um lindo campo florido chamado amor, mas depois disso, caríssimos, é trabalho pesado.

E não estou falando só da interação com a outra pessoa, mas também do equilíbrio entre as demandas pessoais e do namoro. Isso pode ser uma formidável fonte de problemas e de frustrações.

A mim sei que falta um tanto pra balancear direito as demandas do namoro com as minhas demandas pessoais.

Quero meu tempo, mas eu mesma não respeito isso. Como é tão bom estar junto, troco as minhas coisas e o meu tempo por essa companhia. Aos poucos abandono minhas ditas prioridades e isso silenciosamente me custa.

A namorada faz o mesmo, e sem perceber jogamos no namoro um peso por essas coisas pessoais, o que nos custa alguns mal entendidos.

Em raros momentos onde me permito olhar as coisas com imparcialidade, me dou conta claramente do confuso que é conciliar sonhos e rotinas que as duas mulheres crescidas tem.

Duas mulheres crescidas com vidas independentes tem mais problemas é claro do que quando uma vive a vida da outra, ou quando, em simbiose, ambas vivem uma vida hermeticamente fechada do resto do mundo.

Eu não vou desistir da relação de equilíbrio entre duas crescidas. Afinal as outras formas são fantasias de alegria e facilmente escondem ainda mais frustrações e problemas. Além do mais, garotas e garotos, as crescidas são infinitamente mais interessantes.

Meu barato vai ser treinar pra quem sabe um dia saber cuidar bem do meu amor sem me deixar de lado. E no meu sonho, ela fará o mesmo. Puro equilíbrio e sabedoria no mundo fantástico d’Ela.

Por Ele

O que admiro NElas, no geral, e nesse caso na representatividade d’Ela, é como os valores de persistência, paciência e perseverança se aplicam bem quando o assunto é relacionamento.

O homem gay, preconceituosamente, resume essas questões de perseverança para a relação como D.R. Mas discutir a relação as vezes faz parte, não é verdade? Discutir a relação é ajustar ponteiros, não ser omisso à própria relação e – inclusive – é sinal de que o relacionamento tem uma importância.

Acontece que o gay vende uma imagem do “desapegado”, do livre e daquele que não precisa de um companheiro. Lança muito da necessidade de companhia nas amizades gays e, inclusive, vira e mexe mistura amizade franca com paixão enrustida. Mas porque é isso: homem gay precisa seguir nessa linha livre e desapegada e, por outro lado, acaba ficando e até transando com amigos quando bate “aquela carência”.

Para mim, são questões de conceitos. Amizade é um pilar, paquera é outro e namorado é um terceiro. Isso é questão de conduta, e até de respeito ao outro e respeito a si.

Gays são bons, no geral, para depositar valores de persistência e perseverança no trabalho mas pecam bastante quando a ideia é o companheirismo.

De certa maneira, invejo Ela pela predisposição e abertura para viver relacionamentos. Sejam as discussões de relação ou as flores, sejam os altos e baixos, isso é se relacionar.

 

 

Casa nova, cachola limpa

Por Ela

É incrível nosso super cérebro. Como nos colocamos em armadilhas, a tamanha capacidade que temos de sair delas e quão pouco usamos nossas armas. Um psiquiatra uma vez me explicou o fantástico mecanismo do vicio no seu cérebro. No fim, tudo é química, mas olha só que bárbaro:

O viciado em cigarro ou cocaína, depois de muito sufoco consegue parar de usar. Ê, viva! Luta arduamente no começo, onde os alertas estão ativos, e após um tempo consegue ficar tranquilo de novo.

Passam-se anos e bang! Pinta uma maldita situação que ele antes “resolveria” no vicio, e o cérebro se põe prontamente a criar uma situação em que o indivíduo se exponha novamente à tentação.

Por exemplo, o cara que nunca compra revistas sente uma vontade incrível de passar na banca na esquina. Ele não se lembra, ou não traz para a consciência, mas a tal banca é o lugar mais próximo onde se vende cigarro. No caso da cocaína, pode lhe ocorrer ajudar aquela mulher pobrezinha e cheia de filhos, que mora bem na favela onde antes ia buscar a merda. Ops, a droga, rs

Porque conscientemente um viciado se colocaria numa situação de exposição à droga, se não pra reproduzir a sensação do vicio e finalmente sucumbir à ela?

Seu cérebro faz isso por você, obrigada.

As referências que fazemos das coisas nem sempre são óbvias, diretas ou claras, e pode ser um pesadelo destrinchar essa malha. A relação de amor ou busca de amor que se estabeleceu com seus pais pode ser uma chave pra muita coisa, mas é preciso se conhecer profundamente pra entender porque algumas situações te pegam tão forte.

Porque sempre caímos na mesma armadilha com nossos amores, porque ficamos presas a situações ruins que não parecem tão difíceis de resolver. Enfim… Com isso chegamos à casa.

O que diria Freud a respeito de uma mudança física? Um corte novo de cabelo, um corte no pulso, uma mudança voluntária de casa são todas manifestações em maior ou menor grau da nossa vontade de mudança na vida. Mas você às vezes cozinha isso por muito tempo até tomar coragem pra agir. Lá vem o cérebro de novo brincando com nossa consciência…

Me dei conta que era feita disso a minha recente mudança de casa conversando com uma amiga sobre a metáfora da casa para a psicologia: a casa representa você, e a forma como as coisas vão lá dentro é como estão organizadas nossas emoções. Mais ou menos, acho que é essa a idéia…

Eu que nunca morei mais que 2 anos no mesmo lugar antes, fiquei mais de 7 nessa casa e emendei dois relacionamentos longos neste cenário. Coisa também inédita até então. Estive tão presa ao último deles depois do fim, que por meses eu não podia ficar sozinha em casa sem ficar extremamente triste. No início sabia do que se tratava a tristeza, mas me acostumei à ela e depois de um tempo e parei de perceber que ali tinha mais lembranças do que eu podia suportar.

Um belo dia, sem nenhuma razão aparente ou pressão externa decidi me mudar. Eu não me dei conta, mas já estava disposta a colocar definitivamente pra traz todos os resquícios que dessa relação. De um dia pro outro provoquei a pressão que precisava pra isso acontecer e sai pelo mundo procurando endereço. Tudo fez o mais perfeito sentido lógico, devo dizer. Mas nada disso foi realmente necessário do ponto de vista prático.

E a busca em si também foi algo surreal, porque eu queria querer uma certa forma de viver, e isso tinha que funcionar com a casa nova. Mas eu nem sei bem o que eu procurava, foi realmente estranho. Não teve nenhuma lógica nos lugares que eu olhei, nem nos que eu rejeitei. Desisti de lugares excelentes, acreditei em opções impossíveis, me comprometi e depois desisti (coisa que não gosto de fazer) e, por fim, encontrei minha casa como uma combinação improvável. Ainda dias depois me pergunto se esse lugar tem ou não a ver comigo.

Minha leitura dessa coisa toda foi que eu precisava me desprender urgentemente de uma carga de histórias difíceis, porque os fantasmas ainda me assombravam silenciosamente. Por isso a pressa. Uma vez na casa nova e passado o deslumbre dos primeiros dias, a vida vai começando a se assentar. Como uma massa disforme vou me ajustando ao novo espaço, tomando sua forma. Fazendo turismo nas redondezas vou me desprendendo da minha pequena rotina anterior e descobrindo realmente a vida que há após o amor. Y sí, la hay!

E no fim era isso: meu cérebro trabalhando sorrateiramente pra me arremessar no futuro; e a casa improvável que ele escolheu combinando perfeitamente com que quero fazer da minha vida. Até o desconforto que ela traz combina com o medo que tenho dessa tal vida não ser bem o que vai me trazer alegria.

Como o barco segue daqui pra frente, eu não sei. Tenho dito demais que “tenho medo”, então vou ficar quietinha assistindo o futuro acontecer. Que seja iniciada uma nova etapa, um brinde ao futuro!

Por Ele

Há mim foi também sete anos sob o mesmo telhado e no oitavo, quando poderia continuar, resolvi dar uma virada, provocar uma mudança e me permitir ter um novo abrigo. Tudo novo, com a minha cara, com meu jeito, com os excessos ou minimalismos que meu “novo ego” transbordasse.

A nova casa, minha, é representativa e ao mesmo tempo simbólica. De 2010 para cá muita coisa mudou no meu jeito de pensar. A crise dos 30 veio com 33 e depois disso adulteci. Me despedi de um adolescente cheio de curiosidades e fantasias, cheio de dúvidas sobre a vida gay e passei a estabelecer meus conceitos. Outrora, os valores e os conceitos transitavam pelas referências que o mundo afora me apresentava: queria um pouco de tudo, um pouco de cada lugar, queria um namorado, queria a vida solteira, queria o sexo, a putaria e queria ser o “dono da balada”: “uma Absolut, copo baixo e dois gelos, por favor”.

O Absolut no copo baixo com dois gelos ainda é presente em algumas poucas circunstâncias e quem na maioria das vezes prepara agora sou eu mesmo. Mas algumas pessoas, alguns prazeres e alguns hábitos ficaram para trás. A bem da verdade é que uma parte de mim deixou de fazer sentido para a entrada de um novo eu que exerce função faz dois anos. Tudo novo.

As pessoas que ficaram para trás ainda existem. Porém o olhar que tenho por elas é definitivamente renovado. Referências a mim, que as vezes soavam como idolatria não me apetecem mais. O centro agora está mais em mim, fluxo até lógico quando em 2009 – época que me despedia de antigos modelos e últimas experiências carnais – me tinha como fora do eixo.

A casa nova veio para emanar meu eu novo e está assim há dois anos.

Nesse fluxo, as relações com minha equipe de trabalho também sofreu uma revisão. Não seria diferente com o modelo de namoro que tinha antes e que tenho agora. É realmente impressionante como meu “ego” se calou, como a minha necessidade de auto-afirmação não atinge nem influencia tanto o meio e passa a conversar diretamente comigo mesmo.

Adutelcer puxou no pacote minha equipe. Nos últimos dois anos saiu quem não aguentoua nova onda, entrou dois e os que ficaram viraram sócios, numa toada de lançar mais responsabilidade em todo mundo. O namoro que poderia ter acabado pelas minhas necessidades frenéticas de começar uma nova bagunça, assume novas circunstâncias, fragilidades, exposições e intimidades, revendo o valor de batalhar juntos por algo maior.

Realmente não sei se tudo isso é certo ou bom, mesmo porque não estou discutindo aqui ética ou moral. Sei apenas que isso é necessário, é de dentro pra fora e tem muito de movimento.

Num dos posts no Blog Minha Vida Gay, um heterossexual leitor reforçou em seus comentários algumas vezes que eu passo uma mensagem do “vencer”. Talvez seja isso porque a mim, vencer, só faz sentido se tiver conexão com transformar ou mudar.

A casa, o coração, a alma e a cabeça renovaram. Parece hoje que cada novo problema tem mais rapidamente uma resposta. Ou melhor, cada problema não é mais encarado com aflição, desespero ou necessidade de uma solução imediata para expelir o desconforto. Acho que aceito mais o desconforto, entendo sua representatividade e sua transitoriedade sem sofrer, sem reprimir ou sem querer tapar com a peneira.

 

Pais lésbicas, mães gays e filhos!

Por Ela

Estou chegando aos 40 e pensando cada vez mais na possibilidade de ter filhos. Ser mãe e ter uma família nunca foi meu sonho como era para as outras meninas. Me lembro que aos 12 eu queria mais era ser independente, ganhar meu dinheiro e conhecer o mundo. A imagem de família na minha cabecinha daquela época remetia a uma mãe acanhada, sem pretensões além dos limites do lar e dependente do marido, o que me arrepiava de medo. Então, em lugar de fantasiar com a ideia de filhos eu a repudiava com todas as minhas forças.

Aí eu fui à vida como tinha de ser, segui e realizaei meus sonhos. E agora me pego refletindo sobre esse assunto. Será o tal relógio biológico começando a despertar? Será que a tal pressão social tem seu efeito afinal? Não sei, mas o assunto está aí e pensando nele as dúvidas e medos se multiplicam: me sentir capaz de ser mãe, o método para concepção, o modelo de família, o tipo de educação, o lugar onde morar e onde colocá-los pra estudar…

Dentre todas, o modelo de família é umas das minhas piores dúvidas. Os hormônios, a intensidade, a entrega… Tudo isso torna o relacionamento entre duas mulheres bastante difícil. E o que mais se vê é as meninas se separando e casando de novo com uma grande velocidade. Não sei se isso se repete com os gays ou com os héteros, mas as relações lésbicas parecem ter sempre um prazo de validade de alguns poucos anos. Chegada a hora da separação o convívio já se torna insuportável. Logo logo se estabelece um novo amor que, é claro, é incrivelmente libertador e parece perfeito de novo.

Mas as coisas ficam muito mais complicadas quando além do próprio relacionamento e das relações sociais há ainda a responsabilidade de uma criação nesse balaio. Me sinto sem coragem para encarar esse embrólio…

Além disso eu acho importante uma criança ter uma referência masculina, de preferência do próprio o pai biológico presente e participante ativo na educação. Sendo sapatão, é óbvio que não me casaria com um homem.

Então… Helloow!! Casal de lésbica + um homem dando pitacos = 3ª guerra mundial!!!

O que é ser uma lésbica com filhos? COMO é ser uma lésbica com filhos? O que acontece com os filhos de casais lésbicos que se separam? Como uma criança vê suas mães lésbicas? Será que esta situação gera problemas na vida da criança? Como os filhos de lésbicas se relacionam na escola e na vida?

Se ou como vou encarar esse desafio ainda não é um ponto decidido. Grandes decisões, grandes medos, grandes passos. Mas gosto de imaginar a sensação incrível que seria ensinar alguém a andar por aí.

___

Por Ele:

Quando mais jovem e já assumido, com 23 ou 24 anos pensava na ideia de filhos. Algo meio pueril ainda, de sonho, de achar bonito e não ter a dimensão da parte trabalhosa e responsável de ter um filho, dois ou três!
O tempo foi passando e estabeleci algumas referências de relacionamentos afetivos com outros homens, em formato de namoro e até um casamento que perdurou por três anos e, sempre mais jovens que eu, percebi também um tom paternal na maneira de ser com meus ex. Livre de julgamentos, creio que alguns (ou muitos) gays estabelecem esse tipo de “paternidade” em seus namoros. Talvez, por esse motivo, por essa experiência vivida de “adotar parcialmente” algumas pessoas em fases diferentes da minha vida, a ideia de paternidade não bate mais dentro de mim como antes, aquela coisa utópica e bonita de cuidar da cria.
Educar, conviver, dá trabalho!
Como dono de empresa e lidando diariamente com pessoas mais jovens que eu, esse tipo de relação de ser referenciado também me abastece de alguma forma.
Essa questão de ser pai e gay vira assunto nas rodinhas pelo menos uma vez por ano. Pelo menos nas rodinhas que frequento! Não tenho a preocupação de ser um pai gay para a sociedade, ou melhor, d’eu formar um casal gay com um filho perante os grupos e esse formato gerar questões. Questões já temos tantas e essa seria apenas mais uma.
“E se o seu filho se influenciar por você ou por seu marido e ‘virar’ gay”?
Bem, nada mais NATURAL aceitá-lo como tal, oras bolas! Entrar nessas questões de influências só me mostraria um despreparo para ser um pai. Pais criam ao filho com fortes referências sobre inúmeras coisas. Ser gay ou não seria apenas mais uma.
O aspecto desafiador em si, ser pai e bancar essa realidade para o mundo torna-se até mais atraente para mim. Fora que na minha real concepção, se for necessário a figura feminina, existem maneiras diferentes de transmitir essa identidade para uma criança. Mesmo porque, nos tempos atuais, muitos filhos acabam sendo mais do pai ou mais da mãe: separação é algo bastante corriqueiro e é inevitável apenas um ser a referência mais positiva e predominante.
De fato, o que existe são referências de valores e comportamentos positivos e negativos. O que não existe é sexualidade negativa.
Assim, as crianças entendem conceitos de família de maneiras diversas hoje: “papai, mamãe e filho”, “papai e filho”, “mamãe e filho” e porque não “papais e filho” ou “mamães e filho”?
A grande questão da paternidade para mim – fruto principalmente da minha personalidade e da maneira como concebo a transmissão de educação, valores e base – é que é pré-requisito que eu seja um pai bastante presente.
Não penso em ter um filho para ser educado pela babá.
Em outras palavras, tenho 35 anos e existem ainda alguns objetivos individuais profissionais e pessoas que não possibilitariam essa educação presencial, da criação presencial.
Minha mãe deu um tempo de oito anos para transmitir valores e educação para mim e para meu irmão e posso dizer que, a medida resolvida que sou hoje é fruto autêntico dessa doação de minha mãe para comigo e para com meu irmão nos primeiros anos das nossas vidas. Meu pai não foi tão presente e fez falta. Falta que buscamos preencher hoje, antes tarde do que nunca!
Assim, como foi transmitido a mim o sentido de ter filhos, quando eu tiver condições de doar a maior parte do meu tempo para um rebento, quem sabe a ideia não se realize? Papai mamãe, sim serei! =P

“S” de sapatão

Por Ela

Onde a abrina se distancia da imone, os ésses dão o tom

Ésses, ésse, ésses, plural
Nota? Sol
Dois sóis
Plural, múltiplo

E será que você me lê?
Te leio eu e me vejo em ti
Te leio eu e te vejo em mim

Ésses…

Ésse! Que, do avesso, segue sendo ésse ainda sendo 2

Ésse com ésse de coração
de saudadess, começo e fim

…de Simone e Sabrina se olhando de perto

SempreS

Por Ele

Conheci a amiga Sabrina por um amigo em comum. Naquela época, talvez há 10 anos atrás, as coisas da minha sexualidade não estavam tão claras como hoje e o S de Sapatão de Sabrina ainda não ecoava aos meus ouvidos como uma unanimidade.

Naquele tempo, nosso querido amigo transitava entre Eu e Ela muito provavelmente eleitos como os amigos de maior intimidade. Embora não soubesse que ela era S e talvez nem Sabrina entendesse direito o que se passava por dentro, por fora simpatizava pela rápida troca de intelectualidade e nada mais.

Três ou quatro anos depois, S de Sabrina já se definia. Nos encontrávamos em minha antiga casa e entrávamos numa onda-nerd-intelecto-deliciosa sobre a existência da aura da arte. Coisa refinada. Meu ex-marido, diante tantas pessoas e possibilidades de ciúmes, por algum motivo não tinha o mesmo sentimento pelo meu amigo que, naquele dia trazia Ela ao aconchego do meu lar para despejarmos intelectualidades.

Mais um tempo passou e Sabrina se fazia Ela plenamente. Carteados, viagem ao interior, teatro com final numa cantina do Bexiga e passava a reconher Ela, decidida e absoluta!

Tivemos três encontros marcantes e, no quarto, SabrinEla já era minha amiga. Não precisávamos mais da ponte de nosso querido-amigo-em-comum para nossos encontros e nossas trocas intelecto-contagiosas! Ponte que costuma existir em épocas juvenis, no momento que se tem ciúmes e crises quando amigos de amigos passam a ser amigos sem algum tipo de consentimento.

Daí a coisa grudou em 2012 de ver a virada de ano juntos, um tipo de grude não pegajoso mas intelecto-galático, e de orgasmos mentais de assuntos e afinidades sobre a vida, o ser, o estar e a sala de jantar. Duas comadres, sim! 😛

Recentemente, pero no mucho, tive apenas um contato com a imone com S, S forte, firme e existente! No mais sei que Sabrina e Simone vivem por aí as coisas que de A a Z vivem vez ou outra. Coisa de pessoas quando se gostam, se entendem e desentendem, se grudam, se soltam, se ateiam e se sapecam vivem com o surgimento do S de paixão! Prova de que apaixonite-aguda ou confusite-gostosa vem para quem tem 15 ou 40!

Espero que as duas estejam sassaricando em meio a sabrinelas e simonices porque a vida é assim: se olhando de longe e de perto!

Futebol alegria do povo

Por Ela e Ele

Ela: Vai dormir ao embalo dos rojões. Madrugada passa sonolenta entre os gritos na rua. Pela manhã, ruidosos comentários apaixonados em todos os meios de comunicação. A cada semana uma cor diferente no mesmo absurdo da alienação.

Ele: Preguiça enorme do alvoroço que o futebol causa nas ruas, nas pessoas. Mas confesso que assisti a final da Libertadores esse ano num desejo profundo do Corinthians perder. Meu time brasileiro: Anti-Conrinthiano, exemplo em largas quantidades da alienação.

Ela: Hoje me espantei de novo com a cultura promovida pelo consumismo da máquina do futebol. Já fazia um bom tempo, desde a faculdade, que não via com tristeza o circo na contemporaneidade.

Ele: Morar perto do estádio do Morumbi tem dessas coisas: pelo menos uma vez por mês as luzes clareiam o céu e aqueles ruídos e fogos invadem meu território. Bom mesmo foi ouvir a plateia em coro em “Hey Jude” no show do Paul McCartney.

Ela: Minha família sempre esteve às voltas com a prática dos esportes, mas não tenho notícias de exaltação por um clube de futebol. Nas copas do mundo, tudo era sim magia. Mas os campeonatos passavam despercebidos. Talvez por isso só na faculdade de engenharia que fiz, pude ver com espanto o envolvimento das pessoas por seus times.

Ele: Copa do Mundo. Isso sim vale a pena. Provavelmente porque, para mim, existe um sentido de patriotismo. Da minha nação verde amarela conseguindo se equiparar com o globo em alguma coisa. Alguma coisa, como esse verde amarelo. Como a Bossa Nova.

Ela: Nunca pude compreender bem o porquê de tanta dedicação. Os homens enlouquecidos discutindo infindavelmente sobre lances, momentos, prêmios, nomes, datas. Era incrível o volume de informação que conseguiam absorver sobre futebol, e o pouco que conseguiam guardar sobre coisas que realmente importam como seus sentimentos, suas famílias, namoradas, faculdade, etc.

Ele: Homens enlouquecem por futebol porque, se não for no sexo, é o único momento que podem expressar de maneira despreconceituosa suas emoções. Ainda bem que aprendi a não ser esse tipo de homem!

Ela: Que estranha conexão tinham aquelas seres com times às vezes de outras cidades? Vocês jogaram no clube? Faziam parte da comunidade? Frequentavam ao menos as festas do clube?

Ele: Durante uma partida, a sociedade ou melhor, os homens, permitem-se abraçar, se beijar e chorar juntos. Permitem-se se exaltar, “perder o controle” e deixam aflorar as emoções potencializadas.

Ela: O que diabos os unia tão fortemente a um time qualquer? Raras vezes aparecia alguma conexão razoável, na maior parte das vezes a máquina do consumo era quem determinava a afeição. O garoto escolhia seu time definitivo entre os seus 7 ou 8 anos. Não se pode dizer que a família não interferia, mas a escolha definitiva parecia muito mais pautada pelos resultados dos campeonatos vigentes, e não raro alterava a escolha prévia do pai.

A partir daí, o garoto era da cabeça aos pés da cor do seu “time do coração”, armazenando informações, colecionando memórias, camisetas, brindes. Vai crescendo e se declarando amante e dependente dessa “paixão”. “Paixão nacional”…

Ele: Desde muito jovem os meninos, gays ou heterossexuais, aprendem essa coisa de que, quando o assunto é futebol, é permitido que o homem transborde as coisas do coração. Graças aos céus não tive um pai bitolado no tema. Fui até que bem livre para poder descobrir onde despejar minhas “coceirinhas”. Mas no geral, o menino aprende a canalizar suas vibrações lá, no futebol. E depois, no sexo.

Ela: “Paixão nacional”… Ora bolas, o que é mesmo uma paixão nacional alimentada pela mídia mais poderosa do país desde sempre se não um amor falso, fabricado? É sim muito divertido reunir os amigos para assistir um jogo, mas o que motiva as pessoas à violência ou a esfuziantes comemorações dignas de campeonato mundial ao longo de toda a madrugada num dia de semana?

Ele: Até acredito no amor verdadeiro. Na realidade, diria paixão, daquela coisa que explode e que pode livremente na hora do futebol.

Ela: Eu devo ter perdido o capítulo da nossa história em que nos transformamos em um país de ricos empreendedores que não precisam se dar ao luxo de acordar cedo para trabalhar.

E vem cá, alguém ainda acha que alguma partida profissional se define num campo de futebol? Honestamente, meu povo, com tanta grana envolvida, o abismo entre os clubes, os figurões, etc.

E o que define o tamanho de um clube? O volume de telespectadores e consumidores das suas cores é um bom começo para esta estimativa. Algum palpite do porque Corinthians e Flamengo passam incessantemente em São Paulo e no Rio respectivamente na hora do almoço em vários jornais disponíveis?

Todos os santos dias. Os mesmos assuntos banais e irrelevantes, tais como o tamanho da barriga do Ronaldo, parecem hipnotizar os torcedores que assistem com a atenção de notícia nova, embevecidos de curiosidade.

Imperadores Romanos assistiriam essa cena com deleite de quem deixou um legado fortíssimo que perdura e se fortalece ao longo dos séculos: Circus.

Desculpem-me os fanáticos, mas me parece tola alguma dedicação a uma máquina fabricada e mantida para a descarada acumulação de riqueza.

Ele: O Sócrates mesmo disse no “De Frente com Gabi” que esse nosso futebol de hoje se perdeu dentro da máquina. A ideia da arena, assim como o MMA, sempre existiu. A diferença hoje é que existem patrocinadores investindo milhões de dólares e influenciando diretamente os pés, as pernas e as cabeças dos jogadores. Interesses econômicos, sem dúvidas, mestre Yoda!

Ela: Além disso, o que pauta a emoção com algo tão impessoal como o jogo de outros. Imagino que Freud deva ser mais eficaz em explicar isso. Como é possível os mesmos seres se emocionarem tão facilmente numa partida de futebol, e serem incapazes de entrar em contato com seus sentimentos em tantas outras ocasiões?

Ele: Porque macho que é macho não sai por aí compartilhando sentimentalidades. Macho que é macho sente na cama e na hora do futebol, solamente.

Ela: É impressionante ver esses caras se rasgando, sofrendo, chorando, se abraçando, rindo juntos, declarando seu amor a uma paixão fabricada. E na vida, fechados como ostras com medinho de seus próprios sentimentos no relacionamento com suas mulheres e famílias. Comentando duríssimos no trabalho sobre como é difícil se relacionar com suas mulheres que querem conversar sobre as coisas. Dai-me forças!

Até aqui, os homens. Mas se notarmos bem, cada vez mais as mulheres têm se colocado nesse lugar de torcedoras fanáticas. Vestem suas camisas coloridas, vão aos bares, às ruas, bradam seu amor, levantam a voz, conhecem os títulos, os lances e são capazes de emocionadas discussões sobre seus times de preferência.

Ele: Acho essa situação até positiva. Assim, indiretamente, o homem de hoje percebe que pode chorar na cozinha cortando cebola. Explico: minha teoria continua e diz que o homem é ligado em sexo não somente pelas questões da natureza primal, mas porque a sociedade que conhecemos, desde os tempos mais remotos da machadinha, colocam os homens como indivíduos que não podem perder tempo com sentimentalidades e devem ter foco no sexo para perpetuar a existência da comunidade. Homo Sapiens homens nasceram fisicamente mais fortes e, força, naquelas épocas áureas do desolamento, estava diretamente ligada com a existência das pequenas comunidades. Pequenos grupos que percebiam que funcionavam melhor em comunidades para a sobrevida de cada um. Homo Sapiens mulheres precisavam parir filhos para garantir mais lastro ao próprio grupo. Comunidade maior = mais chances de sobreviver. Comunidade maior = mais chances de evitar a dor da morte, a dor da perda. Morte = um bicho terrível, doloroso, inexplicável e assustador até hoje para a maioria.

Só que ser humano que foi e é o homem, precisa ter válvulas de escape para o dia atribulado, para liberar as tensões. Desde os tempos remotos descobriu-se que no sexo funciona essa válvula e descobriu-se também que duelando machadinhas – como no futebol – ajuda.

Esse modelinho primitivo, do homem que é naturalmente mais forte, brigar pela comunidade e fazer filho, e da mulher, de parir filhos e alimentar os futuros guerreiros, são bases primordiais até hoje. Deslocamos um pouco o peso da força física para a força moral, mas me soa ainda um tanto semelhante.

O fato das mulheres invadirem os territórios sagrados do homem-sapiens impulsiona a uma releitura desses valores primais, conscientemente ou sem consciência nenhuma. Assim, homem cansado desse modelo pode chorar cortando cebola! (Estou erguendo o braço nesse momento).

Ela: Então o futebol fanático não é mais coisa de menino. Somos finalmente uma nação inteira embriagada pelo futebol? Gays, lésbicas e héteros, almoçamos e dormimos times fabricados e falsas conquistas?

Ele: Panis et circenses ontem, hoje e amanhã. Messias e rebanhos. Dominantes e dominados. Eis o nível evolutivo do planeta Terra. Aí é questão de fé: numa próxima encarnação quero jogar outro tipo de partida!